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Dante era um esquerdista...

Iniciado por martin_2 em 16/09/2011 · 15 mensagens

martin_2#1
LIVROS - Dante desce ao inferno

Biografia revela que Dante Alighieri teria usado alucinógenos para escrever a sua Divina Comédia" e aponta outros fatos inéditos da vida do poeta italiano
Ivan Claudio

O clássico "Divina Comédia", do escritor italiano Dante Alighieri (1265-1321) , é um livro ambicioso que sintetiza o pensamento político, filosófico e teológico da Idade Média. Por isso é uma obra de difícil acesso. Agora, no entanto, uma biografia crítica torna a descida de Dante ao inferno uma jornada mais fácil e agradável.

Trata-se de "Dante" (Record), da escritora e tradutora inglesa Barbara Reynolds, uma das maiores especialistas quando o assunto é o poeta florentino.

Ela releu toda a obra do autor, muniu-se de informações novas e escreveu um calhamaço de 640 páginas que traça um perfil ágil e ousado do retratado. Funciona
para
o leitor como o poeta Virgílio foi para Dante em sua peregrinação pelas profundezas: um guia erudito e conhecedor de todos os meandros dos versos alegóricos criados
pelo escritor.

A leitura da biografia mostra que a "Comédia" é uma resposta aos infortúnios que perseguiram Dante em sua existência: ele também desceu ao inferno em vida
e teve que superar pelo menos três círculos de condenações terrenas.

O primeiro foi o da paixão não consumada. Perdidamente enamorado por uma jovem de sua cidade, Beatrice Portinari, que conhecia desde os nove anos de idade, ele não conseguiu ser retribuído em seus sentimentos.

Como era costume na época, ambos casaram-se com parceiros escolhidos pelas respectivas famílias, mas isso não impediu Dante de insistir em suas investidas. Fazia poemas endereçados à amada e, ao encontrá-la em situações sociais, desmaiava. Aos 24 anos, Beatrice morreu. Dante ficou devastado para o resto da vida. Já nessa época, ele vivia outro ciclo infernal, o das drogas e suas visões horripilantes. Membro de um grupo de poetas (os Fedeli d'Amori) que endeusavam o amor, o florentino começou a fazer uso de poções "inspiradoras"
martin_2#2
Barbara pesquisou o herbário medieval e chegou à conclusão de que ele fez uso de maconha (identificada como canapa) e de aloé vera
(de onde
se faz o alucinógeno mescalina).

Registra também outra droga nomeada apenas como "grãos do paraíso" e cita como prova o trecho da "Comédia" em que Dante, "transumanizado" ao ascender ao
Céu, se
compara a Glauco, que "experimentou a erva" e se transformou em Deus do mar.
A autora levanta a hipótese de que o uso de estímulos psicodélicos esteja na origem das visões divinas de Dante, tese válida também para as aterradoras
descrições do inferno, quando o autor se vinga de seus inimigos políticos, reservando lugares de destaque na parte mais funda da morada do Demo aos bajuladores, semeadores de discórdia, corruptos e hipócritas. Integrante do grupo dos guelfos brancos (à frente do poder em Florença), Dante defendeu a cidade na Batalha de Campaldino e foi escolhido prior (alto posto na hierarquia social) aos 35 anos. Numa crise entre os rivais guelfos negros, foi obrigado a mandar para o exílio o amigo
poeta Guido Cavalcanti, que acabou falecendo (de malária, como ele). O pior viria a seguir, quando vai a Roma negociar a paz e é traído pelo papa Bonifácio VIII: sua
cidade é tomada pelos inimigos. Sem recursos para pagar a vultuosa multa pela falsa condenação de corrupção, amargou o resto da vida sem dinheiro, no exílio.

