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Mais um para o clube dos palpiteiros metafísicos

Iniciado por wellington_2 em 04/09/2010 · 7 mensagens

wellington_2#1
Voltando à causa primeira

Olavo de Carvalho
Folha de S.Paulo, 25 de dezembro de 2004

Por irritante que seja para seus velhos correligionários evolucionistas e ateus, a "conversão" do filósofo Anthony Flew ao deus de Aristóteles (conversão entre aspas, porque esse deus é um conceito metafísico, e não um objeto de culto) só mostra duas coisas. A primeira é o hábito consagrado, quase um direito adquirido entre os materialistas modernos, de opinar em questões de metafísica sem o necessário conhecimento da filosofia clássica e medieval. Basta um deles fazer uma tentativa séria de estudar o assunto, e suas convicções começam a ceder terreno. Nem o velho determinismo de Darwin nem a mais recente moda do acaso onipotente são compatíveis com uma inteligência filosoficamente madura. São poses adolescentes, incapazes de resistir a um exame crítico.

A segunda coisa que o episódio evidencia é a absoluta impossibilidade de colocar o problema da causa primeira em termos de "ciência versus fé", chavão imbecil baseado no desconhecimento radical de toda a tradição filosófica. A fé não tem nada a ver com a questão, e os materialistas só a inserem no debate para encenar no teatro infantil da incultura contemporânea uma luta de fantoches entre o heroizinho iluminista e o dragão do obscurantismo ancestral. Anthony Flew não se converteu. Apenas consentiu em descer de um pedestal de presunçosa ignorância coletiva e confrontar a idolatria do acaso com dois milênios de discussão filosófica. Fez o que Richard Dawkins não tem nem a honestidade nem a capacidade de fazer. O resultado ainda é pobre -Flew apenas reconheceu a necessidade genérica de uma causa primeira-, mas já está infinitamente acima daquela patética metafísica de "nerd" que tantos admiram em Dawkins.
wellington_2#2
Toda tentativa de provar que a vida se formou por acaso, tão logo certos fatores se combinaram nas proporções adequadas para produzi-la, sem que nenhuma causa inteligente os impelisse a tanto, está condenada na base. Quanto mais a afirmam, mais proclamam, sem o perceber ou sem admitir que o percebem, que o composto só adquiriu força geradora de vida graças, justamente, às proporções, à razão matemática entre seus elementos; e que essa proporção, se teve o dom de produzir esse efeito no instante em que os elementos se encontraram -mesmo admitindo-se que se encontraram fortuitamente-, já o possuía desde muito antes desse instante, já o possuía desde toda a eternidade. E basta saber o que significa razão ou proporção -"ratio", "proportio", "eidos", "logos"- para entender que nenhuma proporção pode valer sozinha e isoladamente, fora da ordem matemática integral entre todos os elementos possíveis.

Se determinada combinação de elementos pôde gerar determinado efeito, é porque o sistema inteiro das relações e proporções matemáticas que moldavam e determinavam essa possibilidade preexistia eternamente à sua manifestação. No princípio era o "logos", e não há nada que o apelo ao acaso possa fazer contra isso.
wellington_2#3
O mesmo se aplica à origem do cosmos na sua totalidade, muito antes do surgimento da "vida". O mais ínfimo fenômeno de escala subatômica já aparece como realização de uma proporção matemática que o antecede na ordem do tempo e o transcende na ordem ontológica. A Bíblia expõe isso da maneira mais simples, ao dizer que o espírito de Deus pairava sobre as águas. A ordem das possibilidades definidas, ou forma interna da onipotência, prevalece sobre a desordem das possibilidades indefinidas, as quais só podem se manifestar, precisamente, ao sair do indefinido para o definido, ou, em linguagem bíblica, das trevas para a luz. A estrutura interna do primeiro acontecimento cósmico, qualquer que seja ele, é sempre a manifestação de uma forma ou proporção que, como tal, é supratemporal e independente de qualquer acontecimento.

Se a causa eficiente que acionou essa passagem e determinou o início do processo cósmico operou, por sua vez, fortuitamente ou segundo a ordem, é questão que já está respondida na sua própria formulação, de vez que a noção mesma de uma conexão de causa e efeito só pode ser concebida como forma lógica definida, portanto como expressão da ordem. Mesmo se quisermos imaginar essa causa como puramente fortuita, a forma interna do nexo causal "in genere" tem de lhe haver preexistido desde sempre, e não pode ser concebida como fortuita, já que é precisamente o contrário disso.

Para alegar que não foi assim, seria preciso demonstrar que todas as formas e proporções são caóticas e indiferentes, isto é, que a ordem lógico-matemática não existe de maneira nenhuma, nem no cosmos manifestado, nem como mera estrutura da possibilidade em geral. Porém, depois disso, seria grotesco apelar a instrumentos lógico-matemáticos para provar o que quer que fosse. Para provar até mesmo o império do acaso.

Tudo isso é arquievidente, e negá-lo é eliminar qualquer possibilidade de conhecimento científico, mesmo puramente instrumental e convencional.
wellington_2#4
Pior que o sujeito é um fisico respeitado.
Eu não sei como pessoas que são cientistas agem tão irresponsavelmente em questões como essa.
A primeira coisa que voce tem que fazer quando faz um projeto cientifico é consultar a literatura sobre o que foi dito e pesquisado anteriormente sobre o tema que voce quer discutir.
Esse pesoal do clube dos palpiteiros ignora completamente a literatura e começa a dar palpites sobre coisas que o sujeito não estudou.
E infelizmente não existe ninguém na mídia com capacidade para discutir e mostrar que o sujeito está completamente errado.
priscila#5
O Penrose SEMPRE FOI muito mais inteligente que Hawking. MUITO melhor.

Uma dessas coisas que acontecem - e, na verdade, eu tenho certeza de que Penrose não fez NADA contra isto: contra o fato de que o melhor era ele.

Não "se defendeu" disto. Nem podia, concordo plenamente.

Mas ele é MUITO melhor, repito.
priscila#6
😄 - Como desenhista, e como defensora do romantismo como ítem da sublimidade amorosa da consciência, não RESISTO a dizer que a rosa - como símbolo de um MODELO de pensamento - vence o falcão, dentro do mesmo modelo.
tiago_5#7
“Because there is a law such as gravity, the universe can and will create itself from nothing” [Porque existe uma lei como a gravidade, o universo pode e irá criar-se a si mesmo do nada] in excerto do livro The Grand Design

Só um segundo, Prof. Hawking, e aqui eu vou parecer um grande idiota, mas vou fazer uma pergunta:

Como que a gravidade pode existir quando não existe nada?

Ou eu não entendi nada de minhas aulas de Física, ou mentes brilhantes também cometem asneiras como esta.

http://pos-darwinista.blogspot.com/2010/09/hawking-f…m-grand.html

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