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Sentença: MPF x Diogo Mainardi

Iniciado por jliocsar em 17/07/2007 · 24 mensagens

jliocsar#1
PROCESSO N° 2007.85.00.000415-6

CLASSE 1 — AÇÃO CIVIL PÚBLICA

SENTENÇA TIPO A

AUTOR: MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
RÉU(S): DIOGO BRISO MAINARDI, GLOBOSAT PROGRAMADORA LTDA, EDITORA
ABRIL, GLOBO COMUNICAÇÃO E PARTICIPAÇÕES S/A.

SENTENÇA

AÇÃO CIVIL PÚBLICA. OFENSAS ESCRITAS POR JORNALISTA CONTRA OS
NORDESTINOS, SERGIPANOS E CUIABANOS. REGRA DE TOLERÂNCIA. DIREITO À
LIVRE MANIFESTAÇÃO. AUSÊNCIA DE DANO.

1. A LIBERDADE DE EXPRESSÃO TALVEZ SEJA O MAIOR FUNDAMENTO DA
DEMOCRACIA. ESTA, POR SUA VEZ, É MUITO TRABALHOSA PARA EXERCITÁ-LA,
MAS VALE A PENA.

2. ENTRE TOLERAR PEQUENAS OFENSAS E LIMITAR A LIBERDADE DE EXPRESSÃO,
PREFIRO A TOLERÂNCIA EM NOME DA LIBERDADE, MORMENTE QUANDO SE VERIFICA
QUE O DANO INEXISTIU.

3. IMPROCEDÊNCIA DO PEDIDO.

1. RELATÓRIO

O MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL propõe, em face do Sr. DIOGO BRISO
MAINARDI, GLOBOSAT PROGRAMADORA LTDA., EDITORA ABRIL e GLOBO
COMUNICAÇÃO E PARTICIPAÇÕES S/A, todos qualificados na inicial, a
presente AÇÃO CIVIL PÚBLICA, objetivando a condenação dos requeridos
em uma indenização de R$ 200.000,00 (duzentos mil reais), por danos
morais causados à coletividade nacional, a ser revertida ao Fundo de
Defesa dos Direitos Difusos.

Alega que, através de uma mensagem eletrônica, foi procurado por um
cidadão baiano, que indica, indignado com algumas considerações feitas
pelo jornalista Diogo Mainardi no programa "Manhattan Connection"
acerca da gente nordestina, afirmando que "Paulo Francis, reconhecido
antinordestino foi substituído por Mainardi..." Transcreve, do trecho
degravado, a seguinte fala sobre o Presidente Luís Inácio Lula da
Silva: "Ele não é pragmático, ele é oportunista. O episódio do Pará
agora é muito claro. Quer dizer, uma semana ele concede a exploração
de madeira, na semana seguinte ele cria uma reserva florestal grande
como Alagoas, Sergipe, sei lá eu...por essas bandas de onde eles vêm.
Isso é oportunismo".
jliocsar#2
Invoca, mais, a matéria da edição da Revista Veja, de 19.01.2005,
quando o jornalista, ao se referir ao Presidente da PETROBRÁS, José
Eduardo Dutra, tropeçou no seu preconceito, asseverando: "Dutra não
tem passado empresarial. Fez carreira como sindicalista da CUT e
senador do PT pelo estado de Sergipe. Não sei o que é pior(...)".

