É o seguinte, que o cristianismo FOI FUNDAMENTAL para o surgimento do modelo atual de democracia parlamentarista
... nas escolas e nas faculdades se ensina essa bobagem, que eu acho, que esse papel fundamental foi do ilumunismo
foi com a moral cristã em que começou a mudar essa idéia de "poder divino" dos reis e governantes... e vejam que isso era uma regra quase que ABSOLUTA pra qualquer sociedade desde os primórdios da humanidade, até o início da "common law" no século XIII na Inglaterra
pelo que eu me lembro do assunto, passagens na Bíblia como "Dai a César o que é de César" foi fundamental para esse afastamento do poder do Estado, do poder do governante, da autoridade divina...
ou seja, sem cristianismo, NÃO TERÍAMOS NUNCA o atual sistema de democracia constitucional e do Estado de direito
além do iluminismo não ter sido fundamental para a formação da atual democracia, foi ele que criou o monstro do totalitarismo que ia se formar totalmente no século XX...
está certo que a democracia tal como a conhecemos hoje só é possível por causa do cristianismo.
Mas é preciso tomar um cuidado com uma cosia:
A primeira é lançar o democratismo liberal como supra-sumo da existência humana, de modo a querer interpretar toda a história como uma grande marcha rumo a esta inevitável realização escatológica terrena, indagando-se o que cada fato fez em prol disso.
O cristianismo permite a democracia a partir do momento em que determina que o Estado deve cuidar das coisas temporais e que para isso não tira a autoridade de si mesmo, mas sim de uma adequação a uma ordem transcendente.
E se você for ver, nem a Igreja Católica, nem as Igrejas Ortodoxas orientais, nem as protestantes mais antigas, defendem a democracia.
Quem ficou fazendo isso foram mesmo os iluministas, mas cujo pensamento só foi possível dentro da cosmovisão cristã na qual estavam inseparavelmente inseridos.
pelo que eu sei, também afirmo que o cristianismo não criou diretamente a atual democracia
mas seria interessante a gente discutir COMO houve esse processo indireto da contribuição cristã para a formação desse sistema político... e isso EU SEI QUE HOUVE
meu texto acima ficou totalmente confuso... isso que dá fazer um monte de coisa ao mesmo tempo e ainda com sono.
Mas vou arriscar dar mais um palpite:
O cristianismo se concilia com a democracia quando diz que o poder de César tem limite quanto a área de sua atuação e que mesmo dentro desse limite, cabe a César agir com justiça em prol do bem comum. Isso implica que os sudítos de César não devem uma obediência absoluta a ele, mas condicionada a sua conduta. E é daí que parece nascer a idéia de se limitar o poder de César por meio de outras instituições temporais, o que veio dar origem ao sistema de governo misto inglês, ao qual chamamos de democracia, apesar de não ser.
Porém, o cristianismo fica contra a democracia quando esta diz que o poder vem do povo e que este tudo pode. O César do qual Cristo fala na bíblia parece ser um símbolo do Estado, e não uma pessoa. Portanto, o que ele disse vale para qualquer César, seja ele encarnado em uma pessoa, num parlamento ou numa multidão.
O César do qual Cristo fala na bíblia parece ser um símbolo do Estado, e não uma pessoa.
Me parece que é exatamente isto. César não é a pessoa natural do imperador romano, mas o próprio Estado. Cristo foi o primeiro a falar da separação entre Estado e religião.
Quanto ao papel que o cristianismo teve como fator de valorização do homem e da consciência individual, do homem considerado em si mesmo, não há como não recomendar O Jardim das Aflições.
Debate entre Joseph Ratzinger (PAPA BENTO XVI) e o filósofo ateu Paolo Flores D’Arcais, mediado por Gad Lerner (judeu), realizado no teatro Quirino, em Roma, aos 21 de fevereiro de 2000.
Trechos relacionados ao tópico: Cristianismo/Iluminismo/democracia.
Gad Larner: Eminência, mas quanto os senhores, como Igreja, se deixaram contaminar pelo pensamento laico e ilustrado! (leia-se iluminista, nota minha) O senhor utilizou aqui, há pouco instantes, a palavra intolerância, e isso nos pareceu normal. Mas talvez não seja tão normal o fato de essa mesma palavra, intolerância, no dia 12 de março passado, ter aparecido na liturgia quaresmal, na oração do papa em São Pedro, justamente no âmbito dessa liturgia de purificação de memória pelos pecados cometidos pelos filhos da Igreja em seu nome. Essa palavra, esse conceito, tolerância, intolerância – um conceito que nasce no século das luzes, que pertence tipicamente ao pensamento laico e ilustrado -, agora, o faz parte até mesmo das palavras do prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e, pior ainda, em minha opinião, das orações do papa em São Pedro.
