Cenas chocantes
não faltam em Tropa de Elite. Uma delas é
abissal – não pela violência, mas pela inversão
moral que representa. Baiano, chefe do tráfico em um
morro, descobre que Matias, o namorado de uma estudante que
trabalha numa ONG na favela (e que consome sua mercadoria),
é policial. Baiano encurrala a moça e os amigos
dela, exigindo uma resposta: com quem, afinal, eles "fecham"?
Com ele ou com a polícia? Com ele, é claro,
responde o contingente zona-sul. Que fala com sinceridade,
não apenas por medo, mas porque a esses garotos e garotas
de fato parece impensável alinhar-se com a autoridade
e seu suposto fascismo.
Também o
cinema brasileiro "fechou" com os bandidos. Ele os prefere
por razões que vão de hábitos criativos
à ideologia e às circunstâncias históricas
do Brasil – remotas e presentes. A romantização
do crime teve seu primeiro momento forte nas décadas
de 60 e 70, quando a ditadura militar deu à autoridade
policial contorno arbitrário. O Bandido da Luz Vermelha,
O Assalto ao Trem Pagador e Lúcio Flávio
– O Passageiro da Agonia marcaram época nas
salas de exibição. Hoje, de Cidade de Deus
e Carandiru a Cidade dos Homens, a vida do ponto
de vista do crime, ou de quem existe na sua proximidade, permanece
talvez o maior tema do cinema nacional. Tropa de Elite
é uma exceção no empenho em observar
o caos brasileiro por um prisma diverso.
A missão
que Tropa de Elite cumpre agora foi iniciada por Cidade
de Deus, que desmantelou os estereótipos do criminoso
coitado e do bandido camarada (figuras que, logo a seguir,
Carandiru reinstauraria com veemência). No cinema
da "retomada", o filme de Fernando Meirelles foi pioneiro
em demonstrar que o crime tem, sim, mil maneiras de seduzir
jovens e pobres – mas, salvo uma minoria, a quem as circunstâncias
acuam de modo inescapável, pode-se não aceitar
esse convite. Esse raciocínio domina também
Tropa de Elite. Meirelles e Padilha, assim, estão
solitários no seu rompimento com a visão praticada
pela maioria dos cineastas brasileiros. A qual, em última
análise, mitiga sempre a opção pelo crime
em face da pobreza e "alivia" o bandido mesmo quando não
haveria o que "aliviar".