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A teoria da evolução e o jornalismo brasileiro

Iniciado por rafael_2 em 03/07/2008 · 6 mensagens

rafael_2#1
Poucas vezes a imprensa terá dado uma prova tão cabal de que toda a informação veiculada hoje no Brasil é pura militância política, nada mais. Não há mais uma única reportagem sobre ciência onde o viés anti-religioso do articulista da matéria não se manifeste. A militância político-ideológica pode se camuflar sob a roupagem de uma “imparcial” reportagem sobre alguma teoria científica.

Como no Brasil o público é geralmente desinformado a respeito de qualquer discussão importante, desconhecendo quase tudo, senão tudo, a respeito daquilo que se discute, qualquer afirmação lançada num jornal ganha ares de verdade.

O exemplo abaixo reproduzido foi colhido no jornal O Globo do dia 1º de julho. O jornal vinha fazendo matérias sobre os 150 anos da teoria da evolução e neste dia não poupou esforços para apresentar a religião como uma superstição infundada, que só resiste ainda no mundo por causa da irracionalidade e ignorância.

Os métodos são bem conhecidos:

1. apresentar a evolução como algo plenamente provado, não podendo assim ser refutada racionalmente; 2. não publicar qualquer matéria científica que coloque a teoria da evolução em dificuldades; 3. citar apenas e tão somente cientistas favoráveis à teoria, dando a impressão ao público de que a verdade do afirmado é um “consenso” (palavra que nada diz sobre a verdade ou falsidade de uma idéia, mas que no Brasil é o supra-sumo da prova); 4. apresentar qualquer objeção à idéia apresentada como prova de ignorância; 5. por fim, preencher todo o texto com as idéias pessoais do jornalista, método adequado a um editorial, mas não ao tipo de reportagem em questão.

Eis a fórmula do jornalismo brasileiro.
rafael_2#2
DEUS SAI DE CENA Fundamentalistas ainda resistem à Evolução, que há 150 anos separou fé e ciência(1)

Roberta Jansen

Quando a Teoria da Evolução foi apresentada há exatos 150 anos ela não só ofereceu uma explicação científica comprovável para a evolução humana. Ela também baniu o sobrenatural das ciências naturais, reduzindo, consideravelmente, o poder das religiões nos assuntos terrenos. Na análise de especialistas, essa é a principal explicação para o fato de a evolução ser uma das únicas teorias científicas questionadas até hoje por uma parcela pequena, mas significativa da população, formada basicamente por fundamentalistas cristãos e muçulmanos. Cientistas acreditam, no entanto, que o criacionismo tende a arrefecer.
Não há questionamentos, por exemplo, sobre as teorias da relatividade, do Big Bang ou da mecânica quântica. Mas a idéia de Charles Darwin de que o homem é diretamente ligado aos outros animais e descende de um ancestral comum ao dos macacos é freqüentemente rejeitada, seja na forma do criacionismo mais tradicional ou do seu primo pseudocientífico mais recente, o design inteligente. Como afirmou o professor de genética Steve Jones, da University College, de Londres, ao jornal “The Guardian”:
rafael_2#3
“Quando eu pergunto (a alunos que questionam Darwin) se eles acreditam nas leis da hereditariedade de Mendel, eles respondem que sim, claro. E na existência do DNA? De novo, sim. E nas mutações genéticas? Sim. Na disseminação da resistência a inseticidas? Sim. Na divergência de populações isoladas em ilhas? Sim. E vocês aceitam que 98% do DNA de humanos e chimpanzés é comum? Sim. Então, o que há de errado com a seleção natural? É uma mentira, eles respondem. É simplesmente incrível”.

- Até o século XIX, a teologia oferecia respostas para fenômenos naturais válidas até mesma para a comunidade científica – resume a bióloga Maria Isabel Landim, da USP, uma das curadoras da exposição de Darwin no Brasil. – Quando à Teoria da Evolução bane de vez a necessidade do sobrenatural para explicar o mundo natural, de fato ocorre uma perda muito grande por parte das religiões e acho que esse é o medo.
Além disso, continua a especialista, a questão se estende para o campo da moral.

– Uma das idéias das religiões é ser o bastião da moral e dos bons costumes – resume a bióloga. – E quando a Teoria da Evolução mostra que a moral é também um resultado de leis naturais, que para viver em sociedade precisamos ter certas regras, isso representa uma ameaça muito grande ao poder das religiões. O criacionismo mais tradicional sempre questionou a Teoria da Evolução, mas ao se travestir de design inteligente a partir da década de 90, tornou-se ainda mais pernicioso por se definir como uma tese científica de peso equivalente à de Darwin e tentar refutar o evolucionismo.
rafael_2#4
- Sempre existiram pessoas insatisfeitas com a visão fornecida pela evolução, mas nos últimos 20 anos os movimentos criacionistas ganharam um vulto maior – afirma o biólogo Cristiano Moreira, também curador da exposição de Darwin no Brasil. – O que antigamente era apenas um argumento filosófico, hoje é um argumento mascarado de científico. E o que é pior: que tenta estender essa influência a áreas da ciência, sobretudo no ensino.

