Senador apresenta defesa ao Conselho de Ética, após três meses de silêncio. Parlamentar apelou ao sentimentalismo e disse estar sofrendo de depressão
Senador Demóstenes Torres, acusado de quebra de decoro parlamentar, chega ao Senado para depor no Conselho de Ética (José Cruz/Agência Senado )
Falando ao Conselho de Ética do senado, Demóstenes Torres (sem partido-GO) afirmou nesta terça-feira que desconhecia as atividades criminosas de Carlinhos Cachoeira, com quem mantinha uma estreita relação: "Eu não tinha a lanterna na popa. Não poderia adivinhar o que sei hoje", afirmou o senador. "O que eu sabia é que me relacionava com um empresário e esse empresário também se relacionava com cinco governadores e dezenas de parlamentares". A tese de Demóstenes é questionável, porque as conversas gravadas pela Polícia Federal com autorização da Justiça mostram que o senador tinha ciência de que o contraventor operava uma rede de exploração de caça-níqueis. Ainda assim, o parlamentar disse ao Conselho de Ética que chegou a "jogar o verde" para tentar descobrir se o amigo explorava o jogo ilicitamente.
Demóstenes começou a falar às 10h20 e usou quase duas horas para tecer suas considerações iniciais. Com a fisionomia abatida, ele apelou para o sentimentalismo, disse passar por uma crise pessoal e citou a família. "Devo dizer a vossas excelências que vivo o pior momento da minha vida, um momento que jamais imaginaria passar", disse. "A partir de 29 de fevereiro desse ano, hoje estamos inteirando três meses do episódio, passei a enfrentar algo que nunca tinha enfrentado na minha vida: depressão, remédios para dormir e que não fazem efeito, fuga dos amigos e talvez a campanha sistemática mais orquestrada da história do Brasil".
O senador também fez referências religiosas: "Só pude chegar aqui hoje porque quero dizer para os senhores que redescobri Deus", declarou. Ele também citou sua atuação parlamentar e os projetos importantes que ajudou a aprovar, numa tentativa de resgatar a imagem positiva que construiu paralelamente às ligações com a quadrilha. E negou ter usado o mandato a favor de Cachoeira e disse não ser crime informar o contraventor do andamento de um projeto de lei sobre a legalização de jogos de azar. “Que lobista sou eu que nunca procurei nenhum colega senador para aprovar jogo, qualquer que seja o partido?”, questionou.
O ex-democrata também afastou a possibilidade de ter ligações com a empreiteira Delta e de conhecer o ex-presidente da construtora, Fernando Cavendish. “Como posso ser sócio de alguém que não conheço? Não posso ser responsável pelo que os outros dizem de mim”, reclamou o senador. “Tudo foi feito com o intuito de me destruir. Sócio oculto da Delta não sou eu. Se tem sócio oculto da empresa Delta procurem com uma lupa maior aí que não sou eu”, disse.