Não deu pra entender o contra-argumento, o que eu gostaria de ter feito.
Enfim, como contribuição, Aquinas estava certo. A matéria "empurra" a si mesma para criar o tempo e o cria, como qualquer dimensão anterior constitui o que é capaz de criar a posterior.
Um exemplo: a página do "Word"no seu computador não é, assim de cara, "infinita".
Nela só cabem "x"caracteres. No entanto, se você for preenchendo esses espaços com caracteres, ao chegar no final da página verá que ela vai "se desdobrando"e continuando. A barra de espaços não é capaz de fazer a mesma coisa.
Ou seja: só a matéria desdobra a matéria e cria o espaço e o tempo. O espaço é uma contingência da matéria, e não existe sem ela. e vice-versa. E o tempo é uma contingência do espaço, e não existe sem ele. E vice-versa.
Em resumo, é matematicamente impossível uma qualquer coisa ser elevada a uma determinada potência sem que seja possível sua elevação a uma potência menor.
É um paralelo razoável. Limitado, mas decente. Espero que todo mundo tenha entendido. !
Não dá pra ficar no meio, e pensar que somos partícipes de uma partícula da Verdade? Que justamente fomos e somos continuamente CONVIDADOS a ser?
Deus não pode, é claro, ser "decifrado"; isto seria uma tolice idiota, uma insuportável arrogância imbecil.
Mas nos fez Seus filhos, e nos permite que entendamos e participemos deste pedacinho de Verdade que nos cabe, e que tão bondosamente nos é eternamente oferecido.
Francamente, eu penso que Ele QUER isso!
Ser pateta por opção me parece um pecado horrível. Além de uma ingratidão imperdoável.
O artigo é um equívoco do início ao fim e os comentários de vocês não são lá muito melhores.
Sobre a ausência de Amor do Islam, isto é simplesmente uma palhaçada: "Via do Amor" é precisamente o nome que se dá ao taçawwuf, a doutrina do esoterismo islâmico que é, como em todas as Tradições, o núcleo (el-lobb) e o Espírito da Tradição.
O que Franz Rosenzweig diz sorbe as ciências islâmicas terem acabado duas gerações depois do grande Sufi Abu Hamid al-Ghazzali denota menos conhecimento dos fatos do que o mal disfarçado intuito de fazer propaganda.
As ciências tradicionais islâmicas, Al abjad, Al simîa, al Kimyîa, a cosmologia tradicional, a quirologia tradicional, entre tantas outras ciências que abarcam toda a ordem da natureza e do mundo criado, continuam vivas até hoje.
Por fim, o articulista faz um elogio a ateísta Hirsi Ali. Naturalmente, se ela fosse uma ateísta cristã ele não faria elogio algum a sua coragem, mesmo se ela tivesse cantado na fogueira da Inquisição - como fez o heresiarca Jan Hus - ou sambado em frente de um pelotão de fuzilamento cristão como os houve na Espanha franquista.
Quanto as contribuições que os islam pode oferecer ao Ocidente, são várias e em várias áreas, incluindo a restauração das ciências tradicionais da Natureza, que o Franz Rosenzweig parece desconhecer.
Ibn´Arabí foi apenas uma montanha de uma cordilheira. Não há verdadeira metafísica "individual", de vez que a metafísica em questão (na verdade, o termo gnosis é preferível pelo equivalente exato em árabe, marifah) é um conhecimento supra-formal e supra-racional. Neste sentido convém ler e traduzir as obras de Alawi, Shahdili, al-Ghazzali, Karim al-Jili, al-Hallaj, al-Busani, al-Qadiri, entre tantos e tantos Sábios do islam.
Isto fora as reflexões das ciências exteriores como a jurisprudência (Fiqh), a filosofia (falsafa), a medicina (em cujas concepções Sto.Alberto tanto aprendeu), etc, etc.
Há uma seletividade muito curiosa quanto às "boas maneiras" nesta comunidade. Se bem me lembro, havia um tópico aqui sobre o escritor Ariano Suassuna, e neste tópico, entre outras expressões delicadas e educadas que se utilizavam para qualificar o grande escritor, havia tais como "Arriando Sua sunga", "velho gagá", "fala merda", enfim.
Lembro-me também que de um modo geral as pessoas não se incomodaram com tais expressões quando aplicadas a um dos melhores escritores do país, e por quê? Porque ele havia defendido o PSB num programa político.
Eu não fiz nada disto. Apenas critiquei um artigo ruim, chamando um certo argumento de "palhaçada". Fazer-se de ofendido diante de um substantivo tão leve, bem mais leve do que os vários que nesta mesma comunidade se utilizaram para qualificar várias pessoas, denota ou uma verdadeira sensibilidade de gentleman ou - como creio - o desejo de pintar os "guenonianos" (entre os quais você me inclui...) como pessoas mal-educadas e sem argumentos.
