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Como ser um conservador-liberal-socialista

Iniciado por fernando_10 em 30/09/2007 · 7 mensagens

fernando_10#1
Leszek Kolakowski era um comunista devoto, mas quando começou a criticar o marxismo, foi expulso do PC polonês e se tornou um ícone do anti-comunismo na Polônia.

"Um conservador acredita que:

1) na vida humana nunca houve e jamais haverá melhorias que não custem deteriorações e males; assim, ao considerar cada projeto de reforma e melhoria, seu preço deve ser considerado. Em outras palavras, vários males são compatíveis (podemos sofrê-los simultaneamente e de forma abrangente); mas os vários benefícios se limitam ou cancelam entre si, e portanto jamais desfrutaremo-los completamente e ao mesmo tempo. Uma sociedade na qual não há igualdade e liberdade de nenhum tipo é perfeitamente possível, mas uma ordem social que combine total igualdade e liberdade não é. O mesmo se aplica à compatibilidade do planejamento e do princípio de autonomia, à segurança e ao progresso técnico. Em outras palavras, não há final feliz na história humana.

2) não sabemos até o ponto em que as várias formas tradicionais da vida social - famílias, rituais, nações, comunidades religiosas - são indispensáveis para uma vida em sociedade tolerável e até possível. Não há base para acreditar que quando destruimos essas formas, ou as rotulamos como irracionais, aumentamos a chance de felicidade, paz, segurança ou liberdade. Não temos conhecimento certo do que pode acontecer se, por exemplo, a família monogâmica for abolida, ou se o costume imemorial de enterrar os mortos desse lugar à reciclagem dos corpos para objetivos industriais. Mas faríamos bem em esperar o pior disso.
fernando_10#2
3) a idéia fixa do Iluminismo - que a inveja, vaidade, cobiça e agressão são todas causadas pelas deficiências das instituições sociais e que eles serão eliminadas uma vez que essas instituições forem reformadas - é não apenas totalmente inacreditável e contrária a toda experiência, mas também é altamente perigosa. Como é que essas instituições todas surgiriam se fossem tão contrárias à natureza verdadeira do homem? Esperar que possamos institucionalizar a irmandade, o amor e o altruísmo já é ter um projeto certeiro de despotismo.

Um liberal acredita que:

1) a antiga idéia de que o propósito do estado é a segurança continua sendo uma idéia válida. E continua válida mesmo se a noção de "segurança" for expandida para incluir não apenas a proteção às pessoas e à propriedade por meio da lei, mas também várias provisões de seguridade: que as pessoas não deveriam passar fome se ficassem desempregadas; que os pobres não deveriam ser condenados a morrer sem cuidados médicos; que as crianças deveriam ter livre acesso à educação - todas essas também fazem parte da segurança. No entanto, a segurança jamais deveria ser confundida com liberdade. O estado não garante liberdade ao agir e regular as várias áreas da vida, mas sim quando não faz nada. De fato a segurança só pode ser expandida às custas da liberdade. De qualquer modo, fazer as pessoas felizes não é função do estado.

2) as comunidades humanas são ameaçadas não apenas pela estagnação mas também pela degradação quando forem organizadas de forma que não haja mais espaço para a iniciativa e inventividade individual. O suicídio coletivo da humanidade é concebível, mas um formigueiro humano permanente não é, pela simples razão de que não somos formigas.
fernando_10#3
3) é altamente improvável que uma sociedade na qual todas as formas de competitividade foram extinguidas continuasse a ter o estímulo necessário para a criatividade e o progresso. Maior igualdade não é um fim em si mesmo, mas apenas um meio. Em outras palavras, não há motivo para lutar por maior igualdade se ela resulta apenas em nivelar por baixo aqueles que estão melhor sem melhorar a situação dos desprivilegiados. A perfeita igualdade é um ideal que se auto-destrói.

