Como se cantar, sapatear e pantomimar, termo não empregado por ti, mas subentendido, fosse uma infantilidade, e como se essa, a infantilidade, fosse uma coisa qualquer. O lúdico infantil resiste no homem adulto, não há como negar. Não digo com isso que a infantilização do adulto que em nossos dias produz uma "adultescência" desvairada e tola seja louvável, mas que a arte do palhaço, do clown, do mímico, e do ator em geral, é a de resgatar a criança que jaz oprimida pelo processo educacional. O termo "oprimido" que uso na frase anterior não tem caráter marxista, trata-se de uma repressão mesmo corporal, à medida em que o corpo humano sofre as consequências da vida e tende a esmorecer com o tempo.
O que fascina é justamente o desafio desses limites corporais: o trapezista que desafia a morte, o bailarino que se sustenta nas pontas dos pés, o saltimbanco que consegue desenvolver truques corporais inatingíveis ao homem destreinado, etc. É assim que, no Japão, quando o público agradece ao ator, diz-lhe algo que, traduzido, pode ser compreendido como "você está cansado". O ator, e o artista em geral, dá seu suor para construir um espetáculo que encante justamente pela superação. Existe ai a mesma relação do espectador frente a um campeonato esportivo, em que os atletas superam suas deficiências e lutam por superarem a si mesmos.
Chaplin cantava, dançava, sapateava, e pantomimava, ou seja, dominava a linguagem corporal com maior maestria que a maioria dos atores do cinema falado contemporâneo, ao que pese encerrar-se numa categoria muito específica de atores, aqueles dedicados à pantomima. Quando o cinema mudo surgiu com força em 1927, Chaplin se manteve fiel à tradição das gags corporais que tem raiz na commedia dell´arte e nas artes circenses. Ele prestou homenagem ao circo no filme homônimo, onde não levanta a bandeira marxista em nenhum momento, até onde posso perceber. Também em Luzes da Cidade, traz à tela a história de um vagabundo, o Carlitos, que se apaixona por uma mulher cega e tenta de algum modo conquistá-la. Em "O garoto", conta a história do mesmo Carlitos - personagem tipo, o que remonta à tradição da commedia dell´arte - que encontra um bebê abandonado e decide adotá-lo, enfrentando para isso as forças contrárias que querem tirar o menino de sua guarda.
Mas é justamente o personagem-tipo chapliniano, o Carlitos, que visto sob uma ótica estritamente marxista, pode transformar-se no protótipo do criminoso herói, do homem fora da lei que desafio o status quo com a malandragem daquele que conhece a lei da selva e sempre se dá bem, o que também podemos perceber mesmo nos desenhos animados mais infantis. É que Carlitos é assim, infantil, mas não pejorativamente infantil. Afinal de contas, uma criança é educada e nesse processo conhece os preceitos morais retos que a permitem conviver de maneira saudável numa sociedade. Mas a gente tem essa relação de fascínio pelo personagem que desafia o status quo justamente porque os impulsos anti civilizacionais existem no homem civilizado, nós não somos "bons por natureza", como acreditava Rousseau, e no fim das contas todo mundo peca, e somente raríssimos santos estão livres do purgatório, segundo o que prega a ICAR. Mas a arte pode servir de um instrumento para provocar uma catarse desses sentimentos anti civilizacionais, projetados na figura representada. Chaplin então percebe isso por intuição e exprime na obra artística. O que cabe perguntar é: ele louva a malandragem criminosa como oprimida pelo "sistema"? Tudo depende da interpretação que vocês tem de Carlitos.
Reduzir Charles Chaplin a um "lixo comunista"? Dizer de sua performance artística que não passa de uma sapateada infantil? Com todo o respeito, não compartilho dessa opinião. Acredito que aqueles que constroem essa imagem não conhece mais a fundo a história de Chaplin e a história do teatro. Citei a commedia dell´arte, e algumas obras de Chaplin que não tem um caráter político mais acentuado. Talvez seja o caso de estudar a pessoa de Chaplin com mais cuidado, e mesmo ler sua auto-biografia, "A história de minha vida", pra aclarar as coisas.
Existe algum texto do Olavo onde ele comenta sobre a obra de Charles Chaplin? Se houver, gostaria muito de conhecer.