Fórum Olavo de CarvalhoArquivo da comunidade do Orkut · 2004–2013

O Islã reformulará o Alcorão?

Iniciado por frankherles em 09/01/2008 · 56 mensagens · página 1 de 2

frankherles#1
Pelo menos é o que pretende diversos e pequenos movimentos de muçulmanos liberais nos Estados Unidos, Canadá e Inglaterra.
http://frankherles.wordpress.com/category/politics-politica/page/2/

O link acima é a página de um desses movimentos traduzida para o Português.

Eu pessoalmente acredito que os radicais não permitirão que isto ocorra... Mas que aliviariam as tensões sobre uma possível guerra das civilizações, com certeza aliviaria...
O que vocês acham disto?
ricardo_15#2
Assim como islamizar o cristianismo equivale a destruí-lo, ocidentalizar o islamismo é negar a sua essência e a sua tradição. O islam deve retornar à pureza das suas fontes, a estrita observância dos ahadith do Profeta e a submissão à autoridade dos seus Sábios. E só.
ricardo_15#3
Aliás, o islam mais ortodoxo e fiel aos ensinamentos antigos continua vivo e atuante. A ascensão de grupos como a Irmandade Muçulmana não tem nada a ver com uma suposta fidelidade à tradição. Movimentos como este são modernizações espúrias, tão absurdas em princípio quanto a pretensa "ocidentalização" do islam.
leonardo_26#4
obvio que ocidentalizar é "cristanizar". ocidente = cristianismo

por isso nao dara certo esse negocio de ocidentalizar o islã
bruno_25#5
O Islã que invadiu a Europa a 1000 anos era "puro"?
ricardo_15#6
Caio,

Eu prometi que analisaria o livro do Hillaire Belloc quando voltasse de férias. Infelizmente, por estas circunstanciazinhas chatas da vida, eu ainda não pude viajar. Estou partindo amanhã. Quando voltar, escreverei um breve estudo sobre Hillaire Belloc que disponibilizarei aqui. Dê tempo ao tempo: a vida corre vagarosa e eu a acompanho de bom grado.

O que você falou sobre Guénon é ao mesmo tempo ingênuo e presunçoso.

Já disse várias vezes: é preciso ter senso das proporções. E a direita está perdendo o sadio senso das proporções. Quando vejo certas pessoas daqui ridicularizando um Ariano Suassuna porque ele é socialista, não posso senão me lamentar pela vaidade demente que leva alguns a se julgarem no direito de achincalhar quem é infinitamente maior do que elas.

Você realmente não tem nível cultural ou intelectual para menosprezar um autor da envergadura de René Guénon. E o mesmo vale, aliás, para autores de esquerda como Benjamin, Horkheimer, Bobbio, Kojève... Intelectuais de esquerda costumam ser menosprezados por aqui também. Não sei de nenhum membro desta comunidade (exceto Olavo) com cacife para discutir estes autores em alto nível e, portanto, para tomar certas "liberdades" no trato com eles. O mesmo se diga em relação a Guénon. Seu plano é outro, Caio: e está bem abaixo. Comporte-se de acordo com ele.

Mas, vamos lá

Guénon não é contra "qualquer tipo de progresso". Guénon reconhece o valor específico do progresso das ciências ocidentais e do seu fruto vistoso: a técnica moderna. Vejamos o que diz o próprio Guénon em Oriente y Ocidente:

"Tenemos que insistir un poco sobre esta última distinción: lo que queremos destacar con esto, es que no vemos nada de malo en sí en el desarrollo de algunas ciencias, incluso si encontramos excesiva la importancia que se les da; no es más que un saber muy relativo, pero no obstante es un saber, y es legítimo que cada uno aplique su actividad intelectual a objetos proporcionados a sus propias aptitudes y a los medios de que dispone.
ricardo_15#7
"Lo que reprobamos es el exclusivismo, podríamos decir el sectarismo de aquellos que, deslumbrados por la extensión que han tomado esas ciencias, se niegan a admitir que exista nada fuera de ellas, y pretenden que toda especulación, para ser válida, debe someterse a los métodos especiales que esas mismas ciencias ponen en obra, como si esos métodos, hechos para el estudio de algunos objetos determinados, debieran ser universalmente aplicables; es cierto que lo que conciben, como universalidad, es algo extremadamente restringido, y que no rebasa el dominio de las contingencias. Pero se sorprendería mucho a esos «cientificistas» si se les dijera que, sin salir siquiera de ese dominio, hay una multitud de cosas que no podrían ser alcanzadas por sus métodos, y que, no obstante, pueden constituir el objeto de ciencias completamen-te diferentes de las que conocen, pero no menos reales, y frecuentemente más interesantes en diversos aspectos."
ricardo_15#8
E ainda:

"La metafísica es el conocimiento de los principios de orden universal, de los que todas las cosas dependen necesariamente, directa o indirectamente; así pues, allí donde la metafísica está ausente, todo conocimiento que subsiste, en cualquier orden que sea, carece verdaderamente de principio, y, si con eso gana algo en independencia (no de derecho sino de hecho), pierde mucho más en alcance y en profundidad. Por esto es por lo que la ciencia occidental es, si se puede decir, completamente superficial; al dispersarse en la multiplicidad indefinida de los conocimientos fragmentarios, al perderse en el detalle innumerable de los hechos, no aprende nada de la verdadera naturaleza de las cosas, que declara inaccesible para justificar su impotencia a este respecto; así su interés es mucho más práctico que especulativo."
ricardo_15#9
Pedro,

As críticas mais inteligentes que eu li e ouvi a respeito de Guénon foram de tradicionalistas. Críticas a Guénon nesta comunidade são patéticas. É coisa de criança.