Essa contaminação, por conseguinte, existe, é afortunada, é positiva. Os senhores a aceitam ou isso os preocupa um pouco? O senhor é considerado alguém muito severo.
Joseph Ratzinger: Então, eu diria duas coisas. Pensamento laico e pensamento ilustrado (iluminista), são conceitos do definir. Na Itália, a palavra laico é concebida em contraposição a crente, coisa que não acontece em outros idiomas, e por isso esse conceito de laico para mim, não é tão nítido como pode aqui. E também no que diz respeito a “ilustração”: em uma conferência que fiz em Sorbonne, tentei mostrar que o Cristianismo queria ser uma ilustração, em continuidade inclusive de Sócrates e, principalmente, dos profetas do Antigo Testamento, que eram verdadeiramente ilustrados no que se refere ao culto dos ídolos: e, portanto, o cristianismo queria ser, em certo sentido, uma ilustração, um Iluminismo também...
Gad Larner:: Permita-me, porém: o cristianismo e o iluminismo deram-se perfeitamente bem, mas tiveram uma conflito bastante sangrento.
Joseph Ratzinger: Sim, por que os gêmeos também podem se chocar entre si. Em um determinado momento da história formam-se dois mundos muito diferentes: um cristianismo bastante fechado em si mesmo, um pouco esquecido de seu legado, por assim dizer, ilustrado – em um sentido mais amplo que o do período de que o senhor fala –, e outro [mundo], que, por conseguinte, se opõe ao cristianismo e o considera obscurantismo.
Eu acredito que é chegado momento de superar essas oposições. O Iluminismo nascido em determinada circunstâncias, nos séculos XVIII-XIX, era um Iluminismo que se opunha ao cristianismo – embora em todas as partes; também haviam correntes de Iluminismo cristão naquela época; eu poderia até citar nomes. Infelizmente, essas tendências de reconciliação por um caminho comum não triunfaram, mas existiram de qualquer maneira, e o cristianismo, por sua vez, deveria voltar a pensar naquelas suas raízes. Por isso não vejo uma oposição absoluta, mas vejo uma oposição entre determinados traços modernos e a fé cristã.
Não sei se eu estou certo, mas houve muita influência cristã no que eu chamo de "lado bom" do iluminismo...
o lado que idealizou o moderno sistema democrático, o lado que começou a falar por exemplo do sistema de mercado
mas temos também o lado podre do iluminismo, aquele lado que prevaleceu na revolução francesa, que achava que se poderia criar uma nova "sociedade perfeita", baseada "inteiramente na razão" e eliminar tudo que fosse "irracional" como a religião... esse lado que plantou as sementes dos regimes totalitários do sec XX
Gad Larner: [...] Tudo isso é muito interessante, Sr. Flores. Será que acabamos de conhecer a um cardeal Ratzinger muito menos rígido do que imaginávamos, ou estou enganado?
Paolo Flores D’Arcais: Aqui, os temas, as perguntas, foram dois, e eu responderei começando pela última; depois voltaremos à primeira – o terreno comum.
[...]O perfil essencial deste papa João Paulo II], sob o perfil de suas idéias filosóficas, é exatamente que com o individualismo – que nasce no Iluminismo – começa essa perda da idéia de Verdade com V maiúsculo o tema era o centro do debate até então, as falas posteriores devem ser verificadas no próprio livro, impossível transcrever tudo...], que ele considera a causa de todos os desastres dos séculos posteriores. E, inclusive, dando um passo a mais, este pontífice sustenta – embora, por outro lado não seja o primeiro nem o único – que as grandes tragédias do século XX, ou seja, os campos de concentração dos nazistas e as repressões do gulag soviético, portanto, os grandes extermínios de massas em nome de uma ou de outra ideologia têm sua causa justamente no Iluminismo, com sua invenção da primazia do indivíduo. Tanto que eu, em certa ocasião, escrevi que justamente Wojtyla acaba vendo em Voltaire a causa de todos os males da modernidade.
[...] Tenho certeza de que, quando diz: existe um Iluminismo bom e um Iluminismo mau, acaba por dizer que o Iluminismo ruim é o que nós conhecemos como Iluminismo, ou seja, a tradição volteriana e pós-volteriana, e que por Iluminismo bom entende-se algo que historicamente é quase impossível de encontrar, ou muito minoritário, e que a questão é o indivíduo. Não obstante, posto que a primeira questão, que era o “terreno comum”, eu apenas menciono, porque o discutiremos depois.
