"Mais que logicamente certo, o argumento ontológico é auto-evidente. Denomino auto-evidente o juízo que não pode ter uma contraditória unívoca, ou seja, cuja contraditória não é sequer formulável sem o vício redibitório da ambigüidade. Que eu saiba, esta característica dos juízos auto-evidentes não tinha sido ressaltada até agora. No caso, qual a contraditória do juízo "O ser necessário existe necessariamente"? É "O ser necessário inexiste necessariamente" ou "A existência do ser necessário não é necessária"? Impossível decidir. A contraditória do argumento de Sto. Anselmo é informulável. Rejeitar portanto esse argumento é abdicar do senso mesmo da unidade do discurso, é cair na linguagem dupla que terminará por nos levar aonde chegou Kant."
Sou um admirador recente do trabalho de Olavo de Carvalho como comentarista político. Entretanto, minha admiração maior vai para sua obra de filósofo. Do pouco que está disponível para o grande público (em seus livros e sobretudo nas apostilas do site) li quase tudo e não canso de louvar a clareza, a profundidade e o refinamento das suas exposições. E é justamente esta admiração que me leva a buscar no pensamento do grande mestre as inconsistências aparentes para que, uma vez demonstrada a falsidade de tais inconsistências e o que elas têm de ilusório, eu possa reconstituir com mais segurança o trajeto lógico de sua filosofia – todo o trabalho do genuíno admirador. Por isso eu gostaria que vocês me esclarecessem alguns pontos sobre essa passagem da apostila de Kant e o Primado do Problema Crítico. Meu texto é um tanto seco, em virtude do tema e da argumentação fechada que busco desenvolver, então eu pediria paciência àqueles que estão habituados ao estilo fluente e literariamente rebuscado da prosa filosófica de Olavo. Muito bem.
A princípio a passagem citada me parece falsa pelo seguinte motivo:
1.Olavo diz que juízos auto-evidentes são aqueles que não admitem contraditória unívoca.
Neste sentido, um exemplo clássico de juízo auto-evidente é a lei da identidade. A=A. Se A não fosse idêntica a si mesma, teríamos como A duas proposições (A e ~A), e cada uma destas proposições seria ela mesma e a sua contraditória. Ora, como é impossível escolher entre uma proposição cuja negação se multiplica indefinidamente, então dizemos que a lei da identidade é um juízo auto-evidente, conforme o estabelecido em 1.
Segundo Olavo, o mesmo vício de ambigüidade existe na contraditória do argumento de Sto. Anselmo.
Proposições contraditórias são aquelas que não podem ser simultaneamente verdadeiras e nem simultaneamente falsas. Notem que as proposições contrárias não obedecem esta regra, pois embora ambas não possam ser verdadeiras, ambas podem ser falsas, como no exemplo a seguir: Todos os homens são louros e Todos os homens não são louros. Pode ser falso que todos os homens sejam louros ao mesmo tempo que pode ser falso que todos eles não sejam louros. Se houverem alguns homens não-louros, alguns homens morenos, por exemplo, então ambas as proposições são falsas. Proposições contraditórias, porém, não podem ser ambas verdadeiras e ambas falsas. Ex: Nenhum homem é louro e algum homem é louro. Se for verdadeiro que “nenhum homem é louro”, então é necessariamente falso que “algum homem é louro”. E se for falso que “nenhum homem é louro” então não pode ser falso que “algum homem é louro”, pois para a primeira proposição ser falsa teria de haver ao menos um homem louro, mas para a segunda ser falsa não poderia haver nenhum homem louro. Por isso dizemos que estas duas proposições não podem ser ambas verdadeiras, nem ambas falsas. Logo, são contraditórias.
Sendo assim, a proposição contraditória do argumento de Sto. Anselmo é uma proposição x de tal modo que ambas não possam ser verdadeiras nem ambas falsas. Se for possível achar tal proposição então o argumento de Olavo fica invalidado, uma vez que a ambigüidade foi resolvida em favor de alguma proposição.
O juízo de Sto. Anselmo é “O ser necessário existe necessariamente”. Olavo propõe duas contraditórias possíveis, donde a ambigüidade. Vejamos se assim é.
A primeira diz que “O ser necessário inexiste necessariamente”. O sentido da frase é, evidentemente, diferente do sentido desta outra frase “O ser necessário não existe necessariamente”. No primeiro caso, temos a afirmação de uma inexistência necessária, o que de fato não reflete o intuito de Kant quando este argumenta contra Anselmo. Kant não quer dizer que a inexistência do ser é necessária, mas tão somente que não é necessária sua existência. Portanto, a frase que refletiria melhor o pensamento de Kant não seria esta. Mas, vejamos se ela é contraditória.
Caso seja verdadeira, obviamente a proposição de Sto. Anselmo será falsa. Afinal, se o ser necessário inexiste necessariamente, e, portanto, se a sua inexistência é um dado a priori, então ele não pode existir necessariamente. Porém, ambas podem ser falsas.
Pode ser falso que “o ser necessário inexista necessariamente” e ao mesmo tempo ser falso que o “ser necessário exista necessariamente”. Neste caso, nem a inexistência será necessária nem a existência será necessária, sendo a propriedade da existência uma propriedade necessariamente contingente, ou seja, não-necessária. Esta é, aliás, uma condição do próprio raciocínio kantiano, na medida em que ele visa mostrar a contingência de todos os seres, ou em termos mais claros, a impossibilidade de se falar de um ser necessário. Então esta proposição, tal como Olavo a formula, não constitui a contraditória do juízo de Sto. Anselmo. Vejamos a outra frase.
