adquiri recentemente a História da Literatural Ocidental do Carpeaux e notei que J. R. R. Tolkien não faz presença no índice onomástico de autores. Procurei também seu nome em algumas páginas (ainda não o li inteiramente) e não encontrei nada.
Pensando que Carpeaux não viesse a conhecer Tolkien pelo contraste de tempos, procurei outros nomes que são contemporâneos do inglês, como Lewis e Chesterton, mas todos se fizeram presentes.
Segundo pesquisa rápida aqui, Os Senhor dos Anéis foi publicado em 1954-55 e a obra de Carpeaux em 1947. Entretanto, na obra comentada que tenho aqui, diz que a primeira edição é de 1959 (O Cruzeiro). E, pelo o que eu saiba, a segunda edição (Alhambra) é de 1984.
Não sei se o Senhor dos Anéis foi bem recebido de início. Já li que algumas críticas o consideram "juvenil". Parece que depois ainda virou símbolo dos hippies "LSD" americanos, que viajavam lendo os livros, fato que teria desagradado bastante Tolkien.
Tanto o caráter infantil da obra, como diz o Mateus Minuzzi, quanto o estilo do Tolkien foram condenados pela crítica da época. É possível que o Carpaeux o tivesse ignorado mesmo.
Eu comprei na livraria do Senado. Tem que ficar de olho, pois nem sempre eles estão disponíveis.
Sobre Tolkien, apenas li O Hobbit e achei fascinante o modo como ele cria um mundo novo e apresenta detalhes dele. Já li a respeito que suas obras são fortemente influenciadas pela filosofia de Sto. Agostinho.
Pois e xara, vamos ver agora como a situacao esta critica. Que tal voce listar os autores citados para poder vermos suas obras e biografias. Assim podemos compara-las com Tolkien.
No caso, acredito que a questao e que Tolkien e literario, Chesterton e Lewis filosofos.
Li O Hobbit, a trilogia Senhor dos Anéis e O Silmarillion.
O O Silmarillion é o melhor, na minha opinião.
É como se fosse o Antigo Testamento, a criação daquele mundo.
Penso que o motivo para a não inclusão de Tolkien foi o pouco reconhecimento que sua recente obra tinha alcançado no momento em que Carpeaux escrevia seu livro. De fato, até mesmo hoje, em círculos acadêmicos é ainda pequeno o reconhecimento de Tolkien - são poucas as teses e raros os artigos de qualidade escritos sobre tal autor.
Geralmente o que se conhece de Tolkien é apenas a superfície do seu trabalho, que está à mostra em seus romances. Para quase todo mundo, aquilo é o suficiente. Mas quando se começa a pesquisar DE ONDE o cara tirou aqueles cenários ficcionais, dá para notar que ele quis realmente criar uma mitologia artificialmente. Essa é uma das iniciativas literárias mais ambiciosas que o Ocidente já presenciou. O problema é que Tolkien faz pouquíssimo sucesso entre acadêmicos e há relativamente poucas análises críticas de suas obras. Essas pessoas maravilhosas preferem discutir o que James Joyce quis dizer com o neologismo bhabhabhabamonga, que consta no "Finnegan's Wake".
Pelo que eu estudei de História da Literartura, J.R.R. Tolkien deve ser classificado como um romântico nacionalista, e como o representante tardio de uma corrente que se extingiu na metade do século XIX. Ele declarou várias vezes que pretendia inventar um folclore só para a Inglaterra.
PS. A fama de Tolkien vem sendo continuamente prejudicada por nerds jogadores de RPG. A única solução para esses senhores, ao que parece, é mandá-los para a Carverna do Dragão, onde serão fulminados por Beholders.
Li o Silmarillon e O Hobbit. É literatura de alto nível sim. Não são romances e nem apresentam um grande drama de um personagem que se arrastam pelo livro inteiro, é mais uma história, parece que você está ouvindo um bom contador de história, de uma história fantástica e realmente interessante.
Estilisticamente Tolkien é simples, frases sem rebuscamentos, poucas palavras difíceis de se enteder, ritmo rápido, mas detalhado o suficiente para impressionar profundamente. A dificuldade, principalmente no Silmarillon, é entender e gravar na memória todas aquelas palavras e termos que ele criou especialmente para a "mitologia" que ele quer contar.
Aí está um grande mérito de Tolkien, que não só criou termos, mas criou várias línguas para o mundo que inventou, isto, que eu saiba, nenhum ficcionista fez (ele não só inventou novas palavras, como no livro Laranja Mecânica,etc, mas criou alfabetos e quase um idioma). Há grupos na internet que estudam essas línguas criadas por ele (quenya, sindarin, tengwar).
Se procuram boas histórias, leiam Tolkien. Mas se procuram grandes dramas humanos e pessoais, leiam algum grande romancista.
Certa vez li um artigo - não lembro o nome nem onde constava - em que se dizia que Tolkien, quando da construção de toda a sua enorme e detalhadíssima mitologia, tinha como prumo criativo imaginar os manuscritos daquela sua imensa história sendo realmente descobertos em alguma exploração.
