"Em todas as grandes tradições espirituais, sem exceção, encontra-se alguma divisão ternária dos estratos da realidade, como por exemplo, Deus, Homo, Natura no cristianismo ou Céu-Terra-Homem (Tien-Ti-Jen) no taoísmo. (...)
À Trindade Cristã – Pai, Filho e Espírito Santo – corresponde, no microcosmo da constituição humana, o ternário corpo, alma, espírito. A alma, por sua vez, é vegetativa, aperitiva, intelectiva.
Na tradição chinesa, a divisão ternária (...) Yang, Yin e Tao. (...) a tríade chinesa corresponde exatamente ao ternário grego Logos-Ethos-Physis (...)
À tríade hindu, Brahma, Vishnu e Shiva, que expressa grosso modo as idéias de criação, conservação e transformação respectivamente, correspondem outros tantos ternários na esfera cósmica e humana, por exemplo, o dos movimentos do cosmo, Tamas, Rajas e Sattwa" (...)
OLAVO DE CARVALHO
O Jardim das Aflições, capít. VII
um dos principais motivos da discordância teológica que o judaísmo e o Islam têm com o cristianismo é justamente o conceito cristão de Trindade da divindade una (que também existe no "hinduísmo" - Brahma, Vishnu, Shiva.
há quem associe a noção de Trindade à divisão dos poderes na República (os 3 Poderes) etc. E há quem chegue a afirmar que povos que não reconhecem a Trindade não podem (por esse motivo) ter Estados com divisão de poderes (para eles, o Poder, assim como Deus, não se divide) - e assim estariam condenados à tirania.
Esse é um tema que me intriga.
Gostaria de ver alguns comentários da Priscila, que deve saber mais sobre isso.
Dizer Trindade é apenas um modo, humanamente desajeitado e insuficiente, de falar do drama eterno deste Deus que percebemos ser Amor se revelando plenamente na corrente descendente da história da salvação, onde o ápice e centro é o Mistério Pascal.
Como diria Cardeal Balthasar, um dos maiores teólogos do séc. XX, comentando que o Pai na Sua autodestituição, numa eterna "supre-quênose, se destitui de tudo o que é e pode, para gerar um Deus consubstancial, o Filho", reconhecendo no Filho encarnado, na Sua entrega obediente ao Pai, a tradução do ser do Filho eterno que nada mais é senão a quênose da "eterna eucaristia ao Pai pelo seu ser equiessencial".
Vale frisar que o Filho, enquanto vive como homem entre os homens de maneira perfeitamente trinitária é de tal modo que a sua vida sobre a terra é o reflexo da perfeita vida intratrinitária.
Devemos compreender que a obediência do Filho em relação ao Pai no Espírito, até a morte na cruz, não é senão a tradução clara de sua atitude eterna de volta ao Pai em sua disponibilidade, ação de graças e liberdade.
Esse trecho para mim foi um dos mais marcantes no livro do Olavo, simplesmente porque considero ele simples e elucidador e eu não tinha muito clara essa concepção da Trindade Cristã.
Eu não tenho muito a dizer sobre a questão, mas o comentário do Pedro - corrija-me se estiver errado - foca-se na harmonia do Pai-Filho-Espírito Santo. Ora, Deus criou o mundo e disse que tudo o que fez era bom, inclusive as coisas deste mundo. Portanto, a harmonia entre os três elementos - as três dimensões existenciais do homem - é necessária para um encontro do Homem com Deus ou, em outras palavras, para a unidade do Todo sobre Si mesmo.
Exatamente, é uma harmonia perfeita, pois o Pai, o Filho e o Espírito existem desde a eternidade, por isso que essa divisão de Criador, Tradutor, Amor, como sendo as "especialidades" das Pessoas da Trindade, é puramente didática.
