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Crise da Universidade: uma nota de rodapé

Iniciado por ricardo_15 em 24/11/2007 · 8 mensagens

ricardo_15#1
Este texto foi escrito originalmente como uma nota de rodapé babilônica a um artigo que eu elaborei sobre a crise da educação universitária. Eis um tema que preocupou alguns de nossos maiores scholars, a exemplo de Otto Maria Carpeaux, Roland Corbisier, Mário Vieira de Mello, Bruno Tolentino e do próprio Olavo de Carvalho. O objetivo deste tópico é estimular uma discussão quanto às razões históricas e sociais de tal fenômeno, do qual Olavo ocupou-se mais de uma vez e sobre o qual ele escreveu um de seus melhores textos, em resposta ao prof. Giannotti.

Reproduzo a nota abaixo
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"Apesar de não estar vinculada por princípio a nenhuma ideologia política determinada e tendo sido inclusive defendida por dois homens de ideologias opostas, Mortimer J.Adler e Robert Hutchins, o primeiro conservador e o segundo liberal - na acepção americana do termo –, concretamente, pode-se verificar convergências entre o projeto pedagógico de Adler e o liberalismo, tal como ele foi teorizado por sua principal vertente desde o século XVIII. Em primeiro lugar, dos três grandes modelos universitários da nossa época, os que melhor se encaixam na proposta de Adler são obra de liberais e conservadores-liberais. Logo temos como exemplo a Universidade de Berlim, fundada pelo teórico liberal Wilhelm von Humboldt, onde predominava o casamento tipicamente alemão entre pesquisa e magistério, com amplo espaço para a formação variada de uma intelectualidade de alto nível. O outro modelo é o das universidades britânicas e tem por idealizador o clérigo John Henry Newman, figura de proa do conservadorismo inglês, cujas idéias pedagógicas aproximam-se em diversos pontos das de Adler. Newman encontrava-se igualmente empenhado em restaurar a formação integral, desinteressada, do estudante.
ricardo_15#2
"Esta formação científica, mas sobretudo artística e filosófica, visava ao mesmo ideal de Mortimer Adler, - a formação de uma elite culta e profundamente identificada com tudo o que é do espírito e da civilização. Por fim, o terceiro modelo, proveniente da reforma da Universidade de Paris em 1814, já se encontra a léguas de distância do ideal de educação liberal, pois submete a atividade universitária aos critérios de eficiência do Estado e, posteriormente, aos critérios ainda mais estreitamente utilitários das corporações privadas. Se acreditarmos com F.Hayek que o liberalismo genuíno contrapõe-se ao racionalismo construtivista, o qual teve na Revolução Francesa seu marco histórico mais vultuoso, dificilmente poderíamos considerar a reforma estatista da educação francesa como uma reforma liberal, sobretudo quando se conhecem as convicções ideológicas autoritárias do autor das tais reformas: ninguém menos que o próprio Napoleão Bonaparte. Para nosso grande infortúnio, foi este o modelo universitário adotado pelo Brasil, onde há notória influência francesa na educação. Como dizia um santo medieval, Hinc nostrae lacrimae..."
ricardo_15#3
O link do texto do Olavo "Crise da universidade ou eclipse da consciência?"

http://www.olavodecarvalho.org/textos/dines2.htm
ricardo_15#4
Obrigado, Massa, pela sua contribuição. Eu só lhe pediria que desenvolvesse a crítica em termos históricos mais extensamente. Quais as razões para isso? Como é o ensino universitário na França? Qual e como é a influência aqui?

Tenho respostas pessoais a estas perguntas, mas quero saber as opiniões de vocês sobre isso. Tudo bem?
wellington_4#5
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Seja lá qual for a explicação 'concreta' sobre esse caos nas nossas universidades, creio que o marxismo é um dos grandes 'monstrinhos' que nos levaram para o fundo do poço e não pode ser ignorado.