Mas não é certo dizer que com Guénon só se pode aceitar em bloco ou rejeitar em bloco. De fato, não é assim mesmo. Pode-se, sim, aceitar uma parte do que ele escreveu e recusar outra parte. Por exemplo: na famosa querela sobre a natureza do batismo, eu creio que Guénon estava errado. A opinião de Schuon me parece mais convincente e mais fácil de ser apoiada pelos escritos dos Padres.
priscila#10
Eu considero René Guénon um sábio.
Também considero Albert Einstein, guardadas as proporções, um sábio.

E devo dizer que ambos erraram, teimando em cima de asserções que se comprovaram não verdadeiras. Não penso que tal coisa interfira no seu grau de sapiência, que não é deslustrado por um engano. Mas também não acho que o engano deva ser desconsiderado. É até meio insultuoso fingir que ele não existiu. Parece uma indevida cerimonia, e homens tão inteligentes não precisam disso - só medíocres precisam.
mateus_5#11
Ricardo, a conversa poderia ir muito melhor sem seus argumentos de autoridade. Perdeu uma bela oportunidade. Esse negócio de "se igualar para poder argumentar" é ridículo. Quem determina "quando" alguém pode criticar outro? Se não concorda com o que é exposto, mostre seus argumentos. Mas sem essa, né? Já vi você debatendo melhor que isso.
priscila#12
Eu concordo, Ricardo, que os movimentos ditos fundamentalistas como o Brotherhood de certa forma são não-islâmicos. Mas são não-islâmicos em relação a determinadas vertentes do Islã, esse é que é o problema!

Fala-se da Tradição Islâmica o tempo todo, mas, sinceramente, essa tradição não é coesa e compacta o bastante para representar uma unidade, como é no Cristianismo. Quando eu mencionei que os barões francos nas Cruzadas saíram delas MENOS cristãos do que entraram, eu digo isso apoiada numa Tradição que Jesus, por Suas palavras, jamais desmentiu, e jamais deixou dúvidas sobre o que Ele pregava e vivia.

Não é tão simples fazer a mesma coisa a respeito do Islã: não só, e não exatamente, porque o Corão tem suras contraditórias - mas porque é inegável que Maomé AGIU como guerreiro! Como a Tradição por força inclui não apenas os textos sagrados, mas os complementa com o relato de atos, com exemplos, com práticas, fica ainda mais difícil dizer que se trata de uma tradição pacífica, e que a violência é não-islâmica.

Jesus, como Homem, foi um pregador da paz e do perdão, e viveu DENTRO de Sua pregação. Eu diria mesmo que a idéia de perdão, embora já existisse, se espalhou pelo mundo como noção boa através do Cristianismo. Posso, portanto, dizer sem medo de errar que a idéia de perdão faz parte da Tradição Cristã - e daí chegar à conclusão de que os Cruzados voltaram das Cruzadas, sobretudo da primeira, sua maior vitória - MENOS cristãos do que entraram, já que esta Tradição foi ferida, inegavelmente.
priscila#13
Maomé inicia a Tradição Islâmica chamando de irmãos os Povos do Livro; mas depois desmente a Tradição iniciada e toma medidas ofensivas contra os judeus, e ataca Os Banu Qainuqa em Medida, sob sege! E depois os Banu Nadhir, e os Banu Quraiza! Eu faço uma lista de judeus atacados e submetidos, judeus de Khaibar, de Fadok, de Taima, de Wadi al-Qura - e tudo isso é histórico, faz parte da Tradição.

Não, prezado amigo, a paz não faz parte da Tradição do Islã, se ela remonta a Maomé...

Faz parte da Tradição do Cristianismo, porque o Rabbi a pregou e a viveu, e não levantou seges e não passou os inimigos no fio da espada, nem os exilou para terras distantes!

Eu levei meio século para crer que o Rabbi é Deus, mas não levei tanto tempo para perceber que Sua mensagem era a melhor e a mais sublime. Memso quando não era cristã, eu respeitava a Sua mensagem e via a perfeita coerência entre Suas palavras e Sua vida.
marcos_8#14
Bom, acho que o bolo já solou, mas vamos lá.

Pedro:
"...as únicas coisas que prestam do ocidente são o liberalismo político, o progresso científico, o Estado Laico e a economia de mercado. Não necessariamente nessa ordem."
Você esqueceu o papel higiênico, o chuveiro elétrico, a geladeira e os espetos de metal.

Pri: eu discordo vigorosamente de você. Há muita coisa boa (claro, e muita coisa ruim) a se dizer das cruzadas, e em tese pode haver guerras perfeitamente justificáveis. O cristianismo não é uma religião de guerra, mas não é contra ela absolutamente, em todos os casos. Ouça o Mestre: "eu não vim trazer a paz, mas a espada". Sempre que a idéia de São Francisco entre os animais e Santo Tomás entre os livros lhe parecer o catolicismo por excelência, lembre de São Domingos. de Santo Olavo, de São Luís, de Santa Joana D´Arc. PS.: Parabéns pela conversão ao cristianismo; daí para o catolicismo é um pulo

Fernando: eu também discordo vigorosamente de você. É claro que em polêmicas a gente acaba se exaltando e exagerando, mas Guénon não se despreza com esta facilidade. Se você o acha repetitivo, esqueça Mário Ferreira dos Santos; ele explica uma coisa no primeiro parágrafo, você entende no segundo, e ele passa mais cinco páginas provando a mesma coisa de quinhentos modos...