E vale frisar que Cristo é a própria essência da relação intratrinitária, e nós, enquanto batizados, temos a Trindade habitada em nós, por isso que é natural ao homem, a partir do momento que torna-se Filho de Deus, a busca pela ótica Trina, ou seja, enxergar no próximo a presença do Pai, Filho e Espírito, como diria o grande teólogo Garrigou-Lagrange, O. P:
"É a presença geral de Deus em todas as coisas, dita presença de imensidade, aquela de que fala São Paulo quando diz: O Deus que fez o mundo, sendo o Senhor do céu e da terra... não está distante de cada um de nós, pois é Nele que temos a vida, o movimento e o ser. (At 17, 28) Deus é como o lago donde emana a vida da criação; Ele é a força central que atrai tudo a ela, como o diz a liturgia: “Rerum Deus tenax vigor, immotus in te permanens”."
Entretanto é bom ter cuidado nessa compreensão, pode-se cair no panteísmo, Deus não é composição, matéria-prima, mas sim a causa primeira, aquele que está na frente do próprio ato. Até mesmo na encarnação Deus não se modifica, se rebaixa.
"Pelo menos ele a trata à exaustão, sinal de que é crucial. Detalhe que está colocada de forma não explícita e mal explicada nos poucos dizeres que sobraram (de Cristo, nos Evangelhos)."
Tudo o que consta na Bíblia é exatamente aquilo que Deus quis. Ele nos fez livres para amá-lo ou não; porém, nas questões fundamentais Ele tem total controle, e quem confere importância a assuntos relativos a Ele, sobre os quais devemos saber, é Ele mesmo e não nós.
Ter consciência que que Deus é único em sua diversidade não é condição para ser salvo e o que nós precisamos é da salvação.
Satanás conhece toda a verdade e o que ele mais faz é imitar Deus; portanto, não se admirem pois ele tem fundado muita religião por aí.
Deus escolheu os judeus para se revelar ao homem e esse trabalho foi lento e o Deus ao qual eles estavam acostumados a ouvir era um único Deus, que falava com eles diretamente ou atavés de mensageiros (anjos) embora através de representações simbólicas existentes no judaísmo, a trindade já se apresentava, como por exemplo, na estrela de Davi.
É importante entender que o Espírito Santo é uma pessoa. A Bíblia diz que Ele se entristece, que Ele nos consola, que é Ele quem nos convence do pecado, que Ele confirma com o nosso espírito se somos filhos de Deus, que Ele fala através de nós, que é Ele quem habita em nós, somos templo dEle e também diz para que não o apaguemos, ou seja, não deixemos de ouvi-lo, quando Ele nos alerta através da nossa consciência.
A compreensão trinitária em religiões pagãs, pode ser causa daquilo que nós católicos chamamos de "sementes da Verbo", reflexo do Logos de Deus, que existe desde a eternidade, o único que ilumina os homens. Todos tem uma busca natural por Deus, assim como compreender o sentido da vida humana, quando não conseguem entender quem Ele seria, criam falsos deuses e ídolos, no caso dos gregos, muitos cogitaram de forma rebuscada entender a Unidade e Multiplicidade de Deus, entretanto vale frisar que isso não é relativismo, lembrando de algumas palavras de S.S Bento XVI, falando que o Logos se manisfestou "parcialmente, como em "sementes de verdade" aos gregos. E dado que o cristianismo é a manifestação histórica e pessoal do Logos em sua totalidade, "todo o belo expresso por qualquer pessoa, é pertence dos cristãos""(Católicos e aqueles a quem Deus em Sua Misericórdia iluminar, ou então os casos dos que vivem em ignorância invencível).
Cardeal Balthasar foi sim um dos maiores teólogos do séc. XX, um dos formadores do Cardeal Ratzinger. Se você diz que a "teoria" da quênose é invenção modernista, algo como "nova era" e "cabala", é melhor rever suas fontes, São Paulo nos fala dela em Fl 2,7; "mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens;", quênose (esvaziamento) é o ato de amor redentor, o que mereceu a glorificação do Filho junto ao Pai.