Gad Larner: Não quer ouvir primeiro a resposta sobre isso?
Paolo Flores D’Arcais: Não... antes gostaria de acrescentar...
Joseph Ratzinger: Eu não estou preparado para interpretar a fundo, neste momento, as encíclicas do papa [Ratzinger sorri, risos de Flores, aplausos], porque é um grande corpo de escritos que é preciso estudar bem.
É verdade que o Santo Padre critica por igual – criticou e critica por igual –, por um lado, o comunismo, como totalitarismo que destruiu não só a ecologia, a Terra, como também as almas; e, por outro lado, critica os perigos da civilização liberal.
Parece-me que não deveria ser tão difícil entender substancialmente essas críticas. O Santo Padre havia vivido o primeiro tipo de regime, e, sobretudo, a mentira, que era a verdadeira característica daquele regime. Muitos bispos, sacerdotes e simples laicos m dizem, principalmente também da antiga Alemanha, da Alemanha ex-comunista, que nosso verdadeiro problema foi a mentira: ninguém tornou a confiar nos outros, ninguém se atrevia a dizer a verdade, todos temos vivências sob essa pressão, em uma ditadura da mentira e da hipocrisia recíproca. E desse modo fomos destruídos, mais que fisicamente, em nossas almas, e a verdadeira libertação deveria ser justamente a libertação dessa ditadura, a da hipocrisia e da mentira.
[...] Agora, o professor Flores d’Arcais me diz que essas duas críticas diferentes, que se contrastam, mas que são complementares entre si, constituem no pensamento do papa apenas duas variantes da crítica ao Iluminismo como tal, que seria considerado individualismo e a causa de todos os males de nosso tempo.
Disse que neste momento não me atrevo a discutir sobre a autenticidade de sua exegese do papa, mas tenho certeza de que para o papa o comunismo não tem a mesma raiz e não está igualmente enraizado no Iluminismo do século XIX, como cultura liberal. Não obstante, também esta, em suas formas atuais e perniciosas, não cresce de forma automática a partir daquela raiz, mas se desenvolve segundo mecanismos e fatores totalmente novos.
Não é verdade que na história nunca nasce nada novo. Em nosso século – que já o século passado [o dabate foi em 2000] – entraram em jogo fatores totalmente novos que não podem se reduzir tão somente ao pensamento de, digamos, Voltaire. Porém, o fato de elementos negativos que levaram a humanidade a uma perda de respeito pelo ser humano provirem dessas correntes de pensamento parece-me ser demonstrado pela história de nosso século já a partir das crueldades da Primeira Guerra Mundial; portanto, sermos autocríticos tomando por base o Iluminismo, isto é, a partir dos problemas que foram criados por conta da perda de valores que pertenciam ao Iluminismo, digamos, ameaças contra a liberdade, não me pareceria – tal autocrítica, tal exame de consciência ilustrada – uma coisa inútil.
Eu me alegro vendo, ouvindo os aplausos... que confirmam a superioridade dos não crentes – por fidelidade ao Evangelho – em relação aos crentes. Porém, parece-me, sempre é bom para nós, os crentes, e também para os não crente, sermos autocríticos, refletirmos sobre os perigos da posição própria e, portanto, sem atribuir os males de nosso século ao Iluminismo – males que não crescem automaticamente dele; sermos, digamos, reflexivos até mesmo quanto a esse legado, e termos coragem de interrogar a nós mesmos e de refletirmos de novo a fundo. Parecer-me-ia uma coisa muito importante e também algo que poderia ser um elemento comum entre as duas partes [aplausos!!!].
Reconheço a influência do Iluminismo porém, dois fatores devem ser levados em conta: A formação do sistema de governo dos Estados e os pioneiros peregrinos protestantes que fundaram os EUA.
A democracia hoje deve muito aos Estados Unidos,tanto como modelo quanto influências.
E a democracia americana só chegou a essa forma tal qual a conhecemos devido ao modelo de GOVERNO ECLESIÁSTICO dos pioneiros: CONGREGACIONALISMO E PRESBITERIANISMO.
O SISTEMA ELEITORAL era fundamental em ambos os sistemas de governos eclesiásticos.
Fugindo de uma Europa monárquica, eles pressionaram para que o modelo de governo da igreja fosse aplicado na esfera secular.
Deram muito ênfase a LIBERDADE porque vieram de perseguições religiosas na Europa.
Quem aborda muito bem essa questão é o grande historiador britânico Paul Johnson
"Dai a César o que é de César", OK, concordo, mas e a questão do livre-arbítrio?
