Acabo de cometer um erro terrível: liguei a televisão. Em menos de 10 minutos, vejo uma propaganda do Ministério da Saúde: alternando diferentes imagens de uma feliz jovem chamada Renata, dizem que a moça na verdade não desfrutou de nada daquilo, pois... foi vítima de um vício terrível de seus pais: o fumo! Corta para uma imagem de um feto morto.
A mensagem é clara e forte: o horrível hábito de fumar é responsável por um crime ainda mais degradante: o aborto. Mas... espere aí, o aborto só é horrível se for causado pelo fumo, e se for por uma opção, é coisa mais linda, mais democrática do mundo?
Quer dizer: escolher matar a Renata, tudo bem. Escolher fumar, o que talvez mate a Renata, é uma coisa odiosa?
Que maluquice! Que loucura!
Isto está muito distante de Górgias e Protágoras: não é sofismo, é pura estimulação contraditória.
Seria uma contradição se partissem da mesma pessoa ou instituição. Não tenho conhecimento de nenhuma campanha pró-aborto do MS. Não entendi muito bem seu questionamento...
Realmente, o ministério da saúde não faz campanha pró-aborto. Não se trata de uma contradição. Mas a contradição surge na cabeça de quem recebe a propaganda. Por um lado, uma propaganda gigantesca a favor do aborto, por outro lado, o aborto como argumento contra o uso de fumo. Por que não usar o mesmo argumento para fazer propaganda contra o próprio aborto, ao invés de somente utilizá-lo contra o fumo?
Acredito que o foco da propaganda anti-tabaco seja no sentido de orientar que o fumo pode causar aborto, não necessariamente fazer um proselitismo anti-aborto, ou seja, tem por objetivo esclarecer. Talvez a linguagem usada passe esta imagem e cause estes questionamentos.
É diferente por exemplo de uma campanha pró-aborto onde o alvo são as mulheres que de fato não querem ter filho, o que eu acho bastante questionável, pois não sou a favor do aborto. Na caso da propaganda anti-tabaco, o alvo são as mulheres que querem ter o filho, mas ignoram ou não estão devidamente concientes do fato de que o fumo pode causar aborto.
Ademais, a propaganda anti-tabaco já vem desde o governo FHC, com aquelas fotos no verso dos maços de cigarro, onde já havia a indicação de que o fumo pode levar ao aborto.
Como o Silvio disse, eu falava na contradição de estímulos para o espectador.
O que acontece com essa propaganda em particular, é que ele é extremamente forte e afirmativa. E se o perigo do cigarro é a possibilidade de aborto, o Ministéria da Saúde deve achar o aborto uma coisa ruim. E se acha que é ruim, deveria fazer propaganda contra o aborto diretamente.
Exagerei um pouco na primeira mensagem, por estar ainda irritado com a propaganda, vou explicar-me melhor.
Se o Ministério da Saúde estivesse realmente preocupado com o aborto, ele deveria estar fazendo uma campanha contra o aborto, e não contra o fumo. Na campanha contra o aborto, seria dito que deve-se evitar o fumo, etc.
Se isto não ocorre, restam as seguintes possibilidades:
- O Ministério da Saúde acha que aborto só é um problema quando é involuntário;
Ou:
- O Ministério da Saúde não acha que o aborto é um problema, mas está tão empenhado em lutar contra o fumo, que escolheu um argumento que ele próprio não acreditava, mas que sabia teria efeito sobre sua platéia;
Ou:
- Alguém dentro do Ministério da Saúde é realmente contra aborto, mas, sendo minoria, não tem força para lançar um movimento contra o aborto.
Provavelmente, estas três possibilidades devem estar contempladas entre os responsáveis da campanha. Contudo, estou inclinado a acreditar que o primeiro tipo é mais comum que o último.
"Uma pessoa que defende o aborto não é contra o nascimento de qualquer criança, é contra o nascimento de filhos não desejados, dessa forma ela pode alertar para os perigos do fumo para a saúde de uma criança desejada pelos pais."
Não foi exatamente isso que eu disse?
Minha frase lá de cima: "O Ministério da Saúde acha que aborto só é um problema quando é involuntário".
Eu também acredito que uma mesma pessoa pode ser a favor do aborto voluntário e também ser contra o aborto involuntário. Tanto acredito que acho que é o caso de pelo menos parte da equipe do Ministério da Saúde.
