Fórum Olavo de CarvalhoArquivo da comunidade do Orkut · 2004–2013

Usina do bem, usina do mal - texto indispensável

Iniciado por leonardo_15 em 19/12/2010 · 40 mensagens

leonardo_15#1
Eis que decidi empregar esta tarde de domingo na digitação de trecho dum capítulo do novo livro de Percival Puggina, "Pombas e gaviões". Uso-o como incentivo para a leitura da obra completa, que trata de muitos temas mais desde a perspectiva do conservadorismo e da doutrina social católica, como bem sabe quem acompanha Puggina por seus debates, blog e artigos no Mídia sem Máscara.

O capítulo em tela, considero eu, é indispensável a todos os que se interessem por educação, pedagogia, direito, política gaúcha e nacional e otras cositas más. Começo a reprodução - e, por favor, leiam até o final!
leonardo_15#2
Pombas e gaviões.

O episódio, recente, ocorreu em Viamão, RS. Certa escola local promoveu mutirão para pintar o prédio. Toda a comunidade se envolveu nele. Serviço pronto, escola rejuvenescida, apareceram pichações nas paredes. Durante uma semana a direção investigou o fato. O principal suspeito, ouvido, denunciou outros alunos. Finalmente, foi identificado como sendo ele próprio o responsável. Além de pichador, agira como mau-caráter. Punição estabelecida e cumprida: diante dos colegas, o rapaz teve que repintar o que havia borrado e que fazer pequenos retoques em outras salas.

Você não imagina, leitor, a confusão que isso gerou. Os pais do aluno, que não haviam mexido uma palha, ou, melhor dizendo, um pincel, na pintura da escola, saíram do sofá e denunciaram a professora à Secretaria da Educação. O assunto ganhou páginas de jornal e foi tema dos principais programas de entrevistas e de debates em rádio e tevê. Até aí tudo à moda nacional: pais sem critérios, incompetentes para educar os filhos, produzindo cidadãos inadequados à vida civilizada e uma direção de escola que, ao resolver pôr ordem no seu terreiro, contrastou tanto com o contexto vigente que chamou a atenção da mídia nacional.

Durante os debates que se seguiram, ouvi entrevistados cujas opiniões me alarmavam. Estou falando de gente grande. Estou falando de gente da Promotoria da Infância e da Juventude. Estou falando de doutos pedagogos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e por aí afora. Ora era um promotor de justiça indignado com a “humilhação” a que fora exposto o aluno. Ora era um sorridente mestre de professores da Ufrgs, para quem a transgressão é saudável para o adolescente, etc. e tal. Foi durante esses debates que fiquei sabendo de algo surpreendente: desde a vigência do Estatuto da Criança e do Adolescente não existem mais, nos regimentos escolares, punições prescritas para atos que contrariem o que neles esteja estabelecido. Não há mais pena de suspensão. Não há mais pena de expulsão. Não há mais punição alguma!
leonardo_15#3
Chegava a ser engraçado. Os programas de debate, interativos, ouviam os entendidos e estes, com raras exceções, condenavam a conduta da direção da escola. A opinião pública, por sua vez, a aplaudia de pé, com a aprovação de mais de 95% de ouvintes e telespectadores. Saltava aos olhos o efeito corrosivo do pensamento marxista que, inspirando as pedagogias dominantes no ambiente acadêmico nacional, conseguiu seu objetivo e virou tudo de cabeça para baixo. No entanto, eu gostaria de saber se no recinto de seus lares esses guerrilheiros da pedagogia e do direito, investidos do papel de educadores de seus próprios filhos, aplicam os mesmos preceitos que sustentam no âmbito escolar. Disciplina e educação sem punição? Vai ver.

Qualquer manual de movimento revolucionário vai ensinar que a anarquia, a anomia, a generalização da desordem, a quebra da autoridade, a ruptura dos valores e o descrédito social nas instituições são fatores indispensáveis à instauração de uma nova ordem. Quando tudo desaba à nossa volta e o terremoto não foi um fenômeno geofísico, mas se deu no plano onde atuam as autoridades e as instituições, está criado o ambiente propício ao movimento revolucionário, aos guerrilheiros da pedagogia.

Sabem os leitores como a coisa acabou na tal escola de Viamão? A professora, ao fim e ao cabo, subordinou-se a um acordo com a Promotoria da Infância e da Juventude de seu município e teve de pagar multa de meio salário-mínimo! À época escrevi um artigo para Zero Hora relatando que meu neto, ao saber do fato exclamou: “Eu não acredito!”. E enfiou o nariz no jornal para confirmar o que escutara. Tinha razão ele. De ouvir contar, ninguém acreditaria. Era preciso botar o dedo na notícia que o jornal estampava como chaga aberta.
leonardo_15#4
Nas 24 horas seguintes à publicação da notícia, quase 400 leitores fizeram chegar ao site do jornal a sua consternação. O povo entendera perfeitamente o caso: a) a família, primeira e principal educadora, havia descumprido seu papel; b) a escola, segunda educadora, exercera, e bem, sua função; c) levar pequenas questões disciplinares de milhares de colégios para serem resolvidas nas promotorias de justiça ou nas delegacias de polícia, conduta que foi prescrita à moça e à escola, inverte as precedências (e tem uma lógica que me escapa); d) o Estatuto da Criança e do Adolescente não deveria ser usado para coibir a esse ponto o exercício da função educadora e disciplinadora da escola; e) agir, em pequenas infrações de estudantes, como foi recomendado ao caso (registrar BO e intimar alunos à delegacia para possíveis medidas socioeducativas!) é muito mais agressivo e menos educativo do que o procedimento adotado no âmbito da escola.

Depois de tudo que transbordou desse caso, não nos surpreendamos com policiais que viram as costas a um adolescente infrator e com professores que fogem dos alunos para não apanhar. Afinal, vivemos no país onde as leis habitam as estrelas e a realidade ocupa o fundo do poço da permissividade. Nesta terra dos processos lentos e sonolentos, onde o caso Mensalão rola desde 2005 (e mal começou a andar), a professora de Viamão, que educou, que defendeu o patrimônio público, que fez cumprir o regimento escolar, cuja conduta foi apreciada por todos, acabou posta de joelhos. Em dois meses (só em Cuba se julga e fuzila em menos tempo) teve de enfrentar a Justiça. E desistiu de obtê-la! Não foi dito, mas todos entenderam o recado: “Que isso não se repita, professores!”. Impuseram-lhe condenação pública, expedita e exemplar. “Eu não acredito!”, exclamou meu neto, em uníssono com a população gaúcha. O Estado precisa retomar o apreço e o respeito pelas naturais autonomias da sociedade.
leonardo_15#5
Se o Estatuto da Criança e do Adolescente pode ser interpretado como foi, pobre Estatuto! Se o Ministério Público cumpriu seu dever, triste dever! Aplicaram à professora multa ridícula. Fizeram de conta que não a condenavam. Mas a condenaram. Encerraram o processo e dormiram em paz. E a indisciplina ganhou um extraordinário suporte institucional.

