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Hey David Coimbra: vai tomar no cu

Iniciado por gabriel_2 em 16/10/2010 · 8 mensagens

gabriel_2#1
O futuro de uma ilusão

por David Coimbra
Na Zero Hora do dia 15 de outubro de 2010

Lá pelo fim dos anos 20 do século 20, Freud concebeu um livro genial, dentre tantos de seus livros geniais: O Futuro de uma Ilusão, um estudo sobre como a religião é subproduto da Civilização.

Freud discorre acerca do desamparo do ser humano diante das forças da Natureza. Como o homem, tornado adulto, descobre que será sempre uma criança à mercê dos poderes estranhos que o cercam e o ameaçam: um milheiro de doenças, intempéries de verão e inverno, acidentes surpreendentes. Desesperado em busca de proteção, sabedor de que essa proteção não virá da sociedade que o cerca, o homem se volta para aquela figura plena de força que, durante a sua infância, ele ao mesmo tempo temia e ansiava para que o salvasse de todo o mal: o pai. Indefeso em meio aos perigos do mundo, o homem precisa crer na existência de alguma entidade que o defenda e o oriente, e volta e meia o puna, como fazia seu pai. Espelhado no que o pai lhe representava quando criança, o homem cria o seu deus: onipotente, amoroso, porém duro.

O texto de Freud demonstra que, quando a Civilização é ineficaz para proteger o homem com suas ferramentas tradicionais, a ciência, a tecnologia, as leis, o homem apela para a religião.

A premissa contrária é verdadeira. Quando os instrumentos da Civilização funcionam, a religião perde prestígio. Em países onde a Civilização atingiu os níveis mais avançados, como a Alemanha e a Inglaterra, grande parte da população flutua com serenidade no ateísmo, no agnosticismo ou na singela indiferença ao transcendental. Ingleses e alemães estão cada vez mais distantes dos deuses. Porque não precisam deles.
gabriel_2#2
Agora mesmo, chamou-me a atenção que foi ela, a Civilização, a festejada no resgate dos mineiros soterrados no deserto de Atacama. Assim que um resgatado brotava da terra e saía da cápsula, ele e os outros que o esperavam na superfície, o que eles faziam? Eles não se ajoelhavam e rezavam, com talvez uma única exceção. Eles não erguiam as mãos para o Céu protetor. Não. A maioria deles gritava:

– Chi-chi-chi! Lê-lê-lê!

Chile. Gritavam o nome do país. Quer dizer: celebravam o Estado que teve interesse em salvá-los e, tendo interesse, investiu nisso, financiou o que há de mais sofisticado em ciência e tecnologia, e criou condições para o resgate bem-sucedido. Ciência e tecnologia. Recursos da Civilização.

Os chilenos, ao entoar o nome de seu país, estavam louvando a Civilização.

Ao mesmo tempo, aqui, no Brasil, transcorre o segundo turno das eleições presidenciais, e a democracia também é um instrumento requintado da Civilização. Mas qual é o maior debate deste segundo turno? O que se cobra dos candidatos a presidente do Brasil e do que eles falam dia após dia?

Do aborto.

De religião.

Essa é a civilização brasileira. Esse é o futuro de uma ilusão.


DAVID COIMBRA
leonardo_15#3
Encerrou-se de modo totalmente exitoso o processo de salvamento dos trabalhadores soterrados na Mina de São José, no deserto chileno do Atacama. Durante os 17 primeiros dias ficaram sem comunicação com a superfície. Quando esta foi estabelecida e chegou o bilhete anunciando que estavam todos bem, o mundo se emocionou, os sinos repicaram no Chile e uma imagem de São Lourenço, rodeada de 32 bandeiras chilenas e uma boliviana, foi instalada num altar no Pátio dos Canhões do Palácio de La Moneda.

A partir de agora, o que se passou naquela cova será objeto de muita investigação na área da saúde física e mental. Não creio que estejamos em terreno de certezas, como colhi de especialistas que pareciam dispor de uma sonda privilegiada para acessar o interior das mentes dos mineiros. Os seres humanos, em situações extremas, não reagem de modo igual. E o conjunto de interações que se estabeleceram entre eles certamente compuseram um mosaico fascinante, que vai render muita informação valiosa.

