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Longa Resposta a um Futuro Doutor

Iniciado por ricardo_15 em 03/08/2007 · 29 mensagens

ricardo_15#1
“um nada que faz um doutorado numa universidade canadense, que têm formação em ciências e que leu pra caramba sobre todos estes assuntos...”

“Talvez esteja acontecendo com alguns membros desta comunidade o que aconteceu com um grupo de estudos do qual participava: quando levei este tipo de questionamento para discutir, isto afetou de tal modo a segurança emocional das pessoas que me vi obrigado a parar.”

“Pedi que mostrassem onde eu estava sendo simplista, mas não vi um só argumento.”

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Encontrei estas interessantes declarações de um certo senhor quem, não muito satisfeito com o conselho que lhe dera, conselho segundo o qual ele deveria se abster de opinar antes de se dedicar a um estudo sério dos assuntos sobre os quais avidamente dava seus palpites, me desafiava a provar onde estavam os erros e os simplismos que, em minha inexcedível arrogância, eu lhe havia censurado. Estas censuras, muito polidas apesar da franqueza, encontram-se no tópico René Guénon e a Invasão Islâmica e podem ser conferidas pelos demais membros da comunidade se assim for o caso.

Incomodou-lhe, sobretudo, a última frase da censura “Não há acordo entre o Conhecimento e a ignorância absoluta”. Com esta frase procurei assinalar sua leviandade em opinar num assunto de extrema complexidade desprovido totalmente dos conhecimentos elementares sobre tal assunto. Mas – ó surpresa! – o senhor estava se doutorando no Canadá. Sim, senhores, no Canadá! E havia lido “pra caramba” “sobre todos estes assuntos”. Temia também este senhor, em sua grande misericórdia de futuro doutor no Canadá, abalar emocionalmente os demais membros da comunidade como já havia acontecido no passado em outros ambientes.

Sendo, porém, a frase malsã mais velha do que todos nós e, aliás, tendo sido proclamada em outra forma pelo próprio Aristóteles, não pensei que com ela fosse provocar alguma contrariedade. (continua)
ricardo_15#2
E não me ocorreu estar me dirigindo a alguém que havia feito críticas realmente sérias a Guénon, diante das quais seus admiradores chorariam escondidos por suas confortáveis almofadas persas caso eles esquecessem um pouco a tal da “metafísica pura” – um negócio que, como todo mundo sabe, só o Guénon conhecia.

Dito isso, passemos agora aos profundos argumentos do futuro doutor:

Primeiro profundo argumento

“Dizer que a civilização ocidental acabou é realmente interessante: acabou quando? Como? Ou vai acabar porque pseudo-intelectuais se venderam pro Islã e não foram capazes de perceber a força e a vitalidade de uma cultura que é capaz de se refazer continuamente!” (texto de César)

Como se pode ver, há nesta frase uma crítica muito civilizada e educada do nosso doutor a René Guénon e aos demais tradicionalistas que se converteram ao Islam. Isto prova a superior delicadeza do homem que fica facilmente ofendido quando alguém comete a imperdoável grosseria de mandá-lo estudar antes de opinar.

Presumindo que um indivíduo se venda para ganhar algum bem material, sendo muito difícil, portanto, sustentar a tese de que um homem possa se vender e ao mesmo tempo nada receber da venda, parece-me bastante fácil provar a veracidade desta afirmação. Basta mostrar o jabaculê (na gíria árabe correspondente) e fica então provada a má fé de René Guénon e dos seus. Mas como fazê-lo? Solução: estudando a biografia do homem. Se ele teve uma vida opulenta sustentada por organizações islâmicas então o argumento do doutor ganha uma certa consistência. Vejamos se assim foi.

Como é público e notório, René Guénon viajou para o Cairo em 1930 no intuito de procurar e traduzir alguns manuscritos sufis por sugestão de sua amiga Marie W. Shilhilto. Lá morou por uns tempos num hotel, depois na casa do sogro, até por fim encontrar uma casinha na rua Newall, na parte oeste do Cairo. Era uma casa bonita, embora modesta, com um pequeno jardim na frente. Chamou-a de Vila Fátima, em homenagem a sua esposa. (continua)
ricardo_15#3
Teve seus filhos e viveu no Cairo até sua morte de um modo extremamente discreto e fiel à simplicidade oriental como é relatado por todos aqueles que visitaram o Sheikh Adbel Wahed-Yahia em seu lar no Egito.

Mas não é só esta a crítica educada que o nosso futuro doutor dirige aos tradicionalistas islamizados. Eles são também pseudo-intelectuais, segundo a opinião do César Souza. Vejamos o que diz o próprio Olavo de Carvalho (talvez um pseudo-intelectual também) sobre eles:

“Guénon foi sem dúvida um sábio e tenho pelos seus ensinamentos um profundo respeito”

Sobre Frithjof Schuon “Homem espiritual de primeiro plano”

Sobre S.H. Nars “É um homem por quem tenho o máximo respeito”.

Mas não foi somente Olavo quem expressou a mesma admiração por estes autores. Vários importantes intelectuais o fizeram. Inclusive, um certo T.S.Eliot fez o mesmo quando disse encontrar no famoso livro de F.Schuon, A Unidade Transcendental das Religiões, nada mais nada menos que o maior livro jamais escrito sobre as religiões. Mas isto não conta, é claro. Afinal, como todo mundo sabe, T.S.Eliot é na verdade o pseudônimo do Sheikh Ahmed Al-Jili, pseudointelectual semi-analfabeto vendido ao Islam em troca de alguns quilos de chá turco.