Embora permanentemente desmentida, é muito inerente à nossa formação cultural a idéia de que as leis geram uma força própria suficiente para superar as dificuldades de que tratam. Há um problema? Faça-se uma lei para resolvê-lo. Feita a lei, lavam-se as mãos e dá-se o problema por resolvido. Essa mesma fé nos leva a crer, por outro lado, que todas as relações sociais devam estar regidas por estatutos legais, o que acaba inibindo os espaços próprios, os ajustes interpessoais, os contratos e as autonomias da sociedade.

Se verdadeira tal fé na sabedoria do Estado legislador, nosso país deveria ser um modelo de virtudes coletivamente atingidas e a vida fluiria doce e suavemente, conforme concebida pelos que redigem nossos códigos. No entanto, porque observo realidade diferente, sou levado a ter convicção diversa. Quanto mais e melhor educação dermos às pessoas, quanto mais elevados forem os valores e áleas transmitidos, quanto mais se deixarem conduzir por princípios, menor será o número de leis de que necessitaremos e maior será o espaço da liberdade vivida como bem moral determinante de condutas corretas. Em palavras que melhor resumam o que pretendo dizer: estamos fazendo leis em excesso e educando de modo escasso.

[ . . . ]

A respeito da decadência do ensino brasileiro dou um exemplo pessoal. Em 1996, já com quase 30 anos de formado em Arquitetura e sem nunca mais haver retornado a uma sala de aula, decidi fazer vestibular para Jornalismo, só para ver o que aconteceria. O único livro didático que abri foi um que estava sendo consultado por minha filha, então se preparando para o ingresso no curso de Psicologia.
leonardo_15#6
Era, na verdade, um livrinho, pouco mais que um caderno, sobre Literatura Brasileira. Fiquei curioso por saber como se podia enfrentar prova sobre o tema a partir de um folheto. Seu conteúdo consistia num sumário de livros que mais nenhum estudante brasileiro lê e respostas a questões que poderiam ser formuladas a respeito. É admissível uma coisa dessas? Em qualquer outro lugar do mundo, talvez não. Mas no Brasil é perfeitamente possível obter nova de aprovação num exame sobre literatura nacional sem precisar ler coisa alguma do que escreveram nossos bons autores. Joguei fora o tal livro, entre escandalizado e repugnado, e fui enfrentar o vestibular da Famecos da PUC. Para meu espanto, não fui apenas aprovado. Tirei o primeiro lugar. E obtive uma evidência da perda de qualidade do ensino brasileiro ao longo das últimas décadas.

Essa curiosa experiência, se infelizmente não me valeu para prosseguir no curso, que abandonei logo na primeira semana de aula por absoluta falta de tempo, serviu-me para evidenciar a perda de qualidade sofrida pelo ensino médio brasileiro no espaço entre duas gerações consecutivas. Saltou-me aos olhos que minha geração, a minha, politizada e ideologizada até a raiz dos cabelos (em que pese tudo que se diga sobre a alienação introduzida pelos governos militares), quando chegou aos quadros-negros e começou a ensinar, fritou o cérebro dos seus alunos em banha marxista. Multidões de professores abandonaram os conteúdos e partiram para a militância. Construíram a ignorância dos alunos, mas conseguiram seus objetivos doutrinários. Mentiram sobre história, abandonaram os clássicos e optaram pelas piores vertentes do pensamento. Dentre seus alunos só evoluíram aqueles que, voluntariamente, chutaram o balde e trataram de avançar por conta própria. Eles e seus pupilos já alcançaram os postos de mando do país e continuam ideologizando tudo por onde passam: a universidade e o material didático nacional; o direito positivo em todos os seus níveis; as denúncias, as investigações e as sentenças;
leonardo_15#7
as notícias e as manchetes; o cinema, o teatro, as artes, a música popular e o escambau. É muita fornicação e muita prole ideológica para quem alega ter sido politicamente castrado!

A título de curiosidade: há coisa de dois anos, um professor convidava a comunidade acadêmica para a apresentação de sua tese de mestrado ou doutorado. No breve texto, que ficou disponível na Internet, ele pontificava que “os atuais processos de formação de professor de matemática ainda são fortemente sedimentados numa formação alienada aos ditames de uma sociedade de classes, que não permite ao futuro professor compreender e fazer uso da necessária autonomia inerente à sua atuação. (...) Assim, a investigação indica a necessidade de uma atuação dos formadores no sentido de conscientizar os futuros professores de matemática de sua tarefa como intelectuais orgânicos a serviço da construção da hegemonia dos excluídos, dos explorados em geral”. Baboseira gramscista, em péssimo estilo, para professores de matemática.

Não hesito em afirmar que há uma grande responsabilidade dos professores e dos gestores do sistema nas insuficiências da educação brasileira em todos os níveis. O caso desse senhor que, sob o manto do ensino de matemática, deseja formar intelectuais orgânicos a serviço da construção da hegemonia, não é singular nem escassamente plural. Bem ao contrário, poucos estabelecimentos de ensino e raros educadores, se chamados a verbalizar suas expectativas em relação à própria atividade, colorarão no topo da lista a elaboração e a transmissão de conhecimento. O exemplo cubano, sobre aonde se vai com esse tipo de educação, fala por si. O país tem indicadores de escolaridade de primeiro mundo e uma sociedade de quarto mundo, que quase nada produz com aquilo que aprendeu ou que deveria ter aprendido. O resultado disso, no Brasil, é um grande estelionato contra o contribuinte dos impostos que sustenta o sistema público de ensino e contra os pagadores das mensalidades no sistema privado.
leonardo_15#8
Nenhum outro estado brasileiro foi tão fortemente vitimado por esse estelionato quanto o Rio Grande do Sul. Diferentemente do que alguns possam pensar, não foi o governo petista que nos levou à atual situação, mas foi a atual situação, construída e robustecida ao longo de pelo menos duas décadas, que nos levou ao governo petista. O PT chegou ao poder, no período entre 1999 e 2002, como conseqüência do processo de doutrinação instalado desde muito antes, por incontáveis modos.

O pleito de 1998 travou-se em clima de imensa tensão política. Era como se a eleição fosse a culminância da luta do bem contra o mal. E o partido de Olívio Dutra acreditou piamente que vencera uma revolução. Porto Alegre fora sua Sierra Maestra e até uma bandeira de Cuba tremulava na sacada do Palácio no dia de sua posse.

Nada que estivesse sob a esfera de influência do governo escapou à tarefa de “construção da hegemonia” através da rede pública de ensino. Só faltou obrigar as crianças a proclamar todas as manhãs – “Socialismo ou morte! Seremos como o Che!”. Os concursos públicos para prover vagas no quadro do magistério eram verdadeiramente escandalosos e suscitaram ações judiciais (entre as quais uma apresentada por mim) que, decorridos anos nos meandros processuais, foram encerradas por perda de finalidade. Os concursos valeram, os companheiros e as companheiras de ideais ingressaram nos quadros do Estado.