Ricardo: eu discordo de você, embora menos vigorosamente do que nos dois últimos casos . Julgar a obra de Guénon (ou Marx, ou Olavo de Carvalho) em bloco é temerário, improdutivo e completamente descabido para a grande parte da humanidade (e inútil para a restante, eu diria), mas aspectos da obra de qualquer autor podem ser discutidos. Há aspectos da obra de Olavo, por exemplo, com os quais eu não concordo e gostaria de discutir assim que Marte voltar a seu curso direto e esse clima pesado aqui acabar ; sobre Guénon, alguns pontos são criticáveis, sim. Um problema que você vai concordar comigo (eu me lembro de ter inclusive lhe incomodado via scrap com isso) é a articulação entre as religiões
marcos_8#15
tradicionais e a doutrina perenialista é problemática em alguns casos, enquanto que em outros é mais fácil, o que pode levar a uma "hierarquização" das religiões.
marcos_8#16
Caio,
apóstata não é quem combate o Islã. Se a definição para a palavra não muda conforme as religiões, apóstata é apóstata da própria religião, portanto o sujeito tem que ser ex-muçulmano, além de anti-muçulmano.
marcos_8#17
Fernando, eu reli.

Acho que discordo vigorosamente do seu tom .

Além das repetições (MFS é mais repetitivo ainda, mesmo) Guénon, às, vezes, irrita, pelo, excesso, de, vírgulas. Mas nunca me arrependi de ter lido nada dele.
marcos_8#18
Pedro, depois de ouvir o filho do homem, andas lendo o que ele recomenda?
inocncio#19
À luz do conhecimento dos nobres colegas, vocês acham que o deus de Maomé é o mesmo Deus de Cristo?
marcos_8#20
Boa pergunta.

A resposta, até onde sei, é sim.

Primeiro, porque se eles adoram a Deus, e acreditam que ele é único, tem que ser o mesmo, porque só há um.

Depois, porque os muçulmanos dizem expressamente isso. Eles discordam de muita coisa de nós, cristãos, mas fazem questão de dizer que adoram ao mesmo, único, Deus.

Terceiro, porque Allah, se não me engando, é "a divindade", em árabe (posso estar enganado, meu árabe não passa de esfiha e quibe). E, segundo me consta, é assim que os cristãos de língua árabe O chamam.

Depois, em que sentido seria "outro" Deus? Nós acreditamos em um Deus único, perfeito, eterno, ilimitado, todo-poderoso. Eles também. Se é único, não pode haver outro. Se é ilimitado, não pode haver outro igual, pois um dos dois limitaria o outro. Se é todo-poderoso, não pode haver outro Ser com o mesmo poder. Além disso, se Deus criou tudo, qual dos dois "deuses" teria criado o outro (estou parecendo o MFS )?

É como Malvinas /Falklands. Os argentinos chamam de um jeito, os ingleses de outro, mas tem que ser o mesmo lugar.

Isso não quer dizer, a princípio, que cristãos e muçulmanos concordem em tudo sobre Deus. Por exemplo, os muçulmanos não acreditam que o Verbo tenha encarnado em Jesus Cristo, como os cristãos não acreditam que ele tenha sido ditado a Maomé.

* reescrito por causa de um erro de digitação; se houver outros, me perdoem.
marcos_8#21
Então, put money in thy purse eu também cito o milk-shakespeare

Pedro, alguém já te chamou de pândego?

VOCÊ IMITA O MASSA
perfeitamente

e imitou o Mário Ferreira muito bem.
constantor#22
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Os muçulmanos só o reformularão se for pra deturpá-lo ainda mais.

Um adendo: A separação entre religião e política é incompatível com a tradição islâmica. Onde quer que esteja ocorrendo algo assim no mundo islâmico é sinal de que a tradição está sendo deixada de lado.

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constantor#23
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Existe discriminação pontual a muçulmanos no Ocidente? Certamente. Mas ela é sistemática e excludente? É óbvio que não é.

Muito mais honesto é falar da falta de reciprocidade com que os países muçulmanos tratam cristãos e judeus.

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constantor#24
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O Islã (o Islã verdadeiro, o Islã tradicional) não é problema

Adriano, essa é uma afirmação totalmente ingênua. O Islã tradicional não é problema em que sentido? Você pensa que o Islã tradicional é liberal em que?

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constantor#25
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Primeiro: onde foi que eu disse que o wahabismo representa o Islã?

Segundo: Em que sentido o Islã tradicional não é um perigo? O que é o Islã tradicional e "verdadeiro" pra você? Você acha que o Islã tradicional é liberal, por exemplo?

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constantor#26
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Fica parecendo que o Adriano aprendeu ontem que o wahabismo é um movimento contemporâneo e fica repetindo "não é o tradicional, não é o tradicional". E daí que não é o tradicional? E no que o tradicional não representa um perigo? Depois não quer ser chamado de ingênuo.

E os muçulmanos, que saem de suas ditaduras e teocracias, estão reclamando da dureza que é ter de viver em meio às liberdades civis ocidentais? Que tremenda cara de pau!

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constantor#27
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Os pontos principais do reformismo "wahhabita", pelo qual ele não é considerado parte do Islam Tradicional são basicamente 3:

Nossa, que novidade, o wahabismo de novo?!!

Mas e o Islã tradicional, é liberal? Em que sentido ele não é um perigo?

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constantor#28
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Você usou, logo no primeiro email que trocou comigo, uma falácia do espantalho, e está até agora investindo nela, tagarelando sem parar sobre o wahabismo.

