Em Gênesis (2,9)está escrito: "E o Senhor Deus fez brotar da terra toda árvore agradável à vista e boa para comida, e a árvore da vida no meio do jardim, e a árvore da ciência do bem e do mal".
Mais adiante ele diz (2,17): "Mas da árvore da ciência do bem e do mal, dela não comerás, porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás". Em Gênesis ainda (3,22) "Então disse o Senhor Deus: Eis que o homem é como um de nós, sabendo o bem e o mal; ora, pois, para que não estenda a sua mão, e tome também da árvore da vida, e coma, e viva eternamente".
Já em Apocalipse (22,2):"No meio da sua praça e de uma e da outra banda do rio, estava a árvore da vida, que produz doze frutos, dando seu fruto de mês em mês, e as folhas da árvore são para a saúde das nações"
Com base nesses trechos pode-se concluir que existiam duas árvores especiais no Jardim do Éden, a da vida e da ciência do bem e do mal. Pelo Apocalipse, pode-se concluir que a árvore da vida seria uma representação da mulher, portanto, o pecado original de Adão e Eva não pode ter sido o ato sexual, porque Adão comeu o fruto da árvore da ciência do bem e do mal. Alguém poderia me ajudar a decifrar estas simbologias das duas árvores? e porque Deus diz que agora o homem é como um de nós? Nós quem?
O pecado de Adao e Eva foi o pecado contra a inteligencia. Foi o "fingir nao saber", foi a traicao do seu proprio intelecto, a preferencia do falso sobre o verdadeiro, apenas porque o falso 'e mais facil.
Em primeiro lugar, uma dúvida: por que acha que a árvore do Apocalipse é uma representação da mulher?
Explicando:
O pecado original não foi o ato sexual, até porque se você olhar no primeiro capítulo do Gênesis, logo depois de criar o homem e a mulher Deus ordenou a eles: "Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a".
O pecado original é usurpar um conhecimento que Deus reservou como seu privilégio: a faculdade de decidir por si mesmo o que é o bem e o que é mal e de agir conseqüêntemente, é a reivindicação de autonomia moral pela qual o homem nega seu estado de criatura.
Em relação ao nós, os cristãos entendem que aí já estaria um sinal da Santíssima Trindade. Não sei como os judeus, que também adotam o Gênesis como parte do canôn sagrado interpretam isso.
Marcelo, voce convence quando diz que o pecado original é a usurpação do conhecimento e a não aceitação pelo homem de sua condição de criatura. Posso então concluir que o grande pecado da humanidade seria o querer saber? O conhecimento que nos torna conscientes? Da capacidade humana de pensar a si mesmo? Não pensemos então.
Quanto à arvore da vida, apenas conclui pelo próprio texto do Apocalipse - "No meio da sua praça e de uma e da outra banda do rio, estava a árvore da vida, que produz doze frutos, dando seu fruto de mês em mês, e as folhas da árvore são para a saúde das nações".(Ap 22,2)
Você não interpretou direito o que eu disse. O pecado original não é a usurpação do conhecimento, mas de um conhecimento que era privilégio de Deus, qual seja: a faculdade de decidir por si mesmo o que é o bem e o que é mal e de agir conseqüêntemente, é a reivindicação de autonomia moral pela qual o homem nega seu estado de criatura.
O pecado não é querer saber, mas querer decidir por si mesmo o que é bem e mal, é a autonomia moral.
Acho que não precisa nem dizer o resultado disso tudo. Os comunistas decidiram o que era bem e mal e mataram milhões, os nazistas idem. Isso sem contar o relativismo moral do mundo moderno.
Faço minhas as palavras do Octavio, tanto a revista como o livro são lixo.
Sugiro que vá no link que ele indicou. Eu o conheço é posso atestar que é muito bom.
Em caso de dúvida quanto à interpretação das Sagradas Escrituras (e, a rigor, mesmo quando não há dúvida alguma e julgamo-nos cientes do verdadeiro sentido do texto, o que pode muito bem ser uma ilusão espiritual e falsa certeza), deve-se recorrer sempre aos Santos Padres da Igreja e aos inúmeros comentários bíblicos que eles nos legaram ao longo de vinte séculos. E sinto-me mesmo tentado a acrescentar: e a mais ninguém. É melhor rejeitar a autoridade humana, a começar por aquela que tendemos a atribuir a nós mesmos, e a terminar por aquela que indevidamente atribuímos a quaisquer supostos sábios que não façam parte da Igreja.
Pois o Espírito que interpreta corretamente as Escrituras é e tem que ser o mesmo que as escreveu. E não há sabedoria verdadeira fora desse Espírito, do qual os Santos Padres estavam cheios.
