Depois de reler trechos da "República", de Platão, cheguei à conclusão de que o ateniense censurava o ensino da Dialética para aqueles que não tinham, primeiro, adquirido uma formação científica. Ele diz claramente que esta disciplina serve de treinamento para a contemplação das Idéias, e fica só na fase final da educação. Os hindus consideram a Lógica como um ponto-de-vista (darshana) doutrinal, e portanto atribuem a essa ciência um caráter religioso, tornando-a superior a ciências como a matemática.
Mas o velho Aristóteles resolveu jogar a Lógica para o INÍCIO da educação. Essa decisão acabou prevalecendo nos currículos, até que na universidade medieval se chegasse a situações um pouco surpreendentes, como disputas metafísicas entre garotos de quinze anos.
Por isso eu pergunto: esse posicionamento de Aristóteles não acabou servindo para que a Lógica acabasse se tornando quase um jogo mental isolado da realidade, como é hoje? Quais foram as razões que Aristóteles levantou a favor da sua proposta?
Desde o fim da Idade Média, e até as recentes contribuições do Círculo de Viena, a Lógica vem sendo tratada cada vez mais como uma ciência de conceitos, considerados independentemente das coisas. A culpa é toda de Aristóteles, pelo jeito. O argumento dele era de que é preciso aprender a linguagem científica para depois entender as demonstrações.
Luis
Preste atenção no que escrevi: a Lógica ficaria depois até dos conhecimentos científicos. Ela serviria como um método de investigação para ampliar a ciência ou aprofundá-la, explicitando alguns pontos. Mas para que alguém fizesse isso, seria preciso que já tivesse estudado as ciências previamente.
Pedro, considero precipitação imputar qualquer "culpa" a Aristóteles pela formalização excessiva da filosofia nos últimos séculos, por dois motivos centrais:
1) A lógica de Aristóteles não foi só uma abordagem original à filosofia, mas antes de tudo uma resposta a um cenário crítico. No final das Refutações Sofísticas está estampada toda sua agonia face ao carnaval protagonizado por sofitas e eristas que assomavam a velha Grécia, e ao mesmo tempo a tentativa quase desesperada do estagirita por um método que pudesse publicamente escandalizar e tirar a máscara de todos esses safados. Sócrates já havia tentado isso através da maiêutica e acabara condenado à morte. Aristóteles foi mais longe; forjou uma técnica.
2) A aridez formalizante que desertificou a filosofia nas últimas gorfadas da Escolástica tem tantas causas e condicionantes que fica difícil encontrar um só culpado. Montfortianos tem o Diabo em Ockham, tomistas em Duns Scotus, chartrianos vão até Abelardo, e muitos franciscanos chegam a culpar o próprio Tomás de Aquino.
Em minha insignificância intelectual, penso que, se há alguém a receber a "culpa", seriam os ciclos culturais.
É inevitável: toda cultura sempre atinge um estágio onde prevalece a técnica e aridez dos debates. Não foi diferente com os gregos, nem com os romanos, muito menos com os gigantescos escolásticos. O problema é que a técnica evoluiu tanto que essas epidemias espalharam-se pelo mundo e hoje parecem invencíveis. Não há uma cultura capaz de substituir a cultura global. Não hoje.
Mas Platão não diz que foi justamentente o ensino precoce da dialética que criou o cenário carnavalesco? Um monte de jovens sem nenhuma bagagem cultural nem experiência de vida, mas com muita habilidade de debater, vai fazer o que, além de merda?
Aliás, é exatamente esse alerta que motivou meu tópico. E desculpe por jogar o peso da culpa inteiro em cima do Estagirita. Mas ainda acho que ele é um dos colaboradores da aridez lógica medieval.
Minha posição (radical) quanto a isto é que ninguém deve ser ensinado a pensar NUNCA, porque isto interfere com o que a pessoa já nasceu sabendo. O que me parece interessante é que, JÁ se SENDO um ser pensante, deve-se COMPARAR - aprender - os processos propostos por outros para aperfeiçoar os próprios.