Além disso, eu não disse que você é o cara de pau. Cara de pau é um muçulmano que foge de sua teocracia reclamar do rigor da vida no Ocidente.

Você é ingênuo, é diferente.

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constantor#29
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O que interessa é ser saber se muçulmanos podem conviver com não-muçulmanos sem ficar incitando Jihad para lhes derramar sangue, sem mais, nem menos.E o Islã tradicional provou ser CAPAZ DISSO.

Provou ser capaz disto? Quando?

Basta ver que, durante vários séculos, as áreas ocupadas pelo Islã esteve CHEIA de cristãos e judeus convivendo muito bem obrigado com os muçulmanos.

Convivendo como cidadãos de segunda classe. Para quem está preocupado com a suposta discriminação aos muçulmanos entre os ocidentais, você deveria condenar no ato a discriminação legal existente entre muçulmanos e não-muçulmanos no Islã tradicional.Não é falácia. O Islã tradicional não é sanguinário, como o é o salafismo-wahhabismo.

Desculpe, caro, mas a sua afirmação acima é pura desinformação histórica.

Bem, quanto aos muçulmanos acharem ruim o Ocidente, direito deles ! Ninguém é obrigado a gostar de ninguém nesse mundo.

Concordo, mas repetindo as suas palavras iniciais, eles tem de conviver com não-muçulmanos sem apelar para a shari'a e a jihad, sem apelar para a união entre uma religião e o Estado. Isto é possível no Islã tradicional? Não é. Quem disser que é, estará inventando um Islã da sua própria cabeça, que nunca existiu de verdade.

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constantor#30
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Basta estudar a História

Eu estudei História. Mas quando foi mesmo que houve essa harmoniosa convivência?

Você está falando daquele imposto ridículo que muitas vezes nem era cobrado?

Estou falando do "imposto ridículo" (essa figura no seu avatar é do Ron Paul, não é? E o que falávamos mesmo sobre discriminação?), e também de todas as distinções jurídicas entre um muçulmano e um não-muçulmano. Você acha que judeus, cristãos e muçulmanos eram iguais no Islã tradicional, Adriano?

Se o Islã tradicional fosse fazer o banho de sangue pelo qual anseia o salafismo-wahhabismo, não existiriam tantos cristãos e tantos judeus no mundo árabe/muçulmano como até bem pouco tempo atrás.

Como foi que o Islã, nascido em Meca e Medina, foi parar na Síria, Egito, Turquia, Índia, Península Ibérica, Bálcãs? Distribuindo flores? Baseado em que princípio muçulmano tradicional eles chegaram a essas fronteiras?

Se você não conhece a História de convivência harmoniosa (durante séculos !) entre judeus, cristãos e muçulmanos nas terras do Islã, não é problema meu.

Que convivência "harmoniosa" (e não quer ser chamado de ingênuo)? Você é favorável à dinstinção jurídica entre muçulmanos e não-muçulmanos, realizada no Islã Tradicional?

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constantor#31
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Um pouco da história das relações entre o Islã Tradicional e o resto do mundo. O texto abaixo é parte do capítulo “A Casa da Guerra”, do livro “A crise do Islã. Guerra Santa e Terror Profano”, de Bernard Lewis, professor emérito de estudos orientais da Universidade de Princeton. O negrito no texto foi colocado por mim.

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“...Uma das tarefas elementares legadas aos muçulmanos pelo Profeta era a jihad. Essa palavra vem da raiz arábica j-h-d, significando basicamente empenho ou esforço. Com freqüência, é usada em textos clássicos com um sentido bastante próximo de batalha e, portanto, também de luta. É usualmente citada no versículo do Alcorão “esforçando-se no caminho de Deus” (p.ex, IX, 24; LX, 1 etc.), e tem recebido várias interpretações no sentido de esforço moral e luta armada. Em geral, é bastante fácil entender, pelo contexto, qual dessas nuances de significado tem-se em mente. No Alcorão, a palavra ocorre muitas vezes nesses dois sentidos distintos, mas relacionados. Nos primeiros capítulos, datados do período em Meca, quando o Profeta era ainda o líder de um grupo minoritário lutando contra a oligarquia pagã dominante, a palavra freqüentemente tem o sentido, preferido pelos exegetas modernistas, de esforço moral. Nos últimos capítulos, revelados em Medina, onde o Profeta dirigia o Estado e comandava seu exército, jihad geralmente tem uma conotação prática mais explícita. Em muitos casos, o significado militar é inequívoco. Um bom exemplo é a passagem IV, 95: “Aqueles crentes que permanecem em casa, além dos incapacitados, não são iguais àqueles que se empenham no caminho de Deus com seus bens e suas pessoas. Deus situou aqueles que se empenham com seus bens e com suas pessoas em um nível mais elevado do que aqueles que permanecem em casa. Deus prometeu recompensa a todos os que crêem, mas concede aos que lutam uma recompensa maior, distinguindo-os dos que permanecem em casa.” Juízo semelhante pode ser encontrado em VIII, 72; IX, 41, 81, 88; LXVI, 9 etc.
constantor#32
Alguns muçulmanos modernos, especialmente ao se dirigirem ao exterior, explicam a obrigação da jihad num sentido espiritual e moral. A esmagadora maiora das autoridades mais antigas, citando as passagens relevantes do Alcorão, os comentários e as tradições do Profeta, discute jihad em termos militares. Segundo a lei islâmica, está de acordo com as escrituras fazer guerra contra quatro tipos de inimigos: infiéis, apóstatas, rebeldes e bandidos. Embora os quatro tipos de guerra sejam legítimos, apenas os dois primeiros contam como jihad. Portanto, jihad é uma obrigação religiosa. Ao discutir a obrigação da guerra santa, os juristas muçulmanos clássicos distinguem entre guerra ofensiva e defensiva. Na ofensiva, a jihad é uma obrigação da comunidade muçulmana como um todo, e pode ser cumprida, portanto, por combatentes voluntários e profissionais. Em uma guerra defensiva, torna-se uma obrigação de todos os indivíduos fisicamente aptos. É esse princípio que Osama bin Laden invocou em sua declaração de guerra contra os Estados Unidos.

