Fórum Olavo de CarvalhoArquivo da comunidade do Orkut · 2004–2013

Burrice americana

Iniciado por milton em 11/07/2012 · 9 mensagens

milton#1
Reproduzo aqui o último artigo do Olavo, "Burrice americana", o qual fala da cegueira profunda do corpo intelectual, dos formadores de opinião e dos responsáveis políticos frente a abrangência da ideologia comunista, e da dificuldade dos mesmos em enxergar e compreender as armas, o alcance e a estratégia da implantação do socialismo em seu próprio quintal.

O texto mostra também porque tantos dizem que "o comunismo morreu" em 1989.

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Se há uma coisa óbvia, é que a narrativa predominante na mídia, no show business e nos meios intelectuais, quando não determina desde já o curso dos acontecimentos políticos, terminará por determiná-lo mais dia menos dia.

Nos EUA, há pelo menos três décadas essa narrativa reproduz ponto por ponto, sem citar a fonte nem, é claro, imitar-lhe o estilo, o discurso da propaganda anti-americana posta em circulação desde o fim da II Guerra pelo governo da URSS.

Não há acusação, não há mito depreciativo, não há estereótipo difamatório comprovadamente comunista que não tenha sido absorvido pelas grandes agências formadoras de opinião na América e repassado à população como autêntico produto made in USA, dado do senso comum ou crença espontânea das pessoas de bem. Dos episódios McCarthy, Alger Hiss e Rosenberg em diante, não houve mentira soviética que não fosse alegremente subscrita pelo establishment, só para acabar sendo desmentida por provas documentais irrefutáveis trinta ou quarenta anos depois, tarde demais para que seus efeitos políticos pudessem ser revertidos (v. Ronald Radosh, The Rosenberg File, 1997; E. Stanton Evans, Blacklisted by History, 2007; Christina Shelton, Alger Hiss: Why He Chose Treason, 2012).

Como a matéria-prima desses engodos aparece sempre remodelada em linguagem local e adaptada aos sentimentos usuais do público americano, ninguém ou quase ninguém se lembra de rastrear-lhe a origem. Quem o fizesse teria de acabar concordando com aquilo que disse Malachi Martin: que ao longo do último século só houve uma força agente no cenário internacional – a URSS. Os personagens em torno não tiveram iniciativa própria: limitaram-se a adaptar-se, às pressas e desastradamente, a situações criadas pelos diretores de cena soviéticos, cujos cálculos antecipavam suas reações e tiravam proveito delas.

Tudo aquilo que no Ocidente se vendeu, se louvou e se criticou sob o nome de “anticomunismo” nunca passou da resposta fraca e tardia de vítimas atônitas a uma estratégia abrangente e de longo prazo, cujo alcance mal chegavam a vislumbrar.

Poucas coisas ilustram a noção de “resposta passiva” tão claramente quanto a política americana de “contenção”, que pretendeu traçar limites à expansão do Império soviético, política que na época a caipirice ocidental enalteceu como um primor de genialidade estratégica e a hipocrisia comunista, mal contendo o riso, condenou como o suprassumo da intrusão imperial ianque. Tudo o que ela conseguiu fazer foi limitar a ação do próprio Ocidente, enquanto a URSS espalhava livremente seus tentáculos pela Ásia, pela África, pela America Latina e, é claro, pelas altas esferas intelectuais e midiáticas dos EUA.

Mas talvez a obra-prima da impotência patética tenha sido a insistência dos governos ocidentais na falsa esperteza de jogar contra a URSS os “anticomunistas de esquerda”. Faziam isso na alegada esperança de dividir as hostes comunistas, quando na verdade tudo o que aqueles esquerdistas democráticos propunham já estava antecipadamente integrado nos planos soviéticos para a grande farsa da “queda da URSS”, que em menos de uma década viria a transfigurar a morte aparente do movimento comunista numa ressurreição triunfal e numa sucessão de vitórias espetaculares (v. Jean-François Revel, La Grande Parade: Essai sur la Survie de l’Utopie Socialiste, 2000), aí incluída, logo depois, a eleição de um de seus mais fiéis servidores para a presidência dos EUA.

Até os mais legítimos conservadores insistem em enxergar as transformações esquerdizantes da sociedade e da política americanas como resultados de processos autóctones, da ação dos seus execrados liberals, sem querer admitir que estes últimos nunca, nunca tiveram a iniciativa intelectual desses processos, limitando-se a ecoar e repassar, na linguagem tradicional da democracia, os slogans e chavões da propaganda comunista internacional. Hipnotizada por uma espécie de patriotismo cognitivo, a nata do conservadorismo americano imagina residir no seu país a fonte criadora de tudo o que de bom e de mau acontece no mundo, e assim acaba por lançar sobre os genuínos autores do enredo um manto de invisibilidade protetora. Obsessivamente empenhados, sobretudo, em escapar à pecha de “teóricos da conspiração”, aqueles devotos guardiões do americanismo apegam-se às explicações que pareçam mais verossímeis ao público geral, isto é, precisamente aos menos qualificados para opinar em matérias tão complexas e labirínticas. Por medo de tornar-se objeto de riso dos ignorantes, rebaixam-se propositadamente ao nível da estupidez mediana, sacrificando sua inteligência num ritual de autocastração ante o altar das aparências respeitáveis.

