Texto publicado em 1 de março de 2005 na coluna semanal escrita por Arnaldo Jabor no jornal O Globo.
"A fábula do tucano e do sapo barbudo"
Por que me odeias, ó, sapo barbudo? — perguntou o tucano. — Achas que eu sujo a água que bebes no rio do Poder? Talvez porque, enquanto tu trabalhas como formiga no governo, eu canto e danço como cigarra na oposição? Por que me odeias, sapo barbudo?
O sapo barbudo respondeu:
— Eu é que pergunto por que você me despreza, do alto de seus galhos, com seu bico de doutor nefelibata? Só porque eu vim da caatinga, porque não pude estudar e vendi picolé no cais do porto?
O tucano replicou:
— Não, caro sapo, eu não te desprezo, eu até te invejava quando surgistes, um súbito símbolo irrompendo no mundo universitário. A tua figura de jovem sindicalista com a barba negra, teus gestos épicos diante da massa de metalúrgicos nas greves me deram muita inveja. Nós da USP nunca tínhamos visto um operário real. Conhecíamos alguns encanadores, faxineiros de nossas casas, entregadores de pizzas, mas tu surgistes como uma estátua leninista, e viestes preencher os sonhos infantis de intelectuais paulistas. Nós, trêmulos professores, te amamos como uma alegoria viva, foice e martelo na mão com o dedo decepado, pois tua eras a primeira novidade da esquerda pós-64. Tu fostes o primeiro operário do Brasil. Algumas professoras nos desprezaram na gincana sexual da USP e foram “dar” para ti, esperando um elixir ideológico que as vivificasse...
Esse diálogo do sapo com o tucano, na beira do rio, era ouvido por toda a “baixa bicharada” da floresta: toupeiras, cachorros do mato, ratões de campos, cobras criadas, aranhas fisiológicas, baratas leprosas, botos tucuxis, vermes evangélicos, todos os bichos atrasados do mato seguiam a conversa dos dois. Havia entre eles uma animação nunca vista nos últimos anos, entre brejos e tocos queimados por grileiros.
"A fábula do tucano e do sapo barbudo"
Por que me odeias, ó, sapo barbudo? — perguntou o tucano. — Achas que eu sujo a água que bebes no rio do Poder? Talvez porque, enquanto tu trabalhas como formiga no governo, eu canto e danço como cigarra na oposição? Por que me odeias, sapo barbudo?
O sapo barbudo respondeu:
— Eu é que pergunto por que você me despreza, do alto de seus galhos, com seu bico de doutor nefelibata? Só porque eu vim da caatinga, porque não pude estudar e vendi picolé no cais do porto?
O tucano replicou:
— Não, caro sapo, eu não te desprezo, eu até te invejava quando surgistes, um súbito símbolo irrompendo no mundo universitário. A tua figura de jovem sindicalista com a barba negra, teus gestos épicos diante da massa de metalúrgicos nas greves me deram muita inveja. Nós da USP nunca tínhamos visto um operário real. Conhecíamos alguns encanadores, faxineiros de nossas casas, entregadores de pizzas, mas tu surgistes como uma estátua leninista, e viestes preencher os sonhos infantis de intelectuais paulistas. Nós, trêmulos professores, te amamos como uma alegoria viva, foice e martelo na mão com o dedo decepado, pois tua eras a primeira novidade da esquerda pós-64. Tu fostes o primeiro operário do Brasil. Algumas professoras nos desprezaram na gincana sexual da USP e foram “dar” para ti, esperando um elixir ideológico que as vivificasse...
Esse diálogo do sapo com o tucano, na beira do rio, era ouvido por toda a “baixa bicharada” da floresta: toupeiras, cachorros do mato, ratões de campos, cobras criadas, aranhas fisiológicas, baratas leprosas, botos tucuxis, vermes evangélicos, todos os bichos atrasados do mato seguiam a conversa dos dois. Havia entre eles uma animação nunca vista nos últimos anos, entre brejos e tocos queimados por grileiros.