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Na Carta Maior, negros servem é pra futebol

Iniciado por flaviom em 15/08/2011 · 4 mensagens

flaviom#1
Um tal de Marcelo Salles pergunta retoricamente na Carta Maior, embaixo de um banner da Petrobras (ou seja, em cima do seu dinheiro): por que não chamar o terrorista norueguês de “ultracapitalista”? Sua resposta também retórica é justificada com a afirmação de que a revista Veja o chama de “ultranacionalista”. Minha resposta nada retórica o lembra que, afinal, sendo ultranacionalista, não pode ser ultracapitalista, que é um modelo inapelavelmente globalizado.

O tal Salles também reclama das “variantes usadas no restante das corporações de mídia (atirador, terrorista, extremista e outros tantos, que confundem muito mais do que explicam)”. Estranho que uma palavra como “atirador” confunda mais do que explique: ele não atirou? Ou foi na pedrada? Na estilingada? E não é “terrorista”? Aliás, não estava a esquerda reclamando ontem mesmo que “a mídia” supostamente não o teria chamado de terrorista?

Quem nos lembra disso é o próprio tal Salles: “São confiáveis esses veículos de comunicação que imediatamente após o tiroteio apontavam o dedo para um providencial ‘extremista islâmico’? — versão que, aliás, não resistiu a 24 horas.” – quer dizer que, ao constatar que o rapaz não é muçulmano (e foi a polícia que o constatou, não a “mídia”), ele imediatamente também deixa de ser terrorista – rótulo “que confunde”? E eu achava que a Carta Maior seria o último lugar onde veríamos preconceito com muçulmanos…

Há uma explicação aqui: a esquerda reclamou, durante essas supracitadas 24 horas, que “a mídia” não o chamou de terrorista, mas se fosse islâmico, com certeza o teriam chamado desta forma. O problema é que… bem, a imprensa o chamou sim de terrorista, e bem rapidamente. Com a palavra se alastrando, foi melhor fingir então que denominá-lo assim é que é problemático. E que “confunde”. O que se “esquece” é que, se ele fosse de esquerda, ganharia o risco de estampar camisetas de universitários por aí.
flaviom#2
Pergunta o tal batráquio: “Estou sendo radical? O capitalismo não prega genocídios? O capitalismo tem um lado humano?” Respondo: Sim. Não. Talvez. O talvez é devido a outro ponto levantado pelo tal Salles: “Estou me referindo ao que é escondido (o trabalho escravo ou semiescravo e a máquina de moer essa gente que trabalha por um salário mínimo de fome)”. Ora, talvez minha definição de “trabalho escravo ou semiescravo” signifique ser obrigado a trabalhar. Via de regra, com um chicote no lombo. O capitalismo, e ninguém cuidou mais disso do que o próprio Marx, é o sistema dominado pelo capital, em que se ganha pelo que se trabalha. Ou seja, o capitalismo foi o único sistema econômico da História a abolir o trabalho escravo. Nenhum outro o conseguiu. Muito menos vocês-sabem-qual.

Mas esse é o blá blá blá de sempre. Como reclamar da crítica do terrorista Breivik ao multiculturalismo. Ninguém menos do que o último marxista que presta, Terry Eagleton, no recém-lançado O debate sobre Deus – Razão, fé e revolução, tasca na cara da esquerda (p. 135):

"O multiculturalismo, em seu aspecto menos atraente, ostensivamente abraça a diferença como tal, sem examinar muito de perto o motivo que a gera. Sua tendência é imaginar que existe algo inerentemente positivo em ter um leque de diferentes visões quanto ao mesmo assunto. Seria interessante saber se esse é o caso quando se trata de indagar se o Holocausto algum dia ocorreu.”

Mas o tal Salles adora o discurso pregador da moral que diz que qualquer pessoa que discorda dele é autoritária e se acha dona da verdade, não reflete e prega o ódio ao próximo ao invés de olhar para os próprios defeitos, atribuindo sempre a culpa ao outro.
flaviom#3
E emenda: “A propósito: o nazismo não era capitalista? Se não, o que era?” O que era o NSDAP, o Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei, o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, sr. Marcello Salles? Ora, é difícil ter de explicar isso sem ter vontade de se dar descarga em si próprio, mas era nacional-socialista. Uma versão nacionalista, porque racista, do que o senhor prega. Mas será que é só o Partido Nazista alemão que é racista, e suas visões são tão distantes assim?

De repente, o tal Marcelo Salles muda completamente de assunto:

"É evidente que o genocida norueguês nunca assistiu a um desfile da Estação Primeira de Mangueira. E nem viu um Neymar da vida jogando. Muito menos teve a oportunidade de apreciar uma partida como a de quarta-feira, entre Flamengo e Santos. Ali, na Vila Belmiro, quando todos os deuses do futebol (que não são nórdicos, por suposto) baixaram simultaneamente em campo, ficou provada a existência de milagres. Esses milagres que permitem uma jogada como a do terceiro gol do Santos, quando o miscigenado Neymar fez com a bola algo que desafia a compreensão até mesmo dos deuses. Esses milagres que fizeram com que o Flamengo virasse uma partida após estar perdendo por três gols de diferença, sendo que o miscigenado Ronaldinho fez três e foi chamado de “gênio” pelo melhor jogador do mundo na atualidade. (…) Deve ser duro para os racistas ouvirem isso, mas a verdade é que esses milagres nascem justamente com a miscigenação que as teorias nazistas repudiam. Futebol e música soam melhor quando tem mistura, é assim em qualquer lugar do mundo.”

Em primeiro, a principal diferença entre o socialismo e o nacional-socialismo mostra-se esponjosa aqui: esse tal Marcelo Salles também é nacionalista. E parece ser anti-nórdicos, apesar de defender a “miscigenação”.
flaviom#4
Mas o pior é sua conclusão: então defende o tal Salles os negros porque… eles jogam futebol bem. Afinal, já viu o Marcelo Salles negros fazerem outra coisa bem além de jogar futebol? Negros, em sua visão, servem é pra fazer milagres com uma bola – mas, ora, devemos combater o racismo e respeitá-los em sua condição de seres que servem para nos entreter. Se o negro precisa de um emprego, basta lhe dar uma bola ou uma lata para ele bater e ser animal exótico para turista ver.
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Os exemplos dados sobre negros que deixam brancos comendo poeira não são de homens como Thomas Sowell, o maior economista vivo do globo – que, por sinal, de esquerdista não tem nada. Não são intelectuais como Walter Williams. Não são bastiões das artes como Machado de Assis, Cruz e Souza, Capistrano de Abreu, Lima Barreto. Não tem nem uma porcaria de um Obama na lista. Negro, para esse pensamento (com o perdão da hipérbole), é futebol, samba e macumba. Se os negros não vão à ópera, os brancos vão ao baile funk. E assim se atinge a tão sonhada igualdade.
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São os descolados classe média alta que fazem concurso público para ganhar mais e trabalhar menos, e defendem que todos deveriam poder trabalhar para o governo – inclusive ele próprio, com concursos mais fáceis, que exigem menos estudos. Não são cabeças muito afeitas a se perguntar de onde vêm o dinheiro que o governo usa para pagar seus salários torrados a rodo – não são cabeças que já se perguntaram por que é “moralmente errado” trabalhar para uma empresa, e correto para o Estado, muito menos por que o Estado “moraliza” o dinheiro que não vem senão tungado das empresas.
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(continue lendo no http://implicante.org/: http://www.implicante.org/artigos/na-carta-maior-neg…pra-futebol/)

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