Durante a maior parte dos 14 séculos de história muçulmana registrada, a jihad foi mais comumente interpretada como luta armada para defesa ou aumento do poder muçulmano. Na tradição muçulmana, o mundo é dividido em duas casas: a Casa do Islã (Dar al-Islam), na qual existem governos muçulmanos e onde prevalece a lei muçulmana, e a Casa da Guerra (Dar al-Harb), o resto do mundo, habitado por infiéis e, mais importante, sob governos infiéis. A presunção é que a obrigação de jihad continuará, interrompida apenas por tréguas, até que o mundo todo adote a fé muçulmana ou se submeta ao mundo muçulmano. Aqueles que lutam na jihad qualificam-se para recompensa nos dois mundos, butim nesse, paraíso no próximo.

Nessa questão, como em tantas outras, a orientação do Alcorão é ampliada e elaborada nas hadiths, tradições que tratam dos atos e palavras do Profeta. Muitas dessas referem-se à guerra santa. Esses são alguns exemplos:
constantor#33
A jihad é sua obrigação sob qualquer comandante, seja ele divino ou iníquo.
É melhor um dia e uma noite de lutas na fronteira do que um mês de jejum e prece.
A picada de uma formiga causa mais dor a um mártir do que a ferida de uma arma, pois essa é mais bem-vinda para ele do que água fresca e doce em um dia quente de verão.
Aquele que morre sem ter participado de uma campanha morre em um certo tipo de descrença.
Deus se maravilha com aqueles [aos quais o islã é trazido por conquista] que são arrastados ao paraíso em cadeias.
Aprenda a atirar, pois o espaço entre o alvo e o arqueiro é um dos jardins do paraíso.
O paraíso está a sombra de espadas.


(....)

Durante a maior parte da história registrada do islã, desde o tempo em que vivia o Profeta Maomé, a palavra Jihad foi usada em sentido principalmente militar. Maomé começou sua missão profética em Meca, sua cidade natal, mas, devido à perseguição sofrida por ele e seus seguidores nas mãos da oligarquia pagã que governava a cidade, mudou-se com eles para Medina, onde as tribos locais o acolheram e fizeram dele seu árbitro e, depois, seu governante. Essa migração de Meca para Medina é conhecida em árabe como Hijra, às vezes escrita de forma incorreta como Hegira. A primeira jihad foi realizada pelo Profeta contra os governantes de sua cidade natal e terminou com a conquista de Meca no mês de Ramada do ano 8 da Hijra, correspondente a janeiro de 630 da era cristã. A liderança de Meca rendeu-se quase sem lutar, e os habitantes, com exceção daqueles acusados de insultos específicos contra o Profeta ou contra um muçulmano, receberam imunidade para suas vidas e propriedades, desde que se comportassem conforme o acordo. A próxima tarefa era a extensão da autoridade muçulmana ao resto da Arábia e, sob os califas sucessores do Profeta, ao resto do mundo.

Nos primeiros séculos da era islâmica, isso parecia possível e, na realidade, provável. Dentro de um tempo extraordinariamente curto, os exércitos conquistadores muçulmanos haviam derrubado o
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o antigo império da Pérsia e incorporado todos os seus territórios aos domínios do califado, abrindo caminho para a invasão da Ásia Central e da Índia. A Oeste, o Império Bizantino ainda não havia sido derrubado, mas grande parte dos seus territórios fora tomada. As províncias então cristãs da Síria, Palestina, África do Norte e do Egito foram incorporadas e, a seu devido tempo, islamizadas e arabizadas, passando a servir como bases para a subseqüente invasão da Europa e a conquista da Espanha e de Portugal, bem como o do sul da Itália. Por volta do início do século VIII, os exércitos conquistadores árabes já haviam avançado além dos Pirineus, até a França.

Após vários séculos de ininterruptas vitórias, a jihad árabe foi finalmente refreada e repelida pela Europa cristã. No leste, os bizantinos mantiveram a grande cidade cristã de Constantinopla, repelindo uma série de ataques árabes. No Oeste, começaram o longo processo conhecido na Historia como a Reconquista, que acabou resultando na expulsão dos muçulmanos dos territórios que haviam conquistado na Itália e na Península Ibérica. Também foi deslanchada uma tentativa de levar a Reconquista ao Oriente Médio e recobrar o local de nascimento de Cristo, tomado pelos muçulmanos no século VII. Essa tentativa, conhecida como as cruzadas, falhou totalmente, e os cruzados foram expulsos em debandada.

Mas a jihad não havia terminado. Uma nova fase foi inaugurada, agora não pelos árabes, mas por turcos e tártaros, recentemente incorporados ao islã. Esses foram capazes de conquistar a até então terra cristã da Anatólia, e em maio de 1453, tomaram Constantinopla, que a partir daí tornou-se a capital dos sultões otomanos, sucessores do antigo califado na liderança da jihad islâmica. Os otomanos nos Bálcãs e os tártaros islamizados na Rússia reassumiram a tentativa de conquistar a Europa, dessa vez começando pelo leste, e, por algum tempo, pareciam estar próximos do sucesso.