“A existência do ser necessário não é necessária”. Nesta frase, substancialmente diversa da anterior, temos o pensamento de Kant descrito com perfeita clareza. De fato, o que Kant estabelece contra Anselmo é que a existência do ser necessário não é necessária. Escrito de outro modo, mas preservando a idéia teríamos “O ser necessário não existe necessariamente”. Neste caso, ambas não poderiam ser verdadeiras, pois se o ser necessário não existe necessariamente, então ele não pode existir necessariamente. E também não podem ser ambas falsas. Se dissermos que é falso que “o ser necessário não existe necessariamente”, concluiríamos de imediato que o ser necessário existe necessariamente. E se disséssemos que é falso que “o ser necessário existe necessariamente” concluiríamos que “o ser necessário não existe necessariamente”, ou nas palavras de Olavo, concluiríamos que “a existência do ser necessário não é necessária”.
Dito isso, parece-me bastante aceitável tomar somente a frase segunda como a genuína contraditória do juízo de Sto. Anselmo. E se assim for, a ambigüidade fica resolvida. Mas como está estabelecido em 1 que “juízos auto-evidentes são aqueles que não admitem contraditória unívoca” então o juízo de Sto. Anselmo não é auto-evidente.
Agradeço a paciência de todos os que leram meu pequeno e inevitavelmente tedioso texto e fico no aguardo das respostas. Saudações.
“1.Olavo diz que juízos auto-evidentes são aqueles que não admitem contraditória unívoca.(...)
Segundo Olavo, o mesmo vício de ambigüidade existe na contraditória do argumento de Sto. Anselmo.
Proposições contraditórias são aquelas que não podem ser simultaneamente verdadeiras e nem simultaneamente falsas. “
Fernando, você cita a definição do Olavo e logo em seguida utiliza a palavra “contraditório” com um sentido completamente diferente. O que ele disse é que a negação de um juízo auto-evidente é equívoca, ou seja, a enunciação da negação não é unívoca (a sua definição de proposições contraditórias não é relevante para o assunto).
O seu exemplo da lei de identidade é auto-explicativo. Qual é a negação de “A é igual a A”?
“A é diferente de A” ou “A é igual a ~A”? Não há como se decidir, ambas são igualmente a negação da primeira. Logo, “A=A” é auto evidente, porque não há uma negativa unívoca possível.
“O juízo de Sto. Anselmo é “O ser necessário existe necessariamente”. Olavo propõe duas contraditórias possíveis, donde a ambigüidade. Vejamos se assim é.
A primeira diz que “O ser necessário inexiste necessariamente”. O sentido da frase é, evidentemente, diferente do sentido desta outra frase “O ser necessário não existe necessariamente”. No primeiro caso, temos a afirmação de uma inexistência necessária, o que de fato não reflete o intuito de Kant quando este argumenta contra Anselmo.”
Não importa o intuito de Kant, neste ponto. Importa saber se a afirmação de Sto. Anselmo é um juízo auto evidente ou não.
“Caso seja verdadeira, obviamente a proposição de Sto. Anselmo será falsa. Afinal, se o ser necessário inexiste necessariamente, e, portanto, se a sua inexistência é um dado a priori, então ele não pode existir necessariamente. Porém, ambas podem ser falsas.”
Você não entendeu. No seu exemplo dos homens louros, uma proposição não é a negação da outra. A negação de “todos os homens são louros” é “existe ao menos um homem não louro”. A negação de “todos os homens são não louros” é “existe ao menos um homem louro”. Para cada afirmação, há uma negação unívoca, e para cada par afirmação-negação, apenas uma das proposições é verdadeira.
No caso da afirmação de Sto. Anselmo, a formação deste par é impossível. No lugar do segundo termo (da negação), duas proposições se apresentam, ambas com o mesmo direito de ocupar o posto.
Se ambas pudessem ser falsas, uma não seria a negação da outra.
Olha só. Para que “o ser necessário exista necessáriamente” seja falso, sua negação tem que ser verdadeira (é a definição de falsidade). Qual é a negação?
Não importa o que Kant diga, a negação desta afirmação é OU “O ser necessário inexiste necessariamente” OU “a existência do ser necessário não é necessária”.
A única falha possível neste raciocínio seria se ambas fossem EQUIVALENTES. Como não são, não é necessário analisá-las separadamente. A força mesma do raciocínio é justamente que as frases sejam “substancialmente diferentes” uma da outra.
O desenvolvimento do argumento de Bernardo é idêntico ao meu. A diferença é que ele se utiliza de um instrumental da lógica simbólica e eu me abstive de usá-lo. Mas foi precisamente isso que busquei demonstrar: a existência de um objeto x não é uma propriedade dedutível do conceito de x, qualquer que seja x.
Só um ponto difere minha argumentação do Bernardo. Eu mostro também que uma das contraditórias do juízo sequer é contrária. O que junta um outro equívoco ao erro que Bernardo aponta.
Agradeço a resposta gentil, mas observo que ela passou muito longe do ponto discutido.
Em primeiro lugar, eu de fato não refutei o argumento de Sto. Anselmo. E nem pretendi refutá-lo. Pretendi somente mostrar que a argumentação de Olavo não prova que ele é auto-evidente nos termos definidos pelo próprio Olavo para caracterizar auto-evidência. A implicação disso é óbvia: se alguém almeja demonstrar que um juízo qualquer não é auto-evidente nos termos em que um filósofo define auto-evidencia, ele não estará demonstrando automaticamente que o juízo em questão seja falso.
Em segundo lugar, não faço da não-necessidade do ser necessário uma necessidade inversa. Muito menos o faz Kant. O argumento de Kant não estabelece este absurdo, verdadeiro paradoxo cômico no qual Kant, homem de rara sutileza, jamais cairia. Sua resposta ao argumento de Anselmo (aliás, uma resposta bastante similar a que antes lhe dera São Tomás de Aquino) consiste em recusar a existência como uma propriedade dedutível de um conceito, o que é bem diferente de tomar a não-necessidade como uma necessidade.
Finalmente, mesmo que a sua argumentação estivesse correta ela ainda não teria acertado o alvo, a saber, “a argumentação de Olavo prova que o juízo de Sto. Anselmo é auto-evidente?”. Se a ambigüidade da contraditória do juízo de Anselmo simplesmente não está posta – e é isto que busco demonstrar – então o argumento de Sto. Anselmo não é auto-evidente nos termos em que Olavo define auto-evidência.
