(estou criando esse tópico como desdobramento de outro; a questão do Estado laico americano é abordada por Olavo de Carvalho no Jardim das Aflições)
me digam, vocês que rejeitam o Estado laico americano: de que forma o Estado poderia ser não-laico nos EUA, que é um país predominantemente americano?
Qual seria a igreja oficial dos EUA dentre as inúmeras denominações, igrejas, movimentos e seitas existentes? (puritanismo, luteranismo, igreja batista, metodista, presbiteriana, anglicana etc)
fiz essa pergunta no outro tópico e nunca me responderam..
assim é fácil condenar de forma veemente e radical o Estado laico americano e usar de forma livre a palavra "laico" como se o Estado laico americano fosse igual ao Estado laico francês ou mexicano.
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Errata: me digam, vocês que rejeitam o Estado laico americano: de que forma o Estado poderia ser não-laico nos EUA, que é um país predominantemente protestante?
(e protestante multi-sectário. A maioria dos colonos originais, por exemplo, era ligada ao movimento puritano e a nenhuma igreja protestante institucionalizada)
Eu não sei, mas acredito na hipótese de que o Estado laico é uma herança do Cristianismo, religião que, com indas e vindas, promoveu uma separação radical entre religião e Estado.
O assunto é complexo, mas acho que a preocupação maior de Olavo de Carvalho no Jardim das Aflições é com a volta da sacralização do Estado, o que ele chama de Religião Civil.
Gostei da explicação do Paulo de Tarso para Estado laico, parece-se um pouco com a minha visão. Creio que Estado laico é aquele que não só não tem uma religião oficial como não busca impor os valores dela pela força. Por exemplo, tanto o Cristianismo, quanto o Judaísmo e o Islmamismo tem o casamento, a castidade, etc, como valores a serem preservados, mas os dois últimos, ao contrário do primeiro previam sanções penais gravíssimas para proteger tais valores, ou seja, preconizavam a intervenção do Estado através do Direito penal para preservá-los. O Cristianismo parece ter trazido uma outra visão, pois Cristo rejeitou condenar a adúltera, impediu que a sanção penal (apedrejamento) fosse imposta a ela, sem, no entanto, negar que ela tinha pecado, do contrário ele seria niilista. O Estao laico assim me parece uma herança cristão, e o liberalismo político seu corolário. Por enquanto penso assim.
Nos Estados Unidos essa separação não é muito nítida em todos os Estados. Parece haver uma luta entra os laicistas e certas correntes protestantes que querem impor os valores cristãos pela força, salvar almas a muque (lembrem-se do caso da Lei Seca da década de 20 e de que certos Estados criminalizam o sexo oral).
Dois textos que eu recomendo sobre o assunto e que fizeram a minha cabeça nessa questão são do ex-aluno de Olavo de Carvalho, Àlvaro Veloso:
E é bom lembrar também as palavras de Olavo de Carvalho:
Em moral, sou anarquista. Acredito que há princípios morais universais, permanentes, que a inteligência discerne por baixo da variação acidental das normas e costumes, e acredito, enfim, que há o certo e o errado. Mas, por isso mesmo, impor o certo é errado, a não ser em caso de vida ou morte. O sujeito que faz o certo só por obediência e sem compreendê-lo acaba por transformá-lo no errado. "Experimentai de tudo e ficai com o que é bom", recomendava S. Paulo Apóstolo, meu amado guru. É uma questão de viver e aprender. Mas como podemos aprender, se um tirano paternalista nos proíbe de errar? Por isto deve haver a mais ampla liberdade de escolha e de conduta, e a autoridade religiosa deve se limitar a ensinar o certo, com toda a paciência, sem tentar expulsar o pecado do mundo à força. E se nem os religiosos, que por sua dedicação à vida interior têm autoridade para falar dessas coisas, devem impor regras morais à força, muito menos deve fazê-lo o Estado, que afinal não passa de uma gerência administrativa, a coisa mais mundana e prosaica que existe. As leis devem fundar-se apenas em considerações práticas de ordem, segurança e interesse coletivo, muito corriqueiras, e jamais em motivos pretensamente elevados de ética, que terminam por fazer da burocracia estatal um novo clero, e do Código Penal um novo Decálogo. A coisa mais nojenta que existe é a metafísica estatal.