Um desses concursos examinei de perto. Não havia, em toda a prova, uma só folha de parreira para encobrir seu caráter ideológico. Os candidatos foram submetidos a um interrogatório falsamente intelectual e autenticamente discriminador. A prova era confusa, pretensiosa, insuficiente, inadequada, ambígua e ideológica. Os cinco primeiros adjetivos (e alguns erros de português) correm à conta da Fundação Carlos Chagas, que a preparou;
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o último era condição inerente à bibliografia peneirada pela intelligentzia da SEC. Exceção feita à prova de português, que envolvia, basicamente, a interpretação de texto de Cecília Meirelles, o restante era verdadeira sopa de letrinhas, formando conceitos intrincados e querendo significar, em essência, que a salvação, a justiça, o progresso, a democracia e a liberdade provinham da esquerda. Não importa que essa ilusão tenha sido reiterada e definitivamente desmentida pelos fatos ao longo da história. Os examinadores pensavam assim e eram eles que decidiam quem haveria de passar.

Os defensores do Piratini, chamados às falas, alegaram que se tratava de levar para a Educação a ideologia do governo, fazendo pela esquerda o que antes se fazia pela direita. E sustentavam a legitimidade disso: afinal, não fora a esquerda que vencera a eleição? Logo, o governo tinha o direito de impor sua ideologia. Mas tudo isso era falso: imaginem o banzé que o PT e o Cpers/Sindicado armariam se algum concurso anterior selecionasse apenas autores liberais ou conservadores.

Só o Piratini, Cuba e Coreia ignoravam, ainda então, que o Estado, Administração e Governo são entes distintos e que o Estado e a Administração não devem ter partido. Aquele, porque une o conjunto da sociedade; esta, porque deve aplicar imparcial e permanentemente as leis, executando as políticas públicas. Apenas o governo deve ser partidário, porque lhe cabe dirigir, transitoriamente, os negócios do Estado segundo a posição ideológica vencedora. Portanto, o governo estava legitimado para selecionar todos os seus agentes entre socialistas, bolchevistas, trotskistas ou leninistas. Mas abusou quando pretendeu manipular os critérios de seleção de pessoal para privilegiar seus devotos nos quadros permanentes do Estado. Como resultado disso, o perfil político do magistério público gaúcho é estarrecedoramente esquerdistas. Na mais recente eleição para o Cpers/Sindicato (o sindicato da categoria), a esquerda se permitiu disputar o pleito com três chapas.
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E venceu a chapa mais radical.

Outro exemplo. O Colégio Tiradentes era, reconhecidamente, o melhor colégio público estadual. Sob comando da Brigada Militar, estava fora da alçada da Secretaria da Educação e, portanto, de seu aparelhamento ideológico. Os alunos usavam uniformes e obedeciam à disciplina estabelecida. Egressos do Tiradentes conseguiam excelente desempenho em exames vestibulares e discorriam com entusiasmo sobre sua vida escolar. Os professores se orgulhavam do trabalho que realizavam e os pais se manifestavam satisfeitos com a qualidade e as características do ensino ali desenvolvido.

Um ambiente escolar em que todos estão satisfeitos – alunos, professores, pais e orgulhosos ex-alunos é coisa rara. Tão rara que mereceria ser objeto de cuidadoso estudo para apropriação dessa experiência em outras unidades de ensino. Estranhamente, porém, a realidade se tornou insuportável para a Secretaria de Educação petista, que decidiu acabar com tanta satisfação. O quê? Um colégio onde todos estão contentes? Onde não existe indisciplina, drogas, evasão? Nem pensar! Por isso, tiraram-no da orientação da Brigada Militar e o transferiram para o comando da Secretaria de Educação. Fizeram com o Colégio Tiradentes o mesmo que fora feito com o próprio Tiradentes: esquartejaram, arrasaram casa e jogaram sal em cima. Só faltou esconjurar os descendentes. Foi necessário aguardar o pleito de 2002 e a eleição do governador Germano Rigotto, para que fossem restauradas integralmente as qualificações do Colégio.

É tão importante para a esquerda transformar a Educação em instrumento para domínio de corações e mentes, que o governo petista gaúcho decidiu realizar uma Constituinte Escolar. O prolongado evento, assembleísta e manipualdo como convinha, servia a dois objetivos: organizar a militância e levar sua cartilha ideológica para dentro das salas de aula.
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Os educadores precisam dessa compreensão de totalidade dos educandos, pois os educadores ‘nunca se encontram com uma criança em si, mas com uma criança de uma classe determinada, com uma criança que cresce sob determinadas relações sociais’.” Constituinte Escolar, Caderno 6, citando Leandro Konder em O que é Dialética.

Essa pérola é extrato de um todo maior, recheado com citações de autores marxistas (o próprio Marx entre eles) e de alguns de seus discípulos, como Suchodolski, em Teoria Marxista da Educação (contendo críticas à divisão do trabalho adotada nas economias modernas). O pensamento de base marxista, como fica evidenciado no texto acima, reduz a ampla gama de relações sociais ao mínimo denominador comum das disputas de classe. Lênin insistia nisto: todo conflito deveria ser compreendido como conflito de classe. Decorrido quase um século, esse mesmo conceito murcho, desidratado, recebia a chancela da nossa Secretaria da Educação.

Quando é dito que os educadores nunca se encontram com uma criança em si, mas com uma criança “de uma classe determinada”, se pinça um aspecto para realçar. Uma criança é muito mais do que mero produto de sua classe social! Herança genética, cultura, etnia, habitat, religião, entre muitos outros, são influências que não podem ser desprezadas. E sobre todas elas ainda pairam incontáveis experiências pessoais que contribuem para formar o que talvez se possa designar, enfim, como uma criança em si mesma. Criança é futuro, esperança, objeto de afeto e inspira cuidado e proteção, independentemente da classe a que pertença.
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Um processo pedagógico que busque a realização integral do ser humano não deve estar referido a uma criança vista como produto de classe, mas deverá voltar-se, exatamente, àquilo que a perspectiva marxista, tão presente na formação dos nossos educadores, desconsidera na complexidade de suas relações com os alunos. Portanto, dirigindo-me a estes últimos, eu inverteria a afirmação de Leandro Konder: sob tais mestres vocês nunca encontrarão um professor em si, mas o agente de um processo que visa a encolher seus cérebros para reduzi-los ao tamanho da causa que abraçou. Mas é segundo esses autores e em conformidade com tais filosofias que a esquerda, há muitos anos, influencia a educação brasileira.