Tolkien era um gênio. Para escrever o Senhor dos Anéis, por exemplo, pesquisou a fundo a mitologia nórdica, etc. Criou uma língua élfica baseado, salvo engano, no idioma finlandês.
Pergunta: Ninguém mais se interessou em publicar essa obra do Carpeaux? Os livros que ainda existem são vendidos em sebos a um preço proibitivo.
A influência do finês se deu na criação do idioma alto-élfico, o quenya. Além disso, uma das fontes da mitologia de Tolkien foi o célebre poema épico finlandês, o Kalevala. Este poema daria a inspiração direta para a criação do personagem Túrin Turambar, que aparece no Silmarillion e no Narn i hin Húrin.
Ale,
Grave engano. A obra de Tolkien denota uma preocupação teológica e filosófica, no mínimo, comparável a do próprio C.S.Lewis, de quem Tolkien foi amigo e responsável por sua conversão ao cristianismo. Entretanto, à diferença da obra de Lewis, na qual se faz um uso sistemático de alegorias, Tolkien sempre evitou utilizá-las pois tinha uma concepção da arte como "símbolo" e um desprezo consciente pela alegorização.
Esta concepção, aliás, foi uma das razões para ter pouco apreciado a ficção de Lewis, ao passo que este sempre foi um leitor entusiasta do amigo e um resenhista generoso dos seus livros.
A ligação mais explícita entre ficção e preocupações filosóficas e teológicas pode se encontrar nas Letters, bem como no ensaio "On fairy stories", ambos já traduzidos para o português.
É uma classificação correta, mas genérica demais. Acho que se pode ser mais preciso. De fato, Tolkien não se encaixa perfeitamente em nenhuma "escola" identificável na literatura anterior, porém aproxima-se dos pré-rafaelitas ingleses e dos contistas de contos de fadas como Andrew Lang e MacDonald.
Sua obra pode ser encarada como a tentativa de recontar o do conto de fadas tradicional em uma dimensão mais vasta e complexa. O "belo mundo" - Faerie - é o mesmo mundo no folclore e na mitologia, e é sobre este mundo e nada mais que versa a obra de Tolkien.
Um dos estudiosos que tem mais se esforçado por habilitar academicamente a literatura de Tolkien é o filólogo Tom Shippey. Vale a pena procurar por seu trabalho.
Em vida, Tolkien teve alguns adversários de peso como Edmund Wilson. Mas, teve entusiastas de grande relevância na literatura dita "séria" como W.H.Auden, que foi seu aluno. E, se convêm conferir a resenha antipática de Wilson, por outro lado, não creio que o juízo literário de um Auden deva ser menosprezado.
Acabei de fazer o pedido do livro do Carpeaux. Eu havia tentado há cerca de 1 ano e, salvo engano, estava esgotado. Agora, com este tópico, lembrei de que queria adquiri-lo.
P.S: Ortodoxia do Chesterton é uma dádiva dos Céus.
Carpeaux era bem informado sobre o que se passava no mundo das letras. É provável que ele conhecesse o enredo da obra de Tolkien pela leitura dos suplementos literários da época. Se ele não o citou em sua 'História da Literatura Ocidental' foi ou por não a ter lido ou por não a considerar importante. Acredito mesmo que o tipo de enredo do 'Senhor dos Anéis', envolvendo magos, elfos, hobbits, etc., tenha afastado Carpeaux. É uma pena! Tolkien, a seu modo, é muito bom. Mas é natural que os críticos - mesmo os grandes como Carpeaux - cometam seus delizes.
Uma pequena correção a um dos colegas: Carpeaux era austríaco de nascimento e dono de uma gigantesca erudição, como se comprova pela leitura da 'História' - conhecia diversas línguas e literaturas e quando chegou ao Brasil, com 40 anos de idade, já tinha lido quase tudo que importava. No Brasil aprendeu a língua portuguesa e completou seu conhecimento literário lendo Camões, Gil Vicente, Eça de Queirós, Machado de Assis, Joaquim Nabuco, etc. Por isso, aliás, eu acho duvidoso que ele nunca tivesse ouvido falar de Tolkien e sua obra. Mas é provável que tenha torcido o nariz diante de algo tão romanesco quanto o enredo do 'Senhor dos Anéis'. Novamente, uma pena!
Não sei, não, Alexandre...
Se não o mesmo estaria valendo para as fábulas de Esopo ou para qualquer outro livro, já que são apenas histórias inventadas.
Tudo bem que nada do que Tolkien descreve realmente existe, mas o importante não seria o front, seja em qualquer obra (talvez exceto as do Romantismo hehe).
Pois é, Orlando, pode ser que o Carpeaux considerasse a obra de Tolkien como fruto fora-de-época do romantismo vitoriano, do qual ele parecia não gostar muito. Mas é só especulação minha. Pode ser que ele nem tenha ouvido falar do 'Senhor dos Anéis', mas isso acho duvidoso. Carpeaux tinha acesso aos principais suplementos literários americanos e europeus, bem como à revistas literárias importantes da época.