"Creio que Estado laico é aquele que não só não tem uma religião oficial como não busca impor os valores dela pela força."
Foi basicamente nisso que pensei quando comentei, no outro tópico, que o Estado deveria ser laico. Talvez o termo "deve" seja um pouco exagerado, mas um Estado onde a separação com a Igreja não se faça presente cria um problema duplo: o Estado acaba por impor valores estranhos às demais comunidades, da mesma forma que a própria Igreja se terrestrializa. Ela passa a adquirir um papel excessivamente institucional, estranho ao seu papel primordial, voltado aos problemas do espírito.
Porém, o buraco é mais embaixo: o Estado laico, corrijo-me, não é o melhor tipo de Estado, mas o menor pior. Quero dizer que, sendo os indivíduos de uma sociedade portadora de uma mensagem divina - temerosos a Deus, como coloca o nosso colega Paulo de Tarso -, pouco importa o tipo de Estado que essa sociedade sustenta. Conquanto o Estado não seja frontalmente contrário aos princípios da sociedade - que não seja fascista ou comunista, por exemplo -, ele se submeterá às ordens espirituais do povo que o governa.
Sim, o povo governa o Estado, e não o inverso, ou pelo menos assim deveria ser quando vemos o Estado tentando governar o povo. Aí temos um Estado que, sendo laico e por estar assentado numa sociedade espiritualmente fraca, torna-se excessivamente laico - como coloca o Caio - e, daí, ateu militante.
Destaco esse trecho final colocado pelo colega acima:
"As leis devem fundar-se apenas em considerações práticas de ordem, segurança e interesse coletivo, muito corriqueiras, e jamais em motivos pretensamente elevados de ética, que terminam por fazer da burocracia estatal um novo clero, e do Código Penal um novo Decálogo. A coisa mais nojenta que existe é a metafísica estatal."
Eu acho que a "pergunta de leigo" do Márcio é A PERGUNTA! !
Muito boa.
Agora não tenho tempo, porque estou saindo, mas mais tarde eu venho fazer um comentário.
Nos EUA, quando de sua fundacao, o que existia era um estado laico negativamente. Ou seja, sem que se fizesse opcao por uma igreja ou denominacao, qualquer credo e aceito. Todavia, Francis Schafeffer faz muito bem em notar, os EUA foram fundados em meio a ou contexto cultural cristao. Essa protecao do consenso cristao e que permite que as pessoas gozem de uma verdadeira liberdade dentro do Estado porque o controle social da conduta e ditado por padroes biblicos, e o Estado mantem uma constituicao que defende a liberdade religiosa que garante a ordem no estado. Esta sempre foi a visao dos conservadores e ate de alguns liberais inteligente como Tocqueville (se bem que ele era, de certo modo conservador).
O estado laico com consenso cristao se mantem estavel e governavel, como os EUA, Estado laico sem consenso cristao degringola gerando caos e morticinio, como Franca revolucionaria, URSS, etc. A diferenca e clara.
Com a crise religiosa por causa do avanco do secularismo, o suporte do consenso cristao cai e o estado ocupa o espaco. Ai a liberdade religiosa e pervertida e se torna ela uma forma de perseguicao religiosa.
Calma seu Georges, não precisa ter um ataque por causa disso. Eu disse que para mim, no meu atual nível de conhecimento, é uma HIPÓTESE que o Cirstianismo seja o inspirador do Estado laico e do Liberalismo (não confunda liberalismo com ateísmo, revolução francesa, etc.). Também acho que é bastante plausível que Cristo tenha querido a separação de Estado e Igreja. Não só o "dai a césar o que é de césar..." parece demonstrar isto, mas também o episódio em que Jesus renega o poder político que lhe é ofertado pelo demônio no deserto. Jesus promoveu a conversão de multidões sem apelar pela força, pelos mecanismos do estado, e seus seguidores nos primeiros séculos também. Agora compare isto com o Judaísmo e com o Islamismo onde a confusão de Estado e Igreja é completa. Maomé foi líder político, promoveu guerras, matou idólatras, fundou um Estado e iniciou um Império. Posso estar enganado, mas parece que só o Cristianismo, das três grandes religiões, se firmou sem apelar para a força.
