Muitos chamam Francisco Franco de fascista, e alguns outros chamam de conservador visto que deixou o governo nas mãos do rei, era católico devoto etc...
Tenho esta dúvida até hoje, que me dizem vocês daqui?
Como eu te disse, Don Matheus, duvido que o próprio Franco soubesse o que ele era, se revolucionário fascista ou conservador católico. Cada "face" da tríade revolucionária de Liberalismo, Socialismo e Fascismo (qualquer analogia com o lema da Revolução francesa não é mera coincidência) ataca a organização natural do Estado por um lado. O Liberalismo tenta dissolvê-la de fora, como um valor entre outros indiferentes. O Socialismo a combate de frente com toda a força (talvez seja a faceta mais propensa a perseguí-la com crueldade e método, mesmo que gramscianamente, mas sempre como um ataque desde fora). O Fascismo talvez seja o seu inimigo mais perigoso, porque, em vez de atacá-la "de fora", sendo-lhe indiferente ou combatendo-a frontalmente, consegue usurpar temas como cultura e às vezes até religião (ainda assim, de um ponto de vista cultural e como "cimento social"), que são, afinal, algumas das fontes da sua autoridade. Assim, é fácil, em algum momento, haver uma névoa de indefinição entre certos fascismos menos abertamente revolucionários (como o espanhol, em oposição ao alemão) e certos conservadorismos tentados pelo Anel.
E, aliás, mais uma coisa: se, por um lado, é materialmente impossível tomar efetivamente as rédeas da