Como disse outras vezes, moro em Florianópolis. Nesta semana está acontecendo o FAM, festival audiovisual do mercosul. Na edição de 2006, pude ver neste mesmo festival o filme chileno Machuca, que relata, através do olhar de uma criança de classe média, os meses anteriores ao "golpe" de Pinochet, ou à revolução --termos que variam de acordo com o sujeito que se refere ao fato. Ontem pude ver uma co-produção uruguaia, argentina e chilena. Tema, a ditadura novamente, a operação Condor. O filme chama-se "matar a todos". Como em Machuca, neste filme os militares são escrotos, planejam a morte de pessoas com gás sarim. Todo um esquema genocida é descrito pelo filme, cuja protagonista --uma ex-presa política e torturada pela "direita" uruguaia-- trata de denunciar o seqüestro e morte no uruguai de um químico chileno que teria participado do suposto projeto genocida-gaseificado de Pinochet. O químico seria objeto de uma queima de arquivo.
Como disse, neste filme e em Machuca, os militares são escrotos, genocidas frios, fazem o mal pelo mal, não têm nenhuma convicção por trás dos seus atos, é pura maldade, gosto por causar sofrimento e morte. O plano do gás sarim é bem detalhado na narrativa do filme, aumentando o requinte de crueldade atribuído aos militares.
Saí do cinema pensativo... Machuca e Matar a todos, uma nova onda de filmes, produzidos por ex militantes da esquerda, povoando o imaginário da minha geração (nasci em 82) e das que vieram depois com imagens e concepções acerca do que foi o conflito na AL que obnubilam por completo a premissa básica, que, pelo menos para mim, já vem de Salomão: ele guarda uma orelha para cada versão das partes de um litígio.
Ia eu dirigindo para casa, pensando muito nisso, Machuca, Matar a todos, os puríssimos e bondosos seres das esquerdas contra os malévolos e desumanos militares e simpatizantes... O que é que está faltando? Pensei e cheguei a conclusão de que essa falta nunca será suprida: ninguém jamais terá os culhões para fazer um filme tão belo como Machuca ou Matar a todos (porque como obras cinematográficas são sim belas, a questão central aqui não é estética...), um filme belo como estes, em que seja representado todo o processo de concepção, planejamento e execução de um atentado da "esquerda revolucionária". Penso de imediato no caso do Grl. Chandler. Este filme hipotético deveria ter cenas do convívio familiar do general, mostrando a felicidade dele com a sua família, dando-lhe um alto caráter (quem leu a poética de Aristóteles sabe do que falo aqui), a sua convicção de que estava fazendo o certo (e não por sadismo, como quer-se pintar os militares...). EM seguida, deveria mostrar passo a passo as reuniões dos extremistas, o julgamento e condenação secreta do general, o planejamento do atentado, as risadas do grupo (deliciando-se com o plano, bebendo à saúde do plano e do Movimento, bebendo vodka russa e comendo caviar russo)... Em seguida, a cena do fuzilamento deveria mostrar o general cobrindo a sua família, o terror dos seus filhos e da sua esposa vendo o homem dessangrando-se no chão, a tristeza do enterro, o trauma dos filhos. Para fechar, a comemoração dos extremistas, brindando mais e mais, chafurdando no dinheiro soviético...
Mas falta, "les falta cojones", "they got no balls"... ninguém quer assumir essa tarefa, ninguém receberá "incentivos" e dinheiro do "Funcultural" e da Petrobrás para fazer este filme... Continuará sendo um filme hipotético... E as gerações vindouras continuarão a ser envenenadas... Pois uma meia-verdade é um veneno muito mais mortífero que a simples ignorância --condição na que todos nós viemos ao mundo...
manezinhi,volta e meia em,s.. vcs q gostam de cinema...
achei o Soy Cuba (1964) http://libereba.blogspot.com/ com legendas em português... filme que pretendia ser uma poderosa arma de propaganda para divulgar a revolução cubana, foi ignorado após sua estréia em Havana e Moscou e ficou desconhecido pelo público no Ocidente até sua redescoberta nos anos de 1990 por Martin Scorsese e Francis Ford Coppola...
tem uma opção ON-DEMAND onde se pode assistir o filme online...
"Esquerdismo mesmo só para os PIMBAS (Pseudo-Intelectuais-Metidos-a-Besta), das duas universidades públicas"
Eu estudo na UFSC. Não generalize. A anti-esquerda não é galinha-morta aqui não...
Se quiser ler os meus debates com a massa esquerdista da UFSC, acesse:
[url]/Community.aspx?cmm=8534386[/url]
Nas buscas dentro dos tópicos, procure por "Enrique", sou o único sem h por lá, porque meu nome está escrito em espanhol (metade da minha família é chilena, eu morei no Chile de 89 a 96).