O. de C. também é bastante crítico à maçonaria embora obviamente a respeite. Se bem o entendi ele afirma que a "briga" da maçonaria com a Igreja é uma das causas dos males do mundo moderno. Já leste o Jardim das Aflições, Glenwood?
há um capítulo inteiro que é aquilo que a mídia tipicamente rotularia de "conspiracy theory" e sobre o papel da maçonaria na sociedade contemporânea e no Estado laico.
Eu sou admiradora de René Guénon desde a adolescência - outro gigante intelectual. Tinha planejado relê-lo recentemente, mas não consigo achar os livros dele na minha casa! Vou comprar de novo.
Um dos símbolos da Maçonaria é o triângulo, não é, dr. Glen? Eu não entendo de Maçonaria, mas gosto de símbolos. Herdei do bisavô maçom um anel diferente, com o triângulo e inscritas nele duas mão se apertando, como num cumprimento. É um anel maçom? Eu gostaria muito de saber...
A quênose em Balthasar se alicerça no Amor, um Deus que na Sua Infinitude não Se retém, doa-Se completamente no Filho, aquele que mostra toda a glória do Senhor, como o amor que triunfa sobre as trevas e a morte. Ele é a "figura" concreta da Revelação, a manifestação visível de Deus invisível.
A quênose não é gnóstica (eu até vou relevar o que "você" disse, afinal para a Montfort até Santa Catharina Emmerick era "herética gnóstica"). Ela começa na encarnação, quando o Verbo abraça a condição de servo, chega ao ápice no abandono da cruz e mostra sua radicalidade no fato de que Jesus toma o lugar da humanidade pecadora até a descida aos infernos. Essa soliadiedade de Nosso Senhor para com os homens, é compreendia por Balthasar como uma autêntica "troca de lugares", entre a situação dos pecadores com relação a Deus e a do Filho.
A quênose seria portanto esse supremo ato de "abnegação" trinitária.
Baltahsar além de ser um dos formadores teológicos do então Cardeal Ratzinger, era um dos mais próximos a João Paulo II, tanto é que iria receber o barrete de Cardeal, mas faleceu dois dias antes, mas isso pouco tem importância para você, o aval e concordância de dois Papas devem ser menos importante que o veredicto de Fedeli, isso se não for todo mundo gnóstico mesmo.
Ah, e da próxima vez seja mais ético, copiar e colar da Montfort, sem dizer as fontes, querendo se passar por autor, não é uma atitude das mais cristãs.
Pricilla,
é fácil encontrar textos do Guénon em espanhol - e em alguma medida, em francês - na web. Eu traduzi o Hermes e o Notas sobre a Produção dos Números (traduzi do espanhol, falo francês mas não tive acesso aos originais) e pus no meu blog, que aliás só serve para isso mesmo: guardar textos sem ocupar a memória do computador. Se você quiser, o endereço é www ponto mvmonteiro ponto blogspot ponto com .
Glenwood, é comum os maçons acharem que quando alguém conhece algum simbolismo, ou tem algum conhecimento tradicional, esta pessoa é maçônica. Meu pai é assim, também.
Na maior parte das vezes, até é verdade, porque a maçonaria preservou bastante este tipo de conhecimento, que o ocidente esqueceu. Mas existem outras fontes, certo?
Eu sei, Marquinhos, mas eu quero os livros, que desconfio que mano João e mano Paulo afanaram sub-repticiamente desta velha casa, sabe... ! Daí vou comprar de novo, e aproveito pra dizer que o "The World After Man" também sumiu.
Mais off-topic, impossível - e eu não agüento mais pedir perdão ao Moderator, mas não há outro jeito!!!!!
Caio, obrigada pela dica, e a resposta é a mesma que a que eu dei pro Marcos: eu quero mesmo são os meus livros, e esta é uma tentativa de recuperação - tardia, abusada, mas válida! !
Muito obrigada pela delicadeza e pelo interesse, beijo pra vocês!