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A Farsa da Renascença

Iniciado por marcos_8 em 01/12/2007 · 21 mensagens

marcos_8#1
Fernando,
a "única conquista significativa" é uma exposição, melhoramento e sistematização de um modelo já conhecido muito tempo antes. O modelo heliocêntrico já era defendido, se não me engano, por alguns pré-socráticos.

Não tem como a Igreja ficar completamente imune a essas coisas. Muitos críticos da Igreja esquecem isso. O padre, antes de ser padre, e por melhor que seja a educação dele no seminário, é um homem; foi à escola, conviveu com a família. Nenhum membro da Igreja atual nasceu há seiscentos anos.
gustavo_15#2
O padre, antes de ser padre, e por melhor que seja a educação dele no seminário, é um homem; foi à escola, conviveu com a família. Nenhum membro da Igreja atual nasceu há seiscentos anos.

Isso explica porque alguns mosteiros da Idade Média só aceitavam bebes como noviços...
marcos_8#3
Eu sei, Fernando.

O que eu quis dizer (eu enrolo a língua quando falo muito rápido, e descobri que enrolo os dedos quando escrevo no orkut nos intervalos do serviço ) é que parte do processo de "horizontalização" que muitas pessoas acusam a Igreja de sofrer é um reflexo atenuado do processo de "horizontalização" do ser humano em geral!

O clero é composto de homens. Os homens pioraram muito. Em tempos mais favoráveis, tínhamos Alberto, Tomás, Boaventura, Domingos, Calixto. Hoje temos que tomar cuidado para não termos Boffs pulando por aí.

Não sei se me fiz claro. O material humano é muito pior, hoje em dia. Se no Brasil de hoje, a grande maioria das pessoas simplesmente não consegue entender uma ordem clara se ela for dada por escrito, não dá para querer que TODO membro da Igreja no Brasil seja um gênio (mesmo que os haja).
marcos_8#4
Eu não disse que eu enrolo os dedos?

Eu quis dizer que eu sei isso aqui:

'Não entendi sua segunda objeção e menos ainda a frase "Nenhum membro da Igreja atual nasceu há seiscentos anos" - sim, mas o que isso quis dizer? Ninguém estava falando da Igreja atual.

O ponto do artigo não é um ataque à Igreja."
priscila#5
Sim, interessante seu ponto, Marquinhos.

Meio "tostines", ou seja: o homem piorou porque as Igrejas pioraram ou as Igrejas pioraram porque o homem piorou?, é o que você pergunta.
Até que ponto a Religião foi envolvida, nesta ou naquela época, numa manipulação obviamente ESTRANHA a seu propósito fundamental - que é Transcendental, e que é Bom?

É uma pergunta possível, e um bom tema. Refira-se a hoje ou ao período renascentista, reconhecidamente um marco.

A resposta equivale a um comentário sobre o Mal, e seus caminhos. É mais um "como"do que um "por quê", a rigor: o propósito do Mal sempre foi o mesmo, subjugar o Bem - nunca mudou. Como, onde e por que meios ele se infiltra é que seria o interessante debater - o Mal adota estratégias que nos parecem diferentes, embora sejam todas sempre a mesma. Mas talvez poucos sejam os capazes de reconhecê-la sempre, na hora em que acontece. E mesmo, infelizmente, depois...
priscila#6
De língua enrolada ou não, eu entendi o seu comentário... !
joel_2#7
Em matéria de filosofia, de fato, a Renascença não foi muito boa. O amor à cultura clássica também reintroduziu uma certa tendência paganizante muito ruim.

Mas no que diz respeito ao cultivo das belas letras e das outras artes, não tem como discutir.
Claro, não saíram do nada; mas algo que na Idade Média existia apenas em casos isolados e em germe, floresceu na Renascença. O conhecimento da cultura literária clássica, e a própria produção literária se refinaram muito, junto com o gosto e a técnica artística em geral.

Adoro a Idade Média; é meu período favorito. Mas o latim medieval era uma calamidade do ponto de vista estilístico. O cultivo das letras, e o estudo filológico, ganharam muito.

Não é possível ter uma visão curta da história, acreditando em caricaturas: nem a visão da Idade Média como obscurantista e nem a visão do "século XIII dourado seguido de decadência em tudo" são verdadeiras.
marcos_8#8
É, eles não tinham banho quente, chope gelado, marlboro, nem papel higiênico, não podia ser tão bom assim.

Uma trolladinha rápida para descontrair.
priscila#9
É verdade, Joel: é por isso que cabe o debate!