Como sou de 82 e fui para lá em 89, indo-me de lá em 96, foram apenas sete anos, eu tinha 7 cheguei e fui-me com quase 14.
Eu estudei em escolas particulares, em 4: 1-. Colegio Suizo de Santiago (excelente)
2-. Colegio Internacional SEK-Chile (excelente)
3-. Colegio Adventista (uma porcaria)
4-. Colegio San Pablo de Apoquindo (bom, porém muito menos qualificados que os dois primeiros).
Apesar de ter estudado em escolas particulares, eu tive amigos que estudavam nas públicas. O que tinham em comum, por exemplo, era a exigência do uniforme (calça cinza, camisa branca, gravata, casaco azul, sapato preto) e a exigência de mantê-lo alinhado (não se podia andar todo mulambento, com a camisa para fora da calça, gravata frouxa, etc.). Parecem coisas irrisórias, mas vejam qualquer vídeo sobre Santiago, pode ser até "La batalla de Chile" (documentário comunista): vocês verão que pobres e ricos só diferem nas suas vestes quanto à qualidade do corte e do tecido, mas todos andam alinhados, arrumados.
Protestos eram permitidos, porém, quando viravam baderna, os "guanacos" entravam em ação: eram uns panzers que atiravam fortes jatos de água. Não sei porque aqui no Brasil insiste-se em mandar tropas com bombas e balas de borracha: um guanaco dispersa 50 pessoas com um só jato...
Vagabundo não tem vez: eu mesmo cheguei a ser posto num camburão com uns amigos porque fixamos um aro de basquete num lugar inadequado, a vizinha reclamou, os carabineros apareceram e um de nós foi insolente. Todos pro camburão, e eu morava num bairro rico: "Las Condes". Isso não interessa: vacilou? fez merda? Vai preso, não importa se você está de Nike ou de alpargatas.
21 de Maio é feriado: em 1800 e bolinha (não lembro!) o Chile venceu uma batalha naval contra Peru-Bolívia. O navio chileno ("La esmeralda", de madeira!) conseguiu tomar do peruanos o navio "EL Huascar" (de ferro, com caldeira). É um feriado em comemoração da vitória do bravo general Arturo Pratt.
Entre os adultos, continuava um cisão entre Momios (pinochetistas e anti-esquerda em geral) e "Buena onda" (allendistas, esquerdistas, ex-presos políticos, ex-militantes de esquerda, etc.)
Tive a singular oportunidade conviver com famílias dos dois lados. Passei férias na fazenda de uma família pinochetista que tinha sido confiscada por Allende durante o seu governo. Jantávamos sob o olhar de um retrato grande de Pinochet. Nesta fazenda completei meu aprendizado sobre armas de fogo, que meu pai iniciou em casa com um colt 32 (perdido na campanha do desarmamento, recentemente...). Lá, aprendi a manusear revólver, rifle e escopeta. Caçávamos codornas e coelhos. Pela noite, a vó do amigo que tinha-me convidado nos contava as histórias dos anos "vermelhos", as filas para comprar alimentos, a vez que comprou carne de cavalo para alimentar os filhos, etc.
Lembro-me que em 1992, a igerja Católica conseguiu barrar um show do Iron Maiden (em turnê de lançamwento do album "Fear of the Dark"). Não digo que isso é legal, barrar bandas e tudo o mais, porém isso mostra a força que a igreja ainda tem por lá. Sabemos que por aqui já não há mais Igreja Católica, restam apenas os fiéis...
Ainda havia pichações "MIR" em muros da cidade... As festas nacionais são deliciosas e não tem nada mais lindo que ver a cordilheira brilhando de manhã, após uma noite de chuva (que limpava o smog que paira usualmente sobre a cidade).
É disso que me lembro. Afortunadamente, agora, dia 29/06, irei a Santiago, depois de 12 anos da minha partida. Ficarei duas semanas. Mas agora, vou de olhos muuuuuuuuuuuuuuuito abertos...
Uma curiosidade acontecida nesse colégio. Como vocês devem lembrar, em 1994 houve um eclipse total do sol. Pois bem. Não quiseram deixar-nos sair da sala para vê-la! Pois era um "sinal do fim dos tempos", e deveríamos ficar na sala refletindo sobre o assunto. Claro que não conseguiram segurar-nos muito tempo... E também, uma vez acontecida a fuga generalizada para o pátio, prontamente um professor estava lá, com um óculos para se ver o eclipse, cobrando 50 pesos (é como 0,50 R$ hoje) para vê-la por dois minutos! E eis que então a ciência venceu o obscurantismo! Um colega que era bom de ciências naturais (nisso eu estava na 6a série) teve a idéia de pegar o espelho de uma menina e refletir o sol na parede! Nós, os sem óculos, vimos o eclipse numa parede branca.