A estratégia já foi bem longe na direção de seus objetivos. O processo de dominação instalado no país ingressou nos cursos de Direito, tomou conta da maior parte dos cursos de mestrado e doutorado, foi ganhando vagas nos concursos públicos e já afetou o cérebro de personalidades com assento nos vários escalões do Poder Judiciário e do Ministério Público. Como seria inevitável, já têm maioria no Supremo Tribunal Federal. Para evidenciar isso, basta recordar o lamentável episódio da votação referente à Reserva Indígena Raposa Serra do Sol. Assisti a boa parte da sessão e, com um desalento conformado, presenciei seus momentos finais. Pois foi exatamente quando se iam apagar as luzes que um derradeiro episódio acendeu os holofotes, favorecendo a compreensão do que ocorrera naqueles sucessivos dias de deliberação.
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Discutia-se a execução do que fora decidido. Em quanto tempo promover a retirada dos não índios? (Não índios integravam uma categoria antropológica muito malvista naquele douto plenário). “Em quanto tempo?” Entreolharam-se os senhores ministros. Aproximaram-se inutilmente do pelourinho de onde podiam arfar seus argumentos os advogados dos não índios. Queriam prazo. A decisão veio consensual: “A Corte não dá prazos”. Emite determinações para execução imediata. Ela, a Corte, não esquenta a cuca com o que acontece na ponta dos fatos a partir de suas decisões. São mesquinharias que causam enfado à Corte. Vamos para casa tomar um uísque.

Naquele momento, lá no norte do país, cidadãos brasileiros recebiam pela tevê, viva voz e viva imagem, a notícia de sua expulsão imediata, emitida entre bocejos pelos senhores da Corte. Ao lixo os títulos de propriedade legítimos e os longos anos de árduo trabalho familiar nas terras que a União lhes vendeu. Ao lixo suas lavouras plantadas e seus rebanhos no pasto. Ponham-se na rua todos os que não desfilam de cocar. Retirem-se com suas famílias, moradias, máquinas e bens! A Corte decidiu e a Corte, visivelmente, está cansada. Isso é que é trabalho duro. Moleza é plantar arroz no trópico, discutir antropologia com padres que não evangelizam os índios e que desevangelizam os não índios.

Tamanho desprezo pelo direito de propriedade, tamanho desinteresse pelo que é privado e particular, tem causa ideológica e vai buscar raízes lá no processo de formação via educação e via cultura. Isso ficou igualmente nítido, naquele mesmo julgamento, quando o ministro versejador sergipano Ayres Britto, ex-candidato a deputado federal pelo PT, em apoio ao colega Eros Grau (ex-PCB), que falava sobre a sabedoria dos indígenas, lascou, citando Paulo Freire: “Não existe saber maior ou menor; existem apenas saberes diferentes”. De fato, aquelas tribos praticam o infanticídio, o ministro defende o aborto, e viva Paulo Freire!
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Eis aí, curto e grosso, num verdadeiro safanão à inteligência, o resumo da causa e a alma da decisão tomada contra a soberania brasileira na Amazônia. A culminância do relativismo! Não são apenas a verdade e a mentira, o certo e o errado que deixam de existir fora da conveniência ideológica. É negada existência à própria ignorância transformada em cada vez mais comum forma de saber. Tomás de Aquino e Frei Betto, Beethoven e Mano Brown, Aristóteles e Marilena Chauí. É tudo a mesma coisa, tá entendendo, mano?

Pode parecer estranho ao leitor que eu esteja a apontar raízes escolares na base de decisões tomadas pela mais alta corte de justiça do país. No entanto, é isso mesmo. Existem bobagens que ninguém aprende por conta própria. O sujeito tem que ser longamente doutrinado sobre elas. E um bom atrativo para seduzir corações e mentes vem de uma convicção comum a todo marxista, que é a de ser intérprete privilegiado e agente definitivo da História. Engels empresta caráter científico a tal presunção ao afirmar: “Assim como Darwin descobriu as leis da evolução da natureza, Marx descobriu as leis da evolução da sociedade”. Pronto! Estabelecido o dogma, as mentes marxistas se reconhecem titulares da profecia. Elas sabem onde tudo vai chegar e se desinteressam por qualquer roteiro de viagem, expressão de liberdade ou direito privado que não aponte para esse porto-final. E quem se atreve a divergir do rumo é declarado doente ou louco.

O escritor gaúcho Sérgio Faraco é uma prova viva do que descrevo. Em 2002 ele publicou um livro de memórias intitulado Lágrimas na Chuva. A obra relata sua adesão juvenil ao comunismo e discorre sobre fatos relacionados com o período durante o qual estudou em Moscou, no início dos anos 60. Ao narrar suas observações e desventuras, ele descreve haver transitado da surpresa desagradável para a frustração e, desta, para a manifestação de contrariedades. Resultado: foi internado como doente mental numa “clínica” russa.
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Fatos assim eram conhecidos bem antes de o jovem Sérgio Faraco tê-los vivido. Os estados comunistas, convictos de estarem concebidos de acordo com a formulação científica da ordem social, cuidam de instruir a todos sobre essa nova ordem, valendo-se da propaganda e da “educação”. Vencida essa etapa, os discordantes são tratados como enfermos e encaminhados para clínicas como aquelas pelas quais passou o referido autor. Situação bem pior, claro, é reservada aos que atuam como dissidentes: são sumariamente eliminados e pesados agravos recaem sobre suas famílias. No século passado, cem milhões de pessoas foram vítimas dessa receita.

A história de todas as revoluções comunistas é o relato da certeza sobre o devir histórico, certeza que precisa das cartilhas e das salas de aula para ganhar continuidade e justificação. Com o sucessivo desprestígio das revoluções armadas – planejadas por visionários, executadas por bandidos e assumidas por oportunistas -, ressurge o interesse marxista pela educação. Tão mais rápida chega a embarcação ao cais quanto maior for o número de remadores. Há que influenciar a infância e a juventude.

O local para isso é a sala de aula e o instrumento é o magistério. Não por acaso, os professores deixaram de usar esse título e se autodesignam “trabalhadores em educação”. Não são mais colegas, mas companheiros! Se você conhecer algum médico que prefira ser tratado por trabalhador em saúde, pode começar a desconfiar... E o mesmo valeria, tanto para o militar que renunciasse a seu posto para ser trabalhador em segurança nacional, quanto para o padre ou bispo que preferisse ser trabalhador em religião.
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Professor é um título universalmente reconhecido e valorizado. Já trabalhador em educação é uma locução mal cosida e dissonante que acabou empurrando a categoria para os tentáculos e ventosas da CUT, braço sindical do mesmo partido. Convertidos em gatos e sapatos das lideranças de uma determinada facção política, cabeças feitas por gramscianos mecanismos de convencimento, reduzindo o ambiente político a uma relação amigo-inimigo, os professores já não conseguem perceber que servem de lenha para a fogueira das vaidades das facções internas de um mesmo partido. Perdem como professores na redução de suas potencialidades. No carnaval da nova classe, o magistério apenas empurra os carros alegóricos sobre os quais desfilam os destaques. Tomaram-lhes a alma, a razão, a esperança, e até mesmo a dignidade do título que deveria ser parte inalienável e imperecível de seu patrimônio e dignidade. Mas servem esplendidamente à causa a que aderiram.