Tendo sido um período áureo para a Arte, a Renascença marcou também o início de uma alteração no relacionamento dos homens com Deus. O homem medieval expressava em sua arte a idéia de distância, de transcendência, de vertical. Na Renascença, esta distância encolheu. O uso da perspectiva na pintura "humanizou" - ou horizontalizou - a Transcendência. O que antes era divino e distante passou a ser humano e próximo. Não?
Eu gostaria de saber o que vocês pensam, e quais as conseqüências disso, na opinião de vocês. A visão do Islã a respeito deste assunto seria também muito bom ver representada aqui.
marcos_8#10
Alguém aí pensou em "obras de Aristóteles valorizadas pela Igreja na Idade Média" = "alto desenvolvimento intelectual"; "Poética Aristotélica redescoberta e valorizada no Renascimento" = "alto desenvolvimento nas artes"?

Não? Nem eu.... Ultima trollagem, de volta ao trabalho.
marcos_8#11
PS. Leiam "grande" onde está "alto", para a frase ficar menAs lulesca.
luizpaulo#12
Acho essa terminologia errada.A Renascença é muito mais um período de decadência do que de renascimento,até porque o que foi resgatado da cultura antiga foi basicamente a estética.O mais importante,a religiao e os costumes,nao voltou.Quem disse isso foi o Mário Ferreira dos Santos na palestra ¨Crise do mundo moderno¨,quando fala dos ciclos históricos da humanidade.
priscila#13
É, mas a arte da pintura se deu muitíssimo bem. A pintura flamenga dos séculos XV e XVI e até a metade do XVII jamais, never ever, teve qualquer coisa à sua altura desde que o mundo é mundo e alguém pegou num pincel. Então não é tão simples assim, não? Essa farsa tem que ser melhor compreendida, francamente. Porque das iluminuras até os pintores de Flandres, passando por inúmeros italianos inspirados - aqulo tudo foi uma BELEZA! Um escândalo de lindo...
ricardo_15#14
A pintura renascentista do século XV é uma das manifestações mais altas do Espírito: ninguém negará a um Masaccio, a Donatello, Botticelli, Holbein as honrarias devidas asos maiores mestres.

Veja-se, por exemplo, o caso de Donatello. Em termos de originalidade, poucos escultores comparam-se a Donatello. Donatello recupereou a descoberta principal da escultura clássica, o contrapposto. Reparem no naturalismo brutal da "Maria Madalena", talhada como uma senhora idosa e de aspecto frágil. Esta escultura era tão viva, a expressão tão convincente que, segundo testemunhos da época, Donatello chegou a exclamar: "Fala, fala, ou morrerás de peste!"
ricardo_15#15
Ah, sobre a concepção tradicional da Arte recomendo sobretudo os escritos de Ananda Coomaraswamy e o livro magistral de Titus Burckhardt "Princípios e Métodos da Arte Sagrada"

Há um texto do Ananda traduzido aqui:

http://www.grupotempo.com.br/tex_bel_ver.html
renan_6#16
Bom, para este assunto, eu deixo que as idéias e afirmações de Mário Ferreira dos Santos se pronunciem. A percepção e a erudição deste pensador é algo que escaparia à maioria das pessoas do mundo.

Pois bem:

Em Análise Dialética do Marxismo (e possivelmente em outras obras suas, que ainda não li), Mário destaca o "esquecimento" ou mesmo um tipo de "indiferença infantil" em relação à Escolástica por parte da dita Filosofia Moderna. A própria Filosofia Moderna só toma forma a partir de um má leitura dos estudos e investigações de gigantes do pensamento como Duns Scotus e São Tomás de Aquino. Tal desdobramento foi mal executado mesmo por muitos dos seus seguidores (no que Mário acabou chamando de "Escolaticismo").

Ao tratar do background que teria culminado na "reação marxista", Mário faz uma pequena regressão histórica, voltando aos meados da Idade Média e derrubando com o mito de mecanização inerente ao Iluminismo. O filósofo afirma que a mecanização do homem já começa no mosteiro e nos exércitos, citando principalmente o Relógio (que veio a ser o "símbolo" do mecanicismo moderno, não é?), a Imprensa, o moinho, a bússula, o tear, o torno, a pólvora (na China, oras), o papel, a Matemática, a Química e a própria Mecânica.

"São os Beneditinos em grande parte os fundadores do capitalismo moderno", afirma Mário na página 18 da minha edição.

Ele ainda traça um interessantíssimo paralelo entre o ideal Greco-Romano, que seria um sistema orgânico, e o Católico, que uniria Espírito e Mecânica, quando a visão pecaminosas de si mesmo (pessoa) o força dirigir-se definitivamente para o mundo.

