Achei bastante interessante esse estudo sobre porquê erramos. Erramos porque pensamos indutivamente: a partir de um padrão, criamos uma generalização, e encaixamos na generalização os dados sensíveis que percebemos. Isso costuma funcionar, mas não sempre. Outros motivos incluem confiança e expectativa.
Selecionei alguns trechos pra "resumir" a matéria.
"Erramos, resumidamente, porque somos influenciáveis, excessivamente confiantes e insistimos em fazer várias tarefas ao mesmo tempo. Como se não bastasse, nossos olhos não veem tudo que está em nossa frente e nossa memória inventa e distorce fatos.
No que os erros ajudam? Erros são embaixadores da informação. Quando acontecem, significa que temos uma crença sobre o mundo que colapsa. Ao ver que nossa percepção não correspondia à realidade, podemos mudar.
As expectativas têm um efeito forte sobre a percepção visual. Frequentemente nossa cognição perde alvos que não são coisas comuns.
Você procura uma latinha na prateleira em que sempre a deixa. Se ela foi mudada de lugar, você pode ficar um tempão procurando algo que está bem debaixo do seu nariz, ainda que fora do local de hábito. Você não procura o objeto em si, mas os padrões que estão armazenados no seu cérebro. Essa tendência a encaixar o mundo em padrões já conhecidos é responsável pela chamada cegueira da mudança. Algumas informações visuais são sumariamente ignoradas simplesmente porque não temos como lidar com tudo o que vemos ao mesmo tempo. Nosso cérebro recebe milhares de instintos a todo momento, precisamos ignorar muitos para desenvolver nossa cognição. Se você ficar atento aos estímulos que vêm do pé, da mão, de todos os lugares, não consegue ter foco."
Os padrões guardados em nossa mente podem também mudar o conteúdo do que vemos. Um dos maiores aprendizados da “errologia” é que nossa percepção não depende só dos sentidos. Há algumas décadas, cientistas cognitivos vem demonstrando que criamos “estereótipos” mentais que mudam nossa percepção. Se alguém lhe apresenta uma pessoa dizendo que é um caminhoneiro, por exemplo, você tende a achar que essa pessoa é mais pesada do que se lhe dissessem que é um dançarino, constatou-se. Em estudos que começaram em 2005, o Ph.D em psiquiatria e neurociência Gregory Berns, da Universidade de Emory, nos Estados Unidos, colocou na mesma sala quatro atores fingindo ser voluntários e um único voluntário real. Deu a todos a tarefa de comparar formas geométricas simples e dizer se eram iguais. Os atores davam a resposta incorreta antes de o voluntário falar, tentando induzi-lo ao erro. Funcionou. Quando os voluntários estavam sozinhos, acertavam 90% das respostas. Quando acompanhados pelo atores, acertavam apenas 50%.
Tirando o grupo das pessoas depressivas, uma série de pesquisas mostra que o restante da população confia excessivamente em si mesmo, e no seu próprio conhecimento. Tendemos a pensar que sabemos mais (ou somos melhores em alguma coisa) do que a realidade nos mostra. A internet pode agravar isso nos dando uma ilusão de que, com toda a informação que nos chega dos nossos computadores e gadgets, consideramos todos os fatos antes de tomar uma decisão. Uma coisa descoberta há algum tempo por psicólogos é que somos enviesados, normalmente vamos buscar mais dados do que já acreditamos. Se achamos que um suspeito cometeu um assassinato, por exemplo, buscamos na web dados que confirmem essa crença, e não que a desmintam. Dessa forma, depois de uma intensa pesquisa chegamos a uma conclusão errônea que já estava em nossa mente.
