Fórum Olavo de CarvalhoArquivo da comunidade do Orkut · 2004–2013

Nelson Rodrigues e a Literatura brasileira:

Iniciado por jeferson_3 em 27/01/2012 · 17 mensagens

jeferson_3#1
Descobri Nelson Rodrigues como um caso quase que singular na história da literatura brasileira no século XX: um escritor não curvado à ideologia marxista. Ao menos pela crônica titulada "O verdadeiro Cristo é Marx", ele lança uma crítica ácida invertendo a lógica de Marx: o marxismo é o ópio do povo _ diz Nelson.

Por outro lado suas peças abundam em cenas de adultério, incesto e violência familiar. O certo é que Nelson é por vezes amado, por outras odiado. Cristão de fato, como se definiu? Conservador, como disse de si mesmo no título de sua autobiografia? Se você conhece a vida e a obra de Nelson eu lhe pergunto: o que dizer do Nelson?

Seu filho, por outro lado, foi e é um veemente marxista de carteirinha. É o conflito familiar minha gente.

Deixo aqui mais uma pergunta: além de Nelson, conhecem mais algum nome da direita conhecido na literatura brasileira do século XX? Para Olavo de Carvalho me parece que a resposta é negativa, e em "O imbecil coletivo" ele critica a teledramaturgia contaminada pelas cenas de conflito familiar rodrigueanas.

E os caros companheiros de comunidade. O que me dizem do Nelson? E se ele é mesmo um conservador como se diz, qual outro salta das páginas da literatura brasileira do século passado?
bruno_15#2
Nelson Rodrigues tinha um estilo de descrever a malandragem e a promiscuidade da sociedade de forma que parecesse advogar para ambas. Poucos percebem o sarcasmo por detrás de seus textos.
leonardo_2#3
E ele sabia sobre o que escrevia. Foi repórter policial e conheceu muito bem o lado podre da sociedade carioca de sua época.
jeferson_3#4
Concordo, por ora, com o Bruno. Em Aristóteles a tragédia tem um fim medicinal: levar à purgação dos afetos. Nelson retoma a poética aristotélica, mas já não trata da ação dos deuses no desígnio dos caracteres, mas os traça como movidos por suas pulsões de morte e vida. Nelson Rodrigues não é água com açúcar...
jeferson_3#5
O filho dele, Nelson Rodrigues Filho - é a ironia do destino - é um marxista de carteirinha e trabalhou em algumas produções cinematográficas baseadas em obras de Nelson. Mas cagaram no cinema: transformaram Nelson em uma espécie de pornô chanchada. 

leonardo_2#6
O NR Filho é aquele barbudão que escrevia no Jornal dos Esportes.. Esse foi guerrilheiro , foi preso e tal..

Mas o filho do NR cineasta era o Joffre Rodrigues , morto em 2010

http://veja.abril.com.br/noticia/celebridades/aos-68…on-rodrigues
marciushp#7
O cara ainda cria polêmica. 

O filho dele, fulanos, era dono de bar.

Nelson pai era tricolete, embora amasse o Mengão.

Delatou a sordidez da sociedade como poucos. 

Algo como fez Giovanni Boccacio, com o "Decameron", no final da Idade Média.

O que tem de mais importante em "Nelson Rodrigues"? 
marciushp#8
Pena que o Olavo não se dê ao luxo de ler as nossas baboseiras...
jeferson_3#9

[url]/Main#Profile?uid=10057834797564544971[/url]:
O NR Filho é aquele barbudão que escrevia no Jornal dos Esportes.. Esse foi guerrilheiro , foi preso e tal..

Mas o filho do NR cineasta era o Joffre Rodrigues , morto em 2010

http://veja.abril.com.br/noticia/celebridades/aos-68…on-rodrigues

O nome Nelson Rodrigues Filho consta como co-diretor no filme "Bonitinha mas ordinária, ou Otto Lara Resende" e também em "Álbum de Família". Este último teve a assinatura do maestro John Nescheling na trilha sonora.
leonardo_2#10
Ah , ok.. Desculpa aí , então.
andr_10#11
Eu nunca tinha dado importância a Nelson Rodrigues até que há alguns meses atrás descobri que ele fora grande admirador do Gustavo Corção, tendo o site do grupo Permanência alguns textos dele.
jeferson_3#12
Saca essa entrevista que ele concedeu ao Otto Lara Resende, amigo que subtitula uma de suas peças:

Vídeo do YouTube
andr_10#13
Movido pelo tópico, pus-me a ler alguma coisa de Nelson Rodrigues e reparei num negócio: parece o Olavo falando.
.
E daí fui ver, o Olavo o coloca entre uma de suas influências estilísticas:
.
"A Nelson Rodrigues também devo muito. Dois títulos condensam toda a sua arte de escrever: “A vida como ela é” e “O óbvio ululante”. O segredo do seu estilo é a audácia de dizer as coisas da maneira mais direta e corriqueira, transfigurando o prosaico em símbolo. Não encontro coisa similar senão em Pío Baroja e Julien Green, embora neste sem nada do cinismo de Nelson, naquele com um cinismo diferente, mais frio e resignado."
.
http://www.olavodecarvalho.org/semana/aindaarte.htm
riscardo#14
"Minhas peças têm um moralismo agressivo. Nos meus textos, o desejo é triste, a volúpia é trágica e o crime é o próprio inferno. O espectador vai para casa apavorado com todos os seus pecados passados, presentes e futuros. Numa época em que a maioria se comporta sexualmente como vira-latas, eu transformo um simples beijo numa abjeção eterna."(Nelson Rodrigues)

***

"Manuel Bandeira chegou pra mim um dia, quando eu e meus personagens éramos odiados, e disse: 'Nelson, por que você não faz uma peça em que os personagens sejam assim como todo mundo?' Eu respondi da forma mais singela: 'Mas meu caro Bandeira, meus personagens são como todo mundo.' Porque uma coisa é verdade: quem metia ou mete o pau no meu teatro está procedendo como um Narciso às avessas, cuspindo na própria imagem."(Nelson Rodrigues)

***

"A ficção para ser purificadora precisa ser atroz. O personagem é vil para que não o sejamos. Ele realiza a miséria inconfessa de todos nós."(Nelson Rodrigues)
riscardo#15
.
http://blogdo.yurivieira.com/2011/10/nelson-rodrigues-corcao-bacanal/
.
Conto extraído do livro A vida como ela é… — O homem fiel e outros contos, de Nelson Rodrigues

Baixei ontem "A invasão vertical dos bárbaros", do Mário Ferreira do Santos, motivado pelo comentário do Yuri Vieira.
jeferson_3#16
Recentemente eu li "A mulher sem pecado", que traça a história de Olegário, marido obsediado pela desconfiança doentia com respeito a sua esposa, Alaíde. Ele se faz de paraplégico e permanece numa cadeira de rodas por 7 meses a fim de testar a fidelidade da mulher. Mas é a perseguição sem freios do falso cadeirante que traz a tentação da traição à Lídia, mulher fiel atormentada pelo ciúme doentio do marido. Em certo momento Olegário até diz para sua esposa que "algumas mulheres deveriam ter o direito de trair", e que "a fidelidade deveria ser uma virtude facultativa". É simplesmente genial. Foi a primeira peça que Nelson escreveu, pouco antes do célebre Vestido de Noiva, um marco na dramaturgia brasileira.

Muito obrigado Riscardo, pela recomendação deste texto do Olavo.
ayrton#17

‹ Voltar para a lista de tópicos