Mas, novamente, a cristandade européia foi capaz de expulsar os invasores e, de novo, agora
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com melhores resultados, de contra-atacar os domínios do Islã. A jihad então tornara-se quase totalmente defensiva – resistindo à conquista na Espanha e na Rússia, resistindo aos movimentos de autoliberação nacional dos cristãos submetidos ao Império Otomano e, finalmente, tal qual o ponto de vista dos muçulmanos, defendendo o coração da terra islamita contra os ataques dos infiéis. Essa fase veio a ser conhecida como imperialismo.

Mas nesse período de retirada a jihad ofensiva de forma alguma foi abandonada. Em 1896. os afegãos invadiram as regiões montanhosas de Hindu Kuch onde é agora o nordeste do Afeganistão. Até então, os habitantes eram não-muçulmanos, e a região era, portanto, conhecida pelos muçulmanos como Cafiristão, “terra dos que não crêem”. Após a conquista afegã, foi renomeada Nuristão, “terra de luz”. Durante o mesmo período, jihads de vários tipos foram conduzidas na África contra populações não-muçulmanas. Mas, em sua maior parte, o conceito, a prática e a experiência da jihad no moderno mundo islâmico têm sido, em sua quase totalidade, de natureza defensiva.

O uso predominante militar do termo continou até tempos relativamente modernos. No Império Otomano, a cidade de Belgrado, uma base avançada na guerra contra os austríacos, recebeu o nome de Casa da Jihad (Dar al-Jihad). No início do século XIX, quando Muhammad ‘Ali Paxá, o líder modernizador do Egito, reformou suas forças armadas e sua administração seguindo os gêneros francês e britânico, foi criado um “departamento de guerra” para administrá-las. Era conhecido em árabe como o Divã dos assuntos da Jihad (Diwan al-Jihadiyya), e seu chefe era o supervisor dos assuntos da jihad (Nazir al-Jihadiyya). Seria possível citar outros exemplos em que a palavra jihad perdeu seu aspecto sacro, conservando apenas sua conotação militar. Nos tempos modernos, tanto o uso militar quanto o moral do termo foram revividos, e são entendidos e empregados de maneira diversa por diferentes grupos de pessoas.
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Organizações que, na atualidade, se atribuem o nome de Jihad na Caxemira, Tchetchênia, Palestina e em outros lugares, evidentemente não usam a palavra para denotar empenho moral.

A jihad é apresentada, ás vezes, como o equivalente muçulmano das cruzadas, e as duas visões são vistas como mais ou menos equivalentes. Em um certo sentido, isso é verdadeiro – ambas foram proclamadas e lançadas como guerras santas da fé verdadeira contra um inimigo infiel. Mas há uma diferença. As cruzadas são um evento tardio na historia cristã e, de certo modo, marcam um afastamento radical dos valores básicos cristãos, tal como expressos nos Evangelhos. A cristandade estiver sob ataque desde o século VII, e havia perdido vastos territórios para o domínio muçulmano; o conceito de uma guerra santa, mais comumente chamada de guerra justa, era familiar desde a Antiguidade. Ainda assim, no longo conflito entre islamismo e cristandade, as cruzadas foram tardias, limitadas e de relativamente pouca duração. A jihad, pelo contrário, está presente desde o início da história islâmica – nos textos sagrados, na vida do Profeta e nas condutas de seus companheiros e sucessores imediatos. Continou a existir ao longo da historia islâmica e mantém seu apelo até os dias atuais.

A palavra cruzada deriva, obviamente, de cruz, e denotava originalmente uma guerra santa da cristandade. Mas, no mundo cristão, há muito perdeu aquele significado, sendo usada no sentido geral de uma campanha de orientação moral por uma boa causa....O único contexto na qual a palavra cruzada não é usada hoje em dia é justamente no sentido religioso original. Jihad também é usada em vários sentidos, mas, ao contrário de cruzada, manteve seu significado original principal.

(...)"

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Repito a pergunta: e daí que é o Islã Tradicional?

(Com todo o respeito a Schuon, Guénon etc.)

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Mas se eu disser que a maioria dos terroristas são muçulmanos, também estou correto. Quem disputa isso?

É indisputável. E não é coincidência.

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O André entrou muito bem no debate! Parabéns.
priscila#39
Há mais de um ano, eu acho, prometi ao meu amigo David um debate sobre o Islã, religião com a qual eu tinha uma relação diferente da que tenho hoje, e cujo conhecimento não me viera por meios teóricos tradicionais - mas sim pelas sábias palavras de uma velha bisavó a uma criança ainda pequena. Me era fácil dizer, porque era o que eu pensava, que todo o chamado fundamentalismo era herético, contrário aos ensinamentos da Tradição Islâmica.

E eu me dispus a começar a estudar um pouco o que era o Islã - e quem era, de fato, o profeta Maomé, seu fundador.

