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Dialética, Ciência, Metafísica

Iniciado por pedro_9 em 22/01/2011 · 5 mensagens

pedro_9#1
Caros,

Estou fazendo esforços enormes para resolver o problema de separação entre três espécies de conhecimento humano: a arte, a ciência e a sabedoria. Depois de ouvir uma aula do Luiz Gonzaga (filho do Olavo), decidi apresentar esse esquema provisório, que está em desacordo com o que ele explicou. Em compensação, está mais próximo do que os escolásticos expõem sobre o assunto.

Aí vai:

Ciência é o conhecimento demonstrado (1a definição).
Ciência é o conhecimento das coisas necessárias por suas causas (2a definição).

O procedimento científico parte de princípios, para deles deduzir teoremas ou juízos a respeito dos objetos estudados, os quais serão demonstrados apoditicamente. Tanto os princípios quanto as conclusões da ciência são CERTAS, INEGÁVEIS e portanto não "evoluem", nem precisam de alterações com a chegada de novos fatos observados. Teorias como 3a Lei de Newton, que foi modificada depois da Mecânica Relativística NÃO não entram nessa classe. Teorias NÃO são teoremas!

Existem três espécies de princípios:
1) Os AXIOMAS, ou primeiros princípios da demonstração, são válidos para todas as ciências. São proposições evidentes por si mesmas e conhecidas por seus próprios termos (ex: "O todo é maior que a parte"). A proposição que contradiz um axioma é autocontraditória.

2) Os POSTULADOS são proposições que podem ser admitidas como verdadeiras ou como falsas, mas não podem ser demonstradas e não são auto-evidentes. Há um corpo de postulados específico para cada ciência. Ex: "dois pontos definem uma linha reta".

3) As DEFINIÇÕES são proposições do tipo "A é B", que podem ser re-escritas como "B é A", sendo que A é o termo definido e B, o conjunto de termos definidores. Ex: "Homem = Animal racional; Animal racional = Homem "

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Metafísica é a ciência que trata dos primeiros princípios, e que parte deles em suas demonstrações. As outras ciências partem dos postulados.
pedro_9#2
Cabe ao metafísico, E NÃO AO CIENTISTA, a descoberta de uma essência e a formulação de uma definição que a expresse. Os cientistas apenas aceitam as definições encontradas pelo metafísico. Essa é uma diferença importante, que o Luiz deixou passar. Nenhum físico tem a menor obrigação de saber o que é uma carga elétrica, por exemplo. Essa exigência não tem sentido.

Também cabe ao metafísico a descoberta dos axiomas e a ampliação do número de axiomas conhecidos. Aristóteles é bastante realista ao dizer que isso é quase divino, e que o ser humano só chega nesse grau depois de ralar muito. Para o Estagirita, a Metafísica deve ser chamada de ciência, pois contém demonstrações lógicas, mas também deve ser considerada como uma sabedoria.

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Arte, ou técnica, é um modo de conhecimento das coisas contingentes (aquelas que podem ser de uma maneira ou de outra, como as atitudes humanas), que só atinge OPINIÕES PROVÁVEIS, e não verdades. Um técnico pode avançar o quanto quiser no conhecimento de seu objeto de estudo, mas não chegará à certezas como as de um cientista. A técnica, contrariamente à ciência e à metafísica, não tem princípios. No lugar de teoremas, ela conta com opiniões respeitáveis ou asserções (em grego: endoxa), e no lugar de demonstrações rigorosas, chega apenas no nível da argumentação, a favor ou contra uma asserção (também chamada de hipótese ou tese).

O técnico não tem interesse genuinamente especulativo, e sim operativo ou prático. Ele deseja encontrar um MÉTODO para testar a hipótese no mundo real, aplicando o seus conhecimentos prováveis. Os resultados desse teste serão traduzidos em ARGUMENTOS contrários ou favoráveis à asserção, que pode ser eventualmente derrubada. Um exemplo de asserção é a célebre e pretensamente científica... 3a Lei de Newton!

Do ponto de vista aristotélico, chamar uma técnica (tekhné) de ciência (episteme) é sinal de burrice ou perversidade. Ele trabalhou como um cachorro para demarcar o campo da técnica.
pedro_9#3
O velho macedônio, aparentemente, também distingue as opiniões prováveis das verossímeis. As últimas se referem a coisas individuais, e não pertencem à técnica, mas sim à oratória. Ex: "Pedro Sampaio escreve confusamente", esta é uma opinião verossímil; "Todas as civilizações decaem após crises culturais", esta é uma opinião provável.

Para Aristóteles, NÃO há ciência dos fenômenos "infra-lunares", p. ex: terremotos, mudança das marés, formação do arco-íris, deslocamento dos corpos. Só é possível formar juízos prováveis sobre esses fenômenos, e esse juízos podem se aproximar da realidade indefinidamente, sem jamais alcançá-la. Um estudioso do Estagirita chamado Proclo disse que só os deuses têm certezas sobre nosso planeta.

Aí eu faço uma pergunta aos leitores de Aristóteles: então as ciências naturais são técnicas?

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Há uma arte muito valiosa, que merece ser citada: a Dialética. É justamente a arte de ENCONTRAR princípios, mediante o confronto argumentativo de teses opostas. Uma vez achados esse princípios, eles podem conciliar o conflito.

Aí eu faço outra pergunta: a dialética atinge os princípios primeiros e as essências, ou somente novas opiniões provisórias?

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Bem, gente, é isso aí. Espero que aproveitem!
pedro_9#4
Popper confundia técnica com ciência. TODOS os nominalistas fazem isso, pelo simples fato de não entenderem, ou odiarem, a Metafísica. Ele está na contramão da minha orientação. É difícil listar todos os erros dos nominalistas, mas basta mencionar os dois principais: eles dizem que os seres humanos são incapazes de conhecer a essência de um ente ou de um valor (ninguém saberá jamais o que é a maçã, o que é o cavalo, o que é a justiça, etc.); e também ensinam que as explicações teleológicas, ou seja, aquelas que envolvem as causas finais, são inválidas. Os mais radicais chegavam a declarar que os entes NÃO são especificados e não têm uma natureza comum, e que o Universo é uma bagunça sem propósito. As teses nominalistas são tão ostensivamente anti-cristãs, e anti-humanas, que já foram apontadas por vários historiadores como as responsáveis pela decadência intelectual da Idade Média.
lrdezro#5
Sobre Arte ler livro III do Mundo Como Vontade e Representação de Schopenhauer. Mas melhor ainda se a obra for lida por completo.

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