Para se equiparar à Teoria da Evolução, o design inteligente (que defende a idéia de que Deus seria o grande projetista do Universo) usa como um de seus principais argumentos a idéia falaciosa que o evolucionismo “é apenas mais uma teoria”. Ocorre que teoria, no linguajar científico, tem um significado daquele do uso cotidiano: é aquela que passou por todos os testes possíveis e foi corroborada. * (V. Nota no fim)

- Fato, em ciência, é aquilo que observamos, como a chuva, o pulo de um peixe – explica Moreira. – Em cima dos fatos, desenvolveremos hipóteses sobre porque choveu ou porque o animal pulou. A partir dessas hipótese, elaboramos testes para corroborar e também para refutar as idéias. Vale ressaltar que o que, em tese não pode ser refutado não pode ser uma questão cientifica. É por isso que Deus não pode ser colocado em teste cientificamente (tampouco o design inteligente).
rafael_2#5
MOVIMENTO TENDE A PERDER FORÇA
Uma vez que a hipótese tenha passado por todos os testes e tenha sido corroborada, ela ganha o status de uma teoria. – Uma teoria científica é algo muito forte – resume Moreira. – No caso da Teoria da Evolução, ela foi corroborada de todas as formas possíveis, nas áreas de descendência, correlação de organismos, genética, morfologia molecular, fisiologia, comportamento, mecanismos que promoveram a diversificação, enfim, por todos os campos que poderiam dar informações sobre a evolução.
Mas os especialistas são otimistas ao defenderem a idéia de que o movimento do design inteligente deve desaparecer em pouco tempo. Para Moreira, ele está geograficamente concentrado nos EUA (embora tenha ameaçado se disseminar no Brasil) e, historicamente, relacionado a uma ascensão dos conservadores ao poder naquele país. Nas palavras de Richard Dawkins, um dos maiores evolucionistas contemporâneos: “Esses indivíduos não são apenas tolos, são colossalmente, incrivelmente, ignorantes. Tenho certeza que o bom senso prevalecerá.

Nota:
A afirmação leva o leitor a crer que a corroboração de uma teoria científica equivale à sua confirmação. Porém, “corroborar” tem em metodologia científica outro sentido. Corroborar uma teoria não significa nem jamais significou que a teoria está “comprovada”, mas sim que está reforçada. Uma teoria pode ser corroborada incontáveis vezes até que finalmente surja um dado que mostre sua falsidade. A corroboração, em suma, não garante a verdade.
rafael_2#6
Não vejo como a evolução possa explicar satisfatoriamente os fatos morais. Isso seria dar uma elasticidade excessiva à teoria, para abarcar aspectos da realidade que ela não pode explicar. A moral é algo que tem uma natureza instrumental, para que se alcance algo que lhe é superior: a ética. Mário Ferreira dos Santos chamava a atenção para isto.

A ética estuda o dever-ser humano, algo que nem natureza transcendente, e a biologia não lida com a transcendência.

A biologia apenas não pode explicar porque o homem pode, ao contrário dos outros animais, voltar-se para dentro de si mesmo, como magistralmente descreveu Ortega Y Gasset. Somente o homem pode sufocar os próprios instintos, ao contrário dos outros seres, que nada mais têm a fazer além de dizer sim àqueles. Portanto, logo de cara existe algo na natureza humana que ultrapassa o biológico.

Se Richard Dawkins se desse o trabalho de pensar, perceberia que a sua afirmação de que o homem é um escravo de seus genes é insustentável: se o fosse, não poderia jamais escolher mudar. Curiosamente, o próprio Dawkins diz no "gene egoísta" que o homem deve aprender a não seguir sua natureza biológica. Se não fosse tão burro, perceberia que se esta proposta é viável, é porque há aspectos na natureza humana que são transcendentes ao biológico, do contrário o homem jamais mudaria. Se a simples escolha do homem passa por cima dos genes, então é porque há algo no homem que é superior à biologia. O homem pode escolher o que quer ser, logo não está acorrentado a determinismos genéticos. Os biólogos querem explicar certos fenômenos, como por exemplo o surgimento da consciência e da moral, como resultados do desenvolvimento peculiar do cérebro humano. Mas o problema permanece: a consciência não tem substrato orgânico, pois é também de natureza transcendente (sobre a origem transcendente da consciência, leiam "A presença ignorada de Deus, de Viktor Frankl).

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