E como servem! Preste atenção:

a) No arraial de Canudos, a terra pertencia a todas as famílias, e as pessoas eram socialmente iguais. Comunismo primitivo. Como no tempo dos primeiros cristãos. b) Canudos se defendeu do jeito do povo: com guerrilha. c) As classes dominantes são vingativas. d) A Princesa Isabel era feia como a peste e estúpida como uma leguminosa.

Você provavelmente supõe que eu esteja citando a cartilha de algum movimento revolucionário. Errou. São extratos da coleção de livros didáticos intitulada Nova História Crítica, destinada ao ensino médio nacional, que esteve, durante anos, recomendada pelo MEC nos governos FHC e Lula. Anos a fio.

[Continuo a transcrição dentro de alguns instantes]
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Diante desse e de tantos outros abusos do direito de ensinar, diante do uso político e ideológico da cátedra, diante da ideologização dos concursos públicos, diante da apropriação ideológica dos recursos do erário para fins político-culturais, diante dessa falta de escrúpulos que beira a delinqüência, fica fácil compreender que em 1999, jovens universitários brasileiros cujos pais andavam de calças curtas quando Fidel desceu de Sierra Maestra tenham escolhido o tirano do Caribe para patrono da UNE.

Como escrevi, então, para Zero Hora: “Quem fez a cabeça dessa gurizada? Duvido que todos juntos, espontaneamente, tenham resolvido proceder a uma leitura marxista da história; interpretar do mesmo e extravagante modo os fatos ocorridos na América Latina na segunda metade deste século; passar por cima de todos os crimes praticados pelo regime cubano em nome dos ideais que afirmam defender; atropelar a ética social, aprovar o sacrifício da liberdade, apoiar uma ditadura e endossar o paredón. Sozinhos e por conta própria, pesquisando nas bibliotecas, é que não foi!

A única resposta sensata para essa pergunta absolutamente necessária é a seguinte: esses jovens aprenderam tais idéias em sala de aula, de modo sutil. Um livro didático com a autoridade que essa condição confere. Uma frase aqui, um conceito ali, uma piada acolá. E as sementes do totalitarismo, do atraso, da tolerância para com a violência, do estado democrático quando convém e do estado de direito à moda do partido, vão envenenando as mentes e conquistando corações. Por fim, esse monumento ao fracasso da educação democrática e pluralista que afirmam defender: Fidel patrono da UNE. Em seu desrespeito para com as respectivas disciplinas, esses novos e burlescos professores não constroem o saber e usam o vazio remanescente para fins torpes. Sempre que comento esse episódio e suas causas, recolho alarmantes relatos sobre o envenenamento cultural nas escolas, cursinhos, universidades e seminários.
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E há, sempre, um denominador comum identificado por D. Valfredo Tepe: a intolerância para com a divergência (“o marxista crê que sabe”, dizia ele), não raro acompanhada de represália nas avaliações dos alunos contestadores (“o marxista falsifica a Fé e a Ciência”, concluía ele).

Quem deseja destruir uma civilização precisa usar um vasto leque de meios. Um deles envolve a própria sexualidade da juventude. Em 2007, o governo Lula lançou, através dos ministérios da Educação e da Saúde, o “Caderno das coisas importantes”, cartilha voltada ao público adolescente sobre temática sexual. A cartilha tratava da atividade sexual como curtição e se preocupava apenas com aspectos relacionados à saúde física: camisinha, gravidez, prevenção de DST, AIDS, e assim por diante. No mais, era “prafrentex”: comparava beijo a chocolate, falava de sexo e suas preliminares como liberação de endorfinas, equivalia o coito a uma “brincadeira a dois”, recomendava seduzir, cheirar, experimentar, e abria espaço para os jovens escreverem sobre suas “ficadas” mais sensacionais. Segundo os técnicos e as autoridades responsáveis, o documento lidava com a realidade da adolescência.

Em palavras amplas e claras, o governo abordava o assunto da mesma forma como, internamente, trata das questões morais: usando e abusando de um realismo cínico, segundo o qual certas coisas são como são, sem cogitar sobre como deveriam ser. Usou camisinha, não adoeceu, não engravidou, tudo bem. Não passou recibo e a imprensa não descobriu, está tudo muito bem.
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Se o governo é um grande parque de diversões, cercado de futilidades, privilégios e luxos de corte francesa, por que não tratar o corpo humano da mesma forma? Os jovens “ficam”? “Fiquemos” com o povão! Se somos irresponsáveis e deseducados para as tarefas de Estado, por que educaremos os jovens para a sexualidade responsável? “Temos que lidar com os fatos como eles são”, proclamam os peritos dessa pedagogia indigna. Ótimo! Os alunos não gostam de matemática? Ensinemos “ficadas”. Foram mal no ENEM? Façam neném. . Detestam temas de casa? Treinem a colocação de camisinha. Congressistas trocam votos por cargos? Cargos para eles.

Se considerarmos o corpo humano como um playground, em relação a cujo uso não incidam restrições, por que evitaremos outras fontes de prazer que ele proporciona? Por que nos recusaremos a quaisquer impulsos? Drogas, vícios, perdições? Diferentemente dos outros animais, perante o desejo sexual, o ser humano pode responder sim ou não. E isso implica importantíssima decisão moral, sendo a adolescência o momento próprio para tal aprendizado. Mas ninguém dá o que não tem. Por outro lado, torna-se fácil compreender, nesse viés, o comportamento de muitos homens públicos, posto que também o poder é fonte de prazeres. E vale o mesmo para outros tantos em relação à conduta predatória determinada pela ganância.

Nossa juventude, precocemente erotizada pela grande mídia, com a vontade fragilizada pela falta de restrições, convivendo com os péssimos exemplos proporcionados por adultos e autoridades, agindo sem medir conseqüências, pede informação, sim. Mas grita por orientação! A natural rebeldia contra os necessários limites não é nem pode ser motivo para sua eliminação. Há palavras duras no Evangelho para a situação de que trato: “Aquele que escandalizar um destes pequeninos (...), melhor seria que pendurasse ao pescoço uma pedra de moinho e se precipitasse na profundeza do mar” (Mateus 18.6). Faltariam pedra nos moinhos.
leonardo_15#20
Mas isso só acontece na escola pública? Claro que não. Quando você, pai, mãe, matricula seu filho numa determinada escola particular, o faz tendo em conta, principalmente, a orientação filosófica ou religiosa que ela segue. Se você for católico, evangélico ou israelita, provavelmente optará por um estabelecimento de igual confissão religiosa. Sua criança, nessa idade, não tem, por exemplo, um miligrama de marxismo no cérebro. É bem provável que já ame o Brasil, creia em Deus, no valor da solidariedade, na dignidade da pessoa humana. Você a ensinou a respeitar a propriedade alheia. Você exerce o direito de ter seu filho educado em fidelidade à fé, princípios e valores que adota e segue.

