Fórum Olavo de CarvalhoArquivo da comunidade do Orkut · 2004–2013

Marxismo como cultura

Iniciado por spartacus em 30/11/2005 · 11 mensagens

spartacus#1
Nesses últimos tempos eu tenho procurado referências sobre autores estudados pelo Olavo. Titus Burckhardt, Ibn al Arabi entre outros.

Muitas vezes eu fico em dúvida sobre a "paternidade" de algumas idéias que o Olavo discute, por exemplo a idéia de que o marxismo é um sistema cultural e nao um sistema teórico.

Pessoalmente eu acho essa teoria fascinante, realmente original. Entao eu fiquei pensando se essa é uma idéia original do Olavo ou se essa idéia é de alguém mais.

O pessoal que fez curso de filosofia com ele, ou que tem contato mais próximo com ele poderia me dar uma luz a respeito desse tema.

Obrigado.
leandro_13#2
Não sei se é original, mas cheguei à mesma conclusão.

(diria que é mais religioso que cultural)
marcos_12#3
Acho que o Leandro chegou um pouco mais perto do que penso. Vejo o marxismo como um meio de campo entre a cultura e a religião, e digo porque: o marxismo abarca não apenas uma concepção política, econômica e filosófica. É míope e estreito quem pensa assim. O marxismo abarca uma concepção existencial! Somos determinados por forças X, viemos de Y e iremos para Z. Enfim, o marxismo advoga para si as respostas para a Vida e fecha num cubículo todas as questões da História e da Humanidade sob uma concepção racionalista. Não há nada mais estúpido e apavorante do que isso.

A religião não responde há essas perguntas, mas vai além: ilumina as nossas ações perantes essas angústias existencias através da fé. A cultura, a grosso modo, é uma gama de princípios e valores. Através de seus rituais, mantemos vivos muitas das crenças advindas da religião (muito da cultura deriva da religião), e os rituais, regulares e repetitivos, tendem a manter viva a fé através de sua prática concedendo ao homem o conforto espirutual necessário para "suportar" as angústias da Vida.
Ora, o marxismo não fundamenta-se na fé, mas na razão, mas ao mesmo tempo não corresponde a uma cultura, ao meu ver, porque condiciona um papel mais profundo do que a mesma. A cultura conforta o homem existencialmente; o marxismo procura responder ao problemas exisnteciais do homem. Ademais, a cultura é irracional, ou seja: perpassa às gerações seguintes, independente de uma estrutura mental racionalizada e esclarecida. Basta nascer e/ou viver num determinado meio social para adquirirmos seus princípios e valores.

Procurei ser sintético, e espero ter sido claro, porque o assunto é muito amplo e complexo.

Abraços!
roxane#4
http://www.olavodecarvalho.org/semana/040101jt.htm

Marxismo esotérico

Olavo de Carvalho
Jornal da Tarde, 1 de janeiro de 2004

Quando digo que o marxismo é uma “cultura”, está aí implícito que compará-lo a uma “religião” é abusar de uma analogia. Essa analogia só funciona, em parte, se por “religião” se entendem os primitivos complexos mitológicos em que crenças, ritos, governo e sociedade se fundiam numa totalidade inseparável. As religiões universais são por excelência transportáveis para fora da sua cultura originária, e o são, precisamente, porque nelas o depósito inicial da revelação se transmuta numa formulação teológico-dogmática racional com pretensões de verdade universal, a qual se oferece para ser validada ou impugnada no plano do exame teorético. Já o marxismo não admite de maneira alguma ser discutido nesse plano, porque a essência do seu conteúdo intencional, como já expliquei, não está expressa em discurso, mas imbricada organicamente, como um segredo mudo, no tecido da prática revolucionária, do qual deve ser desentranhada por meio de sutis mutações de significado, procedimento esotérico cuja autoridade transcende a dos escritos do próprio Marx.

