"PLANO DE CONTINGÊNCIA"
"Não me lembro dos detalhes, mas havia um plano com esse título. Lidava com a hipótese de uma movimentação extremista no Brasil, o que nós julgávamos que estava próximo de fazer do Brasil uma segunda Cuba. Era mais para nos cercarmos de todos os lados. Não creio que fosse uma previsão de que qualquer uma das duas ditaduras [de direita ou esquerda] estivesse prestes a acontecer, mas explorava as hipóteses caso acontecesse."
"Nós não estávamos promovendo soluções ditatoriais. Mas eu presumo que outras pessoas estavam. Nós não controlávamos a política interna do Brasil. Caso controlássemos, de qualquer maneira, ela seria muito diferente do que era."
JOÃO GOULART
"Era um homem fraco, diferentemente de seu cunhado, o Brizola. Esse era, creio, um candidato a ditador. Queria ser um ditador de esquerda e, é claro, foi esse desejo que causou a reação entre os militares, que disseram: "Se vai ser uma ditadura, que seja nossa, não deles". Brizola seria ruim para o Brasil. Goulart não era um tipo pessoalmente ditatorial."
PERÓN COMO MODELO
"Uma vez, estávamos cada um em nosso carro oficial, fomos pegos num congestionamento no Rio e nos avistamos pelas janelas. Goulart desceu, eu também, e fomos andando a pé e conversando a uma cerimônia numa base naval. Enquanto andávamos sozinhos, cruzamos com duas pessoas que iam ao mesmo lugar, um deles funcionário do governo argentino."
"Goulart os saúda, me apresenta e, enquanto nos afastamos deles, diz: "Sabe, tenho dois heróis. Um deles é Juan Perón". Estava falando do homem que fez desmandos por décadas na Argentina, um país que tinha sido muito mais desenvolvido que o Brasil e que no final do século 19 tinha a mesma renda per capita praticamente que a Europa ocidental. E esse era um dos heróis de Goulart, segundo o próprio! Esqueci qual era o outro, mas não era Evita [Risos]."
"Eu pensei: "Esse é um tipo de herói pessoal peculiar para um homem que é presidente de um país supostamente democrático, para ser um tipo de modelo que ele quer se inspirar". Não achei que isso fosse bom para o futuro próximo da democracia no Brasil. Mas eu não acho que Goulart tivesse a coragem de ser um ditador. Acho que, mesmo que fosse bem-sucedido temporariamente em obter poderes ultrapresidenciais, não teria coragem de prosseguir até uma ditadura. Mas Brizola sim."
LEONEL BRIZOLA E JANIO QUADROS
"Brizola não tinha nenhuma inibição em usar o poder. E foi muito inteligente em utilizar o episódio da renúncia de Janio Quadros em seu favor."
"Foi quando eu cheguei ao Brasil, no meio da crise causada pela renúncia."
CASTELLO BRANCO
"Era um verdadeiro cavalheiro. Ele queria acabar com o regime militar mesmo antes de vencido seu mandato. Mas eles o teriam chutado para fora, eles o teriam seqüestrado, se fosse necessário. Ele decidiu que era melhor continuar do que renunciar e criar uma crise prematura."
BRASIL
"Tenho uma lembrança constante de seu país, sempre que olho para essa mesa de mogno. De algumas épocas agradáveis, de outras desagradáveis... Saí de lá bem na época que os militares estavam assumindo para um longo e, creio, não muito bem-sucedido regime, do qual finalmente todos se cansaram. Inclusive os próprios militares."
A luta armada já vinha se organizando no Brasil desde 1961, ainda no governo João Goulart. Se os militares não interviessem ia virar Cuba mesmo. Armas, munição e dinheiro vinham da ilha de Fidel Castro para financiar grupos guerrilheiros.
Isso esclarece por completo a mentira de que a luta armada foi um movimento de resistência à "ditadura". Primeiro que os guerrilheiros já vinham se armando muito antes de João Goulart. Segundo que o regime só recrudeceu a partir de 1968 quando houve vários atentados contra civis e militares. Num deles, no aeroporto de Recife (organizado pela Ação Popular visando o marechal Costa e Silva) morreram duas pessoas no local e resultou em um saldo de vários feridos. Um deles teve a perna amputada.
O executor do atentado (Raimundo Gonçalves Figueiredo) teve a família indenizada pela infame comissão de mortos e desaparecidos. O mentor do atentado (Padre Alípio de Freitas), foi indenizado e hoje vive em Lisboa, Portugal. Recebeu a modestíssima quantia de R$ 1,09 milhão por "serviços bem prestados à nação".
"Sabe, tenho dois heróis. Um deles é Juan Perón". Estava falando do homem que fez desmandos por décadas na Argentina, um país que tinha sido muito mais desenvolvido que o Brasil e que no final do século 19 tinha a mesma renda per capita praticamente que a Europa ocidental. E esse era um dos heróis de Goulart, segundo o próprio! Esqueci qual era o outro, mas não era Evita [Risos]."
"Eu pensei: "Esse é um tipo de herói pessoal peculiar para um homem que é presidente de um país supostamente democrático, para ser um tipo de modelo que ele quer se inspirar". Não achei que isso fosse bom para o futuro próximo da democracia no Brasil.
Infelizmente nossos políticos (e grande parte da população) continuam admirando o que não presta. Apesar do imenso potencial, o Brasil não tinha como ter dado certo mesmo.
Certa vez, não lembro onde, li uma citação de Gordon na qual ele dizia que o Brasil não seria uma nova Cuba e sim uma nova China. Os esquerdistas gemem de tesão quando pensam nisso, devido ao fetiche deles por países ameaçadores aos Estados Unidos. Mas o comunismo por aqui resultaria apenas numa imoralidade e numa miséria nas quais é melhor nem imaginar. De qualquer forma e por pior que sejam seus defeitos e problemas, a idéia de uma vitória comunista no Brasil já naquela época nunca me pareceu plausível.
Os EUA, com seus planos de contingência, faziam o mínimo que se podia esperar deles. A derrubada de Goulart foi sim um acerto dos nossos militares no varejo, porém, no atacado, seguiu-se um governo "do qual finalmente todos se cansaram", como aponta Gordon que, por sinal, é sempre sensato em seus comentários.
Eu tendo a não concordar com a teoria. Quer dizer, possibilidade de golpe de esquerda havia, mas é só comparar quantidade de gente na marcha pela tradição, família e propriedade com o que Goulart colocava nas ruas em seus melhores dias para ver como a organização da esquerda era débil. Outro fator que reforça o argumento é a reação simplesmente pífia da esquerda diante do golpe. Que eu saiba, o Goulart não chegou a anunciar constituinte ou qualquer coisa parecida. Nem o Brizola tinha tanto poder assim. É lógico que o golpe foi conduzido como estratégia de barrar uma possível cubanização do Brasil, o que resta saber é se foi uma estratégia certa ou não. O Olavo mesmo nunca apoiou o que os militares fizeram. Eu também acho que só serviu para piorar as coisas, é só olhar a atual situação de hegemonia que a esquerda conquistou na AL e a forma como a direita se encontra acuada, sem base popular e tendo de mendigar para sobreviver.