Mas vamos agora aos argumentos:
Você me diz que a minha objeção não vale porque o artigo menciona a inexistência do Amor de Deus às criaturas e o taçawwuf fala de outros tipos de Amor.
O que você não percebeu - e eu queria ver até que ponto iria sua incompreensão - é que a "Via do Amor" só o é precisamente porque reflete, no microcosmo humano, o Amor divino às suas criaturas.
Sem este Amor, é completamente impensável a "Identidade Suprema" - ao mesmo tempo que um ser "ama" a Allah, Allah o ama e deste modo lhe atrai para o centro da sua existência onde ele ouvirá o que lhe diz o seu Coração - entendido aí como a sede do Intelecto - e assim poderá gradualmente remontar até a Origem, através do discernimento (furqan). Sem este movimento duplo do Amor, que na tradição cristã seria simbolizada pelos rios faiscantes de que nos fala Hugo de São Vitor, não há Realização Espiritual possível.
Mas nem é preciso ir até a parte mais interna da doutrina, até o esoterismo islâmico. a leitura da Surâta abaixo já nos adverte quanto ao erro de dizer que no islam o Amor de Deus às criaturas "não é mencionado"(sic)
"Certamente que vos poremos à prova mediante o temor, a fome, a perda dos bens, das vidas e dos frutos. Mas tu (ó Mensageiro), anuncia (a bem-aventurança) aos perseverantes. Aqueles que, quando os aflige uma desgraça, dizem: "Somos de Allah e a Ele retornaremos". Estes serão cobertos pelas bênçãos e pela misericórdia de seu Senhor, e estes são os bem encaminhados." Surata 2: 155-157
Como todas as Tradições assinalam, um texto sagrado é sempre polissêmico, ou seja, guarda em si vários sentidos para os vários níveis de compreensão. Mas, mesmo uma leitura simples e literal da Surâta acima reproduzida mostrará o óbvio: Allah ama suas criaturas, pois Ele é misericordioso com elas.
A misericórdia é, aliás, uma das duas colunas do templo - Rigor e Misericórdia.
"Aliás, já que há tanto amor no Islã por que não a trataram com amor?"
Pergunte isso para Carlos Magno quando ele converteu os saxões, ou para Sto. Agostinho quando ele recomendou punições físicas - bastante duras, devo dizer - aos hereges.
Poderia eu replicar: "Aliás, já que há tanto amor no Cristianismo por que não trataram os saxões com amor e os hereges também?"
Se eu fosse um oportunista, esta réplica seria bastante apropriada e muitas outras réplicas do mesmo estilo que a história do Cristianismo pode endossar. Mas não o farei. Não o farei pelos motivos que vou expor adiante.
Certa vez tive a oportunidade de dizer algo similar a meu amigo David Magalhães nesta mesma comunidade quando ele pintou a mitologia nórdica de um modo pejorativo. Eu disse:
"Ora, se existem episódios “ridículos” na mitologia nórdica (ou que podem se revelar como tal fora de contexto) quantos episódios deste mesmo tipo você não encontra na própria Bíblia? Por esta singela razão, seja mais moderado na crítica a outras religiões, ou melhor: seja tão lúcido, paciente e atento quanto é em relação ao cristianismo. Não ridicularize a mitologia multissecular de um povo. Se quiser discordar, discorde. Não há méritos em se advogar um ecumenismo lasso cuja única serventia foi dissolver a fé dos indivíduos sinceramente religiosos. Mas discorde com respeito. Que a mitologia nórdica esteja muito distante desta caricatura é felizmente uma opinião compartilhada por muitos estudiosos cristãos os quais, por seus longos anos de estudo sobre esta mitologia e por sua fé ilibada, têm muito mais autoridade para falar de mitologia pagã. Só dois exemplos, e dos maiores: C.S.Lewis e J.R.R.Tolkien.
[...] Você me pergunta o que a mitologia nórdica tem de genial. Por outro lado, o cristianismo lhe parece belíssimo. Que expressões educadas para descrevê-lo e falar da música que o descreve! É a “intersecção do atemporal no tempo”, é a “distância entre o Criador dos Céus e o Homem”. Da primeira expressão, com uma verve satírica maior talvez pudesse ser dito: “Esses cristãos não deviam saber aritmética. Têm um Deus que é um só e três ao mesmo tempo. Esse mesmo Deus, ora furioso (Apocalipse), ora supremamente misericordioso, mandou seu Filho (que na verdade é ele mesmo) para morrer num instrumento de tortura da época”. Seria errado descrever a encarnação deste modo, David?"