Alega, ainda, que, na semana seguinte, o Sr. Diogo Mainardi ofendeu a
população de Cuiabá/MT, ao afirmar: "Seu principal artista é o
comediante Liu Arruda. Além de protagonizar a memorável campanha
publicitária do Supermercado Trento, Liu Arruda também se tornou
conhecido por interpretar personagens como Creonice e Comadre Nhara
(...)". E assim encerra a sua cônica: "Não gosto de me vangloriar.
Creio, porém, que fui a notícia mais excitante de Cuiabá nos últimos
20 anos".
Em rodapé de página, o Procurador da República transcreve trecho da
crônica em que, na sua visão, o jornalista é profundamente ofensivo,
ao afirmar: "O Diário de Cuiabá fez uma pesquisa com a população local
sobre os aspectos mais representativos da cidade. Seu prato típico é a
mojica de pintado. Sua música tradicional é o rasqueado. Seu edifício
histórico mais relevante é o Mercado do Peixe. Sua maior figura
esportiva é Jorilda Sabino, que chegou em segundo lugar na corrida de
São Silvestre, em 1984. Sua grande celebridade é Jejé de Oya, um
colunista social "negro, pobre, homossexual"...

Pugna pelo cabimento da ação civil pública, pela legitimidade do
Ministério Público e pela competência da Justiça Federal.
No mérito, entende que a ação situa-se nos limites da liberdade de
expressão, confrontados com outros princípios constitucionais,
notadamente o da isonomia e vedação dos preceitos de origem, raça,
sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação (art. 3º
-IV, CF).
jliocsar#3
Tece considerações sobre os limites da liberdade de expressão,
previsto no art. 5º - inciso IV em cotejo com o direito de resposta e
à indenização por dano moral, material e à imagem, estabelecido no
inciso V.

Junta um laudo antropológico acerca da idéia de preconceito e pede a
procedência do feito.

Nas fls. 64, o Autor requer a juntada de alguns documentos,
consistentes em artigos do escritor e comentários de outros
articulistas acerca do jornalista Diogo Mainardi.

Nas fls. 98 e seguintes, a Editora Abril e Diogo Mainardi, depois de
citados, contestam o feito, alegando preliminarmente ilegitimidade
ativa do Ministério Público, por entenderem que a ação não se enquadra
na categoria de interesses difusos e coletivos e, por isso mesmo,
também inadequada a via eleita.

No mérito, entendem ausente qualquer ilicitude nas afirmações do
requerido, não enxergando conotação discriminatória que se atribui a
elas.
Tentam demonstrar suas afirmações, chamando a atenção para o fato de
que o jornalista Diogo Mainardi é conhecido por exercer sua
manifestação de pensamento de forma ácida, contundente, utilizando,
por vezes, dos recursos da ironia e da jocosidade para fazer suas
críticas, o que constitui uma garantia constitucional.

Comenta sobre os trechos pinçados pelo Autor, para demonstrar ausência
de afirmações discriminatórias por parte do requerido, inclusive
quando critica seus próprios colegas de profissão.

Trazem à baila assertivas contundentemente negativas desferida pelo
jornalista, também na Revista Veja, contra as duas maiores cidades do
País, São Paulo e Rio de Janeiro, ele próprio residente no Rio de
Janeiro e paulista de nascimento, como forma de demonstrar ausência de
preconceito e discriminação.
jliocsar#4
Contestam a validade do laudo antropológico, tecem longas
considerações sobre a liberdade de pensamento e pedem que, se
ultrapassadas as preliminares, seja o pedido julgado improcedente.

GLOBOSAT Programadora Ltda. e Globo Comunicação e Participação S/A
também contestam o pedido, nas fls 169 e seguintes, levantando as
mesmas preliminares de ilegitimidade do Ministério Público e mais a de
ilegitimidade passiva da segunda, posto não possuir qualquer
responsabilidade pela produção e/ou veiculação do programa "Manhattan
Connection", sendo empresa distinta da Globosat, que é a verdadeira
detentora dos direitos de veiculação do programa.

Ainda em preliminar, argúem a incompetência do juízo, entendendo que
deveria ter sido proposta no foro do local onde ocorreu o dano.

No mérito, repetem, com outro texto, os mesmos fundamentos expostos
pelos primeiros contestantes.

É o relatório.

