A experiência pessoal da maioria de nós com Nietzsche geralmente se dá na adolescência por volta dos 16 ou 17 anos ou ainda mais cedo.
É uma fase de profunda ignorância ante os principais aspectos da filosofia e uma absoluta falta de status quaestionis ante os principais problemas que diagnosticamos e queremos investigar como forma de dar sentido a uma anamnesis inquieta e que nem sequer sabemos conceituar.
Ajudada por uma péssima educação que adquirimos nas nossas escolas de onde saímos sem saber construir um silogismo de primeira figura, a leitura de Nietzsche nos concede o conforto psicológico de posar de rebelde e iconoclasta ante valores milenares que nem sequer havíamos começado a compreender.
O marxismo surge neste contexto com o mesmo efeito, talvez até mais devastador. Afinal, aprendemos que “interpretar o mundo” é coisa para múmias filosóficas, o grande barato mesmo é transformá-lo, modifica-lo, nada mais adequado para casar com nosso senso prático e nossa presunção adolescente.
Este é o perfil, acredito, de muitas de nossas histórias pessoais.
Ao passar a estudar as fontes de quase toda totalidade de conhecimento presente no Ocidente, nos deparamos com a expansão de nosso quadro de idéias e de nosso universo conceitual. Começamos a questionar um certo saber adquirido e imediato (como se três séculos fossem a história da humanidade) e passamos a dialogar com uma universalidade mais autêntica.
Olavo já afirmou que enquanto todos seus colegas de geração liam Nietzsche aos 17 anos, ele se recusou a lê-lo até os quarenta. Preferindo a meditação diária de textos de Platão e Aristóteles.
Sabemos das críticas que o Olavo faz ao pensamento nietzschiano, criticas estas sem dúvida bastante razoáveis como a de que Nietzsche jamais alcançou o mínimo de consciência e reflexão sobre discursos apodícticos que se exigem de um filósofo.Ficando este no meio do caminho entre poesia e logos analítico.
Porém, gostaria de repensar esta relação entre Olavo e Nietsche, principalmente a partir da reconstrução do Órganon aristotélico promovida pelo Olavo de Carvalho. Gostaria de chamar a atenção para o poeta e, sobretudo, grande retórico que Nietzsche foi e que tanto tem para nos ensinar nesta área da filosofia.
Note-se bem!!! Eu mesmo já critiquei Nietzsche aqui na comunidade. Mas acho que por meio dele podemos estudar os discursos poéticos e retóricos que, sem dúvida alguma, são uma preparação para vida filosófica.
Além do discurso poético dos mitos gregos em contraposição ao logos, e da poesia de Homero (absolutamente interessantes em si mesmo e tão valorizados por Nietzsche!!!) em virtude do cristianismo que surge posteriormente no cenário histórico e não sem uma complementação dialética com o platonismo e o aristotelismo, (algo que vai se evidenciando com Santo Agostinho e São Tomás de Aquino), estudo diariamente Dante com a Divina Comédia e estou me interessando pela retórica romana, Cícero, por exemplo. Penso que os discursos de Zaratustra de Nietzsche (e seus aforismos em outras obras que posso ir citando aos poucos),podem ser extremamente úteis para a técnica e o estudo da teoria doa 4 discursos e conseqüente base para resolução de inúmeros problemas filosóficos.
Isso mexe, com certeza, com um certo valor subjetivo do filósofo Olavo de Carvalho que nem sequer considera Nietzsche como um filólogo que interpreta interpretações de uma civilização textualizada. Isto é, o conceito de civilização coisificado e transformado em texto, portanto, discurso.
Acho que seria interessante repensar Nietzsche e Olavo de Carvalho à luz dos estudos poéticos e retóricos.
Nietzsche merece ser discutido, estudado e analisado. Sua vida, sua obra, seu zeitgeist e a sífilis terciária que lhe garantiu verdadeiros rasgos de genialidade. Sem esquecer de sua imensa flexibilidade aos interesses que garantem sua suposta atualidade.
“Nietzsche merece ser discutido, estudado e analisado. Sua vida, sua obra, seu zeitgeist e a sífilis terciária que lhe garantiu verdadeiros rasgos de genialidade. Sem esquecer de sua imensa flexibilidade aos interesses que garantem sua suposta atualidade”.