"você cita a definição do Olavo e logo em seguida utiliza a palavra “contraditório” com um sentido completamente diferente. O que ele disse é que a negação de um juízo auto-evidente é equívoca, ou seja, a enunciação da negação não é unívoca (a sua definição de proposições contraditórias não é relevante para o assunto).
O seu exemplo da lei de identidade é auto-explicativo. Qual é a negação de “A é igual a A”?
“A é diferente de A” ou “A é igual a ~A”? Não há como se decidir, ambas são igualmente a negação da primeira. Logo, “A=A” é auto evidente, porque não há uma negativa unívoca possível."
Marcos,
Eu não utilizo a definição de proposição contraditória num sentido completamente diferente pelo simples fato de que Olavo não está definindo proposição contraditória no trecho citado. O que ele define são juízos auto-evidentes. A univocidade é simplesmente a relação entre a contraditória e o juízo que ela busca contradizer, o que supõe uma definição de contraditória explicitada.
A definição que utilizo de proposição contraditória não é de fato de minha autoria, muito embora eu devesse ficar bastante orgulhoso se a tivesse assim definido pela primeira vez. Esta definição é a definição tradicional de contraditório, depreendida a partir do Quadro Tradicional de oposições escolástico-aristotélico. Enfim, é a definição básica e tradicional de contraditório e não vejo porque eu deva me abster de utilizá-la. E realmente o que você diz logo em seguida não é uma definição de contraditório (você mesmo teria de criar uma, pois não está no trecho citado), mas tão somente a constatação de que juízos auto-evidentes não admitem contraditória unívoca. Concordo plenamente, mas não é uma refutação a uma linha sequer do que escrevi.
"Você não entendeu. No seu exemplo dos homens louros, uma proposição não é a negação da outra. A negação de “todos os homens são louros” é “existe ao menos um homem não louro”. A negação de “todos os homens são não louros” é “existe ao menos um homem louro”. Para cada afirmação, há uma negação unívoca, e para cada par afirmação-negação, apenas uma das proposições é verdadeira.
No caso da afirmação de Sto. Anselmo, a formação deste par é impossível. No lugar do segundo termo (da negação), duas proposições se apresentam, ambas com o mesmo direito de ocupar o posto.
Se ambas pudessem ser falsas, uma não seria a negação da outra."
Eu entendi perfeitamente, Marcos. Meu exemplo foi de duas proposições contrárias. Com este exemplo meu intuito foi deixar claro a diferença entre proposições contraditórias e proposições contrárias para mostrar depois que a primeira proposição de Olavo simplesmente não é a contraditória do juízo, mas a sua contrária. Seu exemplo, entretanto, é de uma proposição contraditória, mas se houvesse lido com cuidado veria que o meu próximo exemplo é logicamente equivalente ao seu – exemplo de contraditória também. E assim teria de ser, pois o exemplo das proposições contraditórias eu o coloquei DEPOIS do exemplo das proposições contrárias.
Mas eu cometi, realmente, um pequeno lapso no meu exemplo. Você, porém, não o notou. Meu lapso foi o seguinte: para que a contrariedade das proposições se revelasse em sua clareza seria necessária uma inferência imediata chamada obversão. Esta inferência modificaria a disposição gramatical da segunda proposição “Todos os homens não são louros” conservando-lhe a mesma estrutura lógica. Ficaria assim “Nenhum homem é louro” e então a contrariedade apareceria mais claramente.
"Não importa o que Kant diga, a negação desta afirmação é OU “O ser necessário inexiste necessariamente” OU “a existência do ser necessário não é necessária”.
A única falha possível neste raciocínio seria se ambas fossem EQUIVALENTES. Como não são, não é necessário analisá-las separadamente. A força mesma do raciocínio é justamente que as frases sejam “substancialmente diferentes” uma da outra."
Na verdade, importa o que Kant disse pois estamos no contexto de uma refutação a Kant. De qualquer modo, a primeira proposição não é a contraditória do juízo, porque é uma proposição contrária. Ademais, a existência não é uma propriedade dedutível do conceito de um objeto. Se fosse objetos contraditórios seriam existentes, pois nada impede que se formule um conceito de um "objeto contraditório existente". Existe uma teoria dos objetos subsistentes (deve-se a mente engenhosa do grande A.Meinong) que admite tais objetos, mas como esta teoria se mostrou frágil antes as argumentações da Escola Analítica, dispensarei eu mesmo de tentar refutá-la aqui.
Um abraço Marcos e, de qualquer maneira, obrigado pela resposta.
Eu nem diria que a proposição "A=A" é autoevidente. Qual é a negação dela? Simples: "não é verdade que A=A". Negar algo não significa transformar a negação num juízo positivo. A negação de "A=A" não é "A=¬A"; dizer que algo (A) é diferente de outra coisa (B) não implica dizer que aquela coisa (A) seja igual a uma terceira coisa (C). Até porque se poderia dizer que a relação de identidade em certos casos sequer faz sentido. Isso acontece, por exemplo, nos chamados "objetos quânticos".
Em geral, a noção de identidade está relacionada à noção de individualidade. Uma forma de caracterizar identidade é através do Princípio da Identidade dos Indiscerníveis, que diz que A=B se todas as predicados que se aplicam a A também se aplicam a B e vice-versa (formalmente, a noção de identidade ficaria definida assim: Ax.Ay.(x=x) <--> Af.Ax.Ay.(fx <--> fy), em que A é o quantificador universal, x e y são "objetos" e f é um predicado que se aplica aos "objetos").
