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Imaginação e formas sensíveis

Iniciado por pedro_9 em 17/02/2011 · 10 mensagens

pedro_9#1
Pergunto aos amigos da comunidade que estudam Filosofia:

A imaginação (em grego, phantasia, ou eikasia) conhece apenas formas sensíveis, ou pode ir além? Estou com essa dúvida desde que comecei a pesquisar a psicologia hindu. Eles dizem que, em estado de sonho, durante a atividade da imaginação, a alma conhece nâma. Em sânscrito, rûpa quer dizer aspecto, aparência, ou seja: forma sensível. Mas nâma é propriamente o nome, o sinal do que é uma coisa individual.

Platão, pelo visto, afirma que a eikasia só vai até as aparências. E aí, como é que fica?
damasiomaria#2
Há que diferenciar conhecer de imaginar. Imaginar, você pode imaginar o que você quiser, por exemplo um cavalo com asas, mas conhecer se dá através dos sentidos.
No processo cognoscitivo, o sujeito capta, através dos sentidos, pelo menos uma parte da realidade que se lhe apresentou de maneira objetiva e incorpora-se ao grupo de objetos já anteriormente apreendidos e tornados subjetivos; esse material apreendido, tanto o que corresponde a um ato só, como particularmente à soma do material assim captado em todos os atos cognoscitivos de um sujeito, formam o conhecimento.

O sonho é uma sucessão de imagens mais ou menos coerentes que se apresentam ao
indivíduo enquanto dorme. Essas imagens são captadas durante o estado de vigília, no entanto nada impede que o sujeito tenha alguma intuição transcedental, com a divindade, como no caso de José no Egito. Mas é um caso muito raro.

Quem melhor trata deste assunto é Bergson no livro “A Energia Espiritual”
pedro_9#3
Só que essas imagens ficcionais são recortes e colagens de formas sensíveis apreendidas pelos sentidos. Lembre-se que qualquer imagem fica armazenada na imaginação, tanto as realistas quanto as construídas. O que os hindus estão dizendo (pelo que eu entendi) é que o "fantasma" na imaginação representa MAIS do que o aspecto corpóreo de uma coisa. Eu achei isso muito esquisito. Mas levando em conta as intuições, até que faz sentido.
damasiomaria#4
Você tem razão, Pedro. Mesmo a imaginação é limitada pelas formas sensíveis. E José interpretava sonhos descritos por imagens de formas sensíveis.

No entanto a Escada de Jacó foi algo que realmente nunca passou pelo seus sentidos. E no caso específico de Jacó, não foi mera imaginação, mas uma co-intuição com Deus.
damasiomaria#5
A mente individual não é fundida na Universal, mas está dentro dela. Ou seja, nós existimos na mente de Deus.

É complexo, e até temeroso, tratar deste tema assim de forma tão displicente.
Mas para usar uma linguagem mais acessível, o mundo foi criado na mente de Deus, portanto tudo, todo o universo, inclusive nossos sentimentos e pensamentos estão contidos nesta criação. De maneira que estando nossos sonhos contidos na mente de Deus, Ele pode acrescentar algumas imagens que nunca tivemos contato sensível.

É mais ou menos isso a Escada de Jacó.
pedro_9#6
Um exemplo: digamos que uma ovelha olhe para um lobo, e que este lobo dê um sinal de ferocidade. Sei lá, vamos supor que ele comece a rosnar. A ovelha pode interpretar esse rosnado como uma indicação dos sentimentos do lobo, e fugir. Ou seja, ela realmente conheceu a alma do lobo, e não só suas formas sensíveis. Através de um SINAL OBJETIVO, ela pôde transcender o aspecto do lobo, e notar a ameaça. Um lobo não é desagradável de ver, não é possível que a o ovelha fuja só pela feiúra.

Isso quer dizer que as ovelhas e os outros animais têm uma capacidade de notar, não só o formato corporal, mas sentimentos e desejos de outros animais. Nesse sentido, percebem além de "rûpa". Mas essa capacidade NÃO é a imaginação, e sim a ESTIMATIVA, e ela capta exatamente os sinais manifestados ou "nomes" das coisas.

O problema é que os hindus misturam estimativa e imaginação. Daí, eles dizem que a imaginação conhece "o que é sutil", ou seja, as almas.
damasiomaria#7
Olha Pedro, o problema é que a diferença entre os irracionais e os racionais se resume apenas no Espírito.

Os seres "animados" (anima, alma) possuem alma também.

São Tomás de Aquino divide os seres animados em três espécies: os que possuem alma vegetativa, os que possuem alma sensitiva e os que possuem alma espiritual. Ou seja, os vegetais possuem uma alma vegetativa; os animais uma alma que é vegetatitva e sensitiva; e os homens uma alma que é vegetativa, sensitiva e espiritual.

O grande problema hoje é que muitos não entendem a alma dos animais e a resumem no instinto, como se modificar o nome modificaria a coisa.

Evidente que todo ser animado possue alma, mas só a alma espiritual do homem é que é incorruptiva e imortal.
renan_6#8
Rapaz, investigar possíveis paralelos entre a psicologia platônica e a hindu é um negócio espinhoso pra cacete.

São esquemas muito distintos.
pedro_9#9
No que diz respeito à filsosofia escolástica, o paralelismo às vezes é até fácil. "Rûpa" tem como tradução exata, "forma sensível" e "nâma", "forma intencional". "Buddhi" é quase equivalente ao "intelecto agente", e assim por diante. Claro que é espinhoso, mas não acho que as divergências sejam grandes a esse ponto.
pedro_9#10
Quando digo "alma", estou me referindo à parte inferior da alma, que os animais irracionais têm em comum com o homem. Essa parte é conhecida pela estimativa.

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