Segundo profundo argumento

“Faz trezentos anos que estes "sábios" fazem previsões de que o ocidente vai acabar ou de que ele já acabou..e todos oferecem o remédio...normalmente vendem a preços módicos....acho que está na hora de começarmos a valorizar mais o que temos..ou alguém aqui prefere viver no Ira ou na China...! Eu adoro o ocidente, com tudo que ele têm de bom e de mal! (obs: a falta de acentos deve-se ao teclado... ainda não configurado)” (texto de César)

Meu senhor, as pessoas que fazem críticas ao Ocidente moderno não estão de fato muito interessadas em suas preferências sendo, portanto, a expressão delas algo que simplesmente não se enquadra num argumento. Desabafos são apropriados no divã do psicanalista e não no meio de um debate sério.

(continua)
ricardo_15#4
Ademais, não é exato que os tradicionalistas digam que o Ocidente acabou. Ele não acabou. Ele está bem aí, debaixo dos seus pés e dentro da sua cabeça. O que os tradicionalistas dizem é que a unidade do Ocidente moderno é negativa; não há genuína unidade civilizacional no Ocidente moderno, pois a doutrina responsável por tal unidade perdeu força e vai pouco a pouco cedendo a toda sorte de modismos culturais que em sua ação entrópica e desestruturante, terminam por fazer do Ocidente, outrora em tantos pontos semelhante às civilizações tradicionais, sua caricatura e autonegação. De qualquer maneira, as críticas tradicionalistas ao Ocidente moderno não resultam de qualquer “imperialismo cultural”, do simples desejo de sobrepor-se a outra cultura, tal como o Ocidente freqüentemente revelou em relação aos países orientais.

Se hoje o Oriente padece de algumas das moléstias desse Ocidente desestruturado, certamente não haveríamos de por inteiramente a culpa no Ocidente. Mas é certo que o Ocidente, com sua habitual postura invasiva e presunçosa, contribuiu grandemente para a diluição das doutrinas orientais e, em alguns casos, fez mais do que simplesmente contribuir: idéias ocidentais penetraram profundamente o Oriente e fizeram lá um estrago inimaginável como se vê no exemplo do socialismo chinês e da Revolução Cultural de Mao Tse-Tung.

A dita “revolução islâmica” é um acontecimento de extrema complexidade. Entendê-la no quadro maior das relações de Oriente-Ocidente esboçadas por René Guénon e outros é um assunto muito complicado. Por isso mesmo, qualquer opinião a respeito deve ser cuidadosa, fruto de longos e pormenorizados estudos. Sem estes estudos só contribuiremos para o aumento da confusão e da perplexidade e assim estaremos servindo, inocentemente ou não, ao grande inimigo do Oriente e do Ocidente: a incompreensão mútua.

Terceiro Profundo Argumento

(continua)
ricardo_15#5
“atente para o fato de que a visão de "progresso" ocidental faz parte de um período no qual descobrimos nossa capacidade de fazer ciência e controlar o mundo natural e social...acontece que desde a década de sessenta ou pouco antes os próprios intelectuais ocidentais vem fazendo a crítica do absolutismo científico. Mas quando foi que o oriente, a China e os islâmicos fizeram autocrítica? E repito de forma mais clara: se Guénon, com toda sua sagesse se converteu ao islam, é porque ele não entendeu nada da civilização ocidental e do cristianismo. O ocidente é progressista sim, mas o progresso têm um preço é claro...o ocidente é liberal, é aberto ao mundo , aceita dialogar, nossas universidades estão abertas...perfeição?” (texto de César)

Guénon jamais contestou o alcance técnico das ciências ocidentais. Apenas contestou a sua importância na hierarquia de valores de uma civilização. Não me cabe resumir aqui a crítica do mestre, mas vou repetir que já lhe falei: suas observações não tocam no assunto. Não é esse o ponto.

Quanto à autocrítica islâmica e chinesa que o senhor parece exigir, devo lhe dizer que ela sempre existiu. Todas as civilizações tradicionais têm autocrítica, pelo simples fato de que segundo todas as tradições estamos numa fase adiantada de decadência e afastamento da espiritualidade primordial. Evidentemente, este afastamento implica em autocríticas sucessivas e severas dentro destas civilizações, geralmente levadas a cabo por profetas e sábios.

Entretanto, há uma diferença profunda entre a autocrítica da civilização moderna e a autocrítica das civilizações tradicionais. Nestas últimas, toda crítica legítima tem por objetivo um retorno às fontes da sua própria espiritualidade. E é precisamente isto que os ocidentais não aceitam, pois acreditam que um verdadeiro ponto de vista crítico seja aquele que tem por função questionar a Tradição e à hierarquia das civilizações tradicionais. Para um oriental legítimo, isto é absurdo. (continua)
ricardo_15#6
Ele jamais se dedicaria a esta crítica destrutiva, pois a Tradição é a régua das suas ações e dos seus pensamentos e fora dela só há loucura e “sabedoria segundo a carne” para usar uma velha expressão cristã.