MINHA RESPOSTA: Sem dúvida, Nietzsche é a personificação viva da esquizofrenia da cultura contemporânea. Uma esquizofrenia fragmentada, cujo radicalismo e iconoclastia é um dos principais pressupostos da estrutura de valores da modernidade.
“penso que as vezes Olavo desmerece demais Nietsche’”
MINHA RESPOSTA: Eu também penso nisso as vezes. Se o Olavo por acaso não gostar da crítica radical que Nietzsche faz do cristianismo, ele deveria se lembrar que criticas ainda mais radicais ao cristianismo são bem anteriores a Nietzsche e partiram do próprio judaísmo, ou tiveram forte impacto já no século XX no islamismo com Guénon.
Se o Olavo não gosta da idéia da “morte de Deus”, ele deve reconhecer que isto é um fato na modernidade. E que “morte de Deus”, não significa, necessariamente, ateísmo. Pode ser também uma crítica ao processo de secularização do mundo que é uma tendência crescente da cultura e da sociedade humana contemporânea.
Se o Olavo tem críticas à idéia do Super-Homem, poderia ao menos perceber que esta idéia aponta para um supra-humanismo radical, e que o Super-Homem pode ser um homem místico ou religioso.
O Olavo não deveria esquecer da crítica radical e profunda que Nietzsche faz ao Estado. Crítica esta que nos concede alternativas ao Espírito Absoluto Hegeliano.
E como explicar o profundo interesse pela obra de Nietzsche por um dos maiores filósofos do mundo em vários séculos: Mário Ferreira dos Santos, que além de tradutor de sua obra parece ter realizado o impossível em seu sistema filosófico e utilizou a dialética nietzschiana em sua Decadialética e em sua síntese superior.
No entanto, volto a questão da teoria dos quatro discursos e aos estudos poéticos e retóricos.
Infelizmente não conheço nem ainda realizei estudos metódicos sobre os discursos. Agradeceria se me fornecesse uma recomendação.
Eu gosto muito do Nietzsche, embora esteja achando agora, lendo Aurora (leio nietzsche desde os 14), a cr´tica ao cristianismo um pouco infantil. Tudo bem que o livro, Aurora, foi escrito numa época destrutivista dele.
Gosto mesmo do Nietzsche de Gaia Ciência, Além de BEm e Mal, Genealogia da Moral.
Resposta:É que penso que não devemos exigir da obra e do pensamento de Nietzsche e sobre tudo da sua personalidade o que exigimos de muitos filosófos antigos. Nietzsche é produto e ao mesmo tempo é causa de uma época fragmentada, ele mesmo é esta fragmentação. É o homem bomba da filosofia.
"Pode parecer absurdo: mas vejo muita correlação entre Prof. olavo e Nietzsche".
Resposta: Também acho, por isso abri este tópico.Podemos fazer uma interpretação nietzschiana de Olavo de Carvalho e vise-versa.
'Sobre os discursos.
"Infelizmente não conheço nem ainda realizei estudos metódicos sobre os discursos. Agradeceria se me fornecesse uma recomendação".
Resposta: Entre para minha comunidade que a gente pode debater bastante este tema e eu poderei lhe fazer algumas recomendações.
Não tenho grandes comentários a fazer, mas, como pelo menos eu li o que Alvaro escreveu, vou dizer algo.
Concordo, sim, com a idéia de ler Nietzsche como poeta e retórico. Seu valor neste campo é inegável, posto que seu campo mais forte de influência talvez tenha sido na literatura.
Mas também pode-se discutí-lo como filosofia. Não vejo problemas quanto a isso.
O único problema, e tenho certeza que Álvaro e Olavo concordam, é ler Nietzsche sem a cultura prévia para compreendê-lo. Meus amigos adoram as críticas de Nietzsche a Paulo, mas não leram nada da Bíblia; um absurdo, evidentemente.
Uma regra básica da educação é ler primeiro quem escreveu primeiro. Portanto, primeira os gregos, depois a Bíblia. Depois, ler Nietzsche, suponho, é uma ótima maneira de digerir esta base.
Disse "suponho", porque ainda estou entre os gregos e a Bíblia.
Não há como negar de que este alemão foi um gigante da filosofia. Mas reconheço de que ele tinha mania de grandeza e não concordo muito com a sua visão essencialmente materialista de mundo...
