Em 1992, Anos Rebeldes, de Gilberto Braga, criou uma confusão danada entre ficção e realidade. Tudo saiu à perfeição. Os brucutus da ditadura fizeram o perfeito contraste com jovens idealistas e inocentes — o caráter também terrorista e ditatorial da esquerda foi omitido —, e o cavalo metafórico era óbvio e manso demais para não ser cavalgado. Deu em caras-pintadas nas ruas, exigindo a deposição de Fernando Collor: por ironia, o primeiro presidente eleito diretamente depois do regime militar acabou identificado com a causa da ditadura. E todos os que se opuseram ao Caçador de Marajás se deixaram contaminar por aquela santidade idealista que emanava dos doces terroristas de Braga. Depusemos um presidente, justamente, mas ainda dentro de um roteiro de ficção.
Chamo a atenção para o fato de que a série JK abre o ano político. Um ano em que há eleições presidenciais. Foi o último presidente eleito democraticamente a concluir um mandato antes do golpe militar de 1964. Em muitos aspectos, é um anti-Lula: pobre, mas esforçado, estudou; nas contendas políticas, parecia sempre achar o prudente caminho do meio; sua imagem tinha apelos mais intelectualizados e urbanos do que a do Apedeuta.
Agora lhes pergunto:
Quem se beneficiara da ingenuidade do povo com a mini-serie J.K. ?
Quanto a informação sobre o presidente passada pela globo.
Não interessa, quero crer, o golpe militar do marechal Lott que, no fim das contas, lhe garantiu a posse. Golpe, com efeito, preventivo, já que outro estava em curso. Ao longo de seu governo, houve várias crises militares, de que a revolta de Aragarças (pesquisem a respeito) foi a mais notória. Entre seus protagonistas estava João Paulo Moreira Burnier, o mesmo que, nos dias que antecederam o AI-5, quis explodir o Gasômetro, no Rio de Janeiro. Exilou-se junto com outros conspiradores e foi anistiado no governo Jânio Quadros, que sucedeu Juscelino. O candidato do construtor de Brasília, batido pelo homem da vassoura, foi o mesmo Lott, militar, que lhe garantiu a posse. Havia algo de errado com a democracia gerenciada por Juscelino.
Esse Juscelino que se entregou à aventura de Brasília — crianças, lamento: foi uma tolice —, que endividou pesadamente o país para construir a nova capital, que entregou a seu sucessor um governo com pressão inflacionária (tudo isso é verdade, não mera campanha da UDN), que se ocupou, na reta final, de algumas manobras que buscassem garantir posteriormente seu retorno, que fez vistas mais ou menos grossas à anarquia militar, esse presidente e esse político, quero crer, vão ficar longe das telas em benefício do homem que persegue (e realiza) o seu sonho, que abre o país ao capital estrangeiro e que ganha a alcunha de “presidente bossa-nova” porque vê seu mandato coincidir com um notável momento da cultura brasileira. Fala-se, diga-se, em particular, do Rio de Janeiro. Curiosamente, a cidade foi a mais punida pelo sonho de Juscelino. Jamais se levantou do golpe de ver mudar-se dali a capital federal.
Mesmo assim sabemos que a grande população não ficara sabendo desses fatos, mesmo que muitos tenham vivido a epoca.
Ithamar,
Estou evitando assistir a mini-série, até porque a rede Globo é totalmente incapaz de retratar assuntos históricos, em que pese o talento de alguns de seus atores e cenografistas. A trama, em si, é ridícula, e a interpretação de personagens é extremamente forçada.
Contudo, convém analisar que a "peça" tenha algum impacto político, e nesse ponto concordo inteiramente com sua análise, mesmo que a qualidade do programa seja tão baixa que seja impossível deduzir qualquer personalidade política do "JK" representado, e sim, quando muito, apenas matreirices pessoais.
Dá a impressão que realmente tudo foi feito muito às pressas, sem dedicação.
A verdade é que foi muito merecida a derrota de Lott em 1960, mesmo com apoio dos comunistas e dos integralistas.
O getulismo renovado de Juscelino era um sistema que transpirava corrupção por todos os poros. No final da década de 50 estava desgastado, cometeu muitos erros e o povo queria uma mudança, até para se penitenciar de não ter eleito (por uma margem muito reduzida) em 1955 dois homens públicos do mais alto gabarito que essa nação já criou, o marechal Juarez Távora e o doutor Milton Campos.
Uma pena que em 1960 essa mudança era um oportunista sem partido que se chamava Jânio Quadros...