"A mitologia nórdica como todas as outras mitologias - inclusive a cristã - se constitui numa elaboração poética e simbólica de uma verdade arquetípica, numa gnose. Esta palavra, raramente ouvida em nossos dias, não tem aqui o sentido tradicional de conhecimento intuitivo de realidades espirituais, mas o de uma teoria completa do cosmo, do sentido da vida, da moralidade e de todos os aspectos do real. Uma teoria cujo cerne é sempre simbólico e poético (na acepção grega do termo)."
Evidentemente, as mesmas palavras podem se aplicar às relações entre islam e cristianismo. É perfeitamente natural que alguém que se coloca desde um ponto de vista exotérico considere a sua própria Tradição como a melhor. Eu jamais diria que isto é privilégio do cristianismo; os muçulmanos fazem a mesmíssima coisa e quando ouço um muçulmano referir-se a tradição cristã de modo pejorativo faço críticas simétricas a ele também.
É bom lembrar que a suavização dos costumes não é peculiar ao cristianismo, mas sim à época burguesa, como bem assinalou o grande historiador Peter Gay.
O islam não conheceu esta suavização; seus costumes permanecem mais ou menos os mesmos que os de séculos atrás, atestando uma estabilidade inexistente no Ocidente. Há pontos positivos e negativos quanto a isso, mas não me cabe aqui avaliá-los.
Por fim, você me pede que eu mostre os "avanços" que as ciências tradicionais tiveram nestes últimos séculos. Esta pergunta já mostra o quanto a sua compreensão é defeituoso sobre as ciências tradicionais. Uma ciência tradicional não pode ser avaliada em termos de progresso.
Uma ciência tradicional é um conjunto de saberes que está de acordo com os Princípios metafísicos e que emana destes. Estudar uma ciência tradicional é estudar a ordem do cosmos para remontar até a origem além do cosmos.
Sobre Ibn´Arabí, eu não lhe acusei de dizer que a metafísica dele era individual. Você não disse isso, eu sei. Apenas fiz uma "precisão" para evitar possíveis equívocos.
Você tem muita razão, Ricardo: o Islã não conheceu a suavização mencionada, e o Cristianismo a conheceu por vias não cristãs - e não é este o tema do tópico.
Mas, a rigor, eu gostaria de mencionar que o Cristianismo já começou a existir mais "suavizado" do que o Islã, guerreador desde o seu começo - ou, melhor dizendo, confuso e contraditório sob este aspecto, como você há de convir.
O Islã como modelo de tradição jamais deixou de ser aquilo que nasceu sendo, ou seja: a jihad nunca deixou de fazer parte inerente dele.
Já a tradição cristã não comporta a guerra santa senão como discutível recurso, não inerente a seu fundamento.
Resumindo: a jihad não torna o Islã menos islâmico, mas a guerra santa torna o Cristianismo menos cristão.
Se quisermos seriamente conversar sobre o Islã aqui, eu gostaria muito.
Proponho uma abertura, então - a de que a Tradição Islâmica teria sido construída exatamente pelos grandes filósofos muçulmanos, já mencionados aqui, e que o Islã só existe como Tradição boa "apesar" de Maomé, e não "por causa" de Maomé. O fato de existirem suras contraditórias se deveria a uma espécie de adaptação a determinadas circunstâncias temporais, e o responsável por essas contradições seria, justamente, Maomé. Toda a vez que o Islã volta a Maomé, ou volta portanto a essa condição desvinculada do pensamento de seus grandes representantes, se torna contraditório e confuso como é em princípio.
Depois dessa "jogada de lenha na fogueira" pra animar o debate, fico aguardando o comentário dos amigos...
A guerra santa não torna o cristianismo menos cristão. Esta é uma tese moderna. São Luís de França não foi "menos cristão" por ser um cruzado. São Bernardo não foi menos santo por ter fundado a Ordem do Templo.
Priscila, Ibn´Arabi, Rumi e outros foram awliya - santos - e mestres do taçawwuf. Não filósofos. Filosofia é falsafah e pertence a um domínio inteiramente diverso de ciência. Não faz parte das chamadas "ciências religiosas" do islam, entre as quais se inclui o taçawwuf. Filosofia é especulação racional; taçawwuf é via de união metafísica. Não há incompatibilidade de princípio entre elas, vide o exemplo do venerável Al-Farabi, que era sufi e filósofo (e dos maiores) ao mesmo tempo.
A tese de que o islam é bom "apesar" de Maomé é um absurdo total. Em primeiro lugar, para que ela fizesse algum sentido (nem estou cogitando a sua veracidade, mas apenas o seu sentido) seria preciso que você me demonstrasse uma incompatibilidade entre os ensinamentos dos awliya e os de Maomé. Ora, o fundador do sufismo É Maomé.
