Oferecemos aos leitores um panorama introdutório sobre a situação da igreja evangélica na Alemanha. Os autores do texto que são: Matias Heidmann, Bacharel em Teologia pelo Martin Bucer Seminar, na Alemanha, membro da Igreja Batista do Morumbi, em São Paulo, onde dirige um grupo de estudo bíblico nos lares; e Gutierres Fernandes Siqueira, Bacharel em Comunicação Social, membro da Assembleia de Deus no Jardim das Pedras, em São Paulo, editor do blog Teologia Pentecostal.
Cristianismo na Alemanha: desilusão ou esperança?Matias Heidmann e Gutierres Siqueira
O livro Schluss mit Lustig (Chega de diversão), do apresentador de televisão Peter Hahne, foi o “bestseller do ano” da lista dos livros de não-ficção mais vendidos da revista alemã Der Spiegel em 2005. A obra vendeu oitocentos mil exemplares na Alemanha. Ao invés de tratar temas como autoajuda, crise econômica ou outros, que tanto fazem sucesso em terras brasileiras, esse livro é uma crítica à alienação da sociedade alemã (“Spassgesellschaft”, isto é, a sociedade de entretenimento) de uma perspectiva cristã conservadora.
Peter Hahne não é apenas uma das estrelas da TV aberta alemã, moderando programas de cunho jornalístico, mas também um bem-sucedido escritor de livros que fazem apologia ao cristianismo bíblico. Hahne é luterano praticante e membro do conselho da “Evangelische Landeskirche” (igreja protestante alemã estatal, formada por igrejas luteranas e reformadas). Ele já vendeu mais de seis milhões de seus diversos livros e ainda é colunista do principal jornal popular da Alemanha, o Bild am Sonntag, na sua edição de domingo. Um dos seus artigos dominicais trouxe como título “A Bíblia é mais emocionante que um romance policial”. Segundo a Der Spiegel, “as pessoas leem Hahne, pois não entendem Ratzinger”.
O economista-chefe do Deutsche Bank, o maior banco da Alemanha, Dr. Norbert Walter, católico praticante, exortou os alemães a seguirem uma ética e moral bíblica em suas vidas. “Devemos orar e trabalhar”, diz em desafio aos cristãos. “A igreja representa apenas um cristianismo de cereal matutino e deveria voltar à prática do cristianismo bíblico”, disse o economista. O discurso pode ser visto na Katholische Nachrichten. Em um debate de televisão com a bispa luterana Margot Kässmann, foi o Dr. Norbert Walter que fez menção da importância da Bíblia para construção de uma sociedade sadia, cuja base é a família.
Em recente discurso perante a União Democrata-Cristã (Christlich-Demokratische Union, CDU), a chanceler Angela Merkel, filha de um pastor luterano na antiga República Democrática da Alemanha, falou aos membros do seu partido político: “Não temos muito Islã na Alemanha, temos pouco cristianismo. Temos poucas discussões sobre a visão cristã da humanidade”. Merkel ainda defendeu a liberdade religiosa como um valor universal, destacando que a Alemanha está inserida numa tradição judaico-cristã. Seu discurso foi acompanhado por aplausos entusiasmados.
A voz profética desses profissionais destacados, cristãos convictos, é ouvida na Alemanha por meio de publicações, congressos e dos meios de comunicação. Mas em um país onde até um jornal secular lamenta que o evangelho somente é pregado quando o “Weihnachts-Oratorium” (Oratório de Natal) de Johann Sebastian Bach é cantado, devemos perguntar: Qual é o papel da igreja evangélica na proclamação das verdades bíblicas na terra da Reforma Protestante?
A Alemanha é um país onde aproximadamente 85% da população considera-se cristã. Muitos são membros da “Evangelische Kirche” e da “Katholische Kirche” (igreja católica alemã). Ambas são estatais, sendo que pastores e padres são funcionários públicos e os cursos teológicos protestantes e católicos são oferecidos pelas grandes universidades alemãs. A forma de cristianismo é predominantemente nominal, com exceção de algumas iniciativas conservadoras, como o movimento pietista dentro das igrejas luteranas no sul do país. Entre as igrejas estatais há grupos que colocaram no estatuto de suas igrejas que querem pastores convertidos para a direção da comunidade. Ambas as igrejas lamentam o crescente número de pedidos de desligamento dos seus membros. Apesar de muitos professarem o cristianismo, esses mesmos acham que a igreja não é relevante. É a privatização da fé, resguardada na individualidade, sem manifestação social. Uma vez desligados da igreja, o ex-membro fica isento do imposto da igreja (“Kirchensteuer”).