Agora uma frase sua me deixou preocupado: você diz que no Estado cristão as pessoas são livres para aderir a outras religiões, mas não podem fazer proselismo, ou seja, tem praticá-las na moita e não podem defende-las. È o mesmo que acontece com o Cristianismo nos Estados totalitários.
Por fim, confesso que a questão para mim é complexa. A própria visão do Olavo de Carvalho no Jardim das Aflições me parece confusa e uma intervenção providencial dele nesta discussão seria muito bem vinda.
Vou me valer de um texto de Pedro Sette Câmara para explicar melhor o que quero dizer quando digo que o Cristianismo é o fundador do Estado laico (da maneira como eu o entendo) e do liberalismo.
Pedro diz que num certo período na Espanha, as três religiões, Cristianismo, Judaísmo e Islamismo conviveram muito pacificamente, sem se impor pela força (através dos mecanismos do Estado) sem que nenhuma delas deixasse de crer que tinha a verdade absoluta. Isto para mim é o que eu chamo de Estado laico! O conceito do Georges pode ser outro, mas aí estamos falando de coisas diferentes.
E a que Pedro atribui este período de tolerância e laicismo estatal. Ao Cristianismo! Por isto digo que talvez ele seja o pai do Estado laico:
"Por isso fico tentado a crer que o período de tolerância na Espanha medieval se deu porque ela era, de todo modo, mais cristã do que judaica ou muçulmana: o Cristianismo traz embutido em si a noção de que, em 99% dos casos, a verdade não triunfará, e que sua fragilidade exterior é, de certo modo, normal. Afinal, Cristo foi crucificado, e só voltará no final dos tempos; já o Deus de judeus e muçulmanos está associado necessariamente a certas posições políticas – o judeu se define, de certo modo, por estar na Terra Prometida, na diáspora ou no cativeiro – e o muçulmano já tem um projeto de sociedade global que não pode ser modificado. Os dois se colocam em dois pontos da “profecia”, prólogo e epílogo, enquanto que o cristão está acima dela. O cristão pode entender que a tolerância pode ser uma necessidade permanente (“Pobres sempre os terei”, em Jo 12, 8; Ma 14, 7; Mt - por que interpretar esta sentença só no sentido de pobres de bens materiais?), mas o judeu a entenderá como provisória (um dia o Messias virá), e o muçulmano apenas como uma tolerância disfarçada, pois o cristão, para ele, é “uma espécie de muçulmano” – assim, não podemos dizer que ele reconheça, para usar um termo da moda, a alteridade do cristão.
Claro que qualquer um pode lembrar de abusos cometidos pelo Estado em nome d
Claro que qualquer um pode lembrar de abusos cometidos pelo Estado em nome do Cristianismo, ou mesmo pela própria Igreja. No entanto, estes são episódicos se comparados com a grande novidade política que o Cristianismo trouxe, que foi justamente a secularização do Estado, ausente tanto no Judaísmo ortodoxo quanto no Islamismo:
Veja aí o que o Pedro diz: O CRISTIANISMO TROUXE JUSTAMENTE A SECULARIZAÇÃO DO ESTADO!
Invoco Pedro Sette Câmara porque é um Católico praticante e estudioso do Cristianismo. Eu infelizmente sou apenas em parte as duas coisas.
E tem mais gente que defende esta minha posição, dentre elas uma figura ilustre, o PAPA BENTO XVI, citado por Pedro:
"A crença cristã – seguindo Jesus – negou a idéia da teocracia política. Ela produziu – para dizê-lo em termos modernos – o secularismo dos estados, nos quais os cristãos convivem pacificamente com aqueles que aderiram a outras convicções. Assim se distingue a crença cristã de que o Reino de Deus não existe como realidade política, e não pode existir desta maneira, antes sendo atingido através da fé, da esperança e da caridade, efetuando a partir do interior a transformação do mundo. Mas sob as condições da temporalidade, o Reino de Deus não é um império terreno, mas sim um chamado à liberdade da humanidade e um apoio para que a razão possa cumprir a missão que lhe é própria. Em última instância, as tentações de Jesus trataram desta distinção, da rejeição da teocracia política, da relatividade dos estados e da lei da razão, e também da liberdade de escolha, a que toda pessoa tem direito. Neste sentido, o estado secular advém de uma decisão cristã fundamental, ainda que seja necessária uma longa luta para que entendamos isto em todas as suas conseqüências."