O problema é que, no mundo quântico, pode não fazer sentido predicar objetos no sentido usual. Só se pode usar alguns predicados para coleções de objetos. E daí vem o problema da não-individualidade dos objetos quânticos. Por exemplo, Schrödinger dizia que não faria sentido falar em individualidade de objetos quânticos, não faria sentido dizer "este pósitron = este pósitron", porque o uso do termo "este" não cabe aqui.
Então, a negação de "A=A" não quer dizer que "A=B", para algum B. Significa apenas que aquela proposição é falsa. Em outros termos: negação tem a ver com valor-verdade de uma proposição, não com o seu sentido. (Na verdade, existem diversas negações diferentes, como, por exemplo, a negação nas lógicas paraconsistentes de Newton da Costa.)
Mas, se negação tem a ver apenas com o valor-verdade de uma proposição, não existem negações equívocas. A negação de uma proposição "p" é apenas "não é verdade que p" - não importando qual o sentido da proposição e não importando se é possível ou não afirmar um juízo positivo acerca da negação de p.
Não mesmo! Se você disser "este pósitron é este pósitron", isso não é um "valor" dado de modo algum. Isso sequer faz sentido. Porque falar "este pósitron" é conferir-lhe individualidade. Mas pósitrons, segundo a física (ou melhor, alguns físicos), não são indivíduos. Então a proposição simplesmente é falsa.
Para tomá-la como um "valor" (estou interpretando o seu uso desse termo como se fosse um fato), você precisa assumir de antemão que o princípio de identidade é universalmente válido. Para usar ao seu modo, você precisa particularizar. Dizer "este ovo = este ovo" é um dado (e verdadeiro) - mas "este ovo" é indivíduo! Mas isto é bem diferente de expressar esse juízo numa forma abstrata ("A=A") e admitir que isso é válido sempre, para qualquer A. "A=A" não está dado, não é um fato da realidade (ou melhor, pode não ser...).
Mas o meu ponto principal não é este. A minha questão ali era afirmar que negação é relativa ao valor-verdade de uma proposição, não sendo necessariamente relativa ao sentido da expressão. E, se assim for, aceitando-se a lógica clássica (como Olavo parece aceitar), simplesmente não há lugar para se falar em negações equívocas.
Se, por outro lado, se insistir que negação é relativa ao sentido - e isso leva a problemas seríssimos (logo de cara, acaba a sua possibilidade de trabalhar com equivalências lógicas formais!) -, é preciso demonstrar os princípios da não-contradição e do terceiro excluído (pois eles são relativos ao valor-verdade).
Em outras palavras, a teoria das proposições autoevidentes do Olavo parece indicar a reformulação de toda a lógica em novas bases. E, enquanto isso não for feito, fica difícil aceitar os raciocínios fundados na teoria dele - pois, em geral, se busca usar regras lógicas estabelecidas, mas que não se sabe se são válidas na formulação que ele dá.
Sei que o que está em discussão não é propriamente o argumento de Sto. Anselmo, mas acho que cabe lembrar que ele não falava nenhuma vez de "ser necessário".
Isso é uma reformulação moderna do argumento, que o altera em alguma medida.
Tampouco Sto. Anselmo cria que se pudesse deduzir a existência de um objeto de sua essência.
Muito pelo contrário, todo o argumento é para provar que existe uma exceção à regra de que a existência não é uma "propriedade" dedutível, e essa exceção é exatamente "aquilo do qual não se pode pensar nada maior".
Jamais disse que Sto. Anselmo considerasse "em geral" a existência uma propriedade dedutível da essência. Mas a exceção que ele abre dificilmente pode ser considerada válida por dois motivos:
1) Tomar a existência como "perfeição" é um pressuposto teórico. É preciso demonstrá-lo.
2) Pode-se pensar num objeto x que seja "a cadeira azul existente nessa sala". Se o conceito de existência pudesse ser deduzido da essência o que nos impediria de deduzir este conceito da essência deste objeto, uma vez que a definição que nos dá a sua essência já inclui a sua própria existência?
Note bem: o que estou dizendo é apenas extrapolação. O foco do meu argumento é a análise do Olavo.
. Olavo propõe duas contraditórias possíveis, donde a ambigüidade. Vejamos se assim é. A primeira diz que “O ser necessário inexiste necessariamente”. O sentido da frase é, evidentemente, diferente do sentido desta outra frase “O ser necessário inexiste necessariamente”.
Eu não sei o que o Olavo propõe, mas a contraditória de uma proposição universal é uma proposição particular.
Assim, a contraditória de “O ser necessário existe necessariamente” não é nem “O ser necessário inexiste necessariamente” e nem “O ser necessário inexiste necessariamente”.
As contraditórias seriam:
"um ser necessário não existe necessariamente"
"um ser necessário não existe necessariamente"
A diferença cai na enfâse. No primeiro caso, um ser nescessário pode existir ou não, e no segundo, ele não existe, em nenhuma hipótese. Um único caso verdadeiro é suficiente para invalidar sua contraditória.
Pode ser falso que “o ser necessário inexista necessariamente” e ao mesmo tempo ser falso que o “ser necessário exista necessariamente”. Neste caso, nem a inexistência será necessária nem a existência será necessária, sendo a propriedade da existência uma propriedade necessariamente contingente, ou seja, não-necessária. Esta é, aliás, uma condição do próprio raciocínio kantiano, na medida em que ele visa mostrar a contingência de todos os seres, ou em termos mais claros, a impossibilidade de se falar de um ser necessário. Então esta proposição, tal como Olavo a formula, não constitui a contraditória do juízo de Sto. Anselmo.
Você fez confusão entre contraditórias e contrárias.
Dito isso, parece-me bastante aceitável tomar somente a frase segunda como a genuína contraditória do juízo de Sto. Anselmo. E se assim for, a ambigüidade fica resolvida. Mas como está estabelecido em 1 que “juízos auto-evidentes são aqueles que não admitem contraditória unívoca” então o juízo de Sto. Anselmo não é auto-evidente.
Vc não trabalhou com contraditórias, mas com contrárias.
