Pelo menos três ambiciosos objetivos motivaram o II Fórum Social
Brasileiro (FSB), realizado no Recife, do qual participaram cerca de 300
"movimentos sociais", liderados pelo principal deles, o MST. O primeiro foi
o de aumentar substancialmente o número de militantes emessetistas, que hoje
ainda é "pequeno", não chegando a "1 milhão de agricultores sem-terra no
País", segundo seu líder em Pernambuco, Jaime Amorim. Aí a modéstia de
Amorim talvez se deva ao critério de qualificação dos militantes, pois, com
certeza, o número de participantes de invasões, acampamentos e múltiplos
esbulhos praticados sob a bandeira do MST é algumas vezes maior do que o
daqueles que têm alguma noção de trabalho na terra.
Ao contrário da última eleição, em que estiveram afastados do debate
eleitoral, neste ano os movimentos sociais irão para as ruas dispostos a
conseguir mais do que programas assistencialistas, num reforço à tese de que
eleição deve ser conjugada com mobilização popular, sob o risco de não se
conseguir transformações sociais. Há de se duvidar, entretanto, da
eficiência "eleitoral" dos métodos que o MST e assemelhados pretendem
utilizar para arregimentar apoios e obter votos para a reeleição do
presidente Lula, a julgar pelo emblemático discurso, pronunciado na plenária
do FSB, pelo coordenador nacional do MST em Pernambuco, Jaime Amorim, para
quem "não haverá trégua" na luta contra o agronegócio e pela reforma
agrária, nos seguintes termos: "Vamos garantir que nenhum latifundiário
fique em paz. Ele pode estar na sua casa de praia, mas não vai dormir
sossegado, sempre ligando para o caseiro para ver se o cadeado da porteira
ainda não foi quebrado."
É assim que pretendem que o povo seja acalmado! Na verdade, se há
uma coerência que os movimentos dos sem-terra e respectivos agregados têm
mantido desde o início de sua organização é o que chamaríamos de fidelidade
à violência, mesmo que, às vezes, esta se camufle com disfarces que, de tão
óbvios, mais parecem a expressão de intencional deboche. Foi o caso, por
exemplo, do ato de distribuição de rosas, soltura de 10 pombas ao som de
cânticos pela paz - na manhã de quinta-feira, no centro do Recife - quando
emessetistas entregaram, a um grupo de deputados e representantes dos
direitos humanos, a pistola do capitão Dimerson Mendes, da Polícia Militar
pernambucana, que tinha sido espancado e despojado de sua arma durante o
conflito entre policiais e militantes, ocorrido por ocasião da marcha de
encerramento do II Fórum Social Brasileiro - em que uma bala atingiu de
raspão o dedo polegar de Amorim.
Será que tais encenações pacifistas, de cânticos, rosas e pombas,
haverão de ter mais peso eleitoral do que os propostos cadeados quebrados?