Decido.
selma#5
quem ganhou? quem proferiu a sentença;
jliocsar#6
2. FUNDAMENTAÇÃO

Ao examinar os autos, verifiquei que o Ministério Público juntou
documentos posteriormente à inicial e os requeridos juntaram
documentos com a contestação. Nenhum dos documentos anexados, no
entanto, seria capaz de alterar o resultado da demanda, seja porque
são documentos de conhecimento público, artigos, comentários, etc., do
jornalista Diogo Mainardi – a maioria deles eu já conhecia – seja
porque a questão de fato está suficientemente demonstrada, sem
controvérsia. A decisão de mérito decorrerá da análise das provas,
onde será necessária uma grande dose de subjetivismo responsável para
que o juiz possa firmar o seu convencimento de forma justa, imparcial,
equilibrada.

Diante dessas observações, deixo de dar ciência às partes dos
documentos apresentados porque, com ou sem ela, o resultado do
julgamento do mérito da demanda será o mesmo. A ciência às partes aqui
não teria utilidade prática alguma, senão procrastinar o andamento do
feito.
jliocsar#7
Passo ao exame das preliminares.

Primeiramente, rejeito a de ilegitimidade de parte ativa e, pelos
mesmos fundamentos, a inadequação da via eleita. É que, se procedente
o pedido, haverá um interesse difuso, consistente na reparação, por
parte dos requeridos, pelas manifestações supostamente
discriminatórias ou preconceituosas contra os cidadãos, nordestinos,
especialmente os sergipanos e os cuiabanos.

Ainda de forma condicionada à procedência do pedido, haverá interesse
da União por colocar em risco a harmonia entre os nacionais de
diversas origens, criando uma cultura de desrespeito num mesmo estado
soberano, que representa uma nação composta de valores culturais e
regionais diversos.

Esses mesmos fundamentos servem para afastar a idéia de incompetência
relativa do juízo. Afinal, se as ofensas existiram, seria até mesmo
difícil estabelecer o local do dano. Penso que a ação poderia ter sido
proposta em qualquer sede de foro federal, em qualquer lugar do
território nacional, posto que não interessa aos brasileiros o
estímulo a preconceitos que levam à divisão da sociedade.

Rejeito, portanto, as preliminares analisadas.

Acolho apenas a preliminar de ilegitimidade passiva da Globo
Comunicação e Participação S/A, por se tratar de pessoa jurídica
distinta e nada ter a ver com o programa Manhattan Connection, em que
pese pertencente ao mesmo grupo de empresas.
jliocsar#8
Afasto-a da relação processual.

No mérito, a matéria há que ser examinada com extrema cautela e assim
o farei para demonstrar que não vejo como julgar o pedido procedente,
sem deixar de reconhecer, no entanto, que a propositura da presente
demanda teve o mérito de trazer à discussão, ao debate, a questão do
preconceito e da discriminação, que sempre existiu das regiões mais
desenvolvidas em face das menos desenvolvidas.

Isso, felizmente, está ficando para trás. Em passado não muito
distante, eram comuns piadas de mau gosto contra os negros,
nordestinos, gaúchos, etc. Cada vez mais, no entanto, verifica-se uma
certa intolerância relativamente a certos tipos de manifestações
preconceituosas, o que é altamente positivo para o conforto emocional
das mais variadas comunidades que compõem a nação brasileira.