O que acontece quando, num grupo humano razoavelmente numeroso, a esperança está presa por um fio e o desespero pende de espessa corda? É inevitável que durante tão prolongado convívio com a ideia da morte instalada em horizonte assustadoramente próximo, tenham sido levadas ao limite de cada um as respectivas fortalezas, virtudes e debilidades. Como estas características, quando emergentes, interagiram nas relações? E, principalmente, como, ao fim e ao cabo, operou a virtude da esperança?

Diversas vezes, ao longo destes últimos dois meses, foram traçadas analogias entre a situação dos mineiros e o "Ensaio sobre a cegueira", livro de José Saramago. Na obra, o recentemente falecido autor português retrata o caos que se instala num grupo de pessoas em confinamento durante um surto de cegueira.

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leonardo_15#4
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Aos poucos, por não verem o que os demais fazem, por saberem que não são vistos, lutando pela sobrevivência, os personagens de Saramago afloram seus piores sentimentos e retornam à barbárie. Animalizam-se em proporções inimagináveis e se estabelece a tirania dos mais ferozes.

Pois a lição dos mineiros, já se sabe, foi bem outra. Foi humana. Realmente humana. Na fronteira do desespero, permaneceram homens e fizeram emergir algumas das condições indispensáveis ao convívio: liderança, ordem, regras. Ou seja, constituíram uma comunidade e se organizaram para a vida, enquanto aguçavam os ouvidos para o silêncio das rochas aguardando o ruído da sonda que os poderia salvar. Mas a principal contestação que os fatos do Atacama fizeram a Saramago no cotidiano de sua tragédia, dentro e fora do refúgio, foi a lição da fé. Há neles o que mais faltava ao competente português e a seus personagens. Fé. E por isso rezavam. Rezava-se muito, aliás, dentro e fora do refúgio. Assim que estabeleceram contato, os mineiros mandaram descer um crucifixo, uma estatuazinha de São Lourenço e organizaram um santuário dentro da cova. Comportaram-se como seres humanos.

Na última quarta-feira, cada mineiro que renascia do útero rochoso do deserto fornecia ao mundo, também, uma lição sobre o valor da vida humana. Sua felicidade refletia um sofrimento. E seu sofrimento era um dedo em riste contra vilões bem conhecidos. Os que, no lado de fora das minas, desde seus gabinetes, tratam como "custo de produção" os índices de segurança que concedem aos que vão operar no lado de dentro, e os abortistas que tratam como "coisa" a vida que não veem. Ambos se encontram na mesma iniquidade.

PERCIVAL PUGGINA
rafael_2#5
O mais espantoso é que tem pessoas que argumentam que o aborto é uma questão exclusivamente religiosa, mas fazem vista grossa para o fato essencial da questão: o aborto consiste em matar outrem, e qualquer discussão que fuja a este núcleo é uma discussão desonesta, para dizer o mínimo.

A condenação de matar obviamente não se restringe ao campo religioso, mas o transcende, atingindo a sociedade como um todo. Dizer que o aborto é questão "meramente religiosa" equivale, em tudo e por tudo, a dizer que a condenação do morticínio só deve valer em âmbito religioso. Igualmente, é como dizer (do ponto de vista lógico, não do da gravidade do ato) que o furto deve ser liberado, porque a religião condena o furto e estamos num Estado laico.

No mais, o articulista desconhece absolutamente que mesmo as leis de um Estado laico são profundamente impregnadas de valores religiosos, a começar pelo que representa o epicentro da ordem jurídica: o princípio da dignidade da pessoa humana, que surge da religião, não da política.
ja_orkut#6
este aí disse que o Theco é um superior....
marcos_12#7
Claro. Para o sr. Coimbra civilização é a ciência e a técnica; religião é ilusão.

Ou seja: para ele a civilização verdadeira começou a pouco mais de 200 anos, quiçá 300.

É uma visão muito mesquinha para falar de religião. É mais uma analfabeto e ignorante no assunto.
mateusminuzzi#8
Só seria "ilusão" se ele provasse que a idéia é falsa.

Do contrário, é uma falácia genética estúpida - acho que é um caso de bulverismo também.

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