Para os que acham que a gente vê comunista infiltrado em cada canto:
"Peço que rezem por mim", diz Ancelmo Góis sobre TV
Com 45 anos de carreira, Ancelmo Góis já construiu uma história no jornalismo impresso. Sergipano de Frei Paulo, começou na Gazeta de Sergipe. Fez uma pausa enquanto estudou na antiga União Soviética, como filiado do PCB e, desde 1971, atua em importantes jornais e revistas do País. Só agora resolveu se arriscar no comando de um programa na TV. "Peço que rezem por mim", brinca ele.
Na TV Brasil, o jornalista apresenta o De lá pra cá toda segunda, às 22h, ao lado de Vera Barroso. A partir de um fato, lugar ou personagem da história do Brasil, Ancelmo Góis conversa com diferentes convidados para relembrar o passado e ver de que maneira ele intefere nos dias de hoje.
Mesmo com experiência como comentarista político na TV, o jornalista não esconde a aflição com o novo projeto. Tem de conciliar as gravações com a coluna que assina diariamente no jornal O Globo, mas diz que tudo isso é o que o mantém vivo, já que o segredo da vida é gostar do que se faz.
"O friozinho na barriga é fundamental. Quem fica parado é poste e o dia em que eu achar que já sei ou fiz tudo, estarei perdido", resume.
"Figuraça" é, em 99% dos casos, o termo usado por um canalha para definir outro, demonstrando identificação, simpatia e admiração. "Figuraça" quer dizer "canalhaço" num "bom sentido": sim o conceito orango de "canalha" evidentemente inclui esse "bom-sentido", por mais absurdo que isto seja.
Eu ainda faço um dicionário de oranguês para ajudar os humanos a entender o que é que eles querem dizer. Tenho prática disso! 😄! "Figuraça" estaria lá, é claro, com seu significado correto para nosso entendimento: "figuraça",s.f. - cretino imoral considerado "o máximo" pelos imbecis.
Seu Jorge, o cantor nascido e criado em Belford Roxo, cidade da Baixada Fluminense que já teve fama de mais violenta do mundo, foi assaltado dias atrás ao lado de casa, no... Pacaembu, em São Paulo, onde vive agora.
Segue...
O cantor, de 40 anos, chateado, diz que vai trocar São Paulo por Los Angeles.
Os bandidos não o reconheceram e ainda perguntaram o que ele fazia. Seu Jorge disse que era o flanelinha da rua.
Ancelmo — Aconteceu um fato inusitado. Apareceu uma outra chance que eu agarrei com muita força. Foi o seguinte: como eu já militava no Partido Comunista Brasileiro e no movimento estudantil, no período da prisão eu fortaleci as minhas convicções socialistas. A ponto de na minha saída da prisão, o partido de maneira irresponsável, mas que para mim foi a glória, me ofereceu para estudar na antiga União Soviética.
ABI Online — O que aconteceu em seguida?
Ancelmo — Aconteceu que eu ainda bem jovem, com 20 anos de idade, fui embarcado para a União Soviética. Eu nunca tinha entrado num avião na minha vida, e de repente estava voando clandestinamente para a Rússia.
ABI Online — Como era sua vida na Rússia?
Ancelmo — Eu vivi por algum tempo com o nome falso de Ivan Nogueira. Porque estávamos na ditadura militar e a gente só conseguia ir para a Rússia, protegido pela KGB. Foi este órgão que me deu uma identidade falsa, com retrato, e me transformou numa outra pessoa. Em seguida, eu fui para uma escola comunista para jovens, a Escola de Formação de Jovens Quadros, Konsomol, do Partido Comunista da União Soviética, onde eu estudei sobre o marxismo e o leninismo.
ABI Online — Como foi que você se virou com a língua, já que não falava o idioma russo?
Ancelmo — As aulas eram traduzidas, mas a língua a gente aprende rápido por uma razão muito simples. Você pega um sergipano, que saiu da caatinga e joga lá na União Soviética. Em dez dias ele tem que aprender o que é sal, porque aquela comida é uma merda e insossa. E se você quiser comer batata e não sabe como pronunciar em russo, depois de três dias você aprende pela extrema dificuldade. Senão como é que você vai comer ou andar de metrô, entre outras coisas?
Ancelmo — Era uma escola internacional, onde me deram a chance de conviver com cinco suecos, dois argentinos, quatro irlandeses, dez chilenos, entre outros povos. Imagina o que era morar em um lugar com pessoas de várias partes do mundo. Eu tinha como vizinhos de quarto dois italianos, com os quais eu conversava muito, e também com finlandeses. Foi uma experiência muito rica.
ABI Online — Quando foi que você voltou ao Brasil?
Ancelmo — Em 1970, eu voltei para o Brasil e vim para o Rio de Janeiro. Eu entrei no País pela Argentina, e a KGB inventou que eu estava na França. Toda a minha documentação sobre dia e horário da minha entrada naquele país foi falsificada, o que fazia parecer que eu tinha morado na França e não na União Soviética.
ABI Online — Assim que chegou você foi logo procurar emprego na imprensa?
Ancelmo — Não. O meu sonho era me dedicar 24 horas por dia à causa do Partido Comunista. Eu não voltei pensando no jornalismo. Eu estava definitivamente apaixonado pela política, que tinha sido a minha opção entre os anos de 68 e 70. Eu vim para o Rio e queria apenas ser profissional do PCB. Mas nesse período houve muitas perseguições, mortes, e de repente, o partido que me dava um salário ficou sem dinheiro e eu morando de favor, na casa do jornalista Luiz Paulo Machado, a quem eu devo muito, e que foi meu colega na Konsomol.