O texto que se segue foi extraído de São João Damasceno, de uma obra chamada Fonte do Conhecimento. Para ser mais preciso, trata-se da Terceira Parte dessa obra, a famosa Exposição Exata da Fé Ortodoxa (que é precisamente o que seu título diz ser), Livro II, capítulo XI: http://www.ccel.org/ccel/schaff/npnf209.iii.iv.ii.xi.html. O texto pode ser difícil para alguns leitores, mas uma leitura atenta provavelmente esclarecerá a maioria acerca do que eram as duas árvores mais famosas do Paraíso. No mínimo, estimulará a reflexão sobre o assunto e o interesse pela obra de São João Damasceno (e pela Exegese Bíblica Patrística de um modo geral).
Ora, quando Deus estava prestes a formar o homem a partir da criação visível e invisível, à Sua própria imagem e semelhança, para imperar como rei e soberano sobre toda a terra e tudo o que ela contém, Ele primeiro criou-lhe, por assim dizer, um reino no qual ele pudesse viver uma vida de felicidade e prosperidade. E isso é o paraíso divino, plantado no Éden pelas mãos de Deus: um verdadeiro depósito de júbilo e contentamento do coração, pois “Éden” quer dizer “suntuosidade”. Seu sítio é o mais oriental da terra; é temperado e o ar que o rodeia é o mais raro e puro. Plantas perenes são sua ufania, abundam as doces fragrâncias; ele é inundado de luz, e seu frescor e beleza sensuais transcendem a imaginação. Em verdade, o lugar é divino, um lar apropriado para aquele que foi criado à imagem de Deus: nenhuma criatura irracional fez ali sua morada, mas somente o homem, a obra das próprias mãos de Deus.
Em seu centro, Deus plantou a árvore da vida e a árvore do conhecimento. A árvore do conhecimento era para juízo, prova e exercício da obediência e da desobediência do homem: e, portanto, ela recebeu o nome de árvore do conhecimento do bem e do mal, ou tanto era porque àqueles que dela comeram lhes foi dado poder de conhecer sua própria natureza. Ora, isso é uma boa coisa para aqueles que são maduros, mas uma coisa maléfica para os imaturos e para aqueles cujos apetites sejam fortes demais, tal como o alimento sólido para delicados bebês ainda necessitados de leite. Pois Deus, nosso Criador, não nos quis estafados de cuidados e afadigados com muitas coisas, nem que andássemos cuidadosos ou fizéssemos provisão para nossa própria vida. Mas esse foi enfim o destino de Adão: pois ele provou e soube que estava nu, e fez um cinto ao redor de si; pois ele tomou folhas de figueira e cingiu-se. Mas, antes de comerem do fruto, Adão e Eva estavam ambos nus, e não se envergonhavam. Pois Deus quis que estivéssemos assim livres das paixões, e essa é em verdade a marca de um espírito absolutamente vazio de paixões. Sim, ele quis ainda que estivéssemos livres de cuidados e que não tivéssemos senão um trabalho a cumprir: que cantássemos como os anjos, sem cessação nem intermissão, os louvores ao Criador, e que nos deleitássemos na Sua contemplação, e que sobre Ele lançássemos todos os nossos cuidados. É isso o que o Profeta Davi nos anunciou, quando disse: Lança o teu cuidado sobre o Senhor, e Ele te susterá. E mais uma vez, nos Evangelhos, o Cristo ensinou os Seus discípulos dizendo: Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. E mais: Buscai primeiro o Reino de Deus, e a Sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas.
E a Marta ele disse: Marta, Marta, estás ansiosa e afadigada com muitas coisas, mas uma só é necessária; e Maria escolheu a boa parte, a qual não lhe será tirada – o que quer dizer, claramente, assentar-se a Seus pés e ouvir a Sua palavra.
A árvore da vida, por outro lado, era uma árvore que possuía a energia que é a causa da vida, ou a ser comida apenas por aqueles que merecem viver e não estar sujeitos à morte. Alguns, de fato, representaram o Paraíso como um reino dos sentidos, enquanto outros, como um reino do espírito. Mas me parece que, assim como o homem é uma criatura na qual encontram-se juntos e combinados os sentidos e o espírito, de maneira semelhante também o santíssimo templo do homem combina as propriedades dos sentidos e do espírito, e tem essa dúplice expressão: pois, como dissemos, a vida do corpo é passada na mais divina e amável das regiões, enquanto a vida da alma se passa num lugar muito mais sublime e da mais excelsa beleza, onde Deus faz o Seu lar, e onde Ele envolve o homem como um traje glorioso; e o veste com Sua graça, e o deleita e sustenta como um anjo com o mais doce de todos os frutos: a contemplação de Si. Em verdade, ela foi bem chamada a árvore da vida. Pois, uma vez que a vida não é interrompida pela morte, a doçura da participação divina é concedida àquele que dela come. E isto é, em verdade, o que Deus quis dizer com “toda a árvore”, quando disse: De toda a árvore do jardim comerás livremente. Pois o “toda” é tão-somente Ele próprio, em Quem e por Quem o universo é mantido. Mas a árvore do conhecimento do bem e do mal era para a distinção entre as muitas divisões da contemplação; e isso é, tão-somente, o conhecimento da natureza de si mesmo; o que de fato é boa coisa para aqueles que são maduros e adiantados na contemplação divina (sendo ela mesma uma proclamação da magnificência de Deus) e que não temem cair porque, com o tempo, vieram a adquirir o hábito de tal contemplação; mas é uma má fadiga para aqueles ainda jovens e com apetites mais fortes, que por força de sua incerta confiança na melhor parte e porque ainda não estão firmemente estabelecidos no assento do único bem, são capazes de ser arrancados e arrastados para longe pelos cuidados de seu próprio corpo.