Enfatizo o que ele disse: "Ela (a crença cristão) produziu o secularismo dos estados..."
Seu o Papa tembém é infalível nestas questões, então talvez ele tenha, agora sim, encerrado a discussão.
Obrigado Maria. È a minha opinião atual. Me parece a melhor, mas não vou advogar como verdade absoluta. Este tópico teve muitas intervenções interessane, podíamos continuá-lo. Este não é um assunto esgotado
"Especificamente em relação à ausência de uma igreja oficial, o fato se deu em razão de o clero anglicano ter se mantido fiel ao Rei da Inglaterra. Tivesse este aderido aos independentistas, a Igreja Anglicana teria se dividido (cisma) e surgiria a Igreja Americana, como religião oficial do Estado.
Até hoje a Igreja Episcopal Americana (filiada à Igreja Anglicana) é semi-oficial, e os presidentes americanos assistem a missa (ou culto) de posse em sua catedral em Washington."
Sua colocação é muito interessante, Miguel. Não tinha pensado nisso. Mas será que seria assim? Como foi colocado aqui, o protestantismo americano era muito fragmentado, não se tratava de uma população predominantemente anglicana.
Aliás, muitos dos colonos originais já tinham saído da Inglaterra justamente fugindo do anglicanismo estatal.
e o anglicanismo não é exatamente protestante, pois não adota os princípios de salvação só pela fé e livre-exame (sola gratia, sola fidei, sola scriptura), que é justamente o que as várias igrejas e seitas protestantes têm em comum.
de modo que a população predominantemente protestante e "crente na bíblia" provavelmente revoltar-se-ia contra um anglicanismo oficial americano.
E o fato de os presidentes americanos assistirem à missa anglicana na catedral de Washington na posse pode ser encarado como uma mera tradição. Um resquício elitista.
A igreja episcopal nos EUA hoje é estatisticamente a igreja da elite de sangue azul, do pessoal de New England e tal.
se me permite, gostaria de comentar alguns trechos (em itálico) da sua mensagem:
"A Inglaterra é um estado confessional anglicano, bem como a Dinamarca é um estado confessional luterano. Mônaco é um estado confessional católico."
Esses Estados confessionais protestantes estão ligados ao fenómeno das igrejas protestantes nacionais e do nacionalismo-religioso.
Na Dinamarca a população é predominantemente luterana de forma mais ou menos homogênea. Nos EUA, repito, o protestantismo era bastante fragmentando e bastante não-institucionalizado (puritanos por exemplo não tinham igrejas formais).
"Não existe isso de sociedade ou Estado laico. É uma concepção utópica, que desconhece a natureza da própria interação social. Uma sociedade só pode subsistir se compartilha referenciais comuns de "certo e errado", esse referenciais não podem ser científicos ou políticos, pois devem ser totais e o conhecimento científico ou político é compartimentado. Eles tem de ser simbólicos e transcendentes, ou seja, religiosos. Se não forem os do catolicismo, serão outros, travestidos de não-religiosos, mas religiosos ontologicamente.
A questão é: que religião está por trás dos atuais referenciais simbólicos?."
Resposta: A religião cristã.
Um Estado não-confessional pode ter uma Constituição ou Declaração de Direitos baseada em valores cristãos.
E reconhecer que esses valores são eternos e não são dados pelo Estado mas por Deus.
E tudo isso sem reconhecer nenhuma igreja cristã em específico como sendo a igreja oficial do Estado.
"We hold these Truths to be self-evident: that all Men [meaning mankind] are created equal; that they are endowed by their Creator [não pelo Estado] with certain unalienable rights: that among these are Life, Liberty" (...)