Eu mesmo já passei por algumas experiências, que seriam extremamente
desagradáveis, se não as tivesse levado com uma certa dose de bom
humor. Certa feita, passeando pela nossa mais bela das capitais, o Rio
de Janeiro, ao tomar um táxi, um motorista bastante simpático começou
a iniciar uma prosa sobre a questão da violência na cidade para, ao
final, sentenciar que a violência existia por conta dos filhos dos
baianos, cujos pais foram procurar a vida num centro maior e não
souberam educar os seus filhos. Pensei comigo, logo eu, um
soteropolitano cheio de orgulho ter que ouvir isso. Sem lhe dizer que
provinha das bandas da Bahia, tentei demonstrar até o limite da
corrida, que ele estava equivocado. Não sei se consegui.
Manifestações preconceituosas contra os nordestinos, eu já ouvi, li,
inclusive de formadores de opinião. Paulo Francis, certa feita, no
Jornal da Globo, chegou a afirmar que os nordestinos eram uma
sub-raça. Continuei ao ouvi-lo, afinal ele era bem informado. Quando
falava bobagens como essa, eu me divertia. Hoje, a lembrança que tenho
dele é caricatural, talvez, sem querer ser redundante, por causa das
caretas que ele fazia para dar um ar de intelectual excêntrico.
jliocsar#9
Os preconceitos contra os nordestinos sempre foram muito fortes, não
só nas manifestações explícitas, como nas entrelinhas. Ibrahim Sued,
em sua coluna diária, no Jornal "O Globo" costumava chamar o
Presidente Collor de, "O Demolidor" e fazia questão de dizer que o
mesmo era carioca, porque, de fato, nascera no Rio de Janeiro. O
codinome, embora inspirado na idéia de que o Presidente Collor fora
eleito para modernizar o País, inserindo-o no mundo globalizado, é uma
criação típica dos bajuladores. Quando o então Presidente caiu em
desgraça, pelos motivos que todos conhecemos, a imprensa, em sua
maioria, fez questão de afirmar que o mesmo era alagoano, cunhando um
termo com conotação pejorativa "A República das Alagoas". Esqueceram
dos seus filhos ilustres. Entre os mais notáveis Zumbi dos Palmares,
Graciliano Ramos e Pontes de Miranda.

Certa feita, Carlos Heitor Cony, cujas crônicas leio desde a minha
adolescência, referiu-se ao Senador Antônio Carlos Magalhães como
sendo o soba da Bahia. Quis ofender o Senador, mas acabou ofendendo os
baianos. Soba, na definição de Aurélio, significa "Chefe ou régulo de
tribo africana: "quando o povo de Tchipinda levantou uma paliçada à
volta da senzala...., o soba fez a sua entrada solene no terreiro".
(Em Novo Dicionário Aurélio – 1ª edição)
Esse tipo de visão deformada jamais se afasta dos nordestinos na visão
preconceituosa de setores da mídia. A imprensa, sempre que algum
político do Nordeste não se comporta com o decoro indispensável, busca
atribuir a essa circunstância o fato de ser nordestino, daí porque os
denomina de "coronéis". Entretanto, sem entrar no mérito, se a
alternância foi positiva ou não, nas últimas eleições, em Sergipe e na
Bahia, houve mudança de comando político. A Revista Veja, numa
reportagem extremamente infeliz, ridícula, preconceituosa, identificou
os governantes eleitos como os novos coronéis.
jliocsar#10
Parece não ter jeito. Quando os governantes saem das lideranças
tradicionais, são os velhos coronéis. Quando saem de novas lideranças,
são novos coronéis. Há sempre um preconceito, há sempre um comentário
pejorativo. Veja-se o exemplo de Pernambuco. Miguel Arraes, em 1962,
rompeu com as velhas oligarquias, derrotou o pessoal ligado ao que
tinha como mais atrasado – os usineiros – entretanto, quando o peso da
idade caiu sobre os seus ombros, recebeu a pecha de velho coronel.