RAÍZES DO MARXISMO UNIVERSITÁRIO - José Arthur Rios (Sociólogo)

"Ao prático da arqueologia das idéias que tentar, em época futura, a análise de nossa Universidade, não deixará de causar perplexidade a penetração nos campi acadêmicos, da ideologia marxista. Não evitará perguntar-se como tal coisa aconteceu, quais os antecedentes e conseqüentes desse modismo"

Download [ZIP/PDF]: http://www.endireitar.org/component/option,com_webli…id,27/id,27/
inocncio#6
Estou lendo "D Pedro II" de José Murilo de Carvalho (aliás recomendo) de onde retiro as seguintes informações.
D Pedro II foi largado as pressas por seu pai, o então Imperador D Pedro I, e deixado aos cuidados de José Bonifácio de Andrada e Silva ( o pai da Independência).
José Bonifácio cuidou dos primeiros anos de estudo, mas já velho, não pode acrescentar muita coisa.
Assim, foi criada uma espécie de "comissão de sábios" cuja função seria educar o pequeno Pedro para que futuramente assumisse a condição de regente do império.
O "grosso" da educação de D Pedro consistia, segundo o livro, de "Iluminismo, Humanismo e Moralismo". Veja-se que "Iluminismo e Humanismo" já são, hoje, o grosso das idéias que permeiam as nossas universidades. Iluminismo francês, claro. Estamos falando do Brasil do séc XIX e da educação dada ao futuro Imperador.
A influência francesa foi determinante na educação de D Pedro II: teve como tutores Félix Emílio Taunay (então diretor da Academia Imperial de Belas Artes e filho de Nicolas Taunay). Félix ensinava, além do desenho, história universal e das artes, literatura antiga e grego. Também foi importante conselheiro político na época.
Além de Félix constavam Luis Aleixo Borlanger( professor de escrita, caligrafia e geografia), Lourenço Lacombe (professor de dança) e o cônego Renato Pedro Boiret que ensinava francês e geografia.
O monopólio da cultura francesa já era uma realidade cultural no Brasil ainda no séc XIX.
ricardo_15#7
Luís,

Você está certo quanto ao Vilém Flusser, um pensador genial, que não se enquadrava no entanto nos parâmetros da USP e, diga-se de passagem, de nenhuma universidade do mundo. Flusser sempre foi um espírito independente e idiossincrático, como podemos ver no livro do Gustavo Bernardo Krause "Flusser e a Dúvida Cartesiana". O livro é um misto de biografia e análise filosófica, sobretudo na área de letras e linguística, onde Gustavo - ele próprio professor da Faculdade de Letras - sente-se mais à vontade.

Mas também não vamos deixar de reconhecer os méritos da USP. De uns tempos pra cá, cerca de dez anos, Flusser veio pouco a pouco tendo uma influência mais considerável em alguns departamentos de filosofia, sim. No último congresso da Anpof, por exemplo, houve a apresentação de um trabalho interessante sobre a obra de Flusser - o único filósofo "brasileiro" ao qual foi consagrado um trabalho.

Novamente, eu mesmo fui testemunha do respeito de um dos maiores mestres da ortodoxia uspiana, o grande José Arthur Gianotti, em relação a Vilém. Ele reconheceu numa palestra recente que ele deu em Salvado, sua dívida intelectual para com Flusser, quem décadas atrás lhe deu uma famosa "porrada" (palavras dele) a respeito da sua primeira tradução do Tractatus e acabou lhe sugerindo a tradução que se tornaria a mais famosa do aforismo II, "O mundo é tudo o que é o caso".

Num depoimento a Ricardo Mendes - flusseriano convicto - o mesmo Gianotti enfatizaria a importância vital de Flusser para a cultura brasileira. Lamentou-se do fato de que na época em que o pensador lecionava por estas plagas, jamais lhe tenham dado o valor que merecia.

De um modo geral, pouco a pouco a USP vai se livrando do estruturalismo obsessivo e abrindo-se a horizontes mais amplos. Note que os dois decanos da filosofia brasileira, Gianotti e Osvaldo Porchat, já fizeram um mea culpa público sobre o longo domínio - lamentável, para ambos, mas necessário - do "riguer", do rigor mortis estruturalista.
ricardo_15#8
Wellington,

Obrigado pela dica. Lerei o livro do José Artur quando puder.

Toth,

Sim, a influência francesa no Brasil vem de longa data. Mas era uma influência bem superior a influência que a França teve no Brasil desde 22. Veja, por exemplo, a formação afrancesada de um homem notável como Joaquim Nabuco, ou a própria formação cultural elevada de D.Pedro II.

Caio,

A intelectualidade portuguesa sempre teve os seus delírios anti-passadistas. Como já disse Olavo certa vez, eles abandoram os filósofos que haviam preconizado o indeterminismo de Planck, a economia liberal e concebido uma das mais finas linhas de exegese tomista e escotista de todos os tempos, fonte na qual o nosso Mário Ferreira beberia séculos mais tarde. O português é um povo nobre, mas há muito já perdeu a grandeza de outrora, quando Camões o cantava em versos.

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