Para Mário e para Lewis Mumford, que ele tanto cita nesta parte de sua obra, é o RELÓGIO MECÂNICO, definitivamente, a máquina mais importante para a derradeira Revolução Industrial, e não a Máquina à Vapor.
renan_6#17
Já no Renascimento, finalmente, o "porque" da Filosofia torna-se o "como" da Ciência, no que sintetiza-se o predomínio do Modo no conhecimento humano. Max Weber chama a época de "Romantismo dos Números".
Surgem os grandes banqueiros, muda a acumulação de ouro, há o movimento de "ganho e perda", enquanto as restrições dos católicos aos juros e ao culto do dinheiro vão sendo soterradas pelos Prostestantes e por Calvino.
A Máquina tem como único objetivo o lucro.

É a época em que desperta o Valor dos Números, do Quantitativo.

"O Capitalismo existiu em outras épocas, mas com técnicas diferentes", p. 23.

O Racionalismo Empirista de um São Tomás cede lugar ao Racionalismo Abstrato de um Descartes. Passamos de uma visão mística para uma visão natural das coisas.

Mário Ferreira dos Santos considera o Renascimento um erro, pois o movimento tentou retornar a um ideal Greco-Romano que já não era mais possível, e assim passou a procurar o valor Mecânico até mesmo no ideal Orgânico. São os "fins práticos", o planejamento do futuro, as previsões e os desejos racionalizados.
renan_6#18
O militarismo de feudos cede espaço aos exércitos de massas, simbolizando uma centralização dos poderes que já se dava de forma natural. As cortes, a queda da Aristocracia desregrada e a ascensão final das Burguesias.

Mário Ferreira, baseando-se em Patrick Geddes e, principalmente, em Pierre Kropotkine, divide a evolução do Homem em etapas bem distintas (e bem peculiares, frente a todos os estudos que nos acostumamos a ler): Eotécnica (antiguidade até o Renascimento), Paleotécnica (rev. industrial) e Neotécnica (países desenvolvidos do sec. XX e adiante).

1) Eotécnica - com auge no século XI d.C., prosseguindo até meados de 1750, e seus últimos representantes foram Da Vinci e Galileu. Para Mumford, o Renascimento foi um Crepúsculo.

Enquanto os Gregos têm um ideal orgânico (espírito e matéria-mecânica) e os Cristãos separam o espírito e a mecânica, os Renascentistas dão o disparo de partida no que viria a ser o pensamento mecanicista.

"O Homem diminuiu no Sentir, mas aumentou no Poder". P. 36

É o auge da utilização dos moinhos, originando maiores fornalhas, mais ferro, aumentando a produção. A Europa se difunde e alcança maior equilíbrio político-demográfico. Surgem as grandes cidades de Londres, Amsterdam, Paris, Lyon, Nápoles, etc. Os Países Baixos desenvolvem-se espetacularmente.

E então surge a Paleotécnica, e Mário começa sua análise da Revolução Industrial e do cenário que resultaria em doenças como o Marxismo e o Stalinismo.

Mas, bem, isso é história para uma outra hora.
priscila#19
Não, Renan, eu até acho que é história pra essa hora aqui, mesmo. Um desdobramento lógico.
É isso: aquilo que levou a humanidade de Aquinas a Descartes terá sido o que levou a mesma humanidade da arte medieval até a arte da Rensacença?

O Islã diz que sim, que foi, que é - e que este "aquilo" é mau, negativo, não vale a pena, é um péssimo negócio!
E o Ocidente contesta...

É um debate mo-nu-men-tal-men-te interessante! !
Eu, se tal debate surgir, estarei na fila "do gargarejo"...
renan_6#20
Estava ouvindo as aulas de Mário e me deparei de novo com suas críticas ao mundo moderno e sua cosmovisão mecanicista e tão desinteressada da enorme filosofia medieval.

Gostaria de retomar este debate.

Abraços!
marcos_12#21
"É o auge da utilização dos moinhos, originando maiores fornalhas, mais ferro, aumentando a produção. A Europa se difunde e alcança maior equilíbrio político-demográfico. Surgem as grandes cidades de Londres, Amsterdam, Paris, Lyon, Nápoles, etc. Os Países Baixos desenvolvem-se espetacularmente."

Sempre que leio coisas nessa linha, lembro da tese do Alain Peyrefitte, em A Sociedade de Confiança, onde ele coloca o fenômeno de divergência na Europa ligado à Reforma Protestante e à Contra-Reforma.

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