E não acho que a postura seja contraditória em si. Mas, ela só não é contraditória se examinar-mos a questão desse modo:
Uma pessoa só pode ser a favor do aborto, se acreditar que o feto não é um ser vivo, nem algo que, por ser potencialmente vivo, tenha o direito a vida. O pressuposto básico do abortista é que o fato é "parte" da mãe e, por isso, está sujeito a seus desígnios, como uma unha, cabelo, etc.
Se a mesma pessoa, além de ser abortista, se preocupa com a possibilidade de uma pessoa perder o filho por causa do hábito de fumar, ela não pode estar, evidentemente, preocupada com a vida do feto; posto que ela não acredita que este é um ser vivo. Se ela se preocupa com o feto tem que ser por outro motivo. Certamente, a preocupação dela não é com a morte do feto, mas com a perda que os pais irão sofrer. Afinal, sendo o feto um "pedaço" dos pais, os abortistas se preocupam com o fato de que os pais perdam este "pedaço" que tantam apreciavam.
Ou seja, você tem razão: a postura não é contraditória em si. Porém, ela só não é contraditória se o sujeito adotar o principal pressuposto dos abortistas.
E o que me irritou foi que pessoas com este pressuposto utilizaram uma propaganda para convencer pessoas que não partilham dele. Contudo, isto não chega a tornar a propaganda falaciosa. Apenas a torna maliciosa.
Lucas,
acho que nesse caso da propaganda (que não vi) a imagem remeta ao aborto NÃO-INTENCIONAL, ou seja, aborto por má formação fetal, conseqüência do fumo.
Se for isso, a propaganda do governo, mesmo sendo abertamente pró-aborto, não está ligada a essa questão. Ao apresentar o aborto (genericamente falando), como conseqüência indesejável, até é uma iniciativa contrproducente à causa abortista...
Não podemos esquecer que há duas certezas:
A primeira é que o aborto segue como item rejeitado pela maioria.
A causa abortista permanece com apoio apenas de uma parcela da classe média, enquanto todas as religiões atuariam em peso contra essa tese.
Por isso, as manifestações de apoio à legalização são vazias, artificiais, minoritárias.
Um referendo levaria a um resultado ainda mais colossal que o realizado sobre as armas de fogo.
A segunda certeza é que mesmo assim o aborto permanece na agenda política.
Vencendo o PT ou o PSDB (mesmo com Alckmin, sua ligação com a Opus Dei não impediria que o MS ficasse nas mãos dos serristas), continuará com prioridade para o futuro governo.
"Se vc quer fazer o aborto, pode fazer. Mas se vc não quer é melhor parar de fumar pois poderá matar o feto." `
Não estamos discordando no essencial. Eu concordo que é possível alguém proferir a frase acima.
Porém, meu ponto é que a propaganda em questão não foi formulada desta maneira, mas simplesmente provocava uma associação entre fumo e cigarro. O que eu falei sobre argumentação maliciosa é o seguinte: Os abortistas (supondo que o sejam) utilizam um argumento que terá mais força justamente entr os que não pensam como ele.
Outro ponto: Eu não disse que essa posição era contraditória, mas que serviria para gerar uma estimulação contraditória. Ou seja, a contradição vai para o ouvinte e não para o emissor. Digo que serviria como estimulação contraditória porque o discurso politicamente correto prega insistentemente a liberdade de escolha do aborto. E, nesta propaganda, o mesmo discurso politicamente correto que ensinam os jovens a odiar o fumo, associam fumo ao aborto. Veja que não estou dizendo que esta confluência de discursos seja intencional. Apenas ocorre que, de um lado, o discurso politicamente correto ensinar a odiar o fumo; do outro, a defender o aborto; e no meio da história, a associar fumo ao aborto, o permitido ao proibido.
Quanto ao pressupostos do abortista, você tem razão, são os mais diversos. E se resumem, como você disse: "Quem é pró-aborto, acredita que a mulher deve decidir se quer ter aquele filho ou não".
De todo modo, a preocupação não é exatamente com a vida da pobre da Renata.
Por isso mesmo, isto não altera a substância de meu argumento: o ministério da saúde usa um argumento, cujo principal fundamento (que mais o torna eficiente ao público), ele próprio não partilha. Mas, reconheço que este truque devia fazer parte do asernal de alguns dos sofistas.
O que implica que mesmo sem o consentimento da população, há uma grande possibilidade do aborto vir a ser legalizado. Mais ou menos como na questão das cotas, que foi aprovada quase sem apoio popular.