"os critérios éticos que presidirão à vida social, tendo de ser extra-religiosos, acabam por ser supra-religiosos, de vez que o Estado, ao colocar-se acima das religiões, se torna árbitro das suas disputas, e julga sem ser julgado, sem prestar satisfações senão a Deus"
Isso também pode ocorrer em Estados confessionais, nos quais ocorre uma estatização da Igreja. Na Suécia há igreja oficial e o parlamenta legisla até sobre o conteúdo dos hinos religiosos cantados na igreja oficial.
como os protestantes não têm um Papa, nesses reinos o Monarca passa a ser a autoridade religiosa máxima; isso ocorre na Inglaterra, por exemplo. No Estado confessional católico brasileiro o Imperador não era líder da Igreja. No máximo tinha uma interferência na seleção de nomes de bispos indicados, mas a decisão final era da Igreja.
de modo que no caso dos países protestantes, o Estado confessional pode ser mais perigoso do que o Estado não-confessional ("laico"). Não importa tanto se um Estado cristão é formalmente confessional ou não mas importa mais se o espírito de sua Constituição reconhece a eternidade das leis morais da tradição cristã, subordinando-se a elas. Isso me parece ocorrer nos EUA, pelo menos originalmente.
"Respondendo a pergunta do Uriel: sim, nos EUA, talvez fosse a única solução. Mas mesmo assim não deu certo, pois o problema dos EUA, sendo o protestantismo, só poderia ser solucionado com o catolicismo."
Entendo seu ponto de vista católico, porém a maioria da população americana não é católica e sim protestante. Calhou de ser assim historicamente. O que é que se pode fazer? Pelo menos são cristãos. Os iranianos também não são católicos.. e têm sua teocracia lá.
os EUA têm uma Constituição e Bill of Rights que reconhece valores cristãos.
Não se poderia impor uma Estado confessional católico a um povo protestante, não é mesmo? E esse povo protestante criou uma grande nação.
Se V. acha que essa nação "não deu certo", então V. deve estar enganad
Se você acha que os EUA simplesmente "não dão deram certo", então V. deve estar enganado.
Eu também gostaria que o Imperio Britânico ainda fosse católico, mas o que se pode fazer?
V. como católico pode talvez no máximo rezar pelas almas dos protestantes americanos e de todos os protestantes..
acho que mesmo os ultra-conservadores que são contra o Estado não-confessional e contra a democracia, o sufrágio universal e a república, como eu, hão de reconhecer que os EUA são um caso à parte.
sua revolução criou um Estado baseado em princípios tão conservadores que foi portanto uma revolução pseudo-iluminista (ou, dum ponto de vista ultra-conservador, pseudo-conservadora).
O pensamento conservador anglo-saxão temperou e freio muito o ímpeto progressista da revolução americana.
Não dá pra simplesmente descrever o império americano com os rótulos de revolução, laicismo, liberalismo, iluminismo, protestanismo etc. Trata-se de algo diferente e único.
por exemplo, o protestantismo americano não tem o espírito revolucionário e gnóstico do luteransmo e dos puritanos originais. Houve uma evolução diferente nos EUA (vide os batistas de lá). Os protestantes americanos são tão revolucionários quanto os católicos cismáticos sedevacantistas, isto é, bem pouco.
acho que o maior pecado dos EUA foi ter tentado exportar essa revolução às colônias hispânicas, numa atitude claramente subversiva, mas isso se deveu mais a uma questão geopolítica da disputa dos EUA contra seu grande inimigo, a Espanha, do que à ideologia dos líderes americanos (que eram bem conservadores) - me refiro ao apoio dado pelos EUA à independência e criação das repúblicas de Cuba etc
na verdade a notória atuação de agentes jesuítas em solo americano foi algo que pode ter precipitado essa política continental americana anti-hispânica ,anti-monárquica e anti-católica até. De modo a atuação jesuítica pode ter sido até contra-produtiva.
Bem, enfim: laicismo é uma coisa que não existe, ou um faz parte de um universo virtual.
Ou o Estado é religioso - considerando-se aqui que seguir cânones morais REVELADOS faz do Estado um Estado religioso - ou então ele é ateu, e neste caso não segue cânones morais revelados. E fica faltando dizer quais serão então os que usará e sobretudo por quê serão esses.