Estão quase todos discorrendo a partir da citação bíblica na qual, segundo interpretações posteriores, Jesus nos ensina a, grosso modo, separar religião e política (ou pelo menos o que era a política naquele primeiro milênio da Era Cristã).
Ocorre, porém, que nem sempre isso é possível e nem sempre isso será uma atitude cristã, como quando, por exemplo, uma grave violação a um dos Mandamentos for defendida pelos detentores do poder político - essa é a primeira e inevitável dedução que deve ser tirada. Nisso, tanto os teólogos conservadores quanto os "progressistas" estarão de acordo.
Além disso, como citaram alguns aqui, a base da moderna civilização democrática está calcada, por sua vez, em fundamentos cristãos. Não obstante, em "O Jardim das Aflições", o professor Olavo descreveu, de maneira soberba, a impossibilidade da separação total do Estado e de suas bases ética e moral, que, como evidenciado historicamente, nos são passadas pelo ensinamento religioso.
Tanto é assim que, em países comunistas, o culto ao Divino é SEMPRE substituído pelo "cult of personality", e isso ficou bastante claro nos regimes stalinista, leninista e maoísta, para citar alguns do passado, e , mais recentemente, no regime norte-coreano, onde parte da população tem altares (literalmente) para reverenciar seu líder "político" máximo (que, mais precisamente, neste caso, seria de certa forma também "religioso").
Ora, se os teólogos cristãos de direita e esquerda estão de acordo quanto ao fato de que essa separação entre religião e Estado não deve ser de forma alguma absoluta, mas condicionada, o que nos diferencia dos seguidores da Teologia da Libertação?
A resposta é: o livre-arbítrio, parte essensial da educação cristã.
Quando os teólogos "progressistas", em seu afã em querer ajudar o próximo (nem sempre sincero, é verdade), pregam uma sociedade mais justa através da extinção das classes sociais, eles atropelam um dos alicerces do Cristianismo que é a questão da liberdade de escolha e, por consequência, da caridade espontânea. Não faz sentido, dentro da doutrina Cristã, obrigar alguém a fazer caridade ou a doar seus bens sem seu consentimento. Por isso o papa Bento XVI classificou da Teologia da Libertação como uma moderna variante do milenarismo.
Se por um lado os liberais (não no sentido americanao do termo, OK?) anti-comunistas erram ao não compreenderem a importância do conservadorismo como uma "cola" ou um "cimento" para a moderna sociedade democrática (e que defende a inviolabilidade de alguns direitos individuais), o defeito de muitos conservadores está justamente no oposto, que é o de não perceberer a importância da decisão livre de cada um (concordemos ou não com essa decisão).
Se a liberdade individual não pode ser o fundamento máximo de uma sociedade (porque impossível, uma vez que as liberdades NUNCA poderão ser ilimitadas), como nos ensina OdeC, também está longe de ser apenas mera alegoria ou mero supérfluo numa sociedade verdadeiramente cristã.
Eu concordo plenamente, mas ainda assim, me parece estranho que a religião que tem como base não fazer distinção de pessoas (não há judeu nem grego etc) tolerar e em certos casos até promover monarquias hereditárias e o conceito de nobreza por tanto tempo.
eu admito que nesse assunto especificamente eu sou um tanto leigo... aí eu peço ajuda de alguém aí que saiba mais
mas o que houve ao meu ver é que essa estrutura de monarquia e nobreza que permaneceu esse tempo todo na Europa foi simplesmente herança de uma estrutura de poder de antes do cristianismo... e que ia levar tempo para que a moral cristã começasse a transformar essa estrutura
Do cristianismo dos apóstolos até a estruturação da igreja como instituição político/religiosa nos tempos de constantino existe um período de cristianismo, universal mas praticamente autônomo em cada uma das regiões em que existia a igreja. De qualquer forma, os costumes de igualdade entre os cristãos era muito forte. E esse era basicamente um traço comum entre os cristãos do primeiro/segundo século, de acordo com o livro de atos e outros autores padres anteriores ao período niceno.
Quando porém a igreja se torna uma instituição completamente integrada a burocracia do império romano, as coisas ficam radicalmente diferentes. Cria-se uma uniformidade doutrinaria através de concílios e sínodos, mas também criam-se patriarcados divididos politicamente. Acho que é aí que o cristianismo perde parte dessa mentalidade igualitária dos primeiros séculos e começa a legitimar a aristocracia já que a igreja se torna em grande parte (especialmente no oriente) um braço do poder secular administrado de forma semelhante a este.
Em Roma, devida a delicada situação política, a história foi diferente, mas acho que as raízes estão nesse mesmo evento.