A pior de todas as manifestações preconceituosas eu li, se não me
falha a memória, na Folha de São Paulo. Tenho uma certa lembrança do
nome da jornalista, mas não irei nominá-la, porque não quero ser
leviano. Mas eu li, dessa jornalista, por ocasião da morte da Sra.
Elma Farias, um artigo elogioso à figura da mulher, da esposa
solidária, que tudo suportou ao lado de PC Farias, um homem execrado
pela opinião pública. O artigo era muito bonito, emotivo até, não
fosse o final que concluía mais ou menos assim: "Não dá para entender
porquê uma mulher se apaixona por homem baixo, careca, barrigudo,
feio, corrupto e nordestino".
Os preconceitos existem até de forma menos danosa. Muitas vezes, o
preconceituoso é vítima do seu próprio preconceito. Certa feita,
comentando com um colega Juiz, acerca do livro "Lanterna na Popa", de
Roberto Campos, ouvi dele que jamais leria qualquer coisa do autor.
Disse-lhe à época: "Pior para você. Roberto Campos é um dos maiores
pensadores da economia no Brasil. Você está deixando de aprender muita
coisa". Naturalmente que se tratava de um preconceito incutido pela
esquerda nervosa da época da ditadura militar, quando surgiu a versão
de que Roberto Campos - Bob Fields - por ser liberal em matéria
econômica, defendia os interesses do imperialismo americano.
selma#11
mesmo...
agora que a pregação anti racista nos atingiu.... achamos ruim.
Não entendi a sentença nem os comentários.
Mas continuo detestando anti isso e anti aquilo..
jliocsar#12
Saí, aparentemente, do objeto da ação, para ilustrar, com exemplos,
alguns históricos, outros vivenciados pessoalmente, numa tentativa de
demonstrar a razoabilidade de toda a discussão, o sentido da demanda,
a sensibilidade do Procurador da República Paulo Guedes em trazer ao
debate, um tema da maior importância para os brasileiros vítimas de
preconceito.

Dessa forma, se, por um lado, identifico uma ponta de preconceito do
requerido em algumas das suas manifestações, identifico também, por
outro, que o seu estilo literário é extremamente ácido, inteligente e
assim o faz basicamente quando comenta sobre os políticos,
especialmente os do PT, os que integram o atual governo e quando
comenta a postura de colegas seus que aplaudem o governo. Há uma tênue
linha entre uma postura e outra.
Confesso até que aprecio os artigos do Sr. Diogo Mainardi. Ele tem o
mérito de não integrar o grupo de jornalistas sempre deslumbrados com
o governo do momento. Ele não compõe a "unanimidade burra" a que se
referia Nelson Rodrigues. Isso não significa dizer que concorde com
tudo o que ele escreve e que, por conta disso, estaria julgando o
pedido improcedente. Assim o faço porque entendo que, conquanto possa
ter havido, em um trecho ou outro, manifestações preconceituosas,
desrespeitosas até, nada disso causou qualquer dano moral aos
sergipanos, nordestinos ou cuiabanos. Vejamos.
jliocsar#13
Quando o escritor afirmou, referindo-se ao Presidente Lula, no
programa "Manhattan Connection que "Ele não é pragmático, ele é
oportunista. O episódio do Pará agora é muito claro. Quer dizer, uma
semana ele concede a exploração de madeira, na semana seguinte ele
cria uma reserva florestal grande como Alagoas, Sergipe, sei lá
eu...por essas bandas de onde eles vêm. Isso é oportunismo",
evidentemente que a expressão "por essas bandas de onde eles vêm" pode
ter uma conotação pejorativa, preconceituosa, embora a expressão seja
muito comum na literatura e na linguagem coloquial. Mas não se trata,
evidentemente, de um termo capaz de causar dano moral a nenhuma
comunidade, muito menos à comunidade nordestina.