Antonio Negri, escrevendo em 1994 sobre uma discussão com Norberto Bobbio, afirma: “Para Bobbio, uma teoria marxista do Estado só poderia ser aquela que derivasse de uma cuidadosa leitura da obra do próprio Marx. Para o autor marxista radical (Negri), no entanto, era a crítica prática das instituições jurídicas e estatais desde a perspectiva do movimento revolucionário -- uma prática que tinha pouco a ver com filologia marxista, mas pertencia antes à hermenêutica marxista da construção de um sujeito revolucionário e à expressão do seu poder. Se havia algo em comum entre Bobbio e seu interlocutor era que ambos consideravam o socialismo real um desenvolvimento amplamente externo ao pensamento marxista.” (continua)
roxane#5
http://www.olavodecarvalho.org/semana/040108jt.htm

Diferenças específicas

Olavo de Carvalho
Jornal da Tarde, 8 de janeiro de 2004

Caracterizado o marxismo como cultura, é necessário dar mais precisão ao diagnóstico por meio de algumas diferenças específicas.

O marxismo não é um processo cultural autônomo, mas uma transmutação ocorrida no seio do movimento revolucionário mundial, que àquela altura já tinha uma tradição centenária e uma identidade definida, ao ponto de ser popularmente designado pela simples expressão “o movimento” ou “a causa”, malgrado a coexistência, nele, de uma infinidade de correntes e subcorrentes em disputa.

O Manifesto Comunista de 1848 apresenta-se como superação e absorção desse movimento desordenado numa totalidade superior. Daí por diante, as relações entre o marxismo e as demais correntes revolucionárias foram as do patrão com seus empregados, que a seu capricho ele convoca, demite, expulsa ou chama de volta.

Foi assim que ele pôde condenar como revolta pequeno-burguesa os protestos existenciais de ordem sexual ou impugnar o nacionalismo como o pior inimigo da revolução proletária, e logo em seguida convocar um e outro para que servissem sob suas fileiras. Sua capacidade de absorção e expulsão é ilimitada, já que ele não tem de dar satisfações senão à prioridade única, que é a sua própria subsistência e expansão, toda consideração de veracidade ou moralidade sendo rebaixada, pragmaticamente, à condição de ancilla revolutionis. Oportunismo levado às últimas conseqüências, seu total descompromisso com a verdade pode ser medido pela constância com que o movimento comunista anuncia sua vitória próxima contra as nações capitalistas e, ao mesmo tempo, jura que nem sequer existe materialmente, denunciando como paranóia e “teoria da conspiração” qualquer tentativa de identificar sua rede de organizações e seus modos de ação. Aqui também a comparação com as religiões dogmáticas é inadequada. Nenhum fanatismo religioso produziu esse tipo de sociopatia em massa.
(continua)
wanderley#6
Paulo,

Se a interpretação varia de acordo com o receptor da mensagem, como afirmar que algo seja categoricamente irrelevante? Nesse sentido, ele o é somente no tal contexto específico de quem o apreende. Para outros, partindo dessa premissa, pode ser fundamental, de acordo com as suas escolhas teóricas. Se ninguém consegue definir o que é cultura, ou se ninguém optou por uma definição específica - fato que realmente enriqueceria o debate - conforme você pede, eu pergunto: Qual definição de cultura você utiliza para dizer que a idéia de marxismo como cultura não é válida? Não entenda a pergunta como uma provocação, por favor... É mais uma tentativa de fugir do relativismo que tomou conta do debate.
klauber#7
O Filósofo Ludwig von Mises também aponta o Marxismo como uma forma de religião (v. "Ação Humana")
wanderley#8
Paulo,

Veja bem: os membros dessa comunidade realmente formam um grupo com especificidades, e no entanto, ainda assim sua heterogeneidade é imensa, com gente de todas as áreas... Nem a própria razão de ser do grupo, que é o Olavo de Carvalho, poderia lançar mão de uma polissemia mais filosófica, uma vez que grande parte de seus leitores não o compreenderiam, e nem uma terminologia científica rígida cabe no texto jornalístico, que é o seu principal instrumento de divulgação.

Talvez por isso uma categorização mais aguda do conceito de cultura não tenha sido objeto de atenção de OdeC, como você bem alerta. Mas isso também não significa fuga do embate de idéias - é mais um limite empírico mesmo. Realmente eu não sei se em algum outro trabalho ele procura situar melhor essa hipótese de marxismo como cultura. Quando eu li essa formulação, entendi da seguinte forma: o marxismo é mais do que uma teoria econômica, é mais do que ciência até, pois atingiu um nível de disseminação e de absorção (às vezes inconsciente) que o faz maior que os aludidos conceitos correlatos. É tão abrangente que não pode ser comparado apenas com a religiosidade, por exemplo. A idéia de cultura como sistema de valores com comunicação e símbolos próprios seria mais adequada para ilustrar essa transformação do marxismo. O que você acha?
wanderley#9
Na minha opinião, o liberalismo se pretende conceitualmente como uma proposta que pode conviver com outras associações, inclusive as que lhe são contrárias. Não almeja ser a síntese de uma verdade universal, como o marxismo/socialismo. É o Consenso Sobreposto de que John Rawls fala, ou seja, uma doutrina dentro de um sistema cultural variado, com forças antagônicas que devem ser administradas.

