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Bertrand Russell e o globalismo

Iniciado por henrique em 18/06/2008 · 6 mensagens

henrique#1
Diante das considerações que Olavo tecera no último programa, acerca do globalismo e da Nova Ordem Mundial, pareceu-me bem reler alguns escritos do filósofo analítico Bertrand Russell, nos quais me lembrava vagamente de ter encontrado menções a respeito. O que averigüei com este até então despretensioso estudo julgo de primeiríssima importância. Abro, pois, este tópico para discutirmos o regime político mundial tal como o propugnava Russell e a extensão da provável influência deste nos desdobramentos posteriores do discurso ideológico globalista.

Em 1957, já perto da morte, Lord Russell publicou um livro de considerável repercussão intitulado "World Government", no qual concentrara seus argumentos para a instauração de uma autoridade global, que pusesse fim à Guerra Fria, e no qual combatia outrossim a legitimidade da posse de armas nucleares por parte das nações beligerantes, principalmente os EUA. Já em 1928, porém, havia expressado minuciosamente suas idéias a este respeito num ensaio intitulado "Algumas pespectivas", que consta da coletânea "Ensaios Céticos":

"(...) Destas duas premissas (a organização social mais compacta e a maior unidade do mundo), segue-se que, para que a nossa civilização se desenvolva, deverá haver uma autoridade central para controlar o mundo inteiro. Pois, caso contrário, as causas de disputa se multiplicarão e as guerras se tornarão mais intensas devido ao crescimento do espírito público. A autoridade central poderá não ser um governo formal; acho provável que não o seja. É muito possível que venha a ser uma combinação de financistas, que se persuadiram de que a paz é do seu interesse porque muitas vezes se perde dinheiro emprestado aos Estados beligerantes. Ou pode ser um único Estado dominante (América) ou um grupo de Estados (América e Império Britânico).
henrique#2
"Mas antes que se chegue a essa situação, haverá um longo período durante o qual o mundo se dividirá virtualmente entre a América e a Rússia, a primeira controlando a Europa Ocidental e os domínios com governo próprio, e a segunda controlando toda a Ásia. Tais grupos seriam fortes na defesa e fracos no ataque, de modo que poderiam subsistir um século ou mais. No fim, porém - o mais tardar durante o século vinte e um - haverá um cataclismo ou uma autoridade central que controle o mundo inteiro. Presumirei que a humanidade civilizada terá poderio suficiente, para evitar um cataclismo que provocasse a volta à barbárie. Assim sendo, que poderes deverá ter a autoridade central?"

"Em primeiro lugar, e acima de tudo, deve poder decidir questões de paz e guerra, ou assegurar rápida vitória ao lado que lhe aprouver. Isto pode ser obtido por meio da supremacia financeira apenas, sem controle político formal. À medida que a guerra se torna mais científica, torna-se mais cara, de modo que os principais financistas do mundo, se se combinassem, poderiam resolver a questão concedendo ou negando empréstimos. E por meio do tipo de pressão que se tem exercido sobre a Alemanha desde o Tratado de Versalhes, poderiam forçar o desarmamento virtual de qualquer grupo que aborrecessem. Desta forma aos poucos viriam a controlar todas as grandes forças armadas do mundo. Esta é a condição fundamental para as outras atividades que teriam de empreender."
henrique#3
"Além da revisão de tratados e intervenção nas querelas, há três assuntos que teriam de ser resolvidos pela autoridade central: (1) a distribuição de território pelos diferentes Estados nacionais, (2) movimentos de população através das fronteiras desses Estados, e (3) racionamento das matérias-primas entre os diferentes interessados. Cada um destes exige algumas palavras.

(1) As questões de soberania territorial são presentemente tratadas com a absurda solenidade derivada da antiga obediência pessoal ao monarca. Se um habitante de um Estado manifesta a opinião de que a zona em que vive deveria pertencer a outro Estado é réu de traição, e suscetível de severo castigo. E no entanto, em si, sua opinião é tópico tão legítimo de debate político quanto qualquer outra. (...) A autoridade central terá de evitar que os governos nacionais ajam na base de tais preconceitos, e tratará os reajustes territoriais racionalmente, isto é, na base principal dos desejos da população local, mas também das considerações econômicas e culturais.

(2) Os movimentos de população tendem a criar problemas cada vez mais difíceis à medida que os anos passam. É natural o fluxo de populações dos lugares onde os salários são baixo para onde são altos. (...) Também, se a guerra em grande escala for eliminada e a saúde imensamente melhorada pela medicina e a higiene, tornar-se-á essencial à conservação da paz e do bem-estar que as nações atrasadas limitem o seu crescimento populacional, como já o fazem as mais civilizadas. Aqueles que em princípio se opõem ao controle da natalidade ou são negações em artimética ou a favor da guerra, peste, fome, como características permanentes da vida humana. Pode-se supor que a autoridade internacional insistiá em ter liberdade de limitar a natalidade entre as classes atrasadas e não, como fazem agora os governos, insistir para que apenas os inteligentes tenham pequenas famílias."
henrique#4
(3) A última questão, o racionamento de matérias-primas, é talvez a mais importante de todas. É muito provável que as guerras se travem por causa das matérias-primas; é notório o papel preponderante desempenhado pelo petróleo, o carvão e o ferro. (...) Creio que o problema de organizar o mundo como uma só unidade econômica e polítca terá de ser resolvido antes de ser impossível encarar com sucesso as questões de justiça. Sou socialista internacional, porém espero o internacionalismo realizado antes do socialismo."

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Ainda sobre o globalismo em Russell, indico este sítio com excertos dos seus livros:

http://users.cyberone.com.au/myers/russell2.html

"I do not see any alternative to the proposal which is before the world of making the United Nations the repository. I do not think that there is very much hope in that, because the United Nations, at any rate at present, are not a strong military body, capable of waging war against a great power; and whoever is ultimately to be the possessor of the atomic bomb will have to be strong enough to fight a great power. "

"A World Authority, if it is to fulfil its function, must have a legislature and an executive and irresistible military power."

"All nations would have to agree to reduce national armed forces to the level necessary for internal police action. No nation should be allowed to retain nuclear weapons or any other means of wholesale destruction. The World Authority should have power to recruit in every country and to manufacture such weapons as might be deemed essential. In a world where separate nations were disarmed ... each fairly large unit should be of mixed nationality. There should not be European contingents or Asian contingents or African contingents or Ameriean contingents, but there should be everywere, as far as possible, a balanced mixture . ... There would, of course, have to be a right of inspection by the World Government ..
henrique#5
Por tratar-se de uma figura influente, membro da elite inglesa e neto de um primeiro-ministro, e pela proeminência internacional que granjeou depois da outorga do Nobel, presumo não tresvairarmos em reputar Russell um dos mentores intelectuais da Nova Ordem Mundial. Escreverei até ao Olavo sugerindo que dedique algumas linhas ao assunto, como as dedicou a Wells e Toynbee, uma vez que ainda está por avaliar de fato a incidência dessas idéias nos planos globalistas.
leandro_6#6
Impressonante! òtimo tópico.

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