De outro lado, quando o jornalista afirmou que "Dutra não tem passado
empresarial. Fez carreira como sindicalista da CUT e senador do PT
pelo estado de Sergipe. Não sei o que é pior(...)", ele não quis
ofender o estado de Sergipe, tampouco os sergipanos. A sua ofensa foi
dirigida tão somente ao então Senador Eduardo Dutra e ao Partido dos
Trabalhadores. É razoável aceitar a explicação de que a expressão
estado de Sergipe foi um mero complemento da circunstância fática do
Sr. Eduardo Dutra ter sido Senador pelo estado de Sergipe. Nada mais.
A ofensa foi ao PT, frise-se mais uma vez.
jliocsar#14
É certo que o jornalista, ao comentar, na revista Veja, sobre esta
ação, pode ter sido irônico, ao mencionar o pujante estado de Sergipe.
Mas isso é problema dele. Aí, a vítima do preconceito, se houver, será
somente ele, porque de fato, Sergipe é um estado pujante. A sua
pujança evidencia-se pelo senso de organização e pela altivez do seu
povo. Já tive oportunidade de dizer e repito. Sergipe é um exemplo,
para o país, de civilidade política, posto que os poderes funcionam de
forma independente e existe alternância. Na condição de magistrado,
jamais tive dificuldade de fazer cumprir uma decisão judicial frente
às autoridades locais. Isso é o reflexo de uma sociedade civilizada.

Nada disso é recente. Lendo, certa feita, sobre a História do Poder
Judiciário estadual em Sergipe, verifiquei que, desde a sua criação,
houve uma cultura de respeito do Poder Executivo – sempre
historicamente o mais desobediente, o mais autoritário em face dos
demais – com relação ao Poder Judiciário.
Quando menciono acima que o jornalista Diogo Mainardi pode ter sido
irônico é porque acredito verdadeiramente que é uma mera
possibilidade. Pode ter sido e pode não ter sido. Afirmo porque, em
outro trecho, também comentando sobre esta ação, o requerido diz que
não entende bem da geografia nordestina. O fato de tratar-se o
escritor de uma pessoa altamente intelectualizada, torna-se difícil
acreditar numa afirmativa dessa. Tenho certeza, no entanto, que está
sendo sincero.
selma#15
Meu pai trabalhou para 2 deles.. o Rei do Gado (M0URA ANDRADE) e o filho do 4º Rei do Café (Ernesto Schimidtt).
jliocsar#16
Certa feita, viajando pelo sul da Espanha, em companhia de colegas
magistrados e membros do Ministério Público, diante do calor infernal
que fazia à época, ouvi, de um Promotor de Justiça, a seguinte
"pérola": "Para você este calor não diz nada, afinal vivendo no sertão
brabo de Salvador, já deve estar acostumado!". Eu lhe respondi: "De
fato, Salvador é uma cidade de clima quente, mas não fica no sertão.
Você precisa estudar mais geografia. Salvador fica no litoral. É uma
península situada bem ao leste do país, entre o Oceano Atlântico e a
Baia de Todos os Santos". Confesso que me arrependi pela extensão da
fala. Pensei comigo mesmo. Será que, depois de tanto tempo, ele ainda
lembra o que vem a ser uma península?!

A minha mulher também teve uma experiência parecida nesta mesma
viagem. Desta feita foi com um Juiz. Era época de eleição municipal no
Brasil e a conversa se desenvolvia em torno da política paulistana e
soteropolitana. Em determinado momento, o interlocutor perguntou. "E
em Fortaleza, quem tem chance de vitória?" A minha mulher, depois de
fazer a sua avaliação pessoal, devolveu-lhe a pergunta. "E em Porto
Alegre, quem tem chance de vitória? Ao que o interlocutor respondeu:
"Mas eu não sou de Porto Alegre, eu sou de São Paulo". A minha mulher
então lhe disse: "Eu sei, mas é que Porto Alegre é mais perto de São
Paulo do que Fortaleza é de Salvador".
Há muitos anos, quando o meu conhecimento pessoal do Brasil ia até o
Rio Grande do Norte, fui apresentado a uma Senhora, classe média alta,
curso superior, em Vitória. Ao lhe informar que eu era baiano, ela me
disse: "Eu não conheço o norte". Respondi imediatamente. "Eu também
não, só conheço até Natal"
jliocsar#17
Portanto, se o Sr. Diogo Mainardi disse que não conhece a geografia
nordestina, é porque, de fato, ele não conhece. Não há nenhum
preconceito nisso capaz de causar dano. O preconceito, se houve, fica
por conta do desinteresse, do desprezo de quem se julga superior
intelectualmente. O prejuízo é, apenas, do dono do preconceito. Não
estou dizendo, como isso, que seja o caso dele. Ele é quem deve saber.

