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Olavo ou Wikipédia: um dos dois errou!

Iniciado por rico em 18/09/2008 · 10 mensagens

rico#1
Estou lendo de novo o Jardim das Aflições, não tem como cansar! Hoje resolvi dar uma olhada sobre o que lá diz o Olavo sobre a Inquisição, e dou-me conta de uma coisa inquietante. Sobre a presença de diversos filósofos no Index Librorum Prohibitorum, o prof. Olavo diz, desmentindo um mito:

"A Inquisição atrasou o desenvolvimento científico, proibindo a circulação dos livros que traziam novas descobertas. Basta examinar o Index Librorum Prohibitorum para verificar que nele NÃO CONSTA nenhuma das obras de Copérnico, Kepler, Newton, Descartes, Galileu, Bacon, Harvey e tutti quanti. A Inquisição examinava apenas livros de interesse teológico direto, que nada poderiam acrescentar ao desenvolvimento da ciência moderna." (p.30)

Já a Wikipédia diz:

"A number of authors and intellectuals whose works are widely read today in most leading universities and are now considered as the foundations of science WERE LISTED ON THE INDEX, e.g. Kepler's New Astronomy, his Epitome of Copernican Astronomy, and his World Harmony were quickly placed on the Index after their publication.[23] Other examples of noteworthy intellectuals and religious figures on the Index include Jean Paul Sartre, Voltaire, Jean-Jacques Rousseau, David Hume, Rene Descartes, Francis Bacon, John Milton, John Locke, Galileo Galilei, Blaise Pascal and Saint Faustina Kowalska."
(http://en.wikipedia.org/wiki/Index_Librorum_Prohibit…_and_authors)

Alguém bate o martelo aí?
rafael_33#2
mas não podemos falar que a igreja impediu o avanço intelectual ao proibir tais livros , afinal o tomismo e mais verdadiro que todas as filosofias modernas juntas ; o que houve na modernidade foi um retrocesso da razão e não um avanço como querem os ideólogos da modernidade !
albertoleopoldo#3
Não dou resposta segura, mas parece-me que de livros de interesse propriamente científico o único que foi efetivamente tirado de circulação por recomendação eclesial (não propriamente banido) foi o De revolutionibus de Copérnico, precisamente durante o processo de Galileu, durante creio que quatro anos, para ser revisto. Após a dita revisão, foi novamente liberado com modificações irrisórias (e cientificamente irrelevantes). No entanto, o sistema copernicano jamais deixou de ser ensinado, principalmente pelos jesuítas, em todo o mundo.

E parece ter sido mesmo caso isolado. Arthur Koestler, por exemplo, em The Sleepwalkers, afirma que mesmo no auge das confrontações entre católicos e protestantes, os cientistas protestantes circulavam livremente no mundo católico como uma espécie de "vacas sagradas", imperturbáveis, cercados de privilégios e proteção.

Vale lembrar também que Kepler, protestante, foi grande protegido dos jesuítas. Também é célebre a sua colaboração com Tycho Brahe sob a proteção do imperador do Sacro Império Romano, e que após a morte de Tycho, tomou seu posto de matemático imperial. Não parece que tenha sofrido qualquer perseguição ou proibição editorial.

Quanto a Descartes, no próprio Discurso do Método ele comenta que um dos motivos de ter-se esquivado de publicar seu tratado de Física foi o temor de que lhe sucedesse o mesmo que a Galileu (embora as demais razões oferecidas pareçam muito mais eloqüentes), mas não consta que tenha sido de fato condenado, ou tido suas obras listadas no Index.

Sartre, Voltaire, Rousseau e Hume nem é preciso demorar-se muito para justificar sua inclusão no Index, se é que tenha ocorrido. O restante eu não sei. De toda maneira, parece que muitas vezes a justificativa era apenas o exame, após o qual a obra voltava a circular.
albertoleopoldo#4
E a contribuição dos homens da Igreja para o saber científico nem de longe limita-se ao tomismo (por magistral que seja em si).

