Acho que poucos conseguiram demonstrar com palavras tão doces, e ao mesmo tempo tão enfáticas e tão precisas, a presença do Cristo e de sua salvação em nossas vidas. E o mal que a ausência disso causa. Segue um poema dele em que isso se reflete maravilhosamente, em minha humilde opinião:
(...)
"É o real tudo aquilo que, à medida
em que nos abandona e se evapora,
sagra o aqui e o agora
entre os braços da Cruz, nosso sinal
de mais na escuridão.
Tudo o mais é ilusão,
mero jogo mental
que às vezes nos confunde,
mas que não pode desfazer o nexo
entre o instante mortal
e o perene esplendor da rosa-múndi.
Este é o grande cordão umbilical,
o traço de união, aquele elo
que Eliot entreviu num roseiral
e o Velho do Restelo
num cais de Portugal.
É o mesmo nexo sobrenatural
que, às vezes, com uma rapidez de seta,
inexplicavelmente nos inquieta
ao deixar-se entrever à face lisa
do que eu chamo de espelho convexo
e Platão comparava a uma gruta.
Metáforas que valem como o indício
de que a mente se expande quando escuta
o sussurro imortal que anima a brisa,
sossega a ventania
e acode a cada rosa na agonia;
ele é que suaviza
o derradeiro amplexo
que desfigura e transfigura o ser,
ele é que acalma
e leva pela mão a pobre alma,
resgatada dos braços do suplício
para enfim perceber
o esplendor de um jardim muito maior
que seu curto reflexo.
Se enxergá-lo é difícil,
não ver ainda é pior".
Tentei achar na Internet um poema do Bruno Tolentino que está no livro "As horas da Catarina". É um que fala sobre Lázaro e termina assim: "Eu não iria: - Não vou!", se não me engano. Alguém sabe onde posso encontrar?
Márcio,
Esse que você postou era exatamente o que eu havia preparado para postar aqui, antes de perceber que já estava.
Então um outro, tão perfeito quanto, de nós a Tolentino, e dele a nós:
Deus, que concebe o cântaro e o separa
da argila lentamente, foi fazendo
do meu aprendizado o Seu compêndio
de opacidades cada vez mais claras,
e com silêncios sempre mais esplêndidos
foi limando, aguçando o que escutara.
Que o Bruno possa no post mortem encontrar as criações mentais tão belas que havia composto em vida...este é o destino dos justos, assim como o destino dos injustos é colher um inferno criado por sua própria mente, aqui e no post mortem.
Descanse em paz.
O jornalista Bruno Garschagen, que trabalha no Rio, reuniu em seu blog alguns textos de e sobre Bruno Tolentino. Para visitar o blog, .http://www.brunogarschagen.com/
Uma frase linda, no meio de um soneto do último livro do Tolentino ( A Imitação do Amanhecer) : O encantamento nesta vida é coisa rara e eu vivi dele anos a fio.
O texto que o Rafael lincou, meu Deus, que eu citei dezenas de vezes... "Quero meu País de Volta"- falou por mim, por nós, por tanta gente, o Bruno Tolentino, e tão bem...
E a frase que a Olga enviou... Ah, morte é muito triste, sim!
Bia, o blog é muito bom...
Não deixem de ir, amigos, ler o texto em homenagem ao Bruno Tolentino!
Vou postar o comecinho aqui, porque tenho certeza de que o Bruno Garschagen não se importará; achei especialmente tocante.
"Avancei parte da madrugada relendo poemas de Bruno Tolentino e com uma sensação de perda irreparável, uma solidão desoladora que ruge no pé do ouvido porque se foi um autor cuja obra parece ter sido feita especialmente para mim, e que é grande porque, embora feita especialmente para mim, foi feita especialmente para os meus, conhecidos ou desconhecidos, que estão na mesma trincheira pela excelência, seja intelectual, prazerosa ou amorosa."
Bruno Garschagen, em "Perda Irreparável e Solidão Desoladora".