Nesse particular, o preconceito só serve para embotar as nossas
inteligências. Eu mesmo identifico uma situação em que fui vítima do
meu próprio preconceito. Em momento mais recente, quando o meu
conhecimento pessoal do Brasil já chegava ao Ceará, cheguei a afirmar
que, para mim, o País acabava ali e que não me interessava mais
conhecer os estados do norte. Depois, verifiquei o quanto fui tolo. Ao
me ser dada a oportunidade de conhecer São Luis e Belém, encantei-me
com a beleza e a riqueza cultural das duas cidades e hoje, um dos meus
maiores sonhos de viagem é conhecer o resto do norte do Brasil.

Quanto aos cuiabanos, identifico, por parte do requerido, pelo menos
em um trecho, um preconceito muito forte, não contra os cuiabanos em
si mesmo, mas contra os homossexuais, negros e pobres, quando afirmou
que "Sua grande celebridade é Jejé de Oya, um colunista social "negro,
pobre, homossexual"..., mas nada que justifique a condenação de uma
indenização, porque o dano não houve.
O articulista, às vezes, é ambíguo quando afirmou que "Não gosto de me
vangloriar. Creio, porém, que fui a notícia mais excitante de Cuiabá
nos últimos 20 anos". O que parece desprezo, não deixa de ser uma
deferência, posto que demonstra vangloriar-se de estar às turras com o
povo cuiabano. Na verdade, os cuiabanos parecem ser, realmente, muito
importantes para o jornalista Diogo Mainardi.
jliocsar#18
Quanto às afirmações que fez sobre ser o Rio de Janeiro e São Paulo
duas "porcarias" e o povo carioca "inconsistente", de fato revela que
se trata de estilo próprio dos seus escritos, ácido, duro,
contundente, sendo razoável crer, por isso mesmo, que não tenha
pretendido ofender os sergipanos, em que pese haver demonstrado, em
alguns momentos, uma ponta de preconceito ainda que inofensivo.

De toda sorte, entre a liberdade de expressão e pequenas ofensas, fico
com a primeira, base maior da democracia, que dá muito trabalho para
administrar, mas vale a pena.

Para encerrar, uma História com "H". Há pouco mais de quarenta e três
anos, havia um governador, pequeno na estatura, como o estado que
governava, mas um gigante no caráter, que preferiu sacrificar a sua
carreira política, perder o mandato e passar algum tempo na cadeia, a
ter que aderir àqueles que destituíram o Presidente da República
constitucionalmente eleito. Seu nome? João de Seixas Dória. Quem não
souber o estado que ele governava, fica como dever de casa a pesquisa.
Sugiro que dê uma voltinha no Google.

De minha parte, enquanto me agradar, continuarei assistindo ao
Manhattan Connection e lendo as crônicas do Sr. Diogo Mainardi e,
sempre que me for dado, assegurar que ele possa dizer o que pensa. É o
que importa. Aproveito e convido-o, se ainda não o fez, para visitar
Sergipe. Não se arrependerá.
3. DISPOSITIVO

Com esses fundamentos:

a) excluo a Globo Comunicação e Participações S/A do pólo passivo da demanda;

b) em relação aos demais Réus, julgo IMPROCEDENTE o pedido, nos termos
do art. 269, I, do Código de Processo Civil.

Sem custas e honorários, nos termos do art. 18 da Lei da Ação Civil Pública.

Publique-se. Registre-se. Intime-se.

Aracaju, 27 de junho de 2007.

RICARDO CÉSAR MANDARINO BARRETTO

Juiz Federal da 1ª Vara
jliocsar#19
Gostei muito de ter lido esta sentença e resolvi compartilhar com vocês.
fernando_10#20
Acho que foi num de seus podcasts que Diogo Mainardi explicou de quem ele herdou intelectualmente essa postura crítica não somente aos nordestinos como todos os demais brasileiros: Ivan Lessa, ex-parceiro de Jaguar no Pasquim.

