Em 2004 eu estava sem rumo. Sendo de esquerda, não agüentava mais as críticas que pintavam as pessoas de esquerda como avessas ao conhecimento. Mandei então um e-mail para o filósofo Olavo de Carvalho pedindo-lhe dicas de leituras para que eu conseguisse ter um mínimo de orientação no mundo. E o e-mail que ele me enviou em resposta é um verdadeiro guia de honestidade intelectual. Até hoje não consegui comprar todos os livros nem colocar em prática tudo que ele me aconselhou porque, na verdade, é um plano de estudos para uma vida inteira.
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E-mail de Olavo de Carvalho
Prezado amigo,
Deu louco para louco, vamos direto ao assunto:
Não adianta estudar muito. Aristóteles dizia que a inteligência deve ser exercitada com moderação e constância. O truque é:
1 - Estudar todo dia um pouco.
2 - Não estudar nada sem um interesse total e absorvente.
3 - Ler devagar, com lápis na mão, e não deixar passar uma palavra desconhecida, uma frase mal compreendida.
4 - Ler somente os livros essenciais de cada área, sem perder tempo com obras de interesse periférico.
5 - Domine pelo menos três idiomas (ler e escrever -- conversação é para turista).
Quanto a seleção de livros, estes são indispensáveis e, por eles, você chegará aos outros:
1 - Otto Maria Carpeaux, História da Literatura Ocidental (leia pela ordem, anotando cada autor importante citado e fazendo a lista dos livros que vai ler pelos próximos dez anos).
2 - Frederick Copleston, A History of Philosophy (idem)
3 - Eric Voegelin, Autobiographical Reflections (idem)
4 - Georges Gusgorf, Introduction aux Sciences Humaines
5 - Seyyed Hossein Nasr, Knowledge and the Sacred
6 - Max Friedländer, On Art and Connoiseurship
7 - Pitirim A. Sorokin, Novas Teorias Sociológicas
8 - Leo Strauss and Joseph Cropsey, History of Political Philosophy
9 - Otto Maria Carpeaux, Uma nova história da Música.
Estou-lhe enviando em arquivo anexo um manual da vida intelectual (A vida intelectual, A. D. Sertillanges). Leia e pratique. Se isso não der certo, nada mais poderá dar.
Livros não fazem cabeças, é claro. O que as faz é o esforço individual de reviver os atos cognitivos – e não raro as escolhas morais – que precederam a escrita.
Em todo caso, o problema fundamental da auto-educação é o de distinguir o essencial e o desprezível, concentrando a atenção no primeiro e poupando um tempo precioso – justamente aquele que o ensino universitário dispersa no estudo de mil e uma insignificâncias.
Estou-lhe enviando em arquivo anexo um manual da vida intelectual (A vida intelectual, A. D. Sertillanges). Leia e pratique. Se isso não der certo, nada mais poderá dar.
Um abração do
Olavo de Carvalho
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fonte: http://www.aristoi.com.br/node/46
. Livros que fizeram a minha cabeça
. Livros não fazem cabeças, é claro. O que as faz é o esforço individual de reviver os atos cognitivos – e não raro as escolhas morais – que precederam a escrita.
Em todo caso, o problema fundamental da auto-educação é o de distinguir o essencial e o desprezível, concentrando a atenção no primeiro e poupando um tempo precioso – justamente aquele que o ensino universitário dispersa no estudo de mil e uma insignificâncias.
Enquanto isso, posso sugerir, aos candidatos a membros de uma hipotética intelectualidade brasileira do futuro, algumas normas gerais que talvez os ajudem, na escuridão ambiente, a encontrar o caminho.
Olavo é o maior educador do Brasil. Pena que estepaíf não gosta de gente brilhante. Basta ler na própria obra do Olavo o que os "intelectuais"deste país fizeram com Otto Maria Carpeaux e com tantos homens brilhantes.
Um país que elege Lula duas vezes para presidente, que elege Dilma, Tiririca e Romário e que despreza - ou até mesmo odeia - um estudioso como Olavo não pode mesmo continuar existindo. O desprezo olímpico que o Brasil tem para com os assuntos superiores mais reflete uma essência do que um acidente, e infelizmente pessoas como Olavo só encontram terreno amplo e receptivo para seu trabalho no exterior.
Eu também devo muito ao Olavo. Eu era esquerdista até a medula. Um típico universitário da área de humanas. Comecei a acompanhar o true outspeak por curiosidade, mas felizmente ele me ajudou a abrir os olhos. Agradeço a Deus por ter conhecido o trabalho do Olavo.
Não sei se foi um efeito da tradução para o português, ou da minha fraqueza intelectual, mas eu achei o livro do Sertillanges uma sucessão de inutilidades. Não encontrei um só método claramente exposto. Sei que os franceses não são muito práticos, mas não precisa exagerar.