Segundo Barbara, "A Divina Comédia" seria assim não um tratado em versos sobre a salvação religiosa pela prática da virtude, mas um relato alegórico contra os usurpadores da vida
justa em sociedade."
martin_2#3
PQP

Dante era quase um Leonardo Boff do século XIV
brunovalente#4
Pelo que estou vendo de comentários de algumas pessoas que leram o livro, parece que a autora fala apenas que Dante tinha familiaridade com trabalhos de um tradutor de latim que tinha algum conhecimento sobre plantas alucinógenas. Depois menciona que em um tratado sobre hervas da época havia menção do vegetal Canapa (Cannabis sativa) para mostrar que tais hervas com tais efeitos eram conhecidas na época. Ou seja, a experiencia com drogas parece mera especulação. Mas o autor da matéria insinua que toda a Divina Comédia foi inspirada pelo uso de alucinógenos.

"Já nessa época, ele vivia outro ciclo infernal, o das drogas e suas visões horripilantes"

Tem algo errado aí...
brunovalente#5
Na introdução do próprio livro a autora escreve sobre a veracidade das visões da Trindade por parte de Dante. Alguns estudiosos da biografia dele dizem que as visões realmente aconteceram, outros dizem que não. Por fim, ela deixa a questão em aberto, dizendo que não há provas conclusivas. Então ela simplesmente coloca mais uma hipótese no bolo, hipótese que não havia sido colocada antes, a respeito de possíveis experiencias com alucinógenos, e dá alguns "indícios" como estes que eu mencionei no post anterior.

Aí vem o sujeito e escreve "Biografia revela que Dante Alighieri teria usado alucinógenos para escrever a sua "Divina Comédia"...
julio_8#6
Martin, leia "A poesia política de Dante" e "Meu Dante" de Otto M. Carpeaux que você irá mudar de idéia rapidinho.
hllio#7
A edição que tenho de "A Divina Comédia" tem prefácio* de Otto Maria Carpeaux e oferece uma descrição de Dante completamente diferente do que diz o texto postado pelo criador do tópico.

Gostaria de aproveitar o post e agradecer ao Julio pelas dicas de leitura!

*O prefácio é na verdade o capítulo de "História da Literatura Ocidental" destinado à obra do escritor de Florença.
fortunatta#8
D Dante, talvez o mais célebre poeta do Ocidente, não se sabe com certeza nem mesmo o nome: chamou-se realmente Dante, ou, como sugeriu Filippo Villani em seu De Origine Civitatis Florentie et de Eiusdem Famosis Civibus, Dante era uma abreviação de Durante? E seu sobrenome? Em documentos e nos manuscritos mais antigos, nenhum deles autógrafo (de Dante, não nos chegou sequer uma linha de próprio punho), encontramos: Alaghieri (com as variantes Alagheri e Alageri, que se verificam também nas formas seguintes), Aleghieri, Alighieri, Allaghieri, Alleghieri, Allighieri, Adegherii, Aldighieri, Aldigherri... Consagrou-se a forma Alighieri a partir de Boccaccio, seu entusiasmado copista, comentador e biógrafo, mas, segundo Nicola Zingarelli, que na passagem do século 19 ao 20 submeteu a análise e comparação documentos da época de Dante, a forma original teria sido Alaghieri. Guglielmo Gorni começa Dante: Storia di Un Visionario, mais recente biografia do poeta, publicada na Itália em 2008, pela constatação: "Poucas certezas e muitas dúvidas marcam a vida de Dante, desde o nascimento. Como sobre o outro grande protagonista das letras europeias, Shakespeare, sobre Dante recaem enigmas de todo gênero e são escassas as datas e os dados seguros". Nem mesmo sua data de nascimento é certa: o próprio Dante só assinala, reiteradas vezes ao longo de sua obra, seu signo, Gêmeos - donde se supõe que tenha nascido entre maio e junho de 1265. (Já a data de morte e suas circunstâncias são menos duvidosas: vítima de malária, contraída na viagem por terra de Veneza a Ravena, onde estava exilado, morreu nessa cidade na madrugada de 13 para 14 de setembro de 1321, poucos meses depois de ter concluído a composição de seu poema maior, a Commedia, ou, segundo a grafia do próprio Dante, Comedìa - que, aliás, só se tornaria Divina dois séculos depois, em 1555, quando o erudito veneziano Lodovico Dolce acrescentou o adjetivo ao título, em edição sob sua responsabilidade).
fortunatta#9
Essa constante incerteza - reforçada pelo fato de que passou a maior parte de sua vida adulta no exílio, sem fixar-se por muito tempo num único lugar, o que certamente favoreceu a dispersão de documentos, dificultando a reconstrução de sua trajetória numa narrativa unitária - faz com que, a seu respeito, os ensaios biográficos predominem sobre as biografias propriamente ditas. Ou, melhor formulado, faz com que os bons biógrafos - como Michele Barbi, Giorgio Petrocchi, Enrico Malato, Robert Hollander, o já mencionado Gorni - adotem um andamento ensaístico, deixando de lado as ilusões de conhecimento pleno, preocupando-se, em vez disso, em distinguir entre os relativamente poucos fatos comprovados e os inúmeros e contraditórios mitos que desde muito cedo se constituíram em torno de Dante. Tratam, antes de tudo, de voltar aos documentos, a começar pelos poemas em que Dante transfigurou incessantemente sua própria vida (o primeiro grande mitógrafo dantesco foi ele mesmo), e coligir e expor lacunas, dúvidas, possibilidades.

