Decidi abrir esse tópico à todos para debater sobre minha atual condição, que bem sei pode ser par a de muitos dos que aqui se encontram. Eu me formei na área artística e na verdade, não fosse por uma curiosidade nata sobre assuntos de cunho filosófico, nunca teria me debruçado sobre o projeto da leitura da Bíblia na íntegra. Mas o fiz, e também estudei Platão, que hoje leio como um bom prefácio ao cristianismo, também Marx, e agora, o debate entre Habermas e Ratzinger tem sido uma leitura costumeira, ao lado de "Satan Last Battle", sobre o milagre de Lourdes. Também li Dawkins, Hictchens, e pretendo conhecer Sam Harris mais a frente, para entrar em contato com a literatura ateísta contemporânea. Há alguns anos conheci Nietzsche, Sartre, e confesso que nutri por certo tempo muita estima por esses filósofos que, não obstante ainda por eles conservar certo respeito, não mais me seduzem sob o ponto de vista de sua cosmovisão que, em última instância, nos coloca diante de um mundo imanente, seguindo a tendência da filosofia materialista moderna. Tudo isso em diálogo com apologias do padre Quevedo - li quase toda a sua obra - me faz perceber que a cosmovisão cristã é ainda não só coerente, como o cristianismo - e falo mais especificamente do catolicismo - constitui uma pedra basilar na formação da cultura ocidental e sustentação contra regimes despóticos e desumanos.
Com Ratzinger, concordo que a teologia da libertação seja herética por seu vínculo com a filosofia materialista marxista, e me espanto ao saber que a mesma pessoa que condenou Boff, elegeu ao posto de secretário geral da congregação para a doutrina da fé, um simpatizante da TL. Tenho cá minhas suspeitas, no entanto, com respeito a cristologia professada pela ICAR. O problema está na questão da trindade, posto que algumas passagens bíblicas me fazem pensar que Cristo não tenha se apresentado como Deus, ainda que essa leitura também seja possível. Recorri recentemente a um padre católico a fim de conversar sobre isso, e em vez de me explicar com base na sã teologia, ou mesmo recomendar a leitura de uma obra a respeito, preferiu desconversar, afirmando que essa questão não é lá de muita importância, e me recomendou ler Nietzsche.
Curiosamente, poucos dias antes dessa conversa, havia foleado algumas páginas do "Anticristo", obra assinada pelo filósofo alemão que lança dura crítica à cristandade, e por outro lado, elogiando com respeito o budismo. Quem já leu Nietzsche compreenderá, mas por ora isso é secundário. Ocorre que me espanta o fato de um padre católico ter me recomendado a leitura de uma obra anticristã. E mais, perguntou-me ele se eu acreditava em reencarnação. Disse que não, embora tenha parentes muito próximos que são espíritas e com quem já travei calorosas discussões a respeito. Então ele também me recomendou a leitura de Amit Goswami, um físico conhecido por defender a física quântica como um caminho para a espiritualidade.
Outro padre - minha cidade só tem dois padres - com quem conversei sobre o mesmo problema, disse-me ter se formado no final dos anos 80, quando a TL estava em seu auge. Ele defendeu Boff, afirmando que, não tivesse aberto tanto a boca, teria sido canonizado. "Boff é um santo", disse ele. No fim da conversa ele me disse se interessar muito por astronomia e que havia lido uma matéria numa revista especializada onde cientistas tratavam da possibilidade de Cristo ter sido visitado por extra-terrestres.
Eu sei que esse último caso parece uma piada, mas é um fato. Quer dizer, acho que se torna mais trágico, e ao mesmo tempo mais cômico, por ser mesmo um fato que vivi. Mas nessas condições - ao que pese o respeito que construí pela ICAR ante meus estudos - não me vejo apto a congregar com honestidade, motivo pelo qual não sigo a Igreja. Muitos padres lá estão apenas bebendo na teta do Vaticano, todo mundo sabe. Mas mesmo quando era agnóstico, eu sempre tive muito respeito pelas religiões. Pra mim religião é algo que ou você segue mesmo, ou é melhor não seguir, como quem vai a igreja pra "bater cartão", como se ser fiel fosse como ser funcionário público.