. 2) Pode-se pensar num objeto x que seja "a cadeira azul existente nessa sala". Se o conceito de existência pudesse ser deduzido da essência o que nos impediria de deduzir este conceito da essência deste objeto, uma vez que a definição que nos dá a sua essência já inclui a sua própria existência?
Uma cadeira é um ser contingente. Por isso, podemos deduzir de sua "essência" que ela pode existir ou não. Além disso, ela pode existir tanto como objeto empírico, quanto como idéia mental. E como idéia mental, ela de fato existiu, quando você pensou no exemplo.
É isto que se chama "analogia". Uma "cadeira azul" imaginária existe, assim como uma "cadeira azul" empírica também existe. Mas uma não existe da mesma forma que a outra. A palavra "existir" está sendo usada analogamente.
Por isso a lógica simbólica não se aplica, pois ela não trabalha com analogias.
Já "o ser nescessário" existe nescessáriamente, senão não seria nescessário. E como eu sei que existe um ser nescessário? Por que é absurdo imaginar um mar de seres contingentes. Teríamos uma cadeia infinita remontando ao passado e apontando para o futuro.
Eu gostaria que você me explicasse melhor esta sua opinião segundo a qual “a lógica simbólica não se aplica nesta discussão”, porque “o ser necessário é um termo metafísico, que se diz de forma análoga, e não um ente imanente que se diz de forma unívoca”.
Adiante você nos dá um exemplo de analogia. Segundo o seu exemplo, podemos utilizar a palavra “existir” em dois sentidos diferentes e, no entanto, análogos. No primeiro caso, teríamos “existir” como a possibilidade lógica de uma cadeira imaginária, isto é, uma “existência” meramente no campo mental. No outro caso teríamos “existir” como a existência concreta de uma cadeira, sem dúvida o sentido mais usual que esta palavrinha complicada recebe em nossas conversas diárias. Suponho que neste caso o mais recomendável seja estabelecer muito claramente em qual sentido dizemos “existir”. “O ser necessário”, contudo, sendo ele um termo metafísico, portaria uma espécie de equivocidade essencial, donde o uso da lógica simbólica deve ser preterido. O que você quer dizer com isso? Você quer dizer que usamos o termo “ser necessário” analogamente a quê? À sua realidade metafísica correspondente, uma realidade que a linguagem não poderia transpor sem cair em inevitável ambigüidade?
Eu não sei o que o Olavo propõe, mas a contraditória de uma proposição universal é uma proposição particular.
Assim, a contraditória de “O ser necessário existe necessariamente” não é nem “O ser necessário inexiste necessariamente” e nem “O ser necessário inexiste necessariamente”.
As contraditórias seriam:
"um ser necessário não existe necessariamente"
"um ser necessário não existe necessariamente"
A diferença cai na enfâse. No primeiro caso, um ser nescessário pode existir ou não, e no segundo, ele não existe, em nenhuma hipótese. Um único caso verdadeiro é suficiente para invalidar sua contraditória. (texto de Gabriel)
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O que Olavo propõe está exatamente no início do tópico, num trecho selecionado por mim da apostila dele 'Kant e o Primado do Problema Crítico'.
Gabriel, se o seu argumento fosse válido invalidaria tanto a minha objeção quanto a teoria de Olavo. Na verdade, eu sairia ganhando no balanço geral, pois a razão de ser de uma objeção é refutar a teoria que a ela se contrapõe. E se a sua objeção derruba a minha, mas também leva consigo a teoria que eu pretendia derrubar - embora o faça por um raciocínio distinto - como bom cavalheiro, minha obrigação será agradecer-lhe humildemente. Mas não farei isto.
Não o agradeço porque neste ponto específico acho que Olavo está certíssimo, e eu o segui cegamente como seu discípulo dileto. De fato, a contraditória da proposição de Anselmo não começa por nenhum “um” a meu ver inadequado. Quando Olavo e eu nos referimos ao “ser necessário” não estamos falando de uma classe de seres necessários, mas de um único ser, de um particular em suma. Quando uma velhinha no meio da rua faz menção a “o rapaz gordo” ela não quer (até onde podemos saber) falar da classe dos rapazes gordos. Existem casos mais ambíguos, é claro, o que justifica até certo ponto sua confusão. Por exemplo: se eu digo “O Homem é um animal racional” eu não quero me referir a um particular, mas a uma classe de seres.
Você fez confusão entre contraditórias e contrárias. (texto de Gabriel)
Não, Gabriel. Eu mencionei a confusão a que uma das “contraditórias” propostas por Olavo ao juízo de Sto. Anselmo levaria.
Vc não trabalhou com contraditórias, mas com contrárias. (texto de Gabriel)
Simples engano seu, mon cher. Leia de novo.
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Uma cadeira é um ser contingente. Por isso, podemos deduzir de sua "essência" que ela pode existir ou não. Além disso, ela pode existir tanto como objeto empírico, quanto como idéia mental. E como idéia mental, ela de fato existiu, quando você pensou no exemplo.
É isto que se chama "analogia". Uma "cadeira azul" imaginária existe, assim como uma "cadeira azul" empírica também existe. Mas uma não existe da mesma forma que a outra. A palavra "existir" está sendo usada analogamente.
Por isso a lógica simbólica não se aplica, pois ela não trabalha com analogias.
Já "o ser nescessário" existe nescessáriamente, senão não seria nescessário. E como eu sei que existe um ser nescessário? Por que é absurdo imaginar um mar de seres contingentes. Teríamos uma cadeia infinita remontando ao passado e apontando para o futuro. (texto de Gabriel)
Reitero minhas perguntas anteriores sobre a relação entre lógica simbólica e metafísica, mas antes gostaria de fazer uma pequena observação a este seu último parágrafo.