Procedimento bem diverso é o que está na base de Dante: O Poeta, o Pensador Político e o Homem, de Barbara Reynolds, publicado em inglês em 2006 e agora editado no Brasil pela Record. O livro é marcado por um singular horror vacui pelo qual todas as lacunas na história pessoal e autoral do protagonista são colmatadas com conjecturas, muitas delas destituídas de qualquer fundamento na documentação. Grande erro do leitor menos familiarizado com os estudos dantescos seria confundir o volume com uma biografia adequada às mínimas exigências historiográficas. Consiste, na verdade, numa seqüência de paráfrases mais ou menos eficazes dos principais textos dantescos, segundo a ordem cronológica de escrita, entremeada de incursões biográficas nas quais quase nunca fica claro o que é informação assentada em documentos de época ou na vasta bibliografia sobre o autor e o que não passa de suposição infundada.
fortunatta#10
Com um agravante: com freqüência, a autora elabora alguma hipótese declaradamente incerta, quando não francamente absurda, para logo fazer dessa hipótese o pressuposto do prosseguimento da narrativa.

O exemplo mais gritante dessa prática está no devaneio acerca da razão pela qual Dante abandonou a escrita do Convivio e do De Vulgari Eloquentia e se dedicou à composição da Comédia. Barbara Reynolds, com base em evidência alguma a não ser supostas marcas de oralidade nos tratados, sugere que ambos teriam sido concebidos originalmente como aulas ou conferências a serem ministradas em Bolonha. O Convivio, escrito em vernáculo com vista a um público mais amplo (enquanto o De Vulgari Eloquentia foi redigido em latim para leitores doutos), também teria se difundido na forma de cópias parciais, vendidas avulsamente. (Gorni, em contraste, conclui: " há razões para crer que o Convivio jamais tenha sido divulgado enquanto Dante estava vivo". E observa que também o De Vulgari Eloquentia provavelmente jamais saiu da "gaveta do autor".) Para Reynolds, um suposto "fracasso" comercial do Convivio e a "crise espiritual" dele decorrente teriam levado Dante a pensar em modos de reconquistar "seu público". É a figura de "Dante, o showman" - título de um capítulo - que aí emerge, para em alguma medida dominar todo o livro. A decisão de escrever a Comédia teria nascido da constatação de que havia no "mercado" uma grande "demanda" por contos maravilhosos, sobretudo aqueles que envolviam viagens ao mundo dos mortos... Com essa conjectura que beira o ridículo, Reynolds demonstra um desconhecimento espantoso do estatuto social de Dante. Este encarnava como ninguém a nova figura - nascida na Itália, mais precisamente na corte siciliana de Frederico II, e depois assumida pelo grupo stilnovista - do poeta-intelectual, que deixava para trás a figura do trovador, e mais ainda aquelas do jogral e do menestrel. Não era um "showman", mas um homem de pensamento.
fortunatta#11
O mais curioso do livro de Reynolds é que todas as hipóteses biográficas mais arriscadas - como as insinuações sobre a influência de alucinógenos nas "visões" de que Dante fala na Vida Nova e na Comédia ou sobre sua suposta bissexualidade - estão baseadas em evidências muito fracas ou mesmo inexistentes. Menos inconsistentes são as observações da autora acerca do trabalho de Dante com a linguagem - acerca do modo como estrutura os diálogos, acerca da ênfase em determinadas palavras ou do recurso pontual a formas dialetais, acerca do deslizamento entre os mais variados registros estilísticos - assim como a respeito dos vínculos dos textos dantescos com outros textos antigos e medievais.