Embora o David não esteja aqui, eu vou cumprir a promessa feita e dizer o que foi que aprendi a respeito - dentro das minhas reduzidas possibilidades, é claro, e com a simplicidade de quem apenas está querendo saber um pouco mais. Não sou, é claro, uma expert no Islã - mas sou uma estudiosa sincera, e sem nenhuma idéia pré-concebida.
priscila#40
A primeira dificuldade é descobrir o fio da Tradição, justamente - para seguí-lo fielmente até seu começo. Se se fizer a mesma coisa em relação ao Cristianismo, vamos encontrar a mesma dificuldade, mas em grau menor. Porque é como se, no Cristianismo, as vertentes estabelecidas tenham se estabelecido de forma mais nítida. Também cristãos lutaram entre si, ou se "entremataram", como eu digo. E as guerras entre diversas denominações aconteceram - mas isto é uma desobediência, a meu ver. Não é uma prática que tenha sido expressamente aconselhada na Nova Aliança, representada por Jesus Cristo. A guerra ofensiva, mesmo a Cruzada Albigense, contra a heresia obviamente gnóstica dos Cátaros, é uma desobediência.
A libertação dos Lugares Santos não seria: seria uma guerra justa, defensiva, como foi proposta por Urbano II em Clermont: lembrem-se de que nesta época o Islã já havia entrado na península Ibérica - e que era, portanto, agressor na Europa, e opressor no Oriente.

Poderíamos discutir por horas sobre o conceito de "guerra boa" e "guerra má" - mas o que eu digo aqui é que, de qualquer forma, a guerra do ponto de vista do Cristianismo é um recurso extremo, a ser adotado em última instância e defensivamente - ou é errada. Se as Cruzadas se tornaram coisa diferente do que deveriam ter sido, e em seu espírito penetrou "o fim justifica os meios" e por causa disso outros horrores diversos, a culpa não recai sobre as palavras de Jesus e portanto sobre a religião cristã, ou mesmo contra a Igreja: recai sobre os homens que nela, inúmeras vezes, distorceram os ensinamentos do Cristianismo em seu próprio benefício, por motivos políticos, ou pessoais.
priscila#41
Eu menciono as Cruzadas porque, invarialvelmente, elas serão apresentadas como prova de uma "tradição cristã de violência" contra uma religião "tradicionalmente tolerante" - e essa visão é falsa, desde o começo, com referência a ambas as tradições!

Se os Franj venceram a Primeira Cruzada com tamanha facilidade, e contra as probabilidades, inclusive - é porque os povos Islâmicos contra os quais lutaram estavam permanentemente envolvidos em disputas entre si, e não havia unidade entre eles! Foi esse o esforço desesperado de muitos líderes na época - a unidade Islâmica! Mas ela não aconteceu - e os Rum venceram. Muito tempo depois o homem justo chamado Salah-al-Din teve que lutar ferozmente dentro do Islã antes de conseguir debelar os invasores, mostrando quanto essa unidade Islâmica era difícil, ou impossível - pois o Islã sempre teve disputas internas, resolvidas à força, num praticamente contínuo estado de guerra ou, na melhor das hipóteses, de escaramuças.

Ou seja: a guerra interna acompanha o Islã desde seu começo. Se há algo que faz parte da tradição islâmica de forma evidente, clara, inegável, concreta - é ela: a jihad, a sempre presente jihad, que vem desde os tempos do Profeta, e jamais deixou de acontecer dentro do próprio Islã.

É inevitável que assim seja - porque o conceito de Maktub, a predestinação, leva à firme crença de que TODOS OS HOMENS, EXCETO OS FIÉIS, foram criados para o inferno - e devem ser considerados inimigos irreconciliáveis de Deus e de seus servidores. Daí também a concepção de um Paraíso que é muito mais a "desobrigação" a essa luta, a libertação de ser um guerreiro o tempo todo, do que - como é para um cristão - o encontro entre um filho e seu Pai.
priscila#42
Depois eu continuo, preciso trabalhar. Por favor, contestem... !
erickson#43
Não entro na discussão porque nada conheçõ do assunto, mas uma coisa me chamou a atenção:

P.S.: Só lembrando (novamente) que os sujeitos que "militam" na maior parte desses grupos terroristas SÃO HEREGES, e, por isso, NÃO PODEM representar o Islã.

Quer dizer que tem uma parte dos grupos terroristas em que os sujeitos são ortodoxos? Podes me dar um exemplo?
constantor#44
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Caro Adriano, você voltou a falar de wahabismo porque? O texto fala de suras corânicas, hadiths, da sunna, atos e palavras do Profeta, dos califas retamente guiados, dos omíadas, abássidas, turcos otomanos etc. Fala do conceito de jihad e da prática do mesmo no Islã Tradicional. Afirmar que não gosta do autor do texto não significa muita coisa.

A verdade é que o Islã Tradicional é também jihadista. E, portanto, um retorno ao mesmo não vai mudar algumas das questões aqui colocadas sobre a relação entre Ocidente e os muçulmanos.

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constantor#45
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o problema do islam tradicional é ele não aderir ao liberalismo e ser governado num regime teocrático?

Você parece não ter entendido, Pedro.

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constantor#46
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Adriano, a jihad existia no início do Islã, existiu em todos os séculos de sua existência, existe hoje, e continuará existindo amanhã quando eu e você já tivermos deixado este mundo.

Eu não contesto o respeito que os muçulmanos possuem pelos Povos do Livro, estou ressaltando, isto sim, o caráter obrigatório da jihad. O ecumenismo no Islã deve ocorrer sob a shari'a. Isto é princípio religioso tanto para os sunnis, quanto para shi'as, tanto para tradicionalistas quanto para wahabitas.

Você não vê problema em viver sob a shari'a? Eu vejo. Logo, o Islã Tradicional não resolve o problema das relações com o mundo muçulmano.

Note que nada do que eu disse aqui é contrário ao texto que você postou do Olavo. O assunto é que é diferente.

(E não vou nem entrar na questão da desigualdade jurídica brutal que muçulmanos e não-muçulmanos possuem diante da Lei islâmica.)