Pouco notadas ainda pela população são as igrejas de denominações independentes, como Batistas, Pentecostais, Metodistas e Evangélicas Livres. É difícil fazer uma estimativa de quantos membros ativos essas igrejas possuem. Estima-se que aproximadamente 2,5 milhões de pessoas na Alemanha consideram-se “evangelicais” (“Evanglikale”), sendo membros das denominações acima mencionadas ou de outros grupos independentes. Também é difícil mencionar o que cada grupo crê e faz. Destacamos então três grupos distintos:
• Igrejas russo-alemãs (“Russlanddeutsche Christen”, “Evangeliumsbaptisten”)
• Igrejas carismáticas e pentecostais
• Uma igreja independente/reformada em Hamburgo
Quando a ditadura socialista no bloco leste europeu foi derrubada no final dos anos 1980, as fronteiras foram abertas e muitos emigraram para a Europa Ocidental. A Alemanha tem, desde então, recebido aproximadamente trezentos a quatrocentos mil cristãos “evangelicais” da antiga União Soviética. Muitos são descendentes de alemães e são chamados de “cristãos do Evangelho” (“Evangeliumschristen”) ou “batistas emigrantes” (“Aussiedlerbaptisten”), um termo, porém, bastante equivocado. Formaram igrejas independentes, no início culturalmente fechadas e bastante legalistas. Os grupos também são fechados em relação a igrejas denominacionais, estatais e principalmente pentecostais.
Aos poucos, a nova geração que cresceu na Alemanha foi tomando conta dessas igrejas e hoje muitas se destacam por um forte crescimento e ênfase no ensino bíblico. A maioria das igrejas mencionadas é conduzida por um corpo de presbíteros. Quase não há obreiros que são sustentados pelas igrejas, pois a maioria dos dirigentes são profissionais liberais. Impressionante é a formação teológica dos mesmos, que se dá em seminários noturnos ou nos finais de semana. Alguns dos pregadores leigos são bons conhecedores do grego e do hebraico.
Igrejas carismáticas e pentecostais
As igrejas pentecostais e carismáticas estão crescendo na Alemanha. Estão tomando o lugar de denominações mais tradicionais. Com seu culto mais espontâneo, música moderna e pregadores que falam a linguagem do povo, eles atraem principalmente jovens. Também muitos imigrantes cristãos da África e Ásia são pentecostais, contribuindo para o crescimento dessas igrejas.
A “Glaubensgemeinde” (Igreja da Fé) em Stuttgart, liderada por Peter Wenz, possui quatro mil frequentadores por fim de semana, sendo a primeira mega-igreja na secularizada Alemanha. Outras igrejas carismáticas de destaque são a “Elim” em Hamburgo, o “Christuszentrum” em Frankfurt e o “Missionwerk” em Karlsruhe. Também a denominação batista tem uma forte representação carismática ao lado das linhas tradicional e liberal.
Enquanto isso, na distante Nigéria, o incansável evangelista alemão Reinhard Bonnke prega o evangelho para uma audiência de um milhão de pessoas. “Africa shall be saved!” (“a África será salva”), diz o evangelista, falando inglês com forte sotaque alemão. Os cristãos africanos amam Reinhard Bonnke. Ele prega uma mensagem pentecostal clássica. Bonnke é considerado o Billy Graham alemão. Na África é conhecido pessoal de muitos líderes de nações e trabalha com as diversas denominações cristãs. Apesar de ter sua base em Frankfurt, Bonnke é conhecido e respeitado somente entre os carismáticos de sua própria nação.
Em meados dos anos 1990, Bonnke escreveu um pequeno livro evangelístico chamado Vom Minus zum Plus (Do menos para o mais) e enviou pelo correio a todos os lares na Alemanha. Esperava-se que muitos dos que receberam o livro procurariam uma igreja parceira do projeto. Infelizmente, o evento bem-intencionado foi pouco notado pelos alemães, que devem ter confundido o livro com a propaganda de uma seita e jogado diretamente no lixo.
Mas cruzadas evangelísticas, como as de Bonnke na África, não são bem sucedidas na Alemanha. Acabam sendo frequentadas somente pelos crentes. Por esse motivo, o potencial da evangelização está na igreja local e na sua atuação. Enquanto que muitas igrejas preocupam-se em manter a tradição de seus cultos e cultivar a vida restrita na igreja, outras procuram formas novas e contextualizadas para alcançar o povo alemão.
Casas de chá cristãs, discotecas cristãs, worship nights (noites de louvor), comunidades alternativas para punks e metaleiros são algumas das variantes. As iniciativas são bem intencionadas, porém, no fervor evangelístico, o discipulado é negligenciado. Solteiros e jovens são atraídos por essas iniciativas, mas para garantir um futuro crescimento e a vida cristã de qualidade é necessário que os interessados sejam devidamente instruídos na doutrina básica da fé cristã.