Não vejo muita saída, e estou gostando de jogar esta pimenta na discussão.
Como o Miguel já disse, a perfeição em Cristo nunca será encontrada na terra, o pecado original nos faz pender para o erro e sombras. O que você poderia dizer, Maria, é a respeito de uma "perfeição temporal", mas não "interior". Isso se tratando da concepção da Igreja, seguida pelos católicos.
Pedro, com sua licença, eu acho que posso responder para a Maria.
Acho que ele quis dizer que o homem jamais será perfeito. Ele tem uma imperfeição inata. O que se pode conseguir é uma "perfeição" em seu modo de vida, no trato fisico e das coisas terrenas, temporais. Nunca a perfeição interior, que não nos pertence.
É um erro acreditar que o homem pode alcançar a perfeição, como em uma evolução.
Maria, eu apenas interpretei o que achei que o Pedro dizia. Mas mesmo assim, tentar melhorar é preciso e justo. Mas ninguém vai alcançar a perfeição. É uma pequena, mas relevante diferença.
Todo o homem carrega consigo a mancha do pecado original, que mesmo apagada pelo batismo, ainda reflete na sua inerente queda no pecado, daí a importância da santificação do mundo. A Igreja ensina que a sociedade deve ser sacralizada. O máximo que o Estado consegue é fazer com que os homens vivam em paz e justiça, sem dúvida isso já é significativo, é a "perfeição temporal", mas nem de longe é a "interior".
"Bem, enfim: laicismo é uma coisa que não existe, ou um faz parte de um universo virtual.
Ou o Estado é religioso - considerando-se aqui que seguir cânones morais REVELADOS faz do Estado um Estado religioso - ou então ele é ateu, e neste caso não segue cânones morais revelados. E fica faltando dizer quais serão então os que usará e sobretudo por quê serão esses."
Priscila, acho que a conclusão a que se pode chegar após essa discussão é a de que há Estados confessionais e Estados não-confessionais (coloquemos de lado o termo "laico" por um momento).
Estados cristãos não-confessionais ("laicos") podem derivar os valores que regem suas leis e sua moral da moral cristã mesmo sem serem confessionais. É o caso dos EUA (acho). Ou podem pelo contrário colocar o Estado ou a República acima de tudo (é o caso da França - kind of)
Estados confessionais, por sua vez, subordinam-se, em tese, a uma lei maior. Mas há o caso de Estados confessionais nos quais o Monarca ou o Parlamento legisla sobre religião e nesse caso a igreja é estatizada - o que pode ser algo até mais grave do que o laicismo.
A IGREJA deve santificar o mundo, ou seja, levar a fé em Cristo, a sua piedade, ortodoxia, moral e valores, para a sociedade. Infelizmente, o que ocorre atualmente é a mundanização, muitos padres, religiosos, e fiéis, sendo levados pelas novidades nocivas temporais. Claro que a transformação começa do interior, como o Papa colocou, a partir do momento que vivemos na fé, caridade, mas isso não chega a sua "perfeição", porque como disse, o pecado é intrínseco a existência, tirando a Virgem Maria, é claro. Existem os Santos, homens e mulheres que na íntegra foram regidos por Cristo, muitos deles para isso tiveram que se isolar da sociedade. O Estado existe para fornecer ao homem uma vida justa, pacífica, com certa abundância de bens, isso é a perfeição temporal, mas não a interior, esta vai muito além.
Só para constar, eu não estou entrando no mérito do Estado laico ou confessional, minha intervenção foi apenas para falar sobre a questão da "perfeição".