O ato de levar uma criança a um estabelecimento particular de ensino não implica irrestrita concessão. Tais colégios estão autorizados a educar seus filhos, mas não o estão para manipulá-los, influenciá-los politicamente, ou para lhes fazer a cabeça com idéias que você não quer ver lá dentro. E se eles aparecerem em casa com conceitos exóticos ou marxistas, as escolas deveriam ser processadas com base no Código de Defesa do Consumidor.

É muito freqüente, freqüente demais, que estudantes me façam perguntas ou observações que revelam grande reprovação ao papel desempenhado pela Igreja na história da humanidade. Apegada aos bens, sequiosa de poder, guerreira, sanguinária, corrupta e devassa, ela teria cruzado os séculos fazendo exatamente o oposto daquilo para o que a instituiu Jesus. “Onde vocês aprenderam isso?”, indago, com cada vez menos surpresa. E a resposta é sempre a mesma: “No colégio, ora”. E esse “colégio ora” é, não poucas vezes, uma instituição católica.
leonardo_15#21
Trato de prolongar tais diálogos para repor a verdade: “O que vocês aprenderam sobre Constantino? Ouve alguma aula a respeito do fim do Império Romano do Ocidente e o surgimento da Igreja como instituição central da civilização? O que foi ensinado sobre o Islã, Maomé, Omar e a tomada de Jerusalém, os oito séculos de investidas contra Bizâncio, a invasão da Península Ibérica pelos mouros? Alguém lhes mencionou os mil anos durante os quais o Ocidente sonhou com a restauração da unidade perdida em 453 d.C.?

Nada.

As aulas a respeito das Cruzadas silenciaram sobre os avanços dos cavaleiros de Alá; as aulas sobre a Inquisição nunca referiram a heresia dos cátaros; os alunos jamais ouviram falar sobre os gigantes da Igreja medieval: Agostinho de Hipona, Leão Magno, Gregório Magno, Bonifácio, Tomás de Aquino, Francisco de Assis, Domingos, o colossal Bernardo, a admirável Catarina de Siena – para referir alguns entre centenas de santos e mártires. Nenhuma palavra dita a respeito dos grandes bispos e pontífices medievais, sobre reis e rainhas que chegaram à dignidade dos altares, sobre os hospitais, as escolas, as universidades, as bibliotecas, a vida monástica e a preservação da cultura e da fé!

Alguém pode explicar a mim, que aprendi a amar ainda mais a Igreja exatamente estudando História, como se pode produzir o avesso em escolas católicas? Por que alguns fatos negativos são pinçados e exibidos aos jovens, fora do contexto, sem causa e sem efeito, enquanto se lança no monturo do silêncio todo o imenso bem que ela, mãe e mestra, prestou e presta à civilização e à humanidade? Espero que, no dia do Juízo, esses mestres de pouco juízo não sejam avaliados na mesma balança com que, em aula, julgaram e sentenciaram a Igreja.
leonardo_15#22
É preciso pôr um freio nesse tipo de estupro mental. Se os colégios querem formar marxistas e socialistas, que o informem com clareza. É perfeitamente legítimo fazê-lo. Eduquem assim os filhos dos pais que o desejarem. Mas mudem de nome. Que passem a se chamar Colégio Che Guevara, Faculdade Karl Marx, Escolas Reunidas Mao-Tse-Tung, Curso Técnico Luiz Carlos Prestes. E deixem de usar, para fins impróprios, nomes de santos e de pontífices. Que a sociedade seja pluralista é uma coisa. Outra, bem diferente, é – em nome do pluralismo e da correta recusa a um ensino reacionário – chamarem “libertadora” uma educação que abusa da infância e da adolescência. E que o faz para instilar, com mais afinco do que em relação a qualquer outra coisa, conceitos e valores não desejados pelos pais e contraditórios com sua orientação espiritual e filosófica.

A revista Veja, na edição de 20 de agosto de 2008, publicou reportagem sobre o processo de doutrinação marxista na escola particular brasileira. O texto, das jornalistas Mônica Weinberg e Camila Pereira, tinha como introdução um tema proposto em aula de geografia do Colégio Ateneu Salesiano Dom Bosco, de Goiânia. A turma em questão era formada por alunos às vésperas do vestibular. E o assunto trazido à baila era o uso de chocadeiras artificiais para acelerar a produção de frangos. Transcrevo parte da reportagem.
leonardo_15#23
Alguém diz: “Com as chocadeiras, o homem altera o ritmo da vida pelo lucro”. O professor Márcio Santos vibra. “Você disse tudo! O homem se perdeu na necessidade de fazer negócio, ter lucro, exportar.” E põe-se a cantar freneticamente Homem Primata / Capitalismo selvagem / Ôôô (dos Titãs), no que é acompanhado por um enérgico coro de estudantes. Cena muito parecida teve lugar em uma classe do Colégio Anchieta, de Porto Alegre, outro que figura entre os melhores do país. Lá, a aula de História era animada por um jogral. No comando, o professor Paulo Fioravanti. Ele pergunta: “Quem provoca o desemprego dos trabalhadores, gurizada?”. Respondem os alunos: “A máquina!”. Indaga, mais uma vez, o professor: “Quem são os donos das máquinas?” E os estudantes: “Os empresários!”. É a deixa para Fioravanti encerrar com a lição de casa: “Então, quem tem pai empresário aqui deve questionar se ele está fazendo isso”. Fim da aula.

Segue a matéria: os dois episódios presenciados por VEJA não são raridade nas escolas brasileiras. Ao contrário. Eles exemplificam uma tendência prevalente entre os professores brasileiros de esquerdizar a cabeça das crianças. Parece bobagem, uma curiosidade até pitoresca num mundo em que a empregabilidade e o sucesso na vida profissional dependem cada vez mais do desempenho técnico, do rigor intelectual, da atualização do pensamento e do conhecimento. Não é bobagem. A doutrinação esquerdista é algo que os professores levam mais a sério do que o ensino das matérias em classe, conforme revela a pesquisa CNT/Sensus, encomendada por VEJA.
leonardo_15#24
Na mesma edição, Gustavo Ioschpe publica artigo tratando do assunto e acrescenta, com dados da referida pesquisa:

Quando se discutem as razões pelas quais nosso sistema escolar não consegue ensinar a maioria dos alunos a ler e a escrever ou a realizar operações aritméticas simples, muitos supostos fatores vêm à baila: o salário dos professores, a condição da infraestrutura das escolas, o descaso da sociedade etc. Essa análise parte do pressuposto de que todos os atores do processo educacional estão engajados no mesmo projeto, o que não é verdade. Seguimos ignorando um problema que me parece cada vez mais crucial: o ensino acadêmico é percebido pelos nossos professores como uma tarefa desimportante do processo educacional. Quando instado, em pesquisa da Unesco, a apontar as finalidades mais importantes da educação, o professorado brasileiro disse o seguinte: com 72% dos votos, a campeã foi “formar cidadãos conscientes”. A segunda mais lembrada foi “desenvolver a criatividade e o espírito crítico” (60,5%). Lá atrás, na rabeira, apareceram “proporcionar conhecimentos básicos” (8,9%) e “transmitir conhecimentos atualizados e relevantes” (17%). No mesmo levantamento, 73% dos professores concordaram com a afirmação que segue: “O professor deve desenvolver a consciência social e política das novas gerações”. Cinquenta e cinco por cento rejeitam a ideia de que “a atividade docente deve reger-se pelo princípio da neutralidade política”. Mais de 75% dos professores acham que a igualdade é um valor superior à liberdade. A pesquisa CNT/Sensus publicada nesta edição corrobora esse quadro: só 18% dos professores da escola pública dizem que seu discurso em sala de aula é politicamente neutro. Setenta e quatro por cento escolhem “formar cidadãos” como missão do professor – apenas 8,4% dizem que é “ensinar a matéria”. Os resultados são praticamente idênticos nas escolas particulares.
leonardo_15#25
[. . .]

Relatos que recebo e os testemunhos que recolho dão-me conta de que hoje, em determinados setores do mundo acadêmico, formaram-se feudos ideológicos, sob controle da esquerda e dos partidos que a representam. Ali só tem espaço de difusão e estudo a literatura de base marxista. Ali, em vez daquele sadio e produtivo pluralismo que deve constituir a essência da universalidade, só é admitida vista a partir de um ponto. Ali, os recursos da formação acadêmica, quer sejam tomados dos alunos ou dos contribuintes, são usados como combustível na forja em que se moldam os soldadinhos de chumbo de um único pensamento: o que povoa a limitada concepção dos professores. Ali, o mundo acadêmico, depositário da esperança dos que crêem nas potencialidades do intelecto para superar as dificuldades do presente, é transformado numa confraria para privilégio das raposas que os controlam. Ali, só têm acesso os companheiros da mesma fé, que declamam suas aulas pela mesma cartilha.

Para os fins pretendidos é desnecessário o expurgo ideológico nos exames vestibulares. Basta que, maliciosamente, ele seja conduzido nas bancas dos cursos de mestrado, onde se curtem os couros dos quais sairão as correias do mundo acadêmico.

[. . .]

Percival Puggina
leonardo_15#26
De fato, há tempos eu não lia exposição tão abrangente, em tão poucas laudas, do desastre educacional no Brasil e suas mais graves implicações sociais.

Nos demais capítulos Puggina se concentra noutros elementos do cenário, tais como a insegurança e a impunidade generalizada, laicismo, a histórica infiltração da esquerda na Igreja e os guerrilheiros do aborto.
douglas_5#27
Muito bom...
guilherme_5#28
Ótima análise e leitura muito agradável.
g_orkut_3#29
Muito obrigado, Leonardo! O texto é mesmo indispensável. É assombroso o conteúdo da explanação que o Puggina faz das políticas de educação do PT no RS.
leonardo_15#30
O livro é mesmo sensacional. Se não me policio, acabo transcrevendo-o por inteiro. Vou citar um único parágrafo de humor dum capítulo mais avançado, que aborda a infiltração comunista na Igreja brasileira. Puggina acaba de discorrer sobre os muitos Fóruns Sociais Mundiais e evoca Frei Betto, que, numa dada edição, para plateia lotada de padres e freiras, propusera o "homem novo" como filho de um casamento entre Che Guevara e Santa Teresinha:

"O próprio frei [Betto] é uma excelente fonte de informação para quem se interessa em conhecer os meios usados para transformar o Reino dos Céus no reino dos seus. Ele é o autor popular que melhor representa o pensamento utópico da esquerda no Brasil e quem quiser conhecer a papinha servida aos bebês da utopia comunista deve procurar na cozinha do dominicano. Há jovens esquerdistas que nada têm de idealistas. Mas há jovens esquerdistas idealistas. E o que ele escreve cai no gosto desses bem-intencionados, seduzindo-os para o lado errado da pauta filosófica e política. Frei Betto, como ninguém, põe os ingênuos na cadeia alimentar dos mal-intencionados."
martin_2#31
Obrigado leonardo
Vou imprimir e colocar no mural lá da escola

só pra sacanear os marxistas
g_orkut_3#32
Também espalharei.
leonardo_15#33
Como tivemos divulgados na comunidade dois exemplos típicos, quase extremos, da situação descrita pelo Puggina (o concurso prestado pelo Fito e o vídeo do "professor revolucionáiro"), aproveito para insistir na recomendação desta leitura - e, claro, de todo o livro. Não, eu ainda não cansei de fazer merchandising. =)
massasofrida#34
paulista, traga seu ECA....
leonardo_15#35
O último capítulo do livro é dedicado ao problema institucional brasileiro. No referente ao federalismo, Puggina comenta:

"Por todos esses motivos, bom mesmo é ser reserva indígena. Sob esse maravilhoso estatuto conquistaríamos direitos hoje impensáveis aos estados membros da federação. Disporíamos de livre determinação, inclusive política, e de meios garantidos para financiar nossas funções autônomas. Poderíamos definir nossas próprias instituições, sem prejuízo do direito de participar plenamente da vida política, econômica, social e cultural do Estado brasileiro. Teríamos direito ao ressarcimento de perdas determinadas por atos federais (as perdas da Lei Kandir caberiam direitinho aí dentro). Poderíamos celebrar acordos internacionais e exigir da União o nosso prévio consentimento para quaisquer medidas federais que envolvessem nossos interesses. E teríamos assegurado o direito de aproveitar, como bem quiséssemos, a totalidade dos recursos (inclusive de subsolo!), disponíveis em nossa, digamos assim, reserva."
ciro#36
Sobre o livro aprovado pelo MEC "Nova História Crítica do Brasil - 500 anos de História mal contada", de Mário Furley Schmidt:

http://www.monarquia.org.br/reeducar/protesto.htm.
leonardo_15#37
Puggina produz excelentes sínteses com admirável freqüência, mas esta vale nova reprodução integral na comunidade por sua abrangência. Segue:

ESTÁ TUDO DOMINADO

O sujeito me parou na rua: "Cadê os caras-pintadas? Cadê os caras-pintadas?" A mão no meu peito parecia disposta a impedir qualquer possibilidade de que a pergunta ou o perguntador fossem driblados. Era preciso responder. Respondi: "Você não está querendo sugerir que os caras-pintadas expressavam espontaneamente uma sentida revolta popular, está?". Ele me olhou surpreso: "Como que não? Como que não?". Em sua indignação ele dizia tudo duas vezes. Acho que uma para si mesmo e outra para mim.

Tentarei resumir o que falei àquele meu interlocutor. Ele não sabia que contingentes expressivos de caras-pintadas saíram às ruas para derrubar o Collor, não só porque ele forneceu motivos, mas, principalmente, porque faziam parte de uma grande corrente aparelhada pelo PT e seus parceiros, ou foram por ela levados a pintar o rosto.