Não diga tolices, César. Guénon converteu-se ao Islam porque o Islam oferecia a ele uma tradição completa, do ponto de vista exotérico e esotérico. Como ele não aceitava o valor iniciático dos ritos cristãos (ponto que mais tarde foi contestado por Schuon e Rama Coomaraswamy, talvez acertadamente) e como o hinduísmo ortodoxo faça severas restrições à “conversão” de não-hindus, então lhe pareceu mais adequado converter-se ao Islam. Note, por favor, que nisto não vai a menor intenção de depreciar as outras tradições, intenção que seria de fato impossível pelo próprio núcleo da doutrina guénoniana que afirma a unidade metafísica subjacente a todas as verdadeiras tradições, entre as quais a tradição cristã. (continua)
ricardo_15#7
Quarto Profundo Argumento

"vamos analisar aqui estas pseudo-verdades usando a "metafísica pura", usando a sabedoria "ancestral", usando ...sempre um conhecimento que só ele possui e nunca, jamais é submetido ao crivo da discussão pública e acadêmica!" (texto de César)

Confesso que este profundo argumento me causou boas risadas aqui em casa. Somente Guénon possuía este conhecimento. Talvez por isso ele insistisse tanto na vinculação tradicional (silsilah), supondo naturalmente que toda a tradição esotérica islâmica, taoísta, hindu, budista, etc, não tivesse nada de metafísica pura.

Depois desta brilhante asserção não posso deixar de ficar aliviado com o fato de que René Guénon nunca foi tema predileto de dissertações acadêmicas. A julgar pelo modo como o nosso futuro doutor lê Guénon, isto seria uma catástrofe comparável a Queda de Atlântida.

De qualquer modo, nada impede à classe acadêmica de se interessar por Guénon e estudá-lo. Suas obras estão aí ao acesso do público.

Por outro lado, é muito difícil fazer uma “crítica” da metafísica pura, de vez que a metafísica pura não se confunde com os signos lingüísticos nos quais a expressamos (simbolicamente), mas antes se serve das palavras como escadas para uma realidade “para além das formas”. A metafísica pura é um conhecimento direto e intuitivo. Não sei como fazer uma crítica a este conhecimento. Ou bem fazemos uma crítica à expressão verbal do conhecimento, ou negamos a existência deste conhecimento. Tertium non datur.

Ora, um homem que passa anos da sua vida mergulhado em profundos exercícios ascéticos e depois disso diz ter obtido um conhecimento transcendental dificilmente vai perder seu tempo e sua paciência tentando convencer as pessoas que ele de fato sabe o que diz saber. É muito mais razoável ele ficar no canto dele e transmitir esta sabedoria a quem se mostrar receptivo e interessado. (continua)
ricardo_15#8
Sempre foi isso o que aconteceu com todos os grandes mestres espirituais – do Oriente e do Ocidente – e é o que vai continuar acontecendo, gostem os acadêmicos ou não. Se eles não estão dispostos a dedicarem-se à via espiritual que abre possibilidades para este conhecimento, paciência. O problema é deles.

Quinto Profundo Argumento

“Se dizem que o ocidente morreu, e o cristianismo é pedra fundamental do ocidente, isto quer dizer que o cristianismo morreu(nao tem mais vitalidade espiritual para alimentar as pessoas)” (texto de César)

Guénon jamais disse que o cristianismo morreu. Isto é ridículo. Ao contrário. Ele disse que o único refúgio do Ocidente ainda era a Igreja Católica, por ser a instituição tradicional legítima do Ocidente.

Quanto à perda de vitalidade do cristianismo, é uma coisa tão óbvia que não vejo como alguém possa contestar. Olhe para as missas, olhe para o papel social da religião (uma espécie de confortozinho moral bastante edulcorado), olhe para decadência do pensamento cristão (uma decadência visível, apesar de contrabalançada por alguns grandes pensadores), olhe para a delicadeza, o quase temor com que autoridades religiosas se prosternam diante de seus adversários. Se isto não é perda de vitalidade, então você precisa redefinir o que é “perda” e “vitalidade”.

O objetivo de Guénon nunca foi destruir o cristianismo, mas sim formar uma intelectualidade ocidental igualmente versada nas doutrinas orientais capaz de (pelo acordo no plano dos Princípios) restaurar a própria tradição ocidental dentro da mentalidade específica do homem ocidental de outros tempos. O conhecimento das doutrinas orientais serviria para que o homem ocidental abrisse os olhos para a perda imensa de vitalidade da sua tradição e buscasse restaurá-la.

Finalmente, devo lhe dizer que suas colocações sobre o espiritismo não vão ser discutidas por mim. Já li alguns textos espíritas e, de um modo geral, acho as críticas de Guénon muito bem fundamentadas. (continua)
ricardo_15#9
No entanto, não sou um estudioso do espiritismo. E se eu critiquei sua impertinência de se meter num assunto sem saber do que estava falando não iria incorrer no mesmo erro.

Até mais.

P.S. Não sendo em si mesmo figura das mais relevantes, César Souza serve ao menos como exemplo da espécie de “intelectual” que mais cresce no mundo de hoje: a espécie dos palpiteiros ignorantes. Combater essa mentalidade é um imperativo categórico. Somente este imperativo ético me motivou a escrever uma resposta tão longa a alguém que, em circunstâncias normais, deveria ser somente respondido com o mais absoluto silêncio. Infelizmente, esta espécie de intelectuais contribui, por suas opiniões e juízos simplistas - com a insolência que sempre lhes acompanha - a semear a confusão e entediar pessoas que se vêem obrigadas a responder minuciosamente aos seus absurdos. E caso elas, já sabendo o tédio que lhes aguarda, se abstenham de fazê-lo e o censurem por sua ignorância serão então desafiados pelo palpiteiro a provar que ele não sabe o que de fato jamais soube. Em suma, é uma tragicomédia.

