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P. Sette Câmara sobre a mentalidade revolucionária

Iniciado por marcio_2 em 17/08/2007 · 9 mensagens

marcio_2#1
Mentalidade revolucionária dos schuonianos?

15 de Agosto de 2007 por Pedro Sette Câmara

Leio com interesse o que Olavo de Carvalho escreve sobre a mentalidade revolucionária. Ele mesmo dá uma ótima explicação do que se trata:

“Mentalidade revolucionária” é o estado de espírito, permanente ou transitório, no qual um indivíduo ou grupo se crê habilitado a remoldar o conjunto da sociedade – senão a natureza humana em geral – por meio da ação política; e acredita que, como agente ou portador de um futuro melhor, está acima de todo julgamento pela humanidade presente ou passada, só tendo satisfações a prestar ao “tribunal da História”. Mas o tribunal da História é, por definição, a própria sociedade futura que esse indivíduo ou grupo diz representar no presente; e, como essa sociedade não pode testemunhar ou julgar senão através desse seu mesmo representante, é claro que este se torna assim não apenas o único juiz soberano de seus próprios atos, mas o juiz de toda a humanidade, passada, presente ou futura. Habilitado a acusar e condenar todas as leis, instituições, crenças, valores, costumes, ações e obras de todas as épocas sem poder ser por sua vez julgado por nenhuma delas, ele está tão acima da humanidade histórica que não é inexato chamá-lo de Super-Homem.

Mas, ao ler isto, não consigo deixar de me lembrar de René Guénon, que afirmava que estávamos ao fim de um ciclo terrível, o Kali-Yuga, e que a próxima Idade de Ouro seria preparada por uma pequena e discreta elite. Não seria possível trocar alguns termos deste trecho e colocar os termos de Guénon? Em vez de “ação política”, teríamos “ação cultural” ou “ação espiritual”; em vez de “tribunal da História”, teríamos o líder de uma sociedade secreta ou a própria idéia de sociedade tradicional. Aliás, não existe esoterismo sem a idéia de elitismo, sem uma hierarquização entre “nós que somos superiores” e “eles que são inferiores”, os meros objetos inermes da ação daquela elite.
marcio_2#2
Isto me recorda outro bom trecho de Olavo de Carvalho em que fala do continuador mais conhecido da obra de René Guénon, o sheikh da Tariqat de Maria, Frithjof Schuon:

Schuon sempre soube que as grandes transformações históricas vêm de cima, que os movimentos de massa não são senão o efeito remoto da influência espiritual exercida sobre os corações e mentes dos homens mais cultos e capacitados. A abertura da Europa ao Islam não começou com a importação de trabalhadores. Começou com discretos rituais místicos em Oxford e Cambridge, aos quais o prestígio de intelectuais de primeiro plano acabou atraindo membros do Parlamento e até o príncipe herdeiro.

Seria então Schuon um “revolucionário” num sentido adaptado do sentido de Olavo? A “mentalidade revolucionária” se aplica a estes homens brilhantes que, a mando de organizações esotéricas de vago fundo islâmico, dedicam-se conscientemente a atrair os melhores de uma cultura para sua própria sociedade secreta, passando por cima de laços e compromissos firmados na biografia de cada um deles?
marcio_2#3
Dou um exemplo bem próximo. Sei que um dos membros brasileiros da antiga Tariqat de Maria está freqüentando o ambiente da missa melquita de São Paulo. Existem dois tipos de católicos que freqüentam a missa melquita: aqueles que têm raízes orientais, que nasceram naquela cultura (no Brasil, freqüentemente de origem libanesa), e aqueles que sempre acompanharam o rito romano mas ficaram cansados dos abusos litúrgicos - abraços, violões, palmas etc. Este membro, que publicamente não admitirá receber ordens de alguém nos EUA ou na Inglaterra, e muito menos que pratica ritos que não são católicos nem cristãos, dedica-se a espalhar animosidade contra o Papa Bento XVI entre os católicos de tendência mais conservadora - portanto, os ideologicamente mais preciosos. Ele diz defender a Verdade e altos valores espirituais, mas não tem problemas em omitir sua filiação a uma organização de fundo islâmico; não sente nada ao maquiavelicamente justificar os meios com os fins. O efeito prático, socialmente falando, é mercurial: divide-se a comunidade. Espiritualmente falando, o efeito é puro enxofre: enche de orgulho a alma de indivíduos que subitamente se sentem habilitados a julgar o Papa (já fui culpado disto: falo por experiência) e a condená-lo por não ser suficientemente “tradicional”. Ek toú karpoú déndron gignosco, “pelos frutos conheço a árvore”, já diziam os gregos, antes mesmo de Jesus. Entrar em uma casa apenas para semear a discórdia e a divisão certamente é um pecado grave; mas, diante do plano maior de preparação da suposta sociedade tradicional futura, é apenas um ovo que tem que ser quebrado para fazer a omelete…
marcio_2#4
Por mais duras que sejam as divisões entre os cristãos, os debates sempre foram claros, e muitos não-católicos elogiaram a tomada de posição recente do Vaticano, reafirmando a Igreja Católica como a única verdadeira, simplesmente porque preferem discutir abertamente a ter a sensação de que estão tentando lhes passar a perna. Por mais duras que sejam as disputas entre as religiões, qualquer religioso preferirá a animosidade explícita a ser manipulado por uma sociedade secreta que se coloca acima de todas as religiões e se arroga o direito de dirigi-las.

Pois então pergunto: não se pode tomar a idéia da mentalidade revolucionária, que se volta para a esfera da ação política, e transportá-la para a esfera cultural e espiritual, certamente menos sangrenta, mas muito mais perigosa, já que o que está em jogo não é a morte do corpo, mas da alma? Que nome dar a estes homens (ainda não vi nenhuma mulher) que se dedicam a destruir comunidades, retirar delas seus membros mais valiosos, e torná-los parte de uma conspiração para destruí-las?

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http://www.oindividuo.com/2007/08/15/mentalidade-rev…schuonianos/
priscila#5
O Olavo já se manifestou a respeito desse comentário a um texto seu?
Estou bastante curiosa...

Pessoalmente, gostei de ler. Vou pensar no assunto.
marcos_8#6
gente, rapidinho que hoje estou na correria
em outro tópico, o Marcelo pôs o link, e eu e o Ricardo comentamos alguma coisa.
Abraços.
priscila#7
Muito bons os comentários lá no outro tópico!
priscila#8
Eu diria que o texto, bem lido, induz a um erro.

Sem combater o Olavo, o Pedro - digamos - "se aproveita" de uma visão que considera correta e dá o que me parece ser uma "encaixada" pra que esta visão passe a conter um outro conjunto.

Quanto a "encaixada" na verdade arrebenta o conceito original do Olavo eu ainda vou pensar mais.
priscila#9
E, é claro, vou lá ler novamente os comentários de vocês.

Mas eu considero, e digo aqui, o Pedro uma brilhante inteligência.

E eu custo a concluir porque realmente reflito horas, dias, o tempo que for.

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