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constantor#47
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qualquer um que analise seriamente a questão verá que o Islã tradicional não tem o menor problema com judeus e cristãos.

Qualquer um que analise seriamente a questão sabe que:

1 - o Islã tradiconal é jihadista;

2 - o Islã tradicional estabelece uma brutal distinção jurídica entre muçulmanos e não-muçulmanos.

Basta lembrar o caráter altamente discriminatório do tratamento dispensado pelos bárbaros europeus aos judeus exilados no continente.

Mas e daí, caro?

O Islã tradicional não considera cristãos e judeus infiéis.

Não, apenas considera dhimmis, grupos protegidos, cidadãos de segunda classe, sem direito de testemunhar em tribunais, onerados com mais impostos, sem direitos ao exercício pleno de suas religiões no mundo muçulmano.

O Islã não é assim.

Deixa de ser ingênuo!

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constantor#48
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Priscila, eu concordo plenamente com a sua postagem. Eu tenho muito amor pela tradição islâmica, e dei os primeiros passos rumo à minha conversão ao cristianismo quando começei a minimizar a minha ignorância em relação a ela. Outros passos foram dados quando conheci obras perenialistas.

Mas é fato incontestável que o Islã é jihadista; sempre foi. E de um modo que o Cristianismo não necessariamente o é. Enquanto a jihad está profundamente enraizada nas ações, palavras e atos do Profeta e da primeira geração da umma, no cristianismo não temos nada disso.

Agora, abaixo segue mais explicitamente a minha visão sobre as questões do tópico.

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Segundo entendi, o cerne do tópico é a possibilidade de que uma reforma do Islã resolveria as relações belicosas entre a agonizante Cristandade e a agonizante civilização muçulmana. Em discordância contra os defensores da "ocidentalização" do mundo muçulmano, outros disseram que basta a ele retornar ao seu conteúdo tradicional e primevo, abandonando deturpações wahabitas, qutbistas e outras.

Ressalto, em meio a isso, que o retorno do Islã à tradição pode ser muito bom para os muçulmanos (e para todos os estudiosos da própria Tradição), mas não vai mudar nem um pouco o caráter jihadista de seus fiéis. Não é "solução" para o problema colocado.

(além disso, alguém aqui pode sustentar, sem hesitação, que não há nenhuma tariqazinha tradicional envolvida na atual jihad? Nem uma que seja? Eu não colocaria minha mão no fogo em relação a isso.)

Isso não quer dizer que eu apóie a secularização do Islã, seu mergulho de vez nas mãos do demônio iluminista que tem corroído as bases do Ocidente. Lá no meu primeiro post, já tinha deixado claro que considero que essa secularização seria um abandono da tradição.

E qual a solução para o "problema" do tópico? Eu penso que, nesse mundo, não existe. O que faço como cristão é combater o monstro iluminista e ao mesmo tempo defender a civilização à qual pertenço contra os
constantor#49
jihadistas (e aí não me importa se são tradicionalistas ou não).

A unidade que há entre cristianismo e Islã não existe no plano histórico. No plano histórico, o que temos é a resistência dos francos em Poitier, dos bizantinos durante toda a Idade Média, dos austríacos na Moderna, e por aí vai. E do outro lado estava o Islã Tradicional. Vai ser assim até o fim dos tempos, ou até o monstro iluminista engolir a todos.

Adendo: isso diminui o meu amor pela tradição islâmica? Significa que acho que muçulmanos não podem viver entre nós? Que não há interação proveitosa em todos, rigorosamente todos, os campos? Não significa.

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constantor#50
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o conceito de Jihad para o Islã tradicional é o mesmo que para o salafismo-wahhabismo?

Você ainda não entendeu, Adriano? O conceito tem sentido militar para ambos.

E daí?...O Islã tradicional permite que judeus e cristãos vivam de acordo com suas próprias leis.

No Islã Tradicional e em qualquer outro, judeus e cristãos vivem sob regulamentação da shari'a.

Que diferença brutal? Não seja hipócrita. O Islã tradicional não tinha conhecimento de nada de liberalismo do Século XIX.

Hipócrita é você. E ingênuo. Quer dizer que agora vê problema no Islã Tradicional não ser liberal? Sou quem agora digo: o problema é muito maior do que este. O Islã Tradiconal não é um mero nome bonitinho para ser usado a torto e a direito apenas para combater um suposto "preconceito". Ele tem um conteúdo, regras e princípios discerníveis. O Islã Tradicional não vai deixar de te considerar um dhimmi, sem direito à igualdade jurídica e religiosa, só porque "são princípios daquela época". Ele vai estabelecer esta desigualdade justamente por que são princípios daquela época, considerados como parte indissociável da revelação.

Favor comparar novamente com o tratamento dispensado às minorias na Europa cristã e em outros lugares à época.

Mas quem está debatendo isso? Já se agarrou a um novo espantalho?

E agora, a parte mais ingênua (e trágica) da sua resposta: Eu disse: o Islã tradiconal é jihadista, Você responde: E daí? Jihadista que não vê nenhum problema com judeus e cristãos?

Ou seja, o sujeito chega dizendo: "ó Adriano, não tem problema nenhum com você. Mas eu sou islâmico tradicional, então vou conquistar sua terra, impor a ela minha civilização e minha lei, e você terá de ser um cidadão de segunda classe. Mas é pro seu próprio bem, é pra te proteger, ok? Não precisa ter medo, não sou um wahabita!"

E o Adriano sai pulando de alegria, achando que não tem problema algum.

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