"A educação é obra necessariamente social e não singular. Ora, são três as sociedades necessárias, distintas e também unidas harmonicamente por Deus, no meio das quais nasce o homem: duas sociedades de ordem natural, que são a família e a sociedade civil; a terceira, a Igreja, de ordem sobrenatural. Primeiramente a família, instituída imediatamente por Deus para o seu fim próprio que é a procriação e a educação da prole, a qual por isso tem a prioridade de natureza, e portanto uma prioridade de direitos relativamente à sociedade civil. Não obstante, a família é uma sociedade imperfeita, porque não possui em si todos os meios para o próprio aperfeiçoamento, ao passo que a sociedade civil é uma sociedade perfeita, tendo em si todos os meios para o próprio fim que é o bem comum temporal, pelo que, sob este aspecto, isto é, em ordem ao bem comum, ela tem a preeminência sobre a família que atinge precisamente na sociedade civil a sua conveniente perfeição temporal." (DIVINI ILLIUS MAGISTRI, S.S Pio XI)
PEDRO, agradeço os seus esclarecimentos, mas eu, humildemente, acho que a mundanização dos padres e freiras ocorrem justamente porque esses tais não levam a sério a ordem de Cristo para perseguirem a perfeição. Não vejo muito sentido em levar a Sua mensagem ao "mundo", a não ser com o objetivo único de convencer as pessoas a seguirem a Sua Palavra e se transformarem, já que o mundo é constituído por indivíduos.
Perfeito, e eu nunca disse o contrário. Quando falo da santificação do mundo, obviamente que os indivíduos aí estão inclusos. Vou exemplificar, São João Bosco tornava o dia-a-dia da juventude santo, numa época de explosão do pensamento liberal, protestantismo, maçonaria (Foi até subornado, e depois sofreu tentativas de assassinato por parte dos luteranos), fazia com que o cantarolar nas fanfarras e bandas, as brincadeiras nas ruas, a vivência e participação das atividades sociais, a obediência as leis do Estado, enfim, tudo fosse feito com santidade, com fidelidade aos ensinamentos de Cristo e Sua Igreja. Mesmo com essa entrega, de jovens completamente submersos na Verdade cristã, não se caracterizou uma "perfeição interna" generalizada. Comparando com a situação atual, onde a possibilidade de uma grande massa ter sua vida norteada por Nosso Senhor e a Igreja é mais remota, fica ainda mais difícil o que você chama de "perfeição interna", mas viável a "perfeição temporal".
Vou comentar um assunto que de certa forma esta relacionado com esse tópico.
É que meses atrás no observatório da imprensa debateram se era lícito a Igreja e algumas denominações evangélicas possuirem rádios e TVs,pois ambos são concessões públicas e o estado é laico e ao favorecer algumas religiões dessa forma estaria em contradição com alguns de seus princípios.
Havia convidados contra e outros a favor das ditas concessões,mas o apresentador do programa alberto dines se mostrou bastante indignado pelo fato do estado laico favorecer algumas religiões em detrimento de outras com concessões púbicas"se a igreja católica e outras evangélicas possuem TVs então esse direito deve se extender para a umbanda,por exemplo",também falou que o conteúdo das programações deve atender ao interesse público o que nesses casos não estaria acontecendo,terminou dizendo que a opus dei tem uma influência muito grande e misteriosa sobre a imprensa brasileira.
É uma forma de usar o estado laico para negar meios de expressão para as religiões.
dizendo que a opus dei tem uma influência muito grande e misteriosa sobre a imprensa brasileira
Meu Deus, o Brasil é extremamente tapado, é impressionante como até o repúdio ao Opus Dei caiu no padrão "politicamente correto" do país. Isso porque a Obra é fiel aos ensinamentos do Magistério, o que é motivo de crítica em setores brasileiros. Em outros países da América Latina o Opus Dei é muito ativo. Tem escolas na Venezuela (sofrendo horrores com Chavez), Universidades no Peru (que por sinal são maravilhosas), seminário, etc. São Josemaría Escrivá é nome de avenida importante em Santiago, e até um pico dos Andes na Bolívia. No Peru então, a devoção ao fundador pode ser comparada a que o sul da Itália tem a Padre Pio, o país representa 1/3 de todos os Bispos do Opus Dei no mundo. Muitas Igrejas e Catedrais estão colocando a imagem de São Josemaría, enfim...O Brasil é uma tristeza.