As dicas seguintes doram tiradas do Adler, Schopenhauer, Mário Ferreira, S. Tomás, etc. Garanto que funcionam.
1) A leitura é sempre um bem ÚTIL, e sendo assim, deve trabalhar para uma motivação individual. Passar numa prova, pesquisar um tema importante, adquirir um estilo, ou algo assim.
2) Se algum livro se apóia em outro, mais antigo, é muito melhor acompanhar a ordem cronológica. Eu me recuso, por exemplo, a ler Shakespeare, Ben Johnson e Marlowe sem terminar as grandes tragédias e comédias gregas.
3) Todos os livros de fama fugaz devem ser solenemente desprezados. Isso inclui tanto os best-sellers de hoje quanto as peças de Voltaire. São estrelas cadentes: brilham e somem.
4) Estudar não é ler, e sim reler. A repetição cuidadosa é a base do aprendizado.
5) Cada livro tem seu tempo, e para os grandes, esse tempo é longo. Adler lia, em média, vinte páginas a cada período de uma hora e meia. Leitura dinâmica é coisa de pequeno-burguês americano.
6) Resumos e manuais são como cardápios: não são para serem comidos, mas só encarados por pouco tempo. Originais sempre têm preferência, principalmente quando são complexos (ex: Hegel, Plotino).
7) Não se começa a nadar treinando em alto-mar. Iniciar uma investigação pelos trabalhos mais densos é suicídio. Deve-se fazer uma lista graduada de leituras, segundo as orientações de estudiosos. Tio Pedro recomenda aos que gostam de Filosofia: comecem com Aristóteles e Sto. Agostinho. Eles falaram de tudo o que interessa, e escreviam muito claro.
8) Um livro é feito de teses, as teses de proposições, as proposições de palavras. Primeiro se devem caçar as palavras-chave, depois relacionar as proposições, depois formular as teses, e só bem no fim, ter uma opinião sobre essas teses.
9) Uma idéia é montada enquanto é compreendida, e desmontada quando é apresentada. A exposição da estrutura de um texto só acontece DEPOIS do leitor ter construído inteiramente o pensamento do autor. Nunca consegui realizar a misteriosa "leitura estrutural".
12) Não creio que a obra do Sertillanges possa ser diretamente comparada ou referenciada aos trabalhos do Mortimer Adler (sobre Santo Agostinho, Mário,Schopenhauer eu não ouso opinar). O Adler trata, mas não apenas, de técnicas de leitura, ou modos de se abordar os diversos tipos de texto ou mesmo como elaborar uma “agenda de estudos”, mas não foca a questão do que é ser um estudioso ou o que é a “vida intelectual”. E nesse ponto o Sertillanges,no seu livro, tratará do assunto, por assim dizer, holisticamente: o intelectual não é apenas um intelectual naqueles momentos dedicados ao estudo e sim na sua vida por inteiro. E eu acho que a dificuldade de se encontrar um “método” na obra dele está aí mesmo: ele tenta emular no seu esquema, se é que realmente existe um, os diversos papéis sociais que desempenhamos, dando a impressão de um conjunto de dicas soltas que, aparentemente, não se ligam. Para mim o trabalho dele é de caráter mais inspiracional.
13) Sobre a suposta fraqueza da lista do Adler, não creio que, como já foi dito em outro tópico, se deva ao peso “Protestante” dela. Parece-me que o problema da composição da sua lista -a despeito de todo o grande, meritório e louvável esforço dele de fazer a Educação Liberal viva nos EUA- resida naquilo que ele chama de A Grande Conversação. Em boa parte, principalmente naqueles livros do Século XV em diante, ela está fundamentado em uma linha de pensamento dominante, na medida em que isso realmente possa existir, que vai desde Bacon, Descartes e etc. Há a impressão de haver uma conversa ininterrupta entre homens de gênio que prossegue linearmente. E não, o que seria mais correto, uma sucessão de linhas que se cruzam, composta de homens de também grande genialidade, ou que permanecem incomunicáveis entre si.
Em se tratando de leitura, eu tenho muito o que aprender. Sempre que possível, frequento uma biblioteca, começando a ler uma antologia de filosofia, por exemplo.
Pessoal, estou procurando por indicações de gramáticas inglesa, espanhola e francesa. Gostaria, se souberem, de gramáticas desses idiomas nesses idiomas. Se possível, a de referência de cada idioma.
Para quem se interessar, há em português além da Gramática do Napoleão Mendes de Almeida a Gramática do Celso Cunha, a dele somente, de 1970. Excelente.
Para quem está com dificuldades no Latim, recomendo que procurem por gramáticas de padres na estante virtual. Tem muitas e podem ajudar em algum ponto que esteja difícil.
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Para quem se interessar, há em português além da Gramática do Napoleão Mendes de Almeida a Gramática do Celso Cunha, a dele somente, de 1970. Excelente.
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