A árvore da vida também pode ser entendida como aquele mais divino pensamento, que tem sua origem no mundo dos sentidos, e a ascensão por meio dele para a causa originária e constitutiva de tudo. E esse foi o nome que Ele deu para “toda a árvore”, implicando plenitude e indivisibilidade, e transmitindo participação apenas naquilo que é bom. Mas, pela árvore do conhecimento do bem e do mal, devemos entender aquele alimento sensível e prazeroso que, embora de doce aparência, na realidade traz aquele que dele come à comunhão com o mal. Pois Deus diz: De toda a árvore do jardim comerás livremente. É, segundo entendo, como se Deus dissera: “Por meio de todas as Minhas criações tu ascenderás a Mim, teu Criador, e de todos os frutos tu podes colher um, a saber: a Mim mesmo, Eu que sou a vida verdadeira. Que todas as coisas produzam para ti o fruto da vida, e que a participação em Mim seja o esteio de teu próprio ser. Pois deste modo tu serás imortal. Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás”. Pois o alimento sensível é, por natureza, para a reposição daquilo que gradualmente definha, desseca e perece: e não pode permanecer incorruptível aquele que come do alimento sensível.
Assim, segundo entendo, o Paraíso divino é dúplice, e os Padres inspirados por Deus legaram uma mensagem verdadeira, quer tenham ensinado esta doutrina ou aquela. De fato, é possível entender por “toda a árvore” o conhecimento do poder divino derivado das coisas criadas. Nas palavras do divino Apóstolo: Porque as Suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, se entendem, e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas. Mas de todos esses pensamentos e especulações o mais sublime é aquele que diz respeito a nós mesmos, isto é, à nossa própria composição. Como diz o divino Davi: O conhecimento de Ti por mim (isto é, pela minha constituição) tornou-se uma maravilha. Mas, pelas razões que já mencionamos, tal conhecimento era perigoso a Adão, que fora criado tão recentemente.
A questão de gênese é um vespeiro. Mas um vespeiro interessante. Primeiro existe o fato de que a história da criação é contada DUAS vezes, em seqüência. Cada relato tem linguagem diferente, usa figuras diferentes e usa um nome distinto para Deus (Elohim em Gênese 1 e Javeh em Gênese 2)
Já foram desenvolvidas umas 300 teorias para explicar as discrepâncias, desde a visão do Apócrifo de João, segundo a qual o universo inteiro foi criado por um Deus perverso (e meio cômico) chamado Ialtabaoth até alguns Midrash judaicos segundo os quais a primeira criação toda é um diálogo de Deus de si para consigo.
A bagunça levou ao surgimento do que se chama a “documentary hypothesis”, segundo a qual o relato da criação condensa dois textos: um escrito por um autor Javista, o segundo por um autor Elohista. Os dois textos teriam sido condensados por um terceiro autor, o “priestly author”.
O crítico Harold Bloom faz uma leitura brilhante de Gênese baseada na reconstrução do texto original “J” em seu livro The Book of J. Vale ler.
Li atentamente cada comentário e acredito na honestidade de cada um. Andrei, como é do seu conhecimento, gosto muito das suas colocações. Este é um assunto que envolve não apenas o conhecimento, mas também a fé (e fé é um sentimento e sentimento é uma experiência particular e íntima). Não são apenas as duas árvores do Jardim do Édem e o sentido que se dá a elas ao longo dos tempos, mas a interpretação bíblica pela fé que deixa muitas dúvidas. Luís, li o link indicado, mas ele está voltado para o Novo Testamento e minha relação com Jesus Cristo é bem mais saudável que a que tenho com Deus (ou com o Senhor Deus do Gênesis). Vocês que são católicos, evangélicos, ou qualquer outra religião têm o privilégio da Fé.