C´est fini
ricardo_15#10
Ainda é preciso dizer que eu não sou e nem jamais seria um partidário dogmático das opiniões de René Guénon, malgrado o muito que lhe devo no plano intelectual. Existem muitos indivíduos inteligentes, estudiosos que trazem uma visão do Ocidente absolutamente negativa, visão cujas bases são as que Guénon lhe deu nos seus famosos livros de crítica à civilização ocidental. Sempre me esforcei no sentido de dialogar com tais homens querendo estabelecer pontes entre Oriente e Ocidente, pois não recuso de todo as glórias do Ocidente moderno, suas contribuições inegáveis, alguns de seus valores consubstanciados em leis, ciências e teorias filosóficas. Por isso me incomoda profundamente o tipo de "intelectual" que é o senhor César Souza. Suas opiniões, individualmente pouco influentes, quando em conjunto com outros iguais a ele só fazem dificultar ainda mais a compreensão entre Ocidente e Oriente, justificando até certo ponto o desprezo que alguns tradicionalistas de estrita observância manifestam em relação a tudo o que pertence à modernidade ocidental.
ricardo_15#11
A propósito, já lhe adianto um pouco o trabalho de refutação da minha resposta que carece de argumentos e é feita de colocações vazias (ao contrário das suas observações sobre Guénon, muito bem argumentadas e cheias de colocações pertinentes). De fato, eu cometi um erro monstruoso na minha resposta. Errei seu nome! Perdão, César. De agora em diante, César Santos, não Souza. Então para ir me acostumando: até mais, César Santos! Saudações e uma vênia profunda diante de ti (para atestar meu cavalheirismo, claro).
inocncio#12
um nada que faz um doutorado

Como eu não tenho paciência para gastar meu tempo com coisas inúteis, apenas vou pegar o começo da sua frase.
Você diz que o outro é um "nada". Subentende-se que você seja alguma coisa, e ele nada. Então você é uma referência de existência contida em si mesma. Eu gostaria de ver uma prova de que você é.
Se você me der uma prova de que você é, e ele não, eu calo a minha boca e dou o assunto por encerrado.
ricardo_15#13
Toth,

Não entendi uma linha sua. Você está brincando ou eu de fato deveria ler o que você escreveu ao pé da letra? Realmente não sei (não vai nessa frase nenhum tom de ironia, por favor).

De qualquer maneira, a frase é de César referindo-se a ele mesmo. Este senhor sentiu-se ofendido com a minha censura no tópico a sua ignorância completa do assunto (reiterada depois pelo Luis, pelo Grimaldo, etc.). Aí resolveu falar que ele era um "nada" (numa modéstia irônica, obviamente), mas um nada que estava fazendo doutorado no Canadá, que havia lido "pra caramba" "sobre todos estes assuntos", que não era um palpiteiro, etc.

Maria,

Não há problema nenhum em fazer doutorado. Mas a ironia se justifica, sim. Sugiro a você que leia o tópico René Guénon e a Invasão Islâmica. Ok?
pedro_17#14
podem consultar nosso amigo Pedro...e espero que nao tenha sido Alexandre VI o autor desta bula que ele consulta tanto

O que o cu tem a ver com as calças? Onde entra Alexandre VI no fato de você ser um herege excomungado aos olhos da Igreja Católica? O anátema ao espiritismo é intrínseco ao ser cristão, ao ser católico, renega dogmas fundamentais da Fé, até nas outras igrejas apostólicas; bizantina, copta, armênia, etc, você seria posto a ponta-pés ao defender as barbaridades espíritas, que por sinal, em nada nos abala emocionalmente, são tão fracas quanto toda essa besteirada que diz ser sua argumentação!
pedro_17#15
Recebi uma mensagem psicografada de uma certa entidade chamada Giuliano, que na vida passada foi a encarnação de Luís XIV e Catarina da Rússia:

Caro Sr.Dr. César,

Esperei sua refutação fulminante horas a fio olhando para a tela inexorável desse computador etéreo, aqui no mundo espiritual, nesses vários dias tensos, quase não pude dormir (sim, dormimos eventualmente), e cheguei a acreditar que o Sr.Dr. viria trazer-nos valiosas contribuições metafísicas e afiadas e demolidoras justificações filosóficas... qual não foi minha decepção ao ver Vossa Senhoria lançando mal articuladas excusas, praticamente balbucios de tremor diante de um eminente perigo de ter violada sua integridade traseira, no sentido figurado, na medida em que seja possível tal sentido no que concerne a um traseiro com instintos conservativos. Sr.Dr. César é com tremores nos meus lábios perispirituais e lágrimas ectoplasmáticas nos olhos que apresento aqui a minha decepção traumática... Que possamos todos superar o episódio e continuar nosso caminho da evolução espiritual. Reencarnar é a Lei.
pedro_17#16
Acha normal alguém ressuscitar em pleno século XXI ameaças de excomunhao?