Ele é o autor de várias frases (conhecidas como "desaforismos") como:

"Baiano não nasce, estréia."
"O brasileiro é um povo com os pés no chão - e as mãos também."
"No Brasil, morre-se muito de médico."
"A cada 15 anos os brasileiros esquecem o que aconteceu nos últimos 15 anos."
"Como tudo que se passa em português, não é a sério nem para valer."
“Se Robespierre tivesse nascido em Crato, Ceará, ele se chamaria Danton.”
"Os brasileiros, para não perder a forma, devem ser montados ao menos uma vez por semana."
"No Rio, nove entre dez favelados são quinze."
"Todo nordestino sentado num canto é um passo adiante na não-proliferação nuclear."
"Amar é... ser a primeira a reconhecer o corpo dele no Instituto Médico Legal."
"O Brasil tem 8.511.965 quilômetros quadrados de largura por 7 palmos de profundidade."
"Não se pode enganar o povo o tempo todo, mas 93% do povo 87% do tempo dá pé."

Como o Ivan Lessa, o Paulo Francis também era de lascar: "Os baianos invadiram o Rio para cantar "Ó que saudade da Bahia...". Bem se é por falta de adeus, PT saudações."
fernando_10#21
"Os chineses só existem de vez em quando."
"Todo homem tem o direito de ser imbecil por conta própria."
"A Net é 95% feita por tolos para 98% de bobalhões."
"Intelectual não vai à praia..." (frase de Paulo Francis completada por Ivan Lessa) "... intelectual bebe."
"Ame-o ou deixe-o." (slogan do regime militar, respondido por Ivan Lessa) "O último a sair apague a luz."
"Se não há clima para Watergate então vamos todos para Búzios."
uriel#22
.

vejam o que o Graciliano Ramos tinha a dizer sobre os nordestinos.

leiam também Euclides da Cunha e Monteiro Lobato.
uriel#23
.

Selma, há muita calúnia e muito mito acerca dos "coroné" do interior.

talvez os do Nordeste fossem piores. Mas não sei.

parte de minha família era uma oligarquia mesmo do MT na região do Araguaia (os Hugueney, descendentes do Dr. Carlos Teodoro José Hugueney da Bélgica, que se uniu por matrimônio à família dos Valadares, da Raiz da Sera - Dona Maria Francisca Bulhões Valadares Hugueney).

Quem conheceu pessoalmente os Hugueney de Araguaia, o "Patriarca do Leste", Major Carlos, Prof. Allyrio, José Carlos de Mattos, Avelino Siqueira, Clodoaldo etc e o prefeito Irigaray da ARENA (ligado aos Hugueney por matrimônio) têm em geral coisas muito agradáveis a dizer sobre eles e sua filantropia, humanitarismo etc e a importância deles pra cidade, seu desenvolvimento e pra região.
Mas segundo os comunistas eram uns malditos oligarcas.

Hoje quem "comanda" Cuiabá é o Comendador Arcanjo.. e o PT. os vilões da guerrilha do Araguaia estão no poder.

a Globo com certeza teve um papel importante na demonização dos "coronéis". Foi talvez basicamente a carcamanada e a judeuzada teuto-eslava (ou seja, os migrantes mais recentes que prosperaram) invejosa das famílias tradicionais consolidadas. A nova elite ("progressista") de judeus e italianos e a velha elite ("arcaica") - os coronéis.

Isso aliado ao ranço ideológico do marxismo.
São "anti-capitalistas" frutos do capitalismo do século XX.
uriel#24
.

o ACM, que não creia que tenha sido santo, é exemplo de "coroné" demonizado pela esquerda e por essa elite "global", que nega todos os seus méritos.

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