Para o leitor não especializado, talvez a maior virtude do livro seja sua fluente legibilidade. Pena que esta seja prejudicada pela tradução, que tem problemas de várias ordens, a começar pela simples incompreensão do texto em inglês, assim como das citações em italiano e em latim. Um exemplo somente, dentre muitos: a autora cita e traduz a sentença bíblica "DILIGITE IUSTITIAM QUI IUDICATIS TERRAM", transcrita por Dante na Comédia, como "Love Justice Ye Who Judge the Earth", isto é, "Amai a Justiça, Vós Que Julgais a Terra"; na tradução brasileira, lê-se uma frase sem sentido: "Amor Justiça Que Julgam a Terra".

Eduardo Sterzi é doutor em Teoria e História Literária pela Unicamp, professor no curso de pós-graduação em História da Arte na Faap e autor, entre outros, de Por que Ler Dante .
fortunatta#12
Outra dura critica sobre esta teoria : 'Habladuria inutil', se limita al replicar el profesor Ignazio Baldelli, profesor erudito en historia de la lengua italiana de la Universita La Sapienza de Roma y academico del Lincei.'Esfuerzo absurdo, estupideces, es mejor que definirlo todo como una bestialidad', corta tajantemente el profesor Enrico Malato, director de la 'Revista de estudios dantescos'. Habla de 'especulaciones sobre Dante, una hipotesis poco creible' el profesor Guglielmo Gorni, presidente de la Sociedad Dantesca Italiana.'Estamos de frente a cosas que no se pueden demostrar', observa el profesor Luca Serianni, profesor regular de historia de la lengua italiana en la Universidad La Sapienza de Roma y academico de la Crusca. 'Sin pruebas se puede decir todo y el contrario de ese todo', por lo que Reynolds se basa en puras suposiciones que hacen perder el tiempo que encuentran', agrega Serianni.

Fuente: http://es.shvoong.com/internet-and-technologies/4809…xzz1YC6roLZs
martin_2#13
é claro que ali pode estar mais a opinião do jornalista do que propriamente uma resenha do livro

esse tipo de tolice me preocupa mais pelo mau que irá causar.

assim como hoje 90% das pessoas acreditam que galileu foi perseguido pela igreja

logo passam a pensar que a droga não faz tão mal assim, afinal inspirou Dante

sem fala que esse tipo de obra casa-se perfeitamente bem com a eliminação da transcendência da nossa perspectiva feita pelos neo-ateus
brunovalente#14
Bom, isso representa bem o jornalismo brasileiros. Fica a dúvida apenas se este "equívoco" foi por incompetência ou por malícia.
brunovalente#15
Dúvida, mas nem tanto... Aposto que se a obra fosse uma biografia que indicasse que Dante foi um Santo, o crítico não daria a mínima atenção.

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