Eu teria vergonha se fosse você, quem mandou pensar que o nível da comunidade fosse o mesmo dos centros que freqüenta? Excomunhão, como a própria palavra diz, quer dizer "fora da comunhão", ou seja, não existe um real seguimento da Igreja, o que nem preciso explicar em relação ao espiritismo (O número de heresias é longo). Excomunhão sempre existiu e sempre existirá, só porque você pensa que sumiu, não quer dizer de fato passou, isso só prova a sua falta de conhecimento.
inocncio#17
A igreja católica só pode excomungar alguém a ela pertence.
Se não fosse assim eu gostaria de ver a igreja excomungando gente como Karl Marx, Fidel Castro, Frei Betto, Leopoldo Boff e tantos outros freis que ajudaram e ajudam à esquerda a trazer o inimigo para dentro da casa de Deus.
Eu acho que o espiritismo não é tão ofensivo e tão pernicioso à humanidade e ao homem espiritualmente falando como o comunismo que tem um pequeno retrospecto de 100 milhões de mortos no séc XX.
Claro, o comunismo nunca matou ninguém. Nem mesmo esses vermes podem matar alguém que acreditou em Cristo. No final morreram eles e perderam-se e outros se salvaram.
ricardo_15#18
“Para quem o lê como uma autoridade em si mesmo, isto pode bastar, mas para as regras do debate moderno isto não tem a menor chance de passar. Você já viu a quantidade de referências que o professor Olavo cita a cada artigo ou programa TOS? O que acharia se amanha ele começasse a dizer: eu digo a verdade e não interessam minhas referências! Acha que seria levado a sério?” (texto de César)

A recusa de Guénon em apontar suas referências tinha o mais simples dos motivos: ele não tinha referências acadêmicas suficientemente sólidas sobre as quais apoiar suas obras e nem precisava delas, pois seu conhecimento havia sido resultado de um ensinamento tradicional direto. Representantes da Escola de Shankara transmitiram ao jovem Guénon os conhecimentos tradicionais do Vedanta e de outros darshanas e, posteriormente, sua Ordem islâmica e os mestres taoístas através de Matgioi (Albert de Pourvourville) fizeram o mesmo dentro de suas tradições respectivas. Sendo este ensinamento um ensinamento oral não faz mesmo sentido exigir uma referência bibliográfica de tal saber. Isto, porém, não o impedia de referir-se sempre às Escrituras Tradicionais, a textos dos seus comentaristas mais célebres e a alguns estudos acadêmicos que lhe parecessem realmente bons (a maioria das suas “referências acadêmicas” positivas eram aos livros do grande Ananda Coomaraswamy, um scholar indiano que estava plenamente identificado com o espírito oriental). Eis o que René Guénon diz sobre os que o acusavam de “não dar referências” em El Hombre y Su Devenir Según El Vedanta:
ricardo_15#19
“Se estaría tanto menos fundado en reprocharnos esta manera de proceder cuanto que nuestras intenciones no son en modo alguno las de un historiador: tenemos que repetir todavía expresamente, a este propósito, que queremos hacer obra de comprehensión, y no de erudición, y que es la verdad de las ideas lo que nos interesa exclusivamente. Así pues, si hemos juzgado bueno dar aquí referencias precisas, es por motivos que no tienen nada de común con las preocupaciones especiales de los orientalistas; con eso hemos querido mostrar solamente que no inventamos nada, que las ideas que exponemos tienen en efecto una fuente tradicional, y proporcionan al mismo tiempo el medio, a aquellos que sean capaces de ello, de remitirse a los textos en los cuales podrían encontrar indicaciones complementarias, ya que no hay que decir que no tenemos la pretensión de hacer una exposición absolutamente completa, ni siquiera sobre un punto determinado de la doctrina.”

“Porque você, que não conhece tudo do assunto (as perguntas provam que não conhece) pode debater e eu não posso? Não tenho o direito de aprender?” (texto de César)

César, você não se colocou na posição de quem deseja simplesmente aprender. Por favor, sejamos honestos aqui. Você fez críticas num tom bem pouco ameno a uma obra da qual você nada compreende. Veja bem. Quando eu digo que você não conhece nada de Guénon é porque eu li as suas críticas e percebi uma incompreensão tal da matéria que, de fato, minha censura não poderia ser menos severa. Infelizmente, terei de repeti-la: César, você não tem a menor idéia do que está falando. Cada fala sua é um novo absurdo. Não é que você não saiba algo sobre Guénon, mas mesmo este pouco você distorce. Não por malícia, certamente. Mas antes por um vício bem moderno: a pressa. A pressa indecente em criticar antes de compreender devidamente. Já disse e repetirei: não sou um partidário dogmático de Guénon.
ricardo_15#20
Eu mesmo já tive oportunidade de expressar minhas divergências a alguns estudiosos experientes no assunto e nunca me ocorreu pensar numa interdição metafísica a se impor ante as críticas contra Guénon. Entretanto, como já disse, é preciso ter senso das proporções, é preciso se certificar que estamos realmente interpretando de boa vontade o autor e não ciscando falhas e incoerências meramente imaginadas.

