Não existem homossexuaisAcreditar que um adjetivo se converte em substantivo é uma forma de moralismo pela via errada.
NÃO CONHEÇO homossexuais. Nem um para mostrar. Amigos meus dizem que existem. Outros dizem que são. Eu coço a cabeça e investigo: dois olhos, duas mãos, duas pernas. Um ser humano como outro qualquer. Mas eles recusam pertencer ao único gênero que interessa, o humano. E falam do "homossexual" como algumas crianças falam de fadas ou duendes. Mas os homossexuais existem?
A desconfiança deve ser atribuída a um insuspeito na matéria. Falo de Gore Vidal, que roubou o conceito a outro, Tennessee Williams: "homossexual" é adjetivo, não substantivo. Concordo, subscrevo. Não existe o "homossexual". Existem atos homossexuais. E atos heterossexuais. Eu próprio, confesso, sou culpado de praticar os segundos (menos do que gostaria, é certo). E parte da humanidade pratica os primeiros. Mas acreditar que um adjetivo se converte em substantivo é uma forma de moralismo pela via errada. É elevar o sexo a condição identitária. Sou como ser humano o que faço na minha cama. Aberrante, não?
Uns anos atrás, aliás, comprei brigas feias na imprensa portuguesa por afirmar o óbvio: ter orgulho da sexualidade é como ter orgulho da cor da pele. Ilógico. Se a orientação sexual é um fato tão natural como a pigmentação dermatológica, não há nada de que ter orgulho. Podemos sentir orgulho da carreira que fomos construindo: do livro que escrevemos, da música que compusemos. O orgulho pressupõe mérito. E o mérito pressupõe escolha. Na sexualidade, não há escolha.
Infelizmente, o mundo não concorda. Os homossexuais existem e, mais, existe uma forma de vida gay com sua literatura, sua arte. Seu cinema. O Festival de Veneza, por exemplo, pretende instituir um Leão Queer para o melhor filme gay em concurso. Não é caso único. Berlim já tem um prêmio semelhante há duas décadas. É o Teddy Award.
O cara não se vangloria de ter este ou aquele comportamento sexual, não faz disso a bandeira da sua vida. Assim como, igualmente ao homossexual, seria ridículo um heterosexual fazendo de sua vida sexual privada um estandarte diante do qual chora de tanto se orgulhar.
O ''não existe homossexual" foi uma figura de linguagem muito apropriada para expressar seu comportamento de vida em relação aos desejos e impulsos sexuais que ele tem e confessa, discretamente, exercer.
O Olavo disse em um True Outspeak, há uns meses atrás, que, de acordo com sua visão, nenhuma conduta sexual em si mesma é moralmente equivocada. O negócio é o status que você confere a ela na sua vida. Penso de forma muito parecida.
Vamos lá. Atentem para os trechos em negrito ou sublinhados (ênfase). Os trechos em azul foram acrescentados por mim para facilitar a compreensão.
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JOÃO PEREIRA COUTINHO
Acreditar que um adjetivo se converte em substantivo é uma forma de moralismo pela via errada
[A palavra "homossexual" é um adjetivo e não um substantivo.
Substantitvos designam coisas e seres.
Adjetivos designam qualidades (ou defeitos, características) dessas coisas e seres.
Por exemplo, se falo em "rapaz homossexual", o adjetivo é a palavra "homossexual". "Rapaz" é que é o substantivo. Ou seja, "homossexual" é apenas uma qualidade desse rapaz, entre várias outras (como "honesto" ou "corrupto", "feio", "bonito" etc). Ele não se resume a isso (a ser homossexual). A identidade dele não é só isso. Ele não é definido por isso.
Homossexual não é um ser; a homossexualidade é que é característica de um ser. Mas o movimento gay quer reduzir toda a identidade de um indivíduo homossexual ao homossexualismo.
"NÃO CONHEÇO homossexuais. Nem um para mostrar. Amigos meus dizem que existem. Outros dizem que são. Eu coço a cabeça e investigo: dois olhos, duas mãos, duas pernas. Um ser humano como outro qualquer. Mas eles recusam pertencer ao único gênero que interessa, o humano. E falam do "homossexual" como algumas crianças falam de fadas ou duendes. Mas os homossexuais existem?
A desconfiança deve ser atribuída a um insuspeito na matéria." (...)
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"Falo de Gore Vidal, que roubou o conceito a outro, Tennessee Williams: "homossexual" é adjetivo, não substantivo. Concordo, subscrevo. Não existe o "homossexual". Existem 1atos homossexuais. E 2atos heterossexuais. Eu próprio, confesso, sou culpado de praticar os segundos 2.ou seja, os atos heterossexuais (menos do que gostaria, é certo). E parte da humanidade pratica os primeiros 1.ou seja, os atos homossexuais.