"Na constituição americana não há nenhum “muro de separação” entre religião e Estado. Quando Thomas Jefferson criou essa expressão, foi para proteger as igrejas contra o Estado. É só num mundo pós-orwelliano que ela pode ser usada como pretexto para legitimar a repressão estatal da religião.http://www.olavodecarvalho.org/semana/051222jb.htm
É certo que um homem não alcançará a perfeição divina, mas poderá alcançá-la a nível humano mesmo. Perfeição esta, aliás, que o Estado procura obter através da força das leis. Um cidadão perfeito é aquele que cumpre, rigorosamente, as leis estatais ainda que o faça a contragosto. Um homem perfeito é aquele que cumpre essas mesmas leis com boa vontade, levado pelo sentimento de responsabilidade para com o próximo. Isso para não usar a palavra Amor, que poderia desencadear outra série de posts contestatórios.
Concordo plenamente com a Maria. Acrescentaria que a mente do homem transformou a idéia de transformação interior ( a verdadeira revolução ) em transformação coletiva e da forma de governo.
Por isso é tão difícil lutar contra a esquerda em suas bases conceituais. Não se trata da dialética capitalismo x socialismo. Quem incidir nesse discurso inevitavelmente cairá na armadilha material imposta pelo inimigo. Antes, trata-se de uma subversão da fé. Jesus pede-nos que tenhamos fé para alcançarmos o Reino de Deus. Para isso a transformação interior, do coração do homem, é a mais importante de todas. Sem essa transformação, que não é intectual nem material, não é possível vislumbrar a realidade de Deus como ela realmente é: bela, perfeita e harmoniosa.
A esquerda ( ou a mente humana, essa mente material ) subverteu o propósito da fé em algo meramente mundano, dizendo que ao contrário a realidade é demente, feia e desequilibrada. O reino de Deus, onde todos serão iguais, será aqui mas o agente transformador não é o indivíduo e sim a coletividade, a massa. Deus é substituido pelo conceito de Estado, onde o Estado assume o papel de Deus na vida dos indivíduos (dialética de Hegel - O racional é real e o real é racional). O humanismo dá aos homens uma liberdade mentirosa, longe das implicações morais de seus atos mas perto de seus prazeres materiais tornam-se cada vez mais escravos de seus próprios desejos e cada vez mais duros de coração pois o verdadeiro amor só existe em Deus.
O conceito de verdade inexiste, cabendo ao mais poderoso (o Partido, a inteligentsia ou o Estado) dizer o que é verdade e o que é mentira. A dialética verdadeira (opressores x oprimidos) foi trocada pela "luta de classes". Ao invés de "pequeninos" (humildes de coração, que inclusive podem ser ricos ou não), atira-se para longe a verdade sobre o coração dos homens e substitui-se essa verdade por uma idéia de luta de classes onde os ricos são os opressores e os pobres os oprimidos.
O conceito de escassez é amplamente enraizado na mente das pessoas, tanto por socialistas como por capitalistas. A escassez existe apenas na mente do homem. Não existe escassez alguma.
A forma de governo pouco interessa, porque a verdadeira transformação está dentro de cada um de nós e não lá fora.
"O contexto americano é protestante, em que não há uma Igreja visível verdadeira. A Igreja de Cristo para os protestantes é apenas espiritual.
Neste contexto não se há falar em uma Igreja oficial."
Há um outro texto de Olavo falando da separação igreja/estado que não localizei. Trata-se de um texto em que, salvo engano meu, ele fala que essa separação nasceu por iniciativa da Igreja, que queria se preservar das influências seculares dos reis. Seria legal se alguém achasse esse texto e trouxesse para esta discussão.
Maria, adoro estudar esse período da História a que você está se referindo e gostaria, se fosse possível, de algumas referências bibliográficas.
A declaração do First Ammendment à Constituição americana ("Congress shall make no law respecting an establishment of religion, or prohibiting the free exercise thereof") teve a intenção de preservar a liberdade religiosa na Virgínia e na Pensilvania e ao mesmo tempo garantir que outros estabelecimentos religiosos em Massachussets e em outros lugares ficassem a salvo de interferência externa.
Ou seja: vale dizer que foram DISPUTAS RELIGIOSAS que justamente garantiram a LIBERDADE RELIGIOSA. O processo foi perfeito.
Eu, francamente, acho uma beleza.
Ver a liberdade individual ser estimulada junto com o sentido de comunidade permitiu que fosse criada uma combinação formidável: e tudo isto escapando da "centralização", que teria sido um entrave horrível, e estragaria tudo.