Bernardo foi muito mais enfático do que eu neste ponto: a existência não se deduz da essência. Pode-se agregar a propriedade da “existência” à definição de qualquer ser contingente e então temos um ser necessário por definição. O problema,note bem, não é com a possibilidade de haver um “ser necessário”, mas com o expediente lógico – é primariamente lógico – de extrair a existência da essência supondo que a existência é uma perfeição. Cheguei a mencionar casualmente São Tomás de Aquino a este respeito. O grande filósofo também sustentava que a existência não se deduz diretamente da essência de Deus.
Na verdade, devo confessar que existe um modo de salvaguardar a validade do argumento de Sto. Anselmo. É o seguinte: tentem demonstrar, por favor, o nonsense em agregar a propriedade “existente” na definição de um ser e então, provando logo em seguida que a existência é uma perfeição, vocês vão conseguir defender o argumento de Sto. Anselmo com alguma consistência. Mas, por favor, não pensem que a tarefa é simples, pois não é. E não se resume a simplesmente dizer: “mas é evidente que, mas é claro que, não é possível que não seja assim”. Se a coisa fosse bobinha as maiores mentes filosóficas do último milênio não teriam debatido tanto em torno do argumento ontológico.
Quanto ao seu argumento final de que “teríamos uma cadeia infinita remontando ao passado e apontando para o futuro”, devo lhe lembrar uma conquista da ciência moderna, a constatação de que existem no mundo quântico eventos sem causa. Acerca de tais eventos, as leis da causalidade por você invocadas no intuito de sustentar o argumento aristotélico da Causa Primeira, argumento que nelas tem sua base e justificativa, digo, estas leis, não são aplicáveis neste campo do real. E nada, realmente nada, nos faz supor que a suposta cadeia infinita não comece e recomece por eventos acausais. Outro ponto: você parece dar por suposto a linearidade do tempo, um mito ingênuo que a ciência contemporânea há muito relativizou. Até mais.
1) Não entendi o seu argumento a respeito da impossibilidade de aplicar a lógica formal para tratar da questão. Você parece usar dois argumentos distintos: i) Ser necessário é um termo sem significado unívoco; ii) a existência se diz de vários modos diferentes: como a lógica simbólica não poderia lidar com analogias, seu uso ficaria impossibilitado. É isso?
Bem, se "ser necessário" não possui significado unívoco, do que estamos falando em primeiro lugar? Não interessa no mínimo que seja dizer que "ser necessário" é um termo metafísico. E daí? Antes de qualquer coisa, dizer "o ser necessário" significa "o ser que tem a propriedade de ser necessário" (note, aqui estou aceitando a possibilidade de se falar de necessidade como um predicado comum, o que, para mim, não faz sentido; necessidade se diz de proposições, não de seres: faz sentido eu dizer "é necessário que chova amanhã", mas não faz sentido dizer "o ovo é necessário" - do mesmo modo que não faz sentido dizer "o ovo é possível"). Agora, se eu digo que o ser necessário existe, o que eu quero dizer é que "existe um ser com a propriedade de ser necessário".
Aí entra sua segunda objeção. Existência se diz de modos diversos. Bem, isso não é problema, na verdade. Porque, usando quantificação, eu coloco a existência contextualizando-a, fazendo referência a um conjunto que é meu domínio, por assim dizer. Na minha explicação, o contexto é o da realidade, não da fantasia ou da simples imaginação. Se eu digo "existe um ser necessário", estou dizendo "existe na realidade um ser que possui a propriedade de ser necessário" - mas o contexto fica óbvio, de modo que não importa muito ficar escrevendo isso.
Vou dar um outro exemplo: "Existe um cavalo alado". Essa proposição é verdadeira ou falsa? A resposta depende do contexto: se eu estou falando da realidade, provavelmente é falsa; agora, se o contexto for "a mitologia grega", então ela é verdadeira, pois Pégaso é um cavalo alado.
2) A negação de "O carro subiu a montanha" não é "Um carro não subiu a montanha". Nós podemos usar "O carro" para significar duas coisas: "O carro" representa carros em geral; ou "O carro" se diz de um carro específico, por exemplo, o meu carro. No primeiro caso, quando dizemos "O carro subiu a montanha", no fundo queremos dizer que "existe um carro que subiu a montanha", do mesmo modo que quando dizemos "O homem foi à Lua", queremos dizer que "existe um homem que foi à Lua". A negação, portanto, é "nenhum carro subiu a montanha" ou "todos os carros não subiram a montanha" (o que dá na mesma).
No segundo caso, a negação de "O carro subiu a montanha" é "O carro não subiu a montanha". Só isso.
2.1) É importante notar o uso daquele "dá na mesma" que eu usei logo acima. Eu posso expressar a negação de uma proposição (mesmo formalmente) de diversos modos. Em particular, toda proposição existencial tem essa propriedade. Se eu digo Ex
Eu reafirmo o ponto principal da minha argumentação: negação tem a ver com a inversão do valor verdade de uma proposição, não com o seu significado. Bem, pelo menos é assim em lógica clássica. Como eu disse, a teoria do Olavo parece exigir toda a reformulação da lógica com base não nos valores-verdade das proposições, mas sobre o sentido delas.
Eu gostaria que você me explicasse melhor esta sua opinião segundo a qual “a lógica simbólica não se aplica nesta discussão”, porque “o ser necessário é um termo metafísico, que se diz de forma análoga, e não um ente imanente que se diz de forma unívoca”.
Não é minha "opinião". Vc conhece algum metafísico que afirma o contrário? Ou que utiliza a lógica simbólica para "fazer" metafisica?
O "Ser" se diz de forma análoga. Esse é um pressuposto básico da Filosofia Primeira. O "Ser" é um termo técnico da Filosofia, significa "A Existência".
A Lógica Simbólica não lida com "A Existencia", mas com os entes existentes. Ou seja, é um instrumental para as filosofias segundas.
O Ser Nescessário não faz parte do mundo imanente, não é um ser (ente) que pode ser colocado do lado de outros seres (entes). Portanto, não faz sentido simboliza-lo do lado de outros entes.