Quanto à “metafísica pura”: o que realmente importa é que está faltando ainda uma definição! E volto a ela logo mais! (texto de César)

Na verdade, você não disse exatamente isso. O que você disse é que somente o Guénon conhecia a metafísica pura – o que é um absurdo. Mas nem mesmo reformulando sua idéia você acerta, pois Guénon para seu azar “definiu” a metafísica várias vezes. Por exemplo, ele a define logo no início da conferência A Metafísica Oriental. Vejamos o que ele diz:

“Pienso que lo mejor que se puede hacer, para las palabras que pueden dar lugar a equívoco, es restituirles tanto como sea posible su significación primitiva y etimológica. Ahora bien, según su composición, esta palabra «metafísica» significa literalmente «más allá de la física», tomando «física» en la acepción que este término tenía siempre para los Antiguos, la de «ciencia de la naturaleza» en toda su generalidad. La física es el estudio de todo lo que pertenece al dominio de la naturaleza; lo que concierne a la metafísica, es lo que está más allá de la naturaleza.” (Guénon)
ricardo_15#21
Deve-se observar, porém, que toda “definição” da metafísica é sempre aproximativa e alusiva. Serve antes para nos apontar para uma realidade que, sendo absolutamente incondicionada e ilimitada, não pode ser encerrada em nenhum conceito tal como a filosofia pode. Querer exigir de Guénon mais do que é possível pela própria natureza da metafísica é realmente ‘pedir demais’. Ele fez o que era possível fazer. Caracterizou e explicou o que era metafísica. Teve ainda o bom senso de afastar as muitas concepções errôneas sobre ela. Enfim, não sei outro procedimento melhor para esclarecer uma realidade como a metafísica. Diz Guénon na mesma conferência:

“Ahora bien, ¿se puede definir la metafísica tal como la entendemos? No, ya que definir es siempre limitar, y aquello de lo que se trata es, en sí mismo, verdadera y absolutamente ilimitado, y por consiguiente no podría dejarse encerrar en ninguna fórmula ni en ningún sistema. Se puede caracterizar la metafísica de una cierta manera, diciendo por ejemplo que es el conocimiento de los principios universales; pero eso no es una definición hablando propiamente, y, por lo demás, eso no puede dar de ella más que una idea bastante vaga.” (Guénon)

Como se pode ver, a metafísica pura, por sua própria natureza estando mais além de toda conceituação possível, não pode ser propriamente definida, mas dentro do que é possível fazer, o metafísico deve caracterizá-la. E exatamente isso fez Guénon.
ricardo_15#22
“Meu caro, quando foi que ataquei a pessoa de Guénon? Não posso fazê-lo, pois não conheço o que ia no seu coração...se teve intenções puras e nobres, é isto que conta diante de Deus...e se ele chama Deus de Alá, tenho certeza que Deus não dirá: excomungado!!! Aliás, foram estas suas duas últimas palavras : Alah, Alah!, antes de deixar este mundo!
A questão do vender-se:
Quando digo que vendeu-se ao islã, uso a expressão “vender-se “ em sentido não literal. Explico, pois você parece não entender metáforas. O sentido deve ser preservado: “atenha-se ao espírito”.” (texto de César)

“Que ele possa ter sido um santo homem ( e tenho certeza que foi), não é esta a questão aqui.” (texto de César)

Você diz que empregou o termo vender-se num sentido não-literal. Bem, qualquer que seja este sentido obscuro não creio que ele seja muito elogioso. Nós não dizemos, por exemplo, que um físico vendeu-se à teoria da relatividade quando ele começa a defendê-la. Tampouco diríamos que Olavo de Carvalho “vendeu-se” à direita se não quiséssemos apontar algo de desabonador, de sujo, de imoral no direitismo do homem. Daí minha interpretação e a insistência em falar alguma coisa sobre a vida exemplar de Guénon.

Logo adiante, porém, você diz que com certeza Guénon foi um santo homem. Como assim? Ou ele se vendeu ou ele é santo. Desconheço santos vendidos ou coisa parecida.

Você, naturalmente, poderá objetar que sua referência aos pseudo-intelectuais vendidos não fazia referência a Guénon. Mas isto seria estranho conforme o contexto. Vamos refazer o contexto.
ricardo_15#23
Eu coloco umas perguntas sobre René Guénon e a Invasão islâmica no tópico e peço a opinião dos membros. Então alguns deles se manifestam antes de você. De repente, me aparece você dizendo que o grande problema da civilização são os pseudo-intelectuais vendidos ao Islam. Depois você continua criticando a obra de Guénon. Daí eu concluo que a sua menção aos pseudo-intelectuais refere-se ao Guénon, embora não somente a ele, é claro, mas aos demais tradicionalistas islamizados também, e, decerto a mais outros tantos convertidos ao Islam. Será que é tão absurdo assim concluir que você... atacou Guénon? E que agora você se contradiz ao chamá-lo de santo homem?

Mas, se você realmente mudou de opinião, aí tudo bem. As pessoas mudam de opinião. É natural, veja só. Mas elas devem dizer: “olha, eu mudei de opinião. Você estava certo. Eu errei aqui, ó”. Mas que coisa! Você me acusa de ter lido mal suas mensagens, como se você desde o início estivesse numa suavidade búdica apenas colocando divergências teóricas e se abstendo cuidadosamente de atacar o homem... Novamente, isto me parece de uma hilaridade singular, porque eu vi que todas as pessoas leram como eu, todas julgaram que você estivesse atacando o Guénon, e não apenas apresentando, polidamente, umas divergências teoréticas... Como você explica esta extravagante coincidência, César? Uma epidemia de dislexia entre os membros desta comunidade?