A silsilah (cadeia de transmissão da influência tradicional) remonta aos primeiros califas e destes ao próprio Profeta, cuja ascesão espiritual está simbolizada na Segunda Noite, a noite do miraj - a ascensão do Profeta e a visão de Allah. Não existe tradição boa "apesar" de Maomé. Ademais, Maomé sempre foi considerado entre estes mesmos mestres do islam ortodoxo que eu citei como modelo de realização espiritual e modelo de virtudes.
Logo, a oposição que você pretende levantar entre o Profeta e os tais "grandes representantes" é um completo nonsense à luz das categorias do islam. Uma tradição é tradicional porque remonta a Fonte primordial da sua Revelação e não porque a nega, evidentemente.
Lembre-se da Shahadah: Não há Deus senão Allah e Maomé é seu Profeta.
Oh, eu certamente sou uma infiel, do ponto de vista do Islã.
Mas realmente eu penso isso que disse.
Eu acho que a jihad torna o Islã mais islâmico e que o Cristianismo saiu das Cruzadas menos cristão do que entrou. Os barões francos que me desculpem, mas é o que penso firmemente.
Maomé alterou a sura 53, que dizia: "Elas (as três deusas Al-lat, Al-Uzza e Manat) são sublimes, e podemos confiar em sua intercessão junto a Allah".
A concessão que esta frase expressa reconciliou Maomé e os Quraish - mas o profeta certamente julgou que havia pago um preço alto demais, e eliminou essas linhas, como inspiradas pelo diabo. Este episódio faz parte da Tradição do Islã, a propósito. Maomé me perece sincero - mas me parece também hábil. Até que ponto a habilidade interferiu na sinceridade, eu certamente não posso senão especular.
De qualquer forma, certamente interferiu.
Em Meca, Maomé é um pregador de uma religião, em busca de discípulos. Em Medina, ele é um político, um organizador religioso e um guerreiro. Em princípio, o fundador de uma religião - e depois, o fundador de uma nação.
O manifesto redigido por Maomé e que nos chega graças a Ibn Ishaq reconhece absoluta igualdade entre muçulmanos, pagãos e judeus de Medina, sendo apenas os Quraish os inimigos de Deus. Maomé será então o pacificador, o juiz e o comandante da armada nessa nova comunidade. Nào se trata portanto, Ricardo, de um conflito religioso: se trata de um conflito racial.
Eu respeito o Islã, mas o Islã é extremamente difícil de ser bem analisado.
E os paradigmas do Cristianismo não se encaixam nele com facilidade.
Para entender o Islã, é preciso entendê-lo de DENTRO - que é o que eu tento fazer, "anulando"o meu Cristianismo ao máximo, tentando não usar meu modelo.
Quanto aos sábios terem "ajustado" as falhas que menciono, não vejo como negar isso. A idéia do Islã sublime não vem de Maomé, ou por outra: vem com defeitos, vem contraditória. Por culpa, sim, de atos de Maomé, como não!
Maomé em Medina torna-se, e FOI, dotado de grande oportunismo político. A religião em si me parece ter ficado em segundo plano - e mesmo a esmola passa a ser uma contribuição para o tesouro da guerra!
Em Medina, quando os únicos inimigos são os Quraish - e os judeus são aliados - é que surgem leis e instituições de inegável influência judaica (o número de mulheres, o uso de areia à falta de água nas abluções, a proibição de comer a carne impura de porco ou outros animais, até a hora da oração matinal determinada pela possibilidade de se distinguir um fio branco de um fio preto. Tudo isso vem do Judaísmo, como eu sei perfeitamente).
Mais tarde, quando houve uma cisão entre Maomé e os judeus, tais práticas continuaram, mas porque já estavam estabelecidas - e Maomé apenas pode alterar a direção da Qibla, para expressar a mencionada cisão...
"A guerra santa não torna o cristianismo menos cristão. Esta é uma tese moderna. São Luís de França não foi "menos cristão" por ser um cruzado. São Bernardo não foi menos santo por ter fundado a Ordem do Templo."
Acabei de escrever algo parecido em outro tópico... Tinha me esquecido de São Bernardo.
Quanto a questão de amor no Islam, de fato aparece a palavra amor vez ou outra nas suas fontes principais, entretanto o termo amor no islam nunca é usado como no cristianismo, como amor incondicional por todas as coisas.
Fala apenas de amor da divindade para com os humanos e o contrario, etc ...
Amor por todas as coisas, de amor impessoal, compassivo, do estado de amor infinito, não é citado no Alcorão uma única vez.
Já a palavra castigo é pronunciada em tom ameaçador mais de 332 vezes no Alcorão.