Querem outro exemplo? Depoimentos e mais depoimentos, documentos e mais documentos comprovam que o radicalismo muçulmano não brotou espontaneamente da sociedade islâmica, da cultura islâmica, mas foi criado pelos serviços de inteligência soviéticos e é ainda alimentado e monitorado por agentes russos (leiam Ion Mihai Pacepa em http://www.nationalreview.com/articles/218533/ russian-footprints/ion-mihai-pacepa e Claire Berlinski em http://www.tabletmag.com/ jewish-news-and-politics/103576/the-cold-wars-arab-spring). Apesar disso, o governo americano continua tratando Vladimir Putin como parceiro confiabilíssimo, enquanto os intelectuais conservadores produzem toneladas de retórica piedosamente cristã para lançar a culpa do terrorismo em tradições corânicas de quatorze séculos, ajudando a ação da KGB-FSB a recobrir-se da camuflagem islâmica que, precisamente, estava nos seus planos desde o início.

Olavo de Carvalho
Diário do Comércio, 6 de julho de 2012
milton#2
milton#3
Depois de haver lido o artigo, qual não foi minha surpresa - e não foi surpresa mesmo - quando leio este artigo aqui, esta pérola, publicado ontem na Piauí, do Estadão, que ilustra perfeitamente, como luva, o que o Olavo disse.

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Hitchcock renega o comunismo

O documento reproduzido nesta página é muito representativo de uma época relativamente recente, que permanece como uma mancha na história dos Estados Unidos. Apesar de sua natureza política, este documento teve implicações na criatividade de um dos maiores diretores do cinema do século, o inglês Alfred Hitchcock. A carreira de Hitchcock nos Estados Unidos foi particularmente bem sucedida, sobretudo para um diretor de origem inglesa, e seus filmes foram geralmente criados à margem de qualquer injunção política, levando em conta apenas as severas restrições e auto- censura próprias ao período.

Por outro lado, quando a carreira de Hitchcock já estava consolidada, os Estados Unidos atravessaram um período particularmente infeliz quando, no contexto da Guerra Fria, republicanos liderados pelo senador Joseph McCarthy iniciaram uma verdadeira caça às bruxas para identificar os comunistas supostamente infiltrados em todas as instâncias americanas. Para isso foi criado o famigerado Comitê de Investigação de Atividades Antiamericanas e foram interrogados milhares de supostos simpatizantes do comunismo, ou artistas cuja obra poderia conter alusões subreptícias à ideologia que os republicanos baniam.

Hitchcock não era o principal suspeito, mas também não foi exceção. Na qualidade de membro do sindicato dos diretores de cinema da América, teve que assinar uma declaração sob juramento em que confirmava: "não sou membro e tampouco apoio qualquer organização que crê ou prega a derrubada do governo dos Estados Unidos, por força ou por qualquer método ilegal ou anti-constitucional."

Este era o temor dos anti-comunistas mais empedernidos, que acreditavam que agentes bem organizados poderiam solapar as sólidas bases da cultura política norte americana e promover um levante nos moldes da Revolução Russa de 1917. A declaração juramentada de Hitchcock é de 13 de outubro de 1950, no período inicial das intermináveis audiências, transmitidas por todo país, que o senador McCarthy promoveu de 1950 a 1956, num clima de verdadeira histeria.

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O cinema de Hitchcock traz marcas de sua experiência com o patrulhamento e evoca condenações injustas a que foram submetidos vários artistas que admirava ou com quem mantinha relações de amizade. Há quem considere que seu filme de 1956, O homem errado, com Henry Fonda, que conta a história de um homem acusado injustamente, reflete em parte sua frustração com os desmandos da época do chamado "Macartismo".

Em todo caso, este documento é um testemunho particularmente eloquente de um período conturbado da história dos Estados Unidos e de um ambiente de paranoia anti-comunista que as gerações mais recentes tem dificuldade em acreditar que existiu. O documento fez parte de uma das maiores coleções de cinema dos Estados Unidos e foi leiloado em 2011, após a morte do colecionador, quando foi adquirido por seu atual detentor.

http://revistapiaui.estadao.com.br/blogs/questoes-ma…-o-comunismo
priscila#4
Sim, o Olavo tem razão: a identificação do país e do povo americano como "autores" do bem e do mal cria MESMO um "manto de invisibilidade" sobre os verdadeiros autores e agentes.

É uma encrenca MONUMENTAL, essa. Difícil de explicar. As autorias foram truncadas, e tudo é "atribuído" a uma maçaroca que na verdade não é "autora" dessas coisas -  o que cria uma tremenda confusão.
priscila#5
Joe McCarthy foi um tremendo injustiçado, amigo: NENHUM dos acusados por ele era inocente - TODOS eram culpados.

Leia "Blacklisted by History" - bela indicação olaviana, a propósito.
antnioluiz#6
Ou então verifique as 
transcrições do código Verona.
milton#7
[url]/Main#Profile?uid=13503374250472808363[/url]:
Joe McCarthy foi um tremendo injustiçado, amigo: NENHUM dos acusados por ele era inocente - TODOS eram culpados.

Leia "Blacklisted by History" - bela indicação olaviana, a propósito.


É claro que eu entendi isso, meu. É claro que o McCarthy é um injustiçado pela história. O segundo artigo eu postei foi exatamente como contraponto e exemplo da estupidez esquerdopata que toma conta da mídia, e da mente das pessoas, em especial a esse assunto. Pensei que opondo os dois artigos havia ficado claro. Mas belêza.

Vou procurar o Blacklisted by History. Valeu Priscila.
riscardo#8
riscardo#9

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