Sendo ciência dos princípios, a metafísica reflete os princípios sobre os quais existem os entes empíricos e formais. Ou seja, tanto a natureza, quanto a própria lógica.
Por exemplo, eu afirmo "a lógica simbólica existe". O que significa dizer que ela existe? Ela existe da mesma forma que o saci (ser folclórico) existe? Da mesma forma que uma cadeira (ser empírico) existe? Da mesma forma que a matemática (ser formal) existe?
Vc vai utilizar a própria lógica simbólica para responder a esta pergunta? Existe pelo menos um x tal que x seja Lógica Simbólica e x existe não como mesa, etc...?
Para responder a essa pergunta (como é possível a existência da lógica e qual o seu estatuto ontológico) nós usamos a metafísica. Usando a metafisca, chegamos a conclusão de que existe um Ser Nescessário, sem o qual a lógica não existiria.
O que Olavo propõe está exatamente no início do tópico, num trecho selecionado por mim da apostila dele 'Kant e o Primado do Problema Crítico'.
Disse que não sabia sobre o pensamento do Olavo a respeito do tema pois é difícil concluir muito a partir de um trecho.
Gabriel, se o seu argumento fosse válido invalidaria tanto a minha objeção quanto a teoria de Olavo. Na verdade, eu sairia ganhando no balanço geral, pois a razão de ser de uma objeção é refutar a teoria que a ela se contrapõe. E se a sua objeção derruba a minha, mas também leva consigo a teoria que eu pretendia derrubar - embora o faça por um raciocínio distinto - como bom cavalheiro, minha obrigação será agradecer-lhe humildemente.
Eu não tenho o objetivo de derrubar nenhuma teoria. Nem a do Olavo e nem a sua. Postei aqui com dois objetivos:
a) o principal: a lógica simbólica não é adequada para este tipo de discussão;
b) o problema das contraditórias e das contrárias.
Relendo seus argumentos e suas menssagens novas, parece-me que cometi um erro no ponto b. Vou fazer uma pausa para reflexão, depois eu respondo dizendo se de fato errei ou se estava certo.
Quanto ao seu argumento final de que “teríamos uma cadeia infinita remontando ao passado e apontando para o futuro”, devo lhe lembrar uma conquista da ciência moderna, a constatação de que existem no mundo quântico eventos sem causa. Acerca de tais eventos, as leis da causalidade por você invocadas no intuito de sustentar o argumento aristotélico da Causa Primeira, argumento que nelas tem sua base e justificativa, digo, estas leis, não são aplicáveis neste campo do real.
A palavra "causa" em Aristóteles não possui o mesmo significado da palavra "causa" na ciência moderna e nem na ciência contemporânea. Portanto, são assuntos diferentes usando uma mesma palavra para designar conceitos diferentes.
E nada, realmente nada, nos faz supor que a suposta cadeia infinita não comece e recomece por eventos acausais.
Essa é uma hipótese de São Tomás (creio que a hipótese foi formulada por outra pessoa, mas defendida por S. Tomás). Nada impede que a Causa Primeira "crie" e "recrie" todos os eventos a partir do nada, infinitamente.
Para vc ver como a ciência contemporânea não é tão moderna.
E, principalmente, para perceber como palavras como "causa", "ser (existencia)", etc., são termos com os quais devemos tomar cuidado quando falamos de metafísica.
Outro ponto: você parece dar por suposto a linearidade do tempo, um mito ingênuo que a ciência contemporânea há muito relativizou.
Nem pensei em tempo. Mas se vc quer falar do "Ser Necessário" vai ter que reavaliar o uso deste termo.
Mais uma vez: a Lógica Simbólica, assim como a Fisica Quantica, a Teoria da Relatividade, ou qualquer "filosofia segunda", NÃO, repito NÃO, e mais uma vez, para ficar bem enfatizado, NÃO possui uma linguagem adequada para falar de assuntos de Filosofia Primeira, ou seja, para falar do Ser Nescessário. Para isso, possuimos toda uma linguagem técnica, própria da metafísica.
Metafisicamente falando não existem fatos contingentes. Com exceção dos fatos causados pela ação humana – que é volicional - todos os fatos da realidade são necessários. O erro da dicotomia necessário-contingente é a visão de que a realidade metafísica poderia ser diferente do que ela é, ou seja, que os fatos da realidade, alguns ou todos, são contingentes, não-necessários. Mas cogitar possibilidades alternativas é atentar contra a lei da identidade, é imaginar que as entidades podem agir de maneira diferente à sua natureza. Só que o metafisicamente dado é o que é. Entidades não podem agir de uma outra maneira que não as determinadas por suas identidades. O metafisicamente dado não só é como teve de ser. Não há alternativa para fatos metafísicos, nem existem acasos. Fatos metafísicos não podem ser diferentes do que são. Metafisicamente, ser é ser necessário.
Num sentido mais básico (e com maior relação ao argumento ontológico apresentado) o erro é imaginar que se não fosse um motivo necessário – um criador – haveria não-existência (nada) ao invés de existência. E assim supor que a realidade é o que é pela vontade desse criador, e que este não só poderia a ter feito diferente, como também teria o poder de mudar os fatos da realidade à sua vontade – anulando as leis da identidade e da causalidade (metafísica dos milagres). Nesta perspectiva, apenas o próprio criador é necessário e tudo o mais é contingente. Mas todo fato metafísico é necessário. A afirmação de que existe um ser necessário em especial, do qual depende toda existência, é arbitrária. Nada antecede a existência, nem há alternativas a ela (e nem responsáveis por ela). Tão pouco é fruto do acaso. Ela é determinada pelas leis da identidade e da causalidade.
A realidade metafísica sempre é necessária. Apenas os fatos causados pela ação humana não são necessários. Devido à sua natureza volicional, fatos feitos pelo homem são os únicos que acontecem de ser, eles nunca tinham de ser. Eles não precisam ser o que são. Sempre poderiam ter sido diferentes. Porém, uma vez que tais fatos são consumados não podem ser negados. Eles passam a fazer parte da realidade e devem ser tratados como tal, ou seja, como reais, verdadeiros (mas passíveis de julgamento moral).