Igrejas Luteranas, quando lideradas por pastores bíblicos conservadores, são um ótimo meio de alcançar a população, já que a igreja luterana faz parte da cultura alemã. Mas, infelizmente, são poucas as igrejas luteranas com pastores verdadeiramente convertidos.
À procura de modelos de igreja
Enquanto que o modelo de igreja em células do coreano Yonggi Cho era muito propagado nos anos 1980 como segredo para o crescimento da igreja, já nos anos 1990 uma onda de modelos americanos foi implantada pelas igrejas evangélicas independentes, desesperadas para alcançar maior impacto e significância na sociedade, onde ainda eram consideradas seitas fundamentalistas. Os modelos Willow Creek (Bill Hybels) e Saddleback (Rick Warren) foram copiados principalmente por igrejas batistas, algumas carismáticas e até algumas comunidades luteranas. Enquanto isso, pentecostais estavam fascinados com a tal benção de Toronto e o avivamento de Pensacola (Florida), perdendo o foco evangelístico em nome de um aparente modelo de avivamento bizarro, produzido por homens.
Infelizmente, os modelos importados não deram certo. Ao contrário, os modelos levaram a frustração e muitos líderes estavam no final totalmente esgotados. Hoje, muitas igrejas que sobreviveram as “ondas” estão buscando maneiras mais bíblicas para edificação da comunidade.
Enquanto que nos anos 1990 a maioria dos pentecostais estava sendo atraídos pelos novos (e bizarros) fenômenos norte-americanos, uma igreja pentecostal na cidade de Hamburgo começou a trilhar um caminho bem diferente. O pastor Wolfgang Wegert, reconhecido ministro pentecostal com pregação direta e cristocêntrica, teve uma crise profunda e estava a ponto de desistir do ministério tão bem sucedido. A sua igreja, Arche (a Arca) é uma das igrejas que mais crescem na secularizada cidade de Hamburgo. Mas a crise foi teológica, pois Wegert não quis entregar-se a esses movimentos que vem e vão. Ele queria ver uma mudança real e contínua na igreja, além de uma igreja forte na doutrina e no poder do Espírito Santo. Nesse momento de crise foi levado a ler o livro O Spurgeon esquecido, de Iain Murray (PES). Descobriu então não mais um modelo de igreja, mas uma parte da teologia que não conhecera antes. Um pastor pentecostal abraçou o calvinismo. Na igreja não aconteceram mudanças de liturgia ou estrutura, mas a pregação tornou-se reformada em seu conteúdo. Hoje a igreja faz contatos com calvinistas nos Estados Unidos, já que a fé reformada é pouco presente nas denominações evangélicas na Alemanha. Uma interessante entrevista com os Wegerts pode ser assistida em inglês no Youtube.
Quinze anos depois, a Arche é uma igreja reformada livre, bem estruturada, abrigando um campus do seminário reformado Martin Bucer Seminar, crescendo em número e usando a televisão como meio de propagar o evangelho e com trabalhos de ajuda humanitária em diversas nações do mundo, incluindo Brasil e Índia.
No final de 2010, Wolfgang Wegert passou a direção da igreja para o seu filho Christian Wegert, engenheiro por profissão e pastor por vocação, como seu pai. Christian foi formado pelo Pastors College da Sovereign Grace Ministries, em Gaithersburg, Maryland (EUA), e tem o desafio de consolidar o curso reformado da igreja e levar a mensagem da livre graça de Deus além das fronteiras da igreja.
Conclusão
A igreja na Alemanha ainda está viva. Diversas inciativas, mesmo que em estágio imaturo, são ferramentas que Deus está usando para alcançar a população. Profissionais destacados como Peter Hahne e Norbert Walter, mencionados no começo, são apenas dois exemplos de cristãos que têm acesso aos lares alemães. Há muitos políticos, artistas e cientistas que confessam publicamente o cristianismo bíblico.
O exemplo da igreja Arche serve para mostrar que os alemães estão famintos para receber a boa semente do evangelho. O problema é que a igreja alemã, pensando que tinha que adaptar sua mensagem ao Zeitgeist deixou de ser relevante. A Arche é uma prova que quando a igreja prega a Bíblia e suas verdades centrais torna-se uma igreja relevante. Que Deus conceda um avivamento verdadeiro e que muitos alemães encontrem novamente o caminho da vida.
Com certeza, esperança, embora os cristãos autênticos estão se tornando Hospedes do Desencanto, mesmo sabendo que DEUS, segundo São Paulo, tem seus remanescentes.