Um scanner ligado à mente dos pesquisados durante o teste mostrou que, conforme os atores iam emitindo opiniões erradas, áreas relacionadas à percepção visual no cérebro do voluntário alteravam padrões seu funcionamento. “É como se a imagem real e a da imaginação (criada quando você ouve as opiniões) se misturassem”, sugere Berns. O nazista Joseph Goebbels não estava errado. Uma mentira contada diversas vezes sobre algo pode, portanto, mudar nossa opinião sobre isso. E até criar no cérebro um padrão que muda a maneira como enxergamos a realidade. “Não é apenas uma analogia, as opiniões de outros literalmente alteram a nossa percepção e o processamento de informações na mente”, diz Berns. Para cientistas sociais, esse fenômeno da contaminação de opiniões também pode ser atribuído à vontade de ser aceito. “Há uma dificuldade em ser diferente. Em pesquisas de mercado, por exemplo, os entrevistados tendem a repetir a resposta dada por outras pessoas anteriormente”, afirma Francirosy Ferreira, doutora em antropologia pela Universidade de São Paulo.
Outra fonte de enganos e falhas em nosso comportamento está ligada à anatomia cerebral, por assim dizer. A mesma região do cérebro que responde pela percepção e pela atenção, o córtex pré-frontal, também está envolvida no processamento de emoções. Por conta disso, a compreensão do mundo e a propensão a errar e aprender estão intimamente ligadas ao que sentimos. Todos esses avanços no conhecimento de nossas falhas levantam uma questão: é possível fazer com que cessem? O consenso entre os cientistas é que não há como pôr um fim a isso, uma vez que o erro está intrinsicamente ligado à nossa capacidade de aprender rápido, por palpites que provavelmente (mas nem sempre) estão certos. Entretanto, estudos de ponta mostram que podemos prever quando tipos simples de falhas ocorrem.
Se não dá para eliminar a falha, é possível tomar algumas precauções para que ela não aconteça. Ou entender que nossa mente não é 100% confiável na hora de tomar decisões ou bater o martelo sobre qualquer assunto. Um pouco de humildade ajuda. Uma pesquisa com mais de 2 mil gerentes de diversas empresas revelou que 99% deles têm um nível de confiança em seu conhecimento acima daquilo que realmente sabem. De acordo com o autor, o holandês Paul Schoemaker, Ph.D em estudos da decisão humana e professor da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, esse engano tem muitas razões. Além da tendência a esquecer erros do passado, quanto mais informações reunimos sobre algum assunto, mais certos estamos do nosso conhecimento naquele campo. Além disso, o hábito cada vez mais comum de desempenhar muitas tarefas ao mesmo tempo aumenta nossa chance de erro. O professor de Harvard Daniel Gilbert, Ph.D em psicologia cognitiva, mostrou recentemente que ser interrompido logo após a aquisição de uma informação pode nos levar a formar essas impressões falsas.
Para o psicólogo e autor do best-seller Positivamente Irracional, Dan Ariely, errar menos tem conexão com a capacidade de evitar situações em que as emoções podem nos confundir.
Reconhecer que as falhas fazem parte do aprendizado também nos ajuda a lidar com elas. Ou, ao menos, aceitá-las como um mal necessário à evolução pessoal em vez de buscar a perfeição constante. Passamos a vida acreditando estarmos certos a respeito de tudo, de convicções intelectuais a julgamentos sobre outras pessoas, por mais absurdo que isso possa parecer quando refletimos a respeito, diz a autora do termo “errologia”, Katryn Schulz. “Não é o caso de parar de errar, mas de admitir que está errado. Sem sentir culpa por isso.”
Ler milhares de notícias que chegam a todo momento atrapalha. O psicólogo Daniel Gilbert, de Harvard, mostrou que a nossa primeira reação com relação a qualquer informação após adquiri-la é aceitá-la como verdadeira. Só alguns momentos
depois conseguimos refletir se ela faz sentido. A interrupção por outro estímulo (twitter, facebook etc.) após se informar faz com que a gente perca o senso crítico e cometa mais erros de avaliação.
http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,ER…7773,00.html