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Civilização Ocidental ou Anglo-Saxã?

Iniciado por fabio_9 em 27/02/2005 · 8 mensagens

fabio_9#1
Toda interpretação histórica do século 20 que já li de autores ingleses e americanos começa com o pressuposto de que a atual cultura anglo-saxã é a encarnação e ápice da civilização "Ocidental". Todos estes autores vislumbraram uma clara linha de continuidade da Grécia para Roma Imperial, da Roma Imperial para a Europa Cristã, da Europa Cristã para o Império Britânico, do Império Britânico para a República Americana e da República Americana para o Império Global Americano.

Do ponto de vista de um católico sul-americano, tal linha pode apresentar um perfil bem diferente: a ascensão do Império Britânico surge como uma ruptura no desenvolvimento do Ocidente, como o início de algo que, para o bem e para o mal, era radicalmente diferente dele.

Para começar, a Inglaterra moderna não é concebível sem a nova Igreja Inglesa que faz do rei, ao invés do Papa, o líder dos fiéis. O surgimento da Igreja Anglicana é uma ruptura da unidade cristã muito mais drástica do que a Reforma em si. O protestantismo deu origem a múltiplas ramificações que poderiam retornar, uma por uma, a fé católica - ao menos em teoria - enquanto o Anglicanismo forma um bloco político-religioso robusto que não pode ser desfeito a menos que a própria unidade Britânica seja dissolvida. Comparada com as esparsas resistências que o Papado enfrentou na Europa ao longo dos séculos, a Inglaterra foi o primeiro poder integral a levantar-se contra ele como uma alternativa auto-suficiente de autoridade, tanto política como religiosa. Já que a Europa medieval é, sem dúvida, uma criatura do todo-abrangente poder da Igreja Católica, a ascensão de um poder concorrente autônomo é claramente o fim de um período histórico que pode ser denominado a Catolização do Ocidente.
fabio_9#2
Nesta perspectiva, a civilização américo-britânica não pode ser entendida como a encarnação e ápice natural e inevitável da civilização Ocidental a menos que aceitemos que o papel civilizador da Igreja Católica alcançou seu fim no exato momento da ascensão do Império Britânico. Bem, tal premisa não pode ser aceita por aqueles que, sendo católicos, crêem que a Catolização do Ocidente era e deve ser nada menos que o prelúdio da Catolização do mundo. Para eles, o ciclo américo-britânico não é o ponto culminante dos ideais Ocidentais, mas antes um desenvolvimento bem particular e desviado que alcançará seu fim antes da principal tendência civilizatória Ocidental, que foi momentaneamente interrompida por ele, possa recomeçar sob a bandeira da fé Católica. Tais pessoas podem estar certas ou erradas, mas sua própria existência demonstra que o postulado que apóia as alegações anglo-saxãs não pode ser considerado como dado sem um cuidadoso exame crítico.

É bem óbvio que nossas expectativas sobre o futuro em larga medida determinam nossas visões do passado. Todo historiador leigo que crê que sua ciência está livre de tais pressupostos demonstra nada mais que sua crença inconsciente - ou talvez um pouco consciente- de que o futuro sera moldado por historiadores leigos. Aqueles que acreditam que o modelo anglo-saxão de
civilização é a única expressão lógica da civilização Ocidental, o fazem porque acreditam que toda outra possibilidade foi abortada de uma vez por todas. E a única base que pode existir para tal crença é seu desejo de que qualquer alternativa para a civilização anglo-saxã seja abortada agora mesmo.

3 de agosto de 1999

Olavo de Carvalho
Traduzido do inglês por Fabio Lins
hiranclair#3
É bastante lógico e compreensível que um católico sinta mal estar diante do papel dominante que os países de cultura anglo-saxã protestante atingiram no mundo. Naturalmente, um católico gostaria de ver a religião católica e os países católicos serem a força dominante no Ocidente e depois no mundo, mas não me parece que é isso que vai acontecer.
Estudando Weber com a Ética Protestante, mais o livro a Sociedade da Confiança, de Alain Peyrefitte e algumas outras leituras a mais, cheguei a conclusão de que realmente o Catolicismo atrapalhou muito o desenvolvimento dos países católicos e atrapalha até hoje. Apesar de ser anti-comunista a Igreja Católica também tem um forte viés anti-liberal, burocrático, centralizador e autoritário.
Por esse motivo, e por outros erros também, os países protestantes se desenvolveram mais e tomaram a dianteira da civilização ocidental. E quais são as perspectivas de isso mudar? Será que os países católicos da Europa podem se desenvolver a ponto de ultrapassar os protestantes? Acho que não.
E na América Latina, será que o Brasil e os outros países poderão ser novos bastiões da catolicidade no mundo? Também acho que não, inclusive porque o crescimento do Protestantismo no Brasil e no resto dos países latino americanos vem se dando num ritmo muito forte.
Sei que deve ser muito duro para um católico engolir isso, mas o Catolicismo é uma religião em declínio, ele não tem atualmente a mesma força missionária que o Protestantismo.
Gostem ou não, essa é minha opinião e como eu vejo as coisas. Não sou profeta, não acho que o futuro está predeterminado, por isso existe a possibilidade de o Catolicismo reagir. Mas eu pessoalmente não creio nisso.
marcos_12#4
Achei o texto excelente, mesmo porque mostra os graves problemas que o núcleo duro da civilização ocidental, a Europa, vem sofrendo hoje.
Apenas gostaria de lembrar um coisa: o Ocidente e, mais especificamente a Europa, são mestres em destruir a si mesmos. Todas as ideologias modernas e distorções nas sociedades do mundo afora nos últimos 500 anos vieram do Ocidente, para não falar no triunfo da Rev. Frances em detrimento da fé religiosa, o niilismo, nazismo, comunismo, nacionalismo e todas as outras ideologias que cresceram destruindo o que havia na frente.