Mas acreditar que um adjetivo se converte em substantivo é uma forma de moralismo pela via errada. É elevar o sexo a condição identitária. [condição de identidade] Sou como ser humano, de acordo com essa visão, o que faço na minha cama. Aberrante, não?
[Ou seja, a identidade, aquilo que define a pessoa como ser humano, não se resume a aquilo que ela faz na cama, ao contrário do que afirma o movimento gay]
"Uns anos atrás, aliás, comprei brigas feias na imprensa portuguesa por afirmar o óbvio: ter orgulho da sexualidade é como ter orgulho da cor da pele. Ilógico. Se a orientação sexual é um fato tão natural como a pigmentação dermatológica, não há nada de que ter orgulho.Portanto, o orgulho gay não faz sentido. Nem o hetero. Podemos sentir orgulho da carreira que fomos construindo: do livro que escrevemos, da música que compusemos. O orgulho pressupõe mérito. E o mérito pressupõe escolha. Na sexualidade, não há escolha.
Infelizmente, o mundo não concorda. Os homossexuais existem na visão da sociedade, que define as pessoas pela sexualidade, e, mais, existe de acordo com essa mesma visão uma forma de vida gay com sua literatura, sua arte. Seu cinema. O Festival de Veneza, por exemplo, pretende instituir um Leão Queer para o melhor filme gay em concurso. Não é caso único. Berlim já tem um prêmio semelhante há duas décadas. É o Teddy Award.
"Estranho. Olhando para a história da arte ocidental, é possível divisar obras que versaram sobre o amor entre pessoas do mesmo sexo. A arte greco-latina surge dominada por essa pulsão homoerótica. Mas só um analfabeto fala em "arte grega gay" ou "arte romana gay". Afinal, arte é arte e não importa se o artista é gay ou não.
E desconfio que o imperador Adriano se sentiria abismado se as estátuas de Antínoo, que mandou espalhar por Roma, fossem classificadas como exemplares de "estatuária gay". A arte não tem gênero. Tem talento ou falta de.
E, já agora, tem bom senso ou falta de.
Definir uma obra de arte pela orientação sexual dos personagens retratados não é apenas um caso de filistinismo cultural. É encerrar um quadro, um livro ou um filme no gueto ideológico das patrulhas. Exatamente como acontece com as próprias patrulhas, que transformam um fato natural, a sexualidade, em programa de exclusão. De auto-exclusão (no caso dos gays).
"Eu, se fosse "homossexual", sentiria certa ofensa se reduzissem a minha personalidade à inclinação (simbólica) do meu pênis. Mas eu prometo perguntar a um "homossexual" verdadeiro o que ele pensa sobre o assunto, caso eu consiga encontrar um no planeta Terra.
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(fim do texto. Os trechos em cor azul foram acrescentados por mim para facilitar a compreensão. De nada, disponha.)
Uriel, como eu havia expressado em 13 de agosto, neste mesmo post, ao contrário do que vinham protestando alguns aqui, dos quais eu discordava, eu gostei bastante do texto.
Minha leitura foi extremamente parecida com a tua, pelo que posso ver nas tuas mensagens.
Parabéns pela didática, trabalho que sempre exige certa dose de paciência e esforço.
Sem dúvida.
E mais idiota ainda é inverter a realidade.
Não gosto da tática nem como "figura de linguagem"ou "jogo de palavras".
Até porque eu não vejo nem como uma coisa nem como outra.
É completamente diferente dizer que não se odeia indivíduos homossexuais, ou que não se tem o menor interesse em saber o comportamento sexual de Fulano ou de Beltrano - do que dizer que é indiferente que se pratique ou não o homossexualismo.
Desculpe Priscilla, mas não ficou claro, para mim, o seu posicionamento. Você não gostou do texto? Tudo bem quanto às figuras de linguagem, apenas uma questão de estilo e gosto pessoal, essa parte entendi bem.
Eu penso de modo distinto ao que creio ter sido o seu comentário.
Não querer saber o que fulano faz na cama (que é o mesmo que dizer que se está indiferente ao que ele faz) é, necessariamente, estar indiferente a que se "pratique o homossexualismo". Parece-me uma contradição lógica, ou mesmo semântica, supor um e não o outro.
Claro que este é um posicionamento que contraria os princípios de muitas correntes religiosas. Direito de cada liturgia, de cada religião, embora eu deva confessar que discordo, neste ponto, dos líderes e representantes religiosos.
Mas remeto-me à ligação identitária entre as posturas que mencionei no outro parágrafo: quem se importa com a prática homossexual, com o fato de as pessoas "praticarem o homossexualismo", por declaração própria, necessariamente, não está indiferente aos hábitos íntimo-carnais dos indivíduos.