É mais ou menos como em relação à pintura, em relação à qual me parece DELETÉRIO "ensinar técnicas" logo de cara, porque elas interferirão no talento existente no artista se forem ensinadas ANTES do artista realmente TER A DELE. Mas DEPOIS que ele tiver a dele, é bom COMPARAR com a dos outros - aprender a dos outros - para eventualmente aperfeiçoar a sua própria.
PS: ou até abrir mão da sua própria e adotar a alheia. Mas me parece fundamental que isto seja feito já depois de todo o impulso da pessoa ter pelo menos se estabelecido completamente. Senão a interferência inibe aquilo que a própria pessoa tem de original, no verdadeiro sentido do termo "original".
Não sei qual o livro em que Aristóteles afirma isso. Já li, num livro do Mário Ferreira e num artigo do próprio Olavo, a menção a essa atitude de Aristóteles. Quanto à formação científica, é só ler Euclides para ter uma idéia do rigor lógico dos gregos. Quando algum autor moderno conseguir algo parecido com aquilo, aí poderão começar a ser admirados. A maior parte da moderna metodologia científica se resume à legitimação de modos de conhecimento sub-científicos. Isso começa com Francis Bacon, e a praga não parou mais de se alastrar.
PS. Não estou jogando a culpa toda sobre o velho Bacon. Outros imbecis o ajudaram, e nesse ponto até que Descartes está fora do problema.
Quanto a fornecer o "O QUÊ", fornecer um OBJETO de pensamento, é bom.
Mas atualmente eu não ofereceria algo categorizado como "ciência", porque aquilo virou um massacre estúpido que é capaz de lesar qualquer mente.
Penso que deve ser um processo algo DELICADO.
SE, como eu penso, a revelação é uma "coisa" DISPONÍVEL o tempo TODO, é bom pelo menos facilitar para que a integração da qual ela é parte fundamental possa ocorrer sem interferências.
Eu gostaria de poder falar melhor sobre isso, mas acho que explicar a minha tese é algo um pouco grande demais para mim. Eu tenho certeza de que ela é verdadeira, mas não é algo que se aceite facilmente, isso de existir uma permanente fonte de informações à qual se está ligado. Até porque a ligação fica cada vez mais PRÓDIGA em informações, e isto de certa forma AFASTA a pessoa dos processos que acontecem com as outras pessoas. É como se você começasse a percorrer um caminho que cada vez te leva mais longe, mas também te distancia cada vez mais de qualquer outro caminho.
Eu me sinto meio "Nielsbóhrica", quando ele disse que "quem pensa que entendeu é porque não entendeu nada", se referindo à Física Quântica. E no entanto É aquilo que é verdadeiro.
É um pouco "impactante"andar por esses caminhos. I mean, o que É a LÓGICA, afinal de contas? É óbvio que ela existe, mas não é "redutível"a algo meramente RACIONAL.
Claro, é lícito você argüir que o desenvolvimento de uma técnica para encontrar os melhores argumentos, mesmo tendo sua origem no objetivo maior de evitar debates erísticos, pode ter acabado justamente por glamourizar e sofisticar essa mesma erística. Mas eu não creio que podemos cobrar isso de Aristóteles.
Certa vez vi o Olavo também imputando uma certa “culpa” ao estagirita por não ter se prestado a refutar as mais espinhosas dúvidas céticas sobre o ser; mas isso também seria anacronismo. Muitos desses temas, hoje tão prementes, simplesmente não eram discutidos. Aliás, uma das razões principais da filosofia ter se tornado tão árida no findar da escolástica foi justamente a ascensão de dúvidas cada vez mais absurdas, estas por sua vez causadas por diversos outros fatores, que definitivamente não podem ser enquadrados apenas no campo da história das idéias.