E sobre essa disseminação e absorção inconsciente do marxismo, vou tentar expressar um exemplo. A teoria econômica e a proposta política de Marx, com o passar do tempo, ganharam status de "moral" humanista. Assim, muitas pessoas que não leram nem Marx nem Smith, optam por se inclinar para o Marxismo por identificá-lo assim, como uma expressão de fraternidade, em oposição ao sistema capitalista, que sendo o alvo do marxismo, passou a ser visto como ente maléfico, embora a fome, a exploração e a miséria existam desde que o homem é homem. Quero dizer que se você perguntar a um estudante secundarista se ele prefere o socialismo ou o capitalismo, ele responderá socialismo sem saber do quê se trata, baseado apenas em impressões vagas que se solidificaram em sua mente, inconscientemente.

PS. Não se preocupe com esse negócio de provocação. Acho que já percebemos um no outro a intenção de aprimorar argumentos, embora eu reconheça não ter o seu preparo. De qualquer forma, é estimulante ouvir contestações bem colocadas e fundamentadas.
wanderley#10
Concordo que nem toda crítica ao capital seja marxista. Até em Davos o capital é criticado. Mas acredito (uma opinião pessoal), que o marxismo é a matriz principal que fornece argumentos a essa crítica, mesmo quando ela entra em contato com grupos específicos diferenciados. Mas não por mérito próprio. Mas por defeito dos conteúdos repassados nas escolas.

O professor (e porta-voz do Lula) André Singer, tem um trabalho cujo objeto pode ser ilustrativo. Ele defende a tese de que a maioria dos eleitores brasileiros, mesmo os de baixa escolaridade, se divide em esquerda, centro e direita e tende a votar de acordo com a sua preferência ideológica, mesmo que ele não consiga definir conceitualmente essas opções. A identificação ideológica, segundo Singer, se dá pela absorção de palavras e expressões chaves, tais como radical, ruptura, preservar o que deu certo, família, colapso, e por aí vai.

Nesse sentido, realmente o eleitorado e a sociedade brasileira é conservadora. Mas a questão é que para além da política, na mediação dos valores morais, que vai do ensino de literatura à psicologia social, o marxismo termina por imperar, ainda que muitas pessoas (a maioria) não possam fazer essa identificação. Seus conceitos de igualdade como justiça, de luta de classes, de maniqueísmo, sua própria dialética para explicar os seus limites, o materialismo, tudo isso influi de forma pesada nos processos de formação do indivíduo na nossa sociedade, e cria, por assim dizer, uma afinidade filosófica forçada.

Bom, é claro que a tese de Singer é polêmica. Mas gosto dessa analogia.
wanderley#11
Paulo,

Só hoje pude ler o seu texto. Você me pôs contra a parede. No entanto, talvez eu tenha me atrapalhado. Não me referi ao texto original de Marx, da ferramenta de análise, mas da vulgarização do marxismo, dessa, como você mesmo diz, dificuldade na apreensão de conceitos. Nesse ponto, eles podem ser deturpados (como no caso do capitalista malvado)- mas não deixam de ter a sua origem na disseminação da teoria da luta de classes como força predatória.

Não consigo ver ditadura do proletariado como democracia da maioria. Parece um recusrso... dialético! Ditadura do proletariado significa a imposição de um novo conjunto de regras sociais e econômicas sob o camando - aí mora o perigo - da liderança proletária. Liderança composta de indivíduos (não o povo) que não abrem mão de suas posições. O proletariado, assim como a noção de povo como ente consciente, é uma abstração.

No resto estou sem resposta. Acho o materialismo dialético limitado, porém útil para certas análises. Mas esse é um ponto em que estou inseguro. Me dê um tempo para eu digerir a questão do método e da epistemologia, e me desculpe a pressa.

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