"Destruiram a cultura intelectual ocidental ao atacar a Escolástica aristotélica. Se o esplendor medieval foi escurecido pelas lentes torpes dos modernos, parte da responsabilidade deve-se a Lutero. A sua atitude anti-filosófica criou o padrão depois agravado por sucessivas gerações de intelectuais Iluministas, positivistas, marxistas e liberais."Eric Voegelin
"A tradição ocidental era nessa altura, exteriormente, uma
tradição de forma especificamente religiosa, representada pelo
Catolicismo; é então no domínio religioso que temos que ver a
revolta contra o espírito tradicional, revolta que, quando tomou
uma forma definida, se chamou Protestantismo. É fácil dar-se
conta que se trata de uma manifestação do individualismo, a tal
ponto que se poderia dizer que é o individualismo considerado na
sua aplicação à religião. O que faz o Protestantismo, como o que
faz o Mundo Moderno, é apenas uma negação, essa negação dos
princípios que é a própria essência do individualismo; e pode-se
ver ainda nisso um dos exemplos mais surpreendentes do estado
de anarquia e de dissolução que é a sua conseqüência."
"Quem diz individualismo diz necessariamente recusa de admi-
tir uma autoridade superior ao indivíduo, assim como uma facul-
dade de conhecimento superior à razão individual; as duas coisas
são inseparáveis uma da outra. Por conseqüência, o espírito mo-
derno devia respeitar toda autoridade espiritual no verdadeiro
sentido da palavra, buscando a sua origem na ordem
supra-humana, e também toda organização tradicional, que se
baseia essencialmente sobre uma tal autoridade – qualquer que
seja, aliás, a forma de que ela se reveste, pois a forma difere natu-
ralmente segundo as civilizações. "
Foi, efetivamente, o que aconteceu: para substituir a autori-
dade da organização qualificada para interpretar legitimamente a
tradição religiosa do Ocidente, o Protestantismo pretendeu colocar
o que chamou de “livre exame”, ou seja, a interpretação deixada
ao arbítrio de cada um, mesmo dos ignorantes e dos incompe-
tentes, e fundada unicamente sobre o exercício da razão humana.
Era, portanto, no domínio religioso, o análogo do que iria ser o
“racionalismo” em Filosofia; era a porta aberta a todas as discus-
sões, a todas as divergências, a todos os desvios. E o resultado foi
o que devia ser: a dispersão numa multidão sempre crescente de
seitas, cada uma das quais representa apenas a opinião particu-
lar de alguns indivíduos. Como era, nessas condições, impossível
se entender em relação à doutrina, esta passou rapidamente para
segundo plano, e foi o aspecto secundário da religião – a moral –
que tomou o primeiro lugar; daí essa degenerescência em “mora-
lismo”, que é tão sensível no Protestantismo atual.
Por outro lado, a moral protestante, eliminando cada vez mais
toda a base doutrinal, acaba por degenerar no que se chama a
“moral laica”, que conta entre os seus partidários os represen-
tantes de todas as variedades do “Protestantismo liberal”, assim
como os adversários declarados de toda idéia religiosa. No fundo,
num e noutros são as mesmas tendências que predominam, e a
única diferença é que nem todos vão igualmente longe no desen-
volvimento lógico de tudo o que se encontra aí implicado
Com efeito, sendo a religião propriamente uma forma da Tradi-
ção, o espírito anti-tradicional só pode ser anti-religioso; começa
por desnaturar a religião e, quando pode, acaba por suprimi-la
inteiramente. O Protestantismo é ilógico no sentido em que, esfor-
çando-se por “humanizar” a religião, deixa ainda subsistir, apesar
de tudo, pelo menos em teoria, um elemento supra-humano, que
é a revelação. Não ousa levar a negação até ao fim, mas, entre-
gando essa revelação a todas as discussões que são conseqüência
de interpretações puramente humanas, ele a reduz efetivamente,
em breve, a não ser coisa nenhuma. Quando se vê pessoas que,
persistindo em se afirmarem “cristãos”, já não admitem sequer a
divindade de Cristo, é permitido pensar que esses, sem darem
talvez por isso, estão muito mais perto da negação completa do
que do verdadeiro Cristianismo.
Podiamos discutir o impacto da reforma na vida das pessoas.
Na minha opinião a reforma por exemplo criou o ateísmo porque se eu posso interpretar a biblia do jeito que eu quiser, eu posso dizer que a biblia é apenas um mito.
Ou posso dizer que jesus não deus, posso começar a guardar o sabado, posso ter a interpretação que eu quiser. O pior é que as pessoas falam ta na biblia. MAs primeiro o que é biblia? E depois como vamos interpretar a biblia? Por exemplo esse debate evoluçãoXcriação apesar de gerar discussões interessantes é fruto de uma interpretação equivocada da biblia.
Nada contra os pretestantes deve existir milhares, milhões de protestantes mais cristãos que eu, mas é algo que devemos refletir, será que a reforma contribuiu para melhorar a religião? Na minha opinião a resposta é não. Isso que o Voeglin estava dizendo.
ao invés de catolicos e protestantes se unirem vão é ainda mais se afastar.
Vcs serão obrigados a se juntar pela dor, vide o que acontece atualmente na europa ...