“O que você/eles chama(m) de unidade negativa não pode ser visto como rica pluralidade? O “conceito” de unidade negativa está definido? Ou trata-se de mais um conceito usado pra julgar nossa civilização, mas desprovido de substância? Outro que Guénon não deu as referências!
O fato de não haver genuína unidade civilizacional no ocidente (discordo disto também, pois a ausência de unidade é já uma característica unificadora) implica que devamos aceitar uma unidade estrangeira?” (texto de César)
ricardo_15#24
Seu parágrafo é totalmente contrasensual. Primeiro, você sugere que a unidade negativa seja vista como rica pluralidade. Bem, é claro que se pode ver assim. Mas Guénon não via. Eu apenas expliquei as críticas tradicionalistas ao Ocidente que você distorcia quando falava na “morte” do Ocidente. Ora, nenhum tradicionalista disse que o Ocidente morreu. O que eles falam é outra coisa. Eu apenas recuperei a crítica dos tradicionalistas distorcida por você. That’s all. Eu não vou dissertar sobre os motivos pelos quais eu discordo da sua posição porque isso me levaria para muito longe da intenção originária quando eu mencionei a controversa unidade negativa. Apenas digo que esta é uma diferença de pontos de vista e como tal sempre se apóia em vários motivos para ambas as partes.

De qualquer modo, depois você me diz que discorda da minha observação segundo a qual não existiria unidade genuína de civilização no Ocidente moderno, “pois a ausência da unidade é já uma característica unificadora”. Hã? Será que você não percebeu que é justamente isso que a expressãozinha “unidade negativa” quer dizer? E que é justamente por isso que a Civilização do Ocidente moderno não possui uma GENUÌNA unidade!?

“Mas o que fez Guénon... deu adeus. Foi morar numa casinha humilde no Cairo e ser chamado de Sheik. Ele merece respeito? Certamente que sim. O que um homem faz é problema dele somente, mas se seu pensamento afirma nossa decadência e sua atitude é de fuga...ele deve ser seguido ou combatido?” (texto de César)
ricardo_15#25
Se René Guénon tivesse dado adeus como você disse porque diabos ele escreveria os seus livros? Será que você não percebe o quanto é monstruosamente absurdo supor que um homem perca o seu tempo escrevendo livros, sendo alvo de toda sorte de ataques mal-intencionados, que esse homem gaste anos e anos da sua vida empenhado em esclarecer questões que para um oriental legítimo já estão perfeitamente claras e ainda assim, depois disso tudo, ele seja acusado de fugir? Se ele quisesse realmente fugir ele simplesmente não teria escrito nada. Ficaria lá no Cairo como um desconhecido muçulmano tradicional e hoje nenhum ocidental insolente estaria enchendo a paciência com críticas à sua pessoa e à sua obra. Por que a conversão dele é uma fuga? Uma fuga de que exatamente? Guénon se converteu por motivos práticos. Ele já estudava o esoterismo islâmico e ele havia sido instado a procurar uns manuscritos sufís no Cairo. Chegou lá e converteu-se. Não há fuga nenhuma nisso. Guénon tem culpa se a Igreja anda mal das pernas? Ele se esforçou mais do que uns cinco mil padres somados a uns quantos bispos e cardeais para restaurar a tradição católica. Toda a divulgação das doutrinas orientais tem esse objetivo: mostrar ao homem ocidental o que são as verdadeiras concepções orientais para que ele possa criticar e superar a modernidade voltando às bases da sua própria Tradição, o que só é possível quando se edifica uma elite espiritual que alcançando a unidade metafísica subjacente a todas as tradições possa colocar o Ocidente de volta nos eixos. Ponto final.

“Veja, neste ponto, você abre uma porta para a clareza. É lógico que o conhecimento ascético é uma forma de saber difícil de explicitar. Concordo com vc. Os místicos cristãos e não cristãos usaram metáforas e poesia para expressá-los. Mas auto lá: jamais usaram isto como saber constituído capaz de gerenciar o tribunal que julgou o ocidente!” (texto de César)
ricardo_15#26
De onde você tirou a idéia extravagante de que os místicos não usam seu conhecimento espiritual para julgar a civilização? São Bernardo toda vida fez isto. De onde provinha a autoridade deste simples monge senão do seu conhecimento espiritual? Por esta autoridade ele julgou (aliás, com um tom incomparavelmente mais forte do que o discreto Guénon) a sociedade de seu tempo, guiou papas inexperientes, humilhou e condenou dialéticos, enfim...

“Mas aqui você volta a fechar a porta e a deixar de fora a “ignorância absoluta”. Pra que serve um mestre que não ensina? Pra que serve um professor que foge dos alunos? Como ele pretendia criar uma elite intelectual negando-se ao debate, definindo seus termos e apresentando suas referências..mesmo que estas fossem constituídas apenas por suas reflexões e meditações. Mas era preciso dizer..enunciar!” (texto de César)

O que é que Guénon fez ao escrever seu livros senão “dizer...enunciar”? Ele os escrevia para quê? Para brincar com as letrinhas? Fugir dos alunos? Isto é absurdo demais. Vou lhe relembrar exatamente o que foi que eu disse. Eu disse que é meio ridículo querer exigir de um mestre espiritual uma “prova” do seu saber. O mestre espiritual geralmente fica lá no canto dele, seja ensinando oralmente aos discípulos que lhe aparecem, seja escrevendo seus livrinhos para quem deseje aprender com ele, como foi o caso de Guénon.
ricardo_15#27
É bem verdade que em todas as grandes religiões existe um impulso de expansão, sobretudo nos três ramos do monoteísmo abraâmico. E grandes mestres espirituais por vezes exercem a função de pregadores públicos. Mas sempre o conteúdo destas prédicas é um conteúdo exotérico, acessível à grande massa. Guénon, porém, divulgava um conteúdo muito mais restrito cuja compreensão não é tão fácil assim. Já é uma imensa generosidade da sua parte divulgar tal saber, mas fazê-lo de forma contínua ao longo de décadas é um presente sem comparação e só se justifica pelo atual estado de coisas que supõe uma abertura (mas muito discreta) de alguns assuntos para um número maior de pessoas.