Sem falar da criação mesma das universidades e da grande contribuição dos mosteiros na educação e em matéria de inovações tecnológicas, os próprios fundamentos da ciência empírica e a descoberta das leis da evidência foram em grande medida obra de frades franciscanos como Roger Bacon, sacerdotes como João Buridan e dos bispos Nicolau de Oresme e Alberto de Saxônia, sendo que estes últimos três foram os criadores da Dinâmica e antecessores diretos de Newton (mesmo com quatro séculos de precedência). Isso para não mencionar as colaborações nas ciências particulares (algumas das quais, como a geologia e a economia, criações de clérigos católicos).
albertoleopoldo#5
O problema do pensamento moderno não está propriamente no desenvolvimento científico (que corresponde de perto à expansão da idéia de scientia media dos escolásticos), mas principalmente na confusão conceitual na área do pensamento filosófico. Os modernos se enroscam todos com o conceito de substância, confundem o quod e o quo (objeto e meios do conhecimento), buscam deduzir logicamente um sistema da realidade descurando da investigação dialética, e nem à lógica (com raríssimas exceções, até meados do séc. XIX) dão a devida atenção. Daí a barafunda que é a filosofia moderna e a ênfase exagerada no conhecimento científico (que descamba em cientificismo) como aquele tipo de conhecimento que escapa às aparentemente eternas desavenças entre os filósofos.
albertoleopoldo#6
Ou pelo menos é como eu consigo enxergar a questão...
marcos_14#7
Na "esquerdopédia" é mais fácil acreditar no que está escrito lá invertendo as afirmações antes de entender o que está escrito lá.

Favor, dêem uma olhada neste artigo:
http://www.conservapedia.com/Examples_of_Bias_in_Wikipedia
albertoleopoldo#8
"Convenhamos, as Meditationes de prima philosophia não se constituem um trabalho científico, tal como o próprio Descartes o entendia [...]"

Também não há, segundo me consta, qualquer exposição da cosmologia copernicana de Descartes nessa obra. Creio que essa fonte esteja meio furada.
albertoleopoldo#9
O livro de Galileu é mais compreensível que tenha entrado no Index, já que foi justamente a causa da retirada de circulação do trabalho de Copérnico. Para ser mais preciso, foi o estopim de uma longa série de causas, iniciada com as suas declarações sobre como interpretar corretamente as Escrituras, e sua alegação de que, se uma *hipótese* científica ainda não comprovada não condiz com a interpretação corrente da Escritura, caberia aos exegetas o ônus da refutação da hipótese, e não ao cientista a a da sua comprovação, sob pena de tornar-se necessário revisar a interpretação corrente. O Papa (Urbano VIII), que era grande entusiasta da Ciência, admirador e amigo de Galileu, propunha, muito modestamente, o contrário: que a interpretação corrente da Escritura se mantivesse enquanto não fossem demonstradas como certas aquelas hipóteses científicas que levariam à sua revisão, e foi de forma muito pouco sutil ridicularizado no mesmo livro por Galileu (que já havia então comprado briga com metade de Roma, especialmente com os jesuítas, reclamando para si a prioridade de descobertas feitas por outros, insinuando mesmo que seria o detentor do monopólio do estudo dos céus, e chamando de néscios todos aqueles que não sustinham suas mesmas opiniões).

Mesmo assim, a publicação do livro foi liberada, desde que Galileu mantivesse tratar-se o sistema heliocêntrico de mera hipótese e não de resultado demonstrado. Galileu nominalmente concordou, mas acabou publicando a obra *sem* semelhante comentário. Cabe lembrar que a "prova decisiva" de Galileu do mocimento da Terra era falsa: relacionava-se às marés, que são na verdade causadas pelos movimentos da Lua. E que o sistema de Galileu não era o correto sistema kepleriano, que Galileu ignorava (apesar da insistência do próprio Kepler em comunicar-se com ele), mas o velho sistema de Copérnico, cheio de epiciclos e equantes.
albertoleopoldo#10
A história é narrada, por exemplo, no citado The Sleepwalkers, de Arthur Koestler. E é basicamente confirmada, dentre outros, por D. Estevão Bettencourt. Paul Feyerabend também realiza um estudo do caso em "Contra o Método", concluindo que o parecer da Inquisição (sob supervisão de S. Roberto Belarmino) sobre o caso Galileu é perfeitamente razoável (aliás, foi por citar essa conclusão de Feyerabend - sem propriamente apoiá-la - que o Papa Bento XVI acabou enfrentando o mar de fúria dos estudantes da (outrora pontifícia) universidade La Sapienza.

Eu sei que Olavo menciona a obra Galileu Herético, de Pietro Redondi (que eu não conheço), em que se defende a tese de que todo o processo de Galileu foi armado pelo Papa para salvar o homem de um processo inquisitorial por heresia, mas não sei sobre a corroboração de tal teoria por parte dos historiadores.

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