Olha, Hiranclair, acredito que a "salvação" para a fé católica pode estar numa revolução espiritual da visão da Igreja. Nesse sentido, coloca a idéia de contemplar a palavra de Cristo plantada dentro de casa indivíduo independente da vontade da Igreja. Em outras palavras: diminuir a autoridade política da Igreja e espalhá-la no sentido espiritual do termo. O problema é que isso passa por uma reformulação mentar da Igreja e, acima de tudo, pela quebra da barreira leiga e politicamente correta que ascendeu com a modernização do Ocidente e, daí, da humanidade.
Vejo muitos católicos terem uma opinião à respeito da vida "porque o Papa disse", porém a idéia do Papa aparece muito como um líder político e não é esse o aspecto no qual ele deve ser compreendido.

Minha idéia não ficou muito clara e exatamente o que eu queria dizer, mas é por aí.
hiranclair#5
Comentando o que o colega Roberto disse, a Europa Continental poderia ser uma alternativa à civilização anglo-saxã protestante. Se a Europa Continental fosse um bloco continental além de forte economicamente, unida numa fé católica vigorosa, poderia fazer o que alguns católicos gostariam, que é ver o Catolicismo na dianteira do avanço da Civilização Ocidental.
Mas como o colega disse, a Europa de hoje é filha da Revolução Francesa, de seu anti-clericalismo, materialismo, niilismo, essas coisas todas, e politicamente o que predomina é a visão política social-democrática de estado paternalista, a qual, creio eu, trará decadência no futuro.
Em outras palavras a Europa, mesmo os países católicos, uns mais, outros menos, estão muito secularizados, não se vê nesses países a religião demonstrar o vigor que tem nos EUA. Por exemplo, políticos americanos dizem muito "Deus abençoe a América". Que políticos europeus pedem que Deus abençoe seus países?
Pelo minha percepção, existe hoje um grande abismo entre EUA e Europa, porque na Europa a religião atualmente tem muito pouca influência na formação dos valores sociais e na política. Que partidos na Europa se apóiam nos valores cristãos como faz o partido republicano nos EUA? Desse modo a Europa aceita o aborto, casamento gay, eutanásia e não defende as liberdades individuais como os EUA.
Acredito, por tudo isso, que os EUA são o país que traz em si o que de melhor a Civilização Ocidental criou, de um lado a herança cultural greco-romana, as conquistas políticas e econômicas derivadas da Inglaterra, a democracia, o liberalismo e a isso associam-se os valores da tradição judaico-cristã, sob o prisma protestante.
Entre a civilização americana atual e a civilização continental européia de hoje, prefiro mil vezes os americanos. Não vejo perspectiva de surgir um país ou bloco de países católicos que mostrem um outro caminho possível de desenvolvimento da cultura ocidental melhor do que os EUA.
leandro_13#6
Marcos,

Pelo que entendi, religiões a parte (assunto que não convém ser misturado a esse debate), enquanto a civilização é construída por um lado pela inovações inglesas (livre iniciativa, individualismo, pragmatismo), do outro, vem sendo destruído pelas invenções francesas (estatismo, culto à Razão, socialismo, cientificismo, nacionalismo).
leandro_13#7
Interessante esse tópico.
Não é a toa que os idiotas de plantão, aqueles que não sabem como se planta milho e querem ser porta-vozes dos sem-terra, não pousaram por aqui...

Sobre a tese de Peyrefitte acredito que repouse sobre um mito (tipicamente francês) que a organização capitalista repouse sobre uma estrutura anárquica, de entidades independentes.
Se fosse assim, o Brasil teria uma certa precedência.

Acontece que o capitalismo exige também, além de outros fatores, garantias de propriedade, contratos, prazos, etc.
Isso só é possível com um Estado não necessariamente interventor, mas capaz de oferecer essas garantias.

Aí a questão retorna ao sistema de valores, ou seja a Webber...
leandro_13#8
Muitos dos "horríveis males dos capitalismo", que desde crianças somos alertados a tomar cuidado, são, na verdade, resquícios do pré-capitalismo, efeitos do estatismo, ou mesmo, o desprazer que o trabalho de verdade acarreta.

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