Essa visão materialista do mundo por parte de Nietzsche que você observou, para mim é mais um indicativo do caráter retórico de seus aforismos do que um verdadeiro mergulho na tradição oriental por parte do pensador alemão.
Já a dialética nietzschiana de certa forma é acometida pelos mesmos disfarces pedantes da dialética marxista e hegeliana: possui evidentes e explícitas origens místicas, o que não tem sido apontado pela crítica filosófica oficial, para não lhes retirar a suprema áurea da superioridade apodíctica científica, verdadeiro paradigma auto-ilusório da modernidade.
No demais, Hegel, Marx e Nietzsche sempre fizeram questão de esconder suas influências místicas, não as revelando nem sobre tortura. O tema virou tabu.
Esta é (entre inúmeras outras) uma das grandes importâncias da reinterpretação por parte de Olavo de Carvalho do Órganon Aristotélico e da unidade geral da filosofia de Aristóteles: buscar um tipo de discurso anterior à retórica e que seja ao mesmo tempo um fundamento e pré-requisito para esta e que esteja mais próxima da realidade essencial do ser: a poesia.
Se “ ... Nietzsche é a personificação viva da esquizofrenia da cultura contemporânea. Uma esquizofrenia fragmentada, cujo radicalismo e iconoclastia é um dos principais pressupostos da estrutura de valores da modernidade.
é coisa que eu não tenho as credenciais para afirmar, mas com que tendo a concordar; que há elementos visíveis, quase palpáveis da síndrome do estresse pós-traumático, e acumulado para agravar a situação, também é certo.
Agora, ler Nietzsche aos 17 anos? Nesse caso, ao redor dos 10 anos deveria já estar lendo Aurelius Augustinus de Hippo e aos 14, o Aquinate. E este, repetidas vezes. Antes dos 16 anos, a Crítica e a Religião de Kant seria leitura indispensável para aos 17 ler Acima do Bem e do Mal, o produto acabado da obra anti-tomista de Kant. Sugiro que se leia Assim Falou Zaratustra como obra de ficção messiânica; ambos podem ser encontrados em sites dos mais variados matizes ideológicos, desde que o ateísmo lhes seja intrínseco.
Um verdadeiro Jardim, nãos das Aflições, mas dos Horrores.
Ainda vai nos conduzir ao Paraíso e ao ao "Amor que move o Sol a as altas estrelas"
Imagem do pimeiro motor, causa incausada e pensamento que pensa a si mesmo.
Concordo com a leitura do Zaratustra como ficção messiânica.
É justamente assim que eu leio esta obra.
Com uma interpetação particular: O Super-Homem é um homem místico, religioso, inclusive.
Mas penso que a primeira educação humana deveria ser poética e se dar pela arte, pelos símbolos, pelas metáforas, pela mágica, pelos mitos, epopéias, alegorias etc...
A Filosofia viria mais tarde e seria basicamente: Sócrates, Platão e Aristóteles.
E é claro que o logos filosófico nasce como um ruptura da consciência mítica.
A Teoria dos quatro discursos do Olavo de Carvalho faz uma esplêndida unificação desses saberes que passam a confingurar como um espírito único, são como dois andares de um mesmo edifício no qual cabem ainda entre eles a dialética e a retórica.
Uma unificação tardia na cultura ocidental e valiosíssima, ainda mais quando já se começava a falar numa distinção anatômica e natural do cérebro humano em relação a esses conhecimentos.
Concordo com a segunda parte do seu post no que diz respeito à educação dos pequenos. Muita poesia e muitos mitos também. Sem subestimar o valor das metáforas e outras figuras de linguagem, que favorecem o pensamento abstrato.
amadurecendo minhas idéias sobre o perigoso Nietzsche, concluo, atualmente, que o bigodudo preparou o caminho para o reeguimento dos mitos. uma nova educação, um novo objetivo, uma nova meta, a ultrapassagem do homem moderno.
não entendo o übermensch como uma herança do pensamento joaquinista, até pq, NIetzsche afirma: "o homem é uma ponte, não um fim". É o eterno retorno.
O que percebo, por vezes, é que o prof. Olavo parece não observar esses preceitos do mestre (para mim) alemão. MEsmo a crítica cristã, podemos colocá-la como datada e portanto o que prevalece no nosso tempo é a crítica a modernidade, ao niilismo, coisa que Nietzsche percebeu muito antes que seus contemporâneos...