O argumento ontológico apresentado foi formulado com base na falácia da dicotomia contingente-necessário, portanto é falso e não há motivos para mais considerações. No mais, a distinção entre necessário e contingente é fruto de um erro metafísico. A distinção necessária é entre o que é metafisicamente dado e o que é causado pelo homem.
Não concordo com vc. Se um cavalo olha para a esquerda ou para a direita, isso é puramente contingente. Um cavalo não pode sair voando, é impossível. Para viver, ele tem que comer. Isso é nescessário. E é propvavel que ele descanse depois de correr.
Assim temos necessário, impossível, contingente e provável.
O mundo poderia não existir? Poderia. O mundo é contingente. Um Ser que causa o mundo poderia não existir tendo em vista que o mundo existe? Não. Se o mundo existe, o ser que causa o mundo nescessariamente existe.
Não só conheço Russel e Wittgenstein, como minha pós graduação foi em Wittgenstein. Nenhum dos dois era metafísico. A filosofia analítica não trabalha com metafísica, muito pelo contrário, ela a despreza.
E a lógica simbólica não se aplica ao estudo da metafísica.
Se digo 2 coelhos + 2 coelhos = 5 coelhos
Ou 2 coelhos + 2 coelhos = 4 coelhos
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Pela matematica vejo que a primeira frase está errada e que a segunda está correta. Mas isso nada diz a respeito do coelho, o que é assunto para biologia.
Da mesma forma, a lógica pode detectar um raciocínio errado, mas nada diz acerca dos entes metafísicos.
Animais não possuem livre-arbítrio. A consciência dos animais é muito inferior à consciência humana. Um animal reage ao que ele percebe de uma maneira determinada por seus instintos, ele não pode agir de outra maneira que não essa. Seja qual for a ação tomada, ela não foi fruto de uma liberdade de escolha, nem poderá violar a natureza (identidade) do ser envolvido. Portanto um cavalo não pode voar, assim como uma égua não pode parir um bezerro. Tão pouco um cavalo pode escolher não comer se estiver com fome. Ele não tem liberdade de escolha. Ele não possui livre-arbítrio.
Sem novas distinções
Necessário é o que existe na natureza - é o metafisicamente dado - ao contrário de fatos causados pelo homem, frutos da livre volição humana. Estes não são necessários, não tinham de ser, mas também não são frutos do acaso, pois volição é um tipo de causa. Impossível é o que vai de encontro à lei da identidade: A não é A (como cavalos anoréxicos ou cães que miam). Provável, por si só, não tem significação metafísica. Se um animal come quando está com fome ou procura descansar quando está cansado, não se trata de probabilidade ou de algo que se espera acontecer sem um motivo que justifique a esperança, trata-se de causalidade, que é a lei da identidade aplicada à ação. Os conceitos de provável ou esperado não têm significado sem identidade e causalidade. Aquilo que pode acontecer dependerá da natureza das entidades envolvidas. Nada poderemos saber sobre o que pode acontecer se antes disso nada soubermos da realidade e das leis que a governam.
A dicotomia necessário-contingente só é boa para causar confusão. As distinções impossível e provável (esperado) apresentadas são conseqüentes das leis da identidade e causalidade, que por sua vez já abolem a dicotomia necessário-contingente e determinam a necessidade da existência ser o que ela é. Tudo o que se dá metafisicamente, o metafisicamente dado, a natureza como tal, se dá pela lei fundamental da metafísica – a lei da identidade – e é necessário. Necessidade, em sentido metafísico, é redundante, está subentendida. Ser é ser necessário. Existir é existir necessariamente. Do contrário, é querer reescrever a realidade. Mas não se discute com a realidade, nem se argumenta contra os fatos. A é A.
Realidades Alternativas
O mundo não só tinha de existir, como tinha de existir como ele é. Defender realidades alternativas, defender que a natureza poderia ser diferente, é afirmar que as ações das entidades não precisam ter relação com suas identidades. Ou seja, que não existe causalidade e, portanto, qualquer coisa é possível a qualquer entidade. Mas as entidades agem de acordo com as suas identidades, e por isso não existem outros mundos possíveis. Nem este é, por escolha divina, “o melhor dentre os mundos possíveis”. Apenas: este é o mundo. E nenhum ser o causa.
Quanto à sua pergunta, ela é claramente inválida, pois toma como verdadeiro que “um ser causa o mundo”, que é a conclusão a qual se pretendia chegar, tornando o argumento circular. Escrevendo a mesma pergunta de outra forma: “O mundo pode existir e o ser que o causa não?”. Qualquer um que ouse respondê-la está concordando que um ser causa o mundo. Mas a existência é primária, nada a antecede. Ela é incriada e eterna. Buscar motivos para a existência é fruto de um determinado erro metafísico.
Primazia da Consciência
Existência é o fator metafísico primário. Consciência, apesar de também ser axiomática, é secundária. Consciência é a faculdade de perceber o que existe. Não poderia haver consciência sem existência. Nenhuma consciência cria existência. Tão pouco alguma consciência pode modificar a realidade. A realidade - aquilo que existe - não está sujeita aos desejos de quem quer que seja. A existência é aquilo que há; é primária. E a função da consciência é ser sua observadora. Portanto, a existência tem primazia sobre a consciência. Invertendo o que foi escrito temos a falácia da primazia da consciência, que defende consciência como o fator metafísico primário, sem a qual não haveria existência. É inegável que algo existe e sempre existiu. O erro é não aceitar que esse algo é o próprio mundo, ou seja, abandonar o que se sabe existir, em favor de uma consciência sobrenatural que o tenha criado por meios inexplicáveis. Não há motivos lógicos para isso. E uma metafísica sobrenatural leva a misticismo em epistemologia.