Um socialista acredita que:

1) as sociedades nas quais a busca do lucro é o único regulador do sistema produtivo estão sob a ameaça de terríveis catástrofes - talvez mais terríveis ainda - do que as sociedades nas quais o motivo de lucro foi inteiramente eliminado das forças reguladoras da produção. Há boas razões pelas quais a liberdade de atividade econômica deva ser limitada por motivo de segurança e pelas quais o dinheiro não deve automaticamente produzir mais dinheiro. Mas a limitação da liberdade deveria ser referida exatamente com essas palavras, em vez de ser chamada de uma forma superior de liberdade.

2) é absurdo e hipócrita concluir que, simplesmente porque uma sociedade perfeita e sem conflito é impossível, todas as formas existentes de desigualdade são inevitáveis e todas as formas de obtenção de lucro, justificadas. O tipo de pessimismo antropológico conservador que levou à crença absurda de que um imposto de renda progressivo seria uma abominação é tão suspeita quando o otimismo histórico no qual o Arquipélago Gulag foi baseado.

3) a tendência a sujeitar a economia à controles sociais importantes deveria ser encorajada, mesmo que o preço a ser pago seja um aumento da burocracia. Tais controles, no entanto, devem ser exercidos dentro da democracia representativa. Assim é essencial planejar instituições que compense à ameaça à liberdade que é produzida pelo crescimento desses mesmos controles.
fernando_10#4
Assim, até onde posso ver, esse conjunto de idéias reguladoras não é auto-contraditório. Portanto é possível ser um conservador-liberal-socialista. Isso é o equivalente a dizer que essas três designações particulares não são mais opções mutuamente exclusivas.

Quanto a fazer uma "internacional" conservadora-liberal-socialista - ela jamais existirá, porque ela não pode prometer às pessoas que elas serão felizes.

"Modernity on Endless Trial" (University of Chicago, 1990), Leszek Kolakowski
fernando_10#5
ERRATA

Assim é essencial planejar instituições que compensem a ameaça à liberdade que é produzida pelo crescimento desses mesmos controles.
inocncio#6
A idéia de conservador dele está equivocada. Não sei quanto aos dois outros, mas o conservador não vê a realidade por um prisma meramente material. Tentar moldar o pensamento conservador a esse prisma material acaba reduzindo o pensamento a conclusões erradas.
Para liberais e socialistas a realidade é matéria e nada existe além disso na vida e na sociedade.
O conservador acredita numa evolução interior (que pode estar atrelada à exterior ou não) ligando-se à uma coisa maior que ele tenta conhecer (Deus) e vê na família a pedra angular da sociedade. Se não for isso, não é conservador.
Para o conservador o Estado é apena um meio e não um fim. Para liberais o Estado é o assunto principal ( sua filosofia e ciência baseiam-se quase que totalmente em idéias anti-Estado) e para socialistas o Estado substitui até mesmo Deus.
Tirem o assunto "Estado" de liberais e socialistas e não terão mais do que falar.
priscila#7
Para a conservadora aqui o Estado é um mal necessário, e por dever de lógica deve ser reduzido ao mínimo possível, como qualquer mal.

É evidente que numa sociedade inteiramente boa, não haveria sentido em Estado nenhum, no sentido de que nenhum tipo de autoridade humana seria necessário. A consciência humana bastaria para a auto-regulação individual, e se encarregaria de oferecer proteção aos que necessitam dela. Isto é utópico, mas o modelo a seguir DEVE ser o utópico, mesmo.

No "Estado mínimo", está implícita a "consciência máxima" - é isso, aliás, a base do horror do comunismo, cuja metodologia é tão claramente expressa em Gramsci, que propõe a "consciência mínima" para se conseguir o "Estado máximo".

Em última análise, o tamanho do Estado é inversamente proporcional ao nível de consciência dos governados por este Estado.
Se esta lei natural for violada, o Estado se torna instável e colapsa, em algum tempo.
Foi, repito, a "sacada" de Gramsci.

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