Paradoxos que levaram aos dogmas cristãos
Le Goff revela como surgiram alguns valores que julgamos fixos ou eternos
Mauro Baladi
Todas as ameaças que pairam sobre o nosso mundo podem ser reduzidas a duas causas: a ignorância e o fanatismo. São essas duas pragas - eternas companheiras da humanidade - que nos impedem de ver a realidade, cegando-nos ou ofuscando-nos em demasia. Um dos melhores remédios para esses males é o estudo da História, que expande os nossos horizontes no espaço e no tempo mas, também, nas idéias. É ela, a História, que rompe com a tendência 'natural' que temos em crer que tudo o que existe à nossa volta começou conosco ou sempre existiu (pois a ignorância comporta esses dois extremos). É claro que não estamos nos referindo a uma história caduca, voltada para a produção de heróis ou para a legitimação de abusos e preconceitos. O século 20 trouxe para este ramo do saber toda uma nova maneira de ver e de conceber a sua atividade, a qual se incorporaram elementos da sociologia, da economia, da geografia, da psicologia e da própria filosofia.
Um dos representantes máximos dessa Nova História é, sem dúvida, Jacques Le Goff, legítimo 'sucessor' de gigantes como Marc Bloch, Lucien Febvre, Fernand Braudel e Georges Duby. Ao longo dos últimos 50 anos, Le Goff tem realizado um trabalho de pesquisa incessante - materializado em uma série de obras brilhantes - em torno das idéias e das práticas do homem medieval (que, por sua vez, formaram nossas próprias idéias e práticas). Sempre pensando a História na longa duração (uma visão dinâmica, que não isola e congela sociedades e fragmentos do tempo), Le Goff utiliza todos os tipos de documentos para nos mostrar como surgiram ou se transformaram alguns valores que julgamos fixos e eternos. Nada escapa da mudança, nem mesmo o próprio Deus, como fica evidente pela leitura de O Deus da Idade Média.
Neste livro (apresentado na forma de um diálogo com o também historiador Jean-Luc Pouthier), Jacques Le Goff faz literalmente uma história de Deus na Idade Média, entre os séculos 3º e 13. Esse Deus é, evidentemente, o dos cristãos, que 'entrou' na História pelas características que o distinguem de seus concorrentes diretos: o Javé dos judeus e o Alá dos muçulmanos. Enquanto Javé e Alá não podem ser representados, estão totalmente fora da esfera humana, o Deus cristão é antropomórfico e tem - ou pode ter - um rosto (como vemos no próprio livro, num pequeno encarte com gravuras). Além disso, a identificação, na Trindade, entre Deus e Cristo torna essa divindade quase familiar. Assim, como as próprias artes que o representam, Deus adquire a bizarra condição de um eterno em permanente mudança.
Já de início, o livro de Le Goff nos mostra a falsidade (ou, nas respeitosas palavras do autor, a flexibilidade) fundamental do monoteísmo ocidental. Se o velho panteão greco-romano foi substituído pelo Deus único, esse Deus logo teve que 'delegar' poderes a toda uma série de entidades, começando pela Trindade (essa que é, ainda hoje, a mais estapafúrdia concepção do cristianismo) e indo até os santos e anjos (em especial, os anjos da guarda, divindades individuais). Outra característica dessa fragmentação de poder é a transformação de Maria em uma espécie de 'quarto elemento' da Trindade, como intercessora maior e preferencial entre o humano e o divino.
A questão dessa intercessão é, aliás, um dos maiores problemas políticos da Igreja nos seus primórdios: se Deus é onipresente - condição que não pode ser negada -, se está em tudo e em todos, qual a necessidade das igrejas e dos próprios padres? É para esse tipo de paradoxos que servem os dogmas... e foi assim que o Deus que está em tudo passou a estar 'mais' nos templos e o Deus que está em todos passou a dialogar preferencialmente com alguns escolhidos. De acordo com Le Goff, essa dominação da Igreja, sua imposição como intermediário obrigatório entre os homens e Deus, alcançou seu ponto alto no século 12 e teve como principais instrumentos a consolidação da teologia e a prática dos sacramentos. Porém, outro instrumento serviu muito bem a esse propósito: o uso do latim como única língua para falar com Deus (o que lança uma nova luz sobre algumas atitudes recentes do papa Bento XVI).
O maior mérito que podemos observar neste livro de Jacques Le Goff - e que não é explicitado pelo autor - é sua reveladora comparação entre essa 'trindade' de deuses únicos. Enquanto as palavras de Javé e Alá - deuses que estão 'fora e acima' da História - são simplesmente ouvidas e repetidas, as palavras do Deus cristão são passíveis de múltiplas interpretações, de diferentes leituras (afinal, a teologia é uma ciência e não deixou de ser influenciada pela filosofia). Eis aí aquilo que, do nosso ponto de vista, preserva o cristianismo de alguns extremos de fanatismo. Enfim, por estar 'na História' - mesmo a contragosto -, o Deus cristão também sofreu modificações ao longo dos séculos. Afinal, a história é devir.
Todas as ameaças que pairam sobre o nosso mundo podem ser reduzidas a duas causas: a ignorância e o fanatismo
Eita panfletão. Que valor filosófico ou científico tem uma porcaria dessas? Será que essa gente se dá ao trabalho de visitar a história e ver o que aconteceu no séc XX? Ou os 120 milhões de mortos são consequência do fanatismo e da ignorância?
Bastaria uma lidinha no 1984 para ter uma clara imagem da opressão REAL ( não aquela que eles panfleteiam) do perigo que a humanidade corre. Imagem essa, aliás, que nem o Papa parece conhecer. Vai ver ele não leu 1984.
"Você quer uma imagem do futuro? Imagine uma bota prensando um rosto humano para sempre".
Essa é a imagem da opressão que o Sr Bento XVI parece ignorar também, preferindo sair por ai panfleteando as asneiras materialistas que ele deve ter lido muito bem nos clássicos da invencionice socialista.
já vi jovens citando o livro 1984,,, contra o capitalismo....... mentem nas escolas... OS JOVENS NÃO SABEM QUE O LIVRO 1 9 8 4 ,, É CONTRA O COMUNISMO..
Haja esforço para transformar 1984 num livro contra o capitalismo. Seria um esforço comparável a transformar "Mein Kampf" num livro de tolerância e amor ao próximo.
Aliás Orwell é tão genial que deixa a resposta dentro do livro: 2 + 2 = 5.
¨A questão dessa intercessão é, aliás, um dos maiores problemas políticos da Igreja nos seus primórdios: se Deus é onipresente - condição que não pode ser negada -, se está em tudo e em todos, qual a necessidade das igrejas e dos próprios padres?¨
Esse tal nunca leu filosofia prá dizer uma besteira dessas.
Nos anos 60 eu devo supor que as pessoas fossem mais bem instruidas então? Ou aqueles 3 milhões que saíram às ruas na marcha da família com Deus pela liberdade em diversas capitais pedindo pela intervenção dos militares contra os comunistas eram todos mestres e doutores honoris causa.
muito das academias das forcas armadas, soh querem cabecas que saibam matematica, portugues e um pouco de geografia...tai porque temos muitos oficiais LIMITADOS INTELECTUALMENTE. nao me adimiro que na mesa lah nao sabiam de muita coisa.
Precisamos exaltar as qualidades positivas do nosso povo ao invés de ficar dizendo toda hora que não prestamos. Isso é o que querem que pensemos. E tudo o que nós pensamos torna-se realidade. É um perigo esse tipo de pensamento.