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Não é nenhum documento secreto escondido no armário, mas sim uma bela canção que consta do álbum “Precoce” (e “precoce” nesse sentido mesmo que você pensou…) de Amaury Ribeiro Jr. Infelizmente, a mídia não deu o destaque necessário a esse talento. Vale dizer que todas as músicas são muito bem escritas e executadas; então escolhemos a esmo a bela cantiga “MARLI MEUTRAVESTI”.
Melodia muito parecida com “São Paulo, São Paulo”, do Premê. Com uma letra tão genial dessas, sejamos justos, não é lícito cobrar uma melodia 100% original. Vejam só que epopéia:
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Alguns trechos PRECISAM ser comentados, pois são simplesmente excepcionais e mostram o talento inequívoco do compositor além da interpretação simplesmente perfeita e crível:
"E a meio outros pares
Marli, meu travesti
Cruzamos as pernas
Grudamos as pintas
Cresceu a sua mão"
Cresceu a mão! Essa metáfora já mostra que o autor pertence às mais sofisticadas escolas da poesia moderna. O que poderia crescer? Ora, muita coisa! Ou apenas uma, enfim… Mas ele escolheu as mãos, logo após unir as “pintas”. A pinta de cada um? O autor e Marli tem cada qual sua pinta, e as uniram. Uma paulada lírica, definitivamente.
Em vez de “em meio a” sai um “a meio”. Ele está certo, ora! Poetas, vocês sabem, têm licença para cometer um ou outro pecadilho, mesmo se for pecado capital para a gramática. Mas o que gramáticos normativos entendem de amor? E de Marli? Pois é… O importante é prevalecer o lirismo. Assim, o leitor/ouvinte recebe uma verdadeira paulada poética.
"Fazemos façanhas, inventamos mil transas
Nos damos sem pudor
Somos românticos, apaixonados
O maior dos casais
Adotamos uns filhos
Deixamos os tiros
Em nome do nosso amor"
É preciso parabenizar o autor por não estar filiado a escolas e sistemas retrógrados. Suas rimas não são como aquelas conservadoras, que possuem a tal “identidade fonética”. Ele prefere rimar “façanhas” com “transas”, “roupas” com “bocas”, “guardas” e “quebrava”, e a praticamente parnasiana “eróticos” com “simbiótico”.
Também fascina a parte do “deixamos os tiros” cuja motivação (de tê-los deixado) seria “em nome do amor”. Mas o que significam esses “tiros”? Que tipo de “tiro” alguém abandona em nome do amor? Pode ser bangue-bangue ou alguma outra carreira – as dúvidas ensejadas pela canção só a enriquecem.