“Se para ele a tradição islâmica e hinduísta são completas, pergunto: completas por quê atendiam suas necessidades pessoais de busca ou completas após uma análise comparativa de todas? Uma coisa é escolher algo que me parece bom (só pra mim), outra é dizer: após comparar todas, escolhi a que me parece mais completa! A riqueza dos ritos e tradições cristas remontam a quase dois mil anos! Veja que caímos sempre neste ponto: ele não quer destruir a igreja, ele quer restaurá-la, ele apreciava a tradição crista, etc...mas escolheu outra e mergulhou completamente nela. Não vê contradição entre discurso e fala?” (texto de César)

Resposta à primeira pergunta: ambas as coisas. Não há contradição nenhuma entre discurso e fala (atos, não?). Para você provar esta contradição você teria que me demonstrar a seguinte tese: não é possível viver numa forma tradicional e auxiliar a restauração de outra forma tradicional. Você a toma por pressuposta sem sequer imaginar que a simples formulação da unidade metafísica subjacente a todas as tradições já implica numa contestação a esta tese. Ademais, é um fato que muitas pessoas relatam terem sido reconduzidos ao cristianismo pelo Guénon. No próprio tópico aberto por mim, um menino lá diz isto, o Rafael. E aí? Ele se enganou sobre ele mesmo?
ricardo_15#28
Por outro lado, existe também a possibilidade de que a conversão de Guénon estimule algumas pessoas a abandonarem o cristianismo e buscarem outras tradições. Esta possibilidade, porém, não é tão comum assim para a maioria dos seus leitores. A maioria das pessoas me relata que Guénon lhes abriu os olhos para a sua própria tradição ocidental, muito embora estas mesmas pessoas tenham muito mais respeito e compreensão das outras tradições, o que é certamente uma grande contribuição para o diálogo entre Ocidente e Oriente. De qualquer maneira, Guénon não desprezou o esoterismo ocidental, pois entrou para a instituição em que ele via ainda alguns resquícios de esoterismo cristão (os Pequenos Mistérios, ao menos) – a maçonaria. Nem desprezou o exoterismo cristão, pois afirmou reiteradamente que o ponto de vista teológico é a forma mais elevada de saber depois da Ciência Sagrada.

“Se ele não queria destruí-la, usou método duvidoso para restaurá-la. Se você quer revigorar uma fé, deve ensiná-la e preservá-la. Não defendo o “não estudo” das tradições. É preciso conhecê-las e respeitá-las, mas e nossa tradição? Vai ser ensinada por homens versados na tradição alheia? Valha-me o bom Deus...o cristianismo está realmente arruinado. De um lado, excomungadores, de outro, homens que se convertem à outras religiões no propósito de salvar a mensagem que dizem preservar!” (texto de César)
ricardo_15#29
César, Guénon jamais teve a pretensão de ensinar o cristianismo. Esta função cabe a autoridade religiosa competente. Do mesmo modo, ele nada ensinou do exoterismo islâmico e mesmo o que ele falou sobre o esoterismo islâmico (Apercepciones sobre El Esoterismo Islâmico y El Taoísmo, por exemplo) é bem menor do que as extensas obras dedicadas à explicação das doutrinas hindus, em especial o Vedanta. É claro que Guénon não pensava em formar uma elite islâmica para ensinar o cristianismo. Já disse e repito: a elite intelectual de que Guénon tanto falou jamais pode ser interpretada como uma tentativa de orientalização do Ocidente, tentativa que jamais poderia ser levada a efeito pelos próprios traços irredutíveis da mentalidade ocidental. O conhecimento das doutrinas orientais, sobretudo da metafísica hindu, é bem-vindo na medida em que este conhecimento pode proporcionar o contato com uma Tradição em sua plenitude e, portanto, servir de exemplo para os ocidentais que queiram restaurar a sua própria tradição.

“Se não me encontrar mais no orkut (encerro aqui minha participação neste tópico) pode estar certo que não terei ido pro Cairo morar numa casinha com um jardim na frente... estarei numa destas imundas universidades ocidentais buscando um saber que duvido possa ser encontrado nas sagradas tradições do oriente!” (texto de César)

De fato, as sagradas tradições do oriente não possuem uma infinidade de conhecimentos analíticos que a ciência moderna obteve. Considerando, porém, que o núcleo dessas tradições é a teoria dos Estados Múltiplos do Ser e considerando que nesta teoria parece ser possível ao ser tomado como individualidade elevar-se de sua condição individual até a absoluta universalidade do Princípio Metafísico Supremo e, finalmente, considerando que a Identificação plena com o Princípio traz a plenitude do ser, a consciência total e a felicidade absoluta (SATCHITANANDA), então acho que as tradições do oriente ainda levam uma boa vantagem na balança do Conhecimento. Até mais.

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