Há muitos anos, desde antes da nossa redemocratização, teve início um processo revolucionário, de ação gradual, mediante infiltração e ocupação de espaços para tomada do poder através da cultura. Não foi e não é um fenômeno apenas brasileiro ou latino-americano. Trata-se de algo que aconteceu e segue acontecendo em todo o Ocidente. O Foro de São Paulo organiza o trabalho na América Latina e no Caribe e o Brasil é um dos casos de sucesso. A revolução é cultural, mas o objetivo é político: a esquerda no poder, para ficar.

A melhor maneira de mostrar o que aconteceu é adotar como ponto de partida não uma sequência cronológica de fatos, mas exibir a obra já feita, o produto acabado, porque não há consequência sem causa. Não há laranja sem que tenha havido laranjeira. Não há corrente sem que elos sejam criados e unidos. Não há hegemonia sem construção de hegemonia.
[...]
leonardo_15#38
Vamos, então, às laranjas. Recentemente, houve eleição para o sindicato dos professores do Rio Grande do Sul. Digladiaram-se três chapas, sendo duas encabeçadas por petistas. A eleição se travou no que deveria ser o pior período possível para essas duas chapas. O magistério estadual acabara de ver frustradas as expectativas de que o governo Tarso fosse atender as exigências que seu partido, em coro com as lideranças classistas, fazia aos que o antecederam no Piratini. Calote puro e simples. Não bastante isso, o PT estava, nesses mesmos dias, adicionalmente, elevando a alíquota de contribuição previdenciária de todos os servidores com vencimentos superiores a R$ 3,6 mil. Pois o pacote de maldades em nada afetou o alinhamento ideológico do magistério público. As duas chapas de esquerda perfizeram mais de 90% dos votos! Por quê? Porque para gente bem doutrinada o projeto político subordina tudo e todos.

Com raras, raríssimas exceções, quando contemplamos, em visão de conjunto, a educação nacional, pública ou privada, leiga ou religiosa, em todos os níveis, a situação é a mesma. Através da Educação e seus agentes, já nas salas de aula do ensino fundamental, a hegemonia vai subindo os degraus do sistema, envolvendo professores e alunos. Não é por acaso que a UNE vem sendo comandada pelo PCdoB desde quando o Aldo Rebelo era adolescente. A porta de entrada dos cursos de pós-graduação raramente não inclui uma banca com o poder de filtrar as ideias que ganharão assento nas salas de aula. Daí para o domínio das carreiras de Estado, dos concursos públicos, e até mesmo de suas provas, não vai mais do que um passo de dedo.

Assim, aos poucos, as teses da esquerda foram vestindo toga e chegaram aos tribunais. Primeiro, como vozes discordantes. Mais tarde, nas câmaras, os desembargadores comprometidos com a revolução pela cultura perdiam por 2 a 1. Depois, inverteram o placar. Aos poucos, passaram a controlar os Plenos. Chegaram aos tribunais superiores. Hoje dominam o STF.
[...]
leonardo_15#39
Mais laranjas da mesma laranjeira podem ser contempladas na mídia. Os textos que saem das redações, as pautas, os enfoques, as análises servem notavelmente à revolução através da cultura. Direita não presta, conservador é nome feio, as religiões são culpadas por todos os males, católicos são seres desprezíveis. Pouco importa que a posição editorial seja diferente quando a informação, o comentário, o tópico mais lido, a manchete que resume a matéria, o tom de voz do locutor experiente, a imagem selecionada para ir à tela, afirmam num outro viés. Na televisão, a hegemonia da Rede Globo facilitou o projeto, mormente no que se relaciona com o enfraquecimento da instituição familiar, a lassidão dos costumes, a agenda gay, a ridicularização da religião e dos valores ainda apreciados pela sociedade.

Mesmo que escrutine os escaninhos da memória, não é de meu conhecimento instituição mais una do que a Igreja Católica, ao menos nos últimos cinco séculos. Pois esse baluarte foi rompido internamente por dissensos ideológicos promovidos pela mesmíssima revolução através da cultura. Não há o que os dois últimos pontífices tenham afirmado desde 1978 que seja capaz de afastar a CNBB, a maioria dos bispos, padres e seminaristas da herética Teologia da Libertação (TL). Nada nem ninguém prestou melhor serviço à hegemonia da esquerda do que a TL quando substituiu o pobre dos Evangelhos pelo excluído em nome do qual ela se proclama formulada. O pobre dos Evangelhos é objeto da caridade cristã, da virtude do amor ao próximo. O excluído da TL é parte ativa de um projeto revolucionário. Serviço feito.

Eu poderia prosseguir, apontando obviedades como a hegemonia exercida sobre os sindicatos e suas centrais, os movimentos sociais, a Justiça do Trabalho, a maior parte dos conselhos profissionais e suas confederações, as associações de bairro, e por aí afora. Mas não creio que seja mais necessário. Já provei o que queria. Note-se: tudo isso foi feito antes de Lula chegar lá.
[...]
leonardo_15#40
Quando ele chegou, completou o serviço promovendo o encontro de todas essas estruturas - que o PT chama de "sociedade civil organizada" (por ele, claro) - com a brutal concentração de poderes que constitucionalmente convergem à pessoa do presidente e ao seu partido: chefia simultânea do Estado, do governo e da administração, das estatais e fundos de pensão; comando das principais fontes de financiamento interno (BB, BNDES, CEF), de 24% do PIB nacional, de poderosas e polpudas contas de publicidade capazes de excitar favoravelmente parcela expressiva da mídia; poderes para legislar por medida provisória, nomear ministros dos tribunais superiores, conceder e renovar concessões de emissoras de rádio e tevê, criar e distribuir cargos e favores.

Se o partido do governo detém tal poder e, simultaneamente, controla tudo que está organizado na sociedade, de onde, raios, poderão surgir os caras-pintadas? Das piedosas senhoras idosas da hora do Ângelus? Do clube de mães da vila Caiu-do-céu? O que podem eventuais organizações não alinhadas, dispersas e desprovidas de qualquer poder, contra quem coloca quatro milhões de militantes numa Parada Gay?

Nesse ponto, meu interlocutor já queria ir embora e era eu que o travava colocando a mão sobre seu peito. "Mas ainda existe a oposição! Ainda existe a oposição!", bradou, por fim, em sua desesperada dose dupla de santa ira. "Oposição? Não há oposição política no mundo capaz, neste momento, de sequer arranhar a teflon da máquina hegemônica petista. A blindagem não é do Palocci, da Erenilda, do Lula ou do filho do Lula. O que está blindado é o projeto revolucionário, o projeto de poder. É de setores do próprio PT que surgem, eventualmente, problemas para o PT. E quando a oposição política mais forte leva o nome de "dissidência", é porque está tudo dominado e o totalitarismo está instalado". Quod erat demonstrandum.

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