A reforma tirou a religião do plano temporal e a colocou no seu devido lugar? Onde se deu isso, camarada? Não quero acreditar que consideres "devido lugar" os tronos nacionais de monarcas que passaram a usufruir de um poder absoluto desconhecido desde o império romano, menis ainda as cátedras de fanáticos cujas caças às bruxas levavam cientistas e artistas a buscar asilo em terras da "temível inquisição" católica.
Sobre o liberalismo teológico (maior catástrofe que se abateu sobre as confissões evangélicas históricas e sobre os evangélicos pentecostais), sua origem e suas conseqüências, leia a entrevista do Rev. Nicodemos: http://www.icp.com.br/86entrevista.asp
Irlanda, e celtics vs ranger abaixo ahashsuashu vcs não prestam!
O Olavo já falo no último TO que Lutero não teve parte intencional, quando o movimento revolucionário dos camponeses explodiu, Lutero ficou do lado dos reis e combatendo a ala radical da reforma que na época eram os anabatistas/batistas que eram contra batismo infantil etc... se fosse por eles todos os templos cristãos e talvez toda a história do cristianismo seriam destruídos, pois acreditavam todo o catolicismo corrompido, ao contrário dos reformados que acreditavam que apenas algumas doutrinas não eram bíblicas, mas adotavam vários concílios etc... Aliás os luteranos, anglicanos são as confissões teologicamente mais conservadores, possuem muitas semelhanças ao catolicismo como confissionário, crucifixo, Theotokos etc...
O livre exame é livre mas ainda é exame, e realmente o liberalismo teológico foi péssimo, mas nada que não seja fácil de refutar, existem posições mais conciliadoras como a neo-ortodoxia.
Realmente o protestantismo é complexo, a Igreja Católica Ortodoxa manteve a unidade sem um Papa por séculos, os primeiros reformados não esperavam a excomunhão e não trabalharam na unidade.
"A reforma luterana partiu das universidades. Lutero era professor em Wittenberg; foi este seu título de autoridade para reformar a Igreja, assim como ao mesmo tempo seus adeptos, os príncipes alemães, reformaram seus Estados. E aconteceu que as novas Igrejas protestantes logo se tornaram meros órgãos administrativos, a serviço daqueles príncipes. (...) Na Alemanha não houve sociedade livre nem livres-pensadores nem Igrejas livres. E com o enfraquecimento dos poderes eclesiásticos, a religiosidade da nação laicizou-se, asilando-se nas universidades: a própria ciência virou religião."
(Oto Maria Carpeaux, "Experiência e Valores", da coletânea "Ensaios Reunidos", volume I, editora Topbooks, página 519.)
"Vai desconsiderar toda a corrupção existente no âmago da Igreja daquele momento?"
Quem disse que a corrupção existiu só naquele momento. A Igreja que adveio da ordem de N. Senhor Jesus Cristo abriga o poder espiritual, mas quando Pedro, primeiro papa, a manifestou no mundo criou também o poder temporal e esse em todos os tempos sempre foi e sempre será tocado pela falibilidade.
"Vai me dizer que o Papado medieval era sacro-santo?
Vai desconsiderar toda a corrupção existente no âmago da Igreja daquele momento?
Nos conformes de hoje,a igreja está muito bem fixada."
Uai, o que isso tem a ver com a minha pergunta? Eu afirmei que não há o menor vestígio de nexo causal entre a reforma protestante e a "retirada da religião do âmbito temporal". Não é uma questão de qualidade, mas de fato.
Pelo contrário, a reforma ameaçou seriamente uma das mais caras características do ocidente - inclusive, quiçá principalmente no período medieval, embora viesse já da conversão do Império Romano ocidental, em clara oposição ao que se sucedeu no oriente - qual seja a rejeição do cesaropapismo e a manutenção de um equilíbrio (maior ou menor a depender dos atores) de tutelas e controles recíprocos, que garantiam a estrutura política mais descentralizada e autônoma de que tenho notícia. Os âmbitos religioso e temporal eram obrigados a coexistir, mas partiam de hierarquias distintas cujos vértices não se confundiam e cujas prerrogativas limitavam-se mutuamente.
A reforma minou esse edifício e alimentou a multiplicação de déspotas livres de quaisquer controles externos, com poderes legislativos e executivos que desconheciam limites que não o da força militar que os superasse. O fenômeno fica muito claro na pessoa de Henry VIII Tudor, óbvio, mas esteve longe de se limitar a ele. Basta lembrar o fanatismo calvinista em Genebra, os malucos huguenotes franceses - França que esteve muito próxima de constituir uma igreja nacional nos moldes ingleses, a fim de afirmar a quasi-divindade do rei - e o puritanismo que atravessou o oceano para queimar bruxas em Salém. O sentimento antirracionalista esteve sempre no plano de fundo e muitos "reformadores sociais" aproveitaram a deixa para obter grosso poder político.
Banimento da religião como tu inferes, só mesmo a partir de outro banho de sangue, a revolução francesa, quase três séculos depois - e, novamente, para benefício do Estado e contra as massas.
E banimento em termos, que a perseguição aos católicos e descristianização da política patrocinadas pelas revoluções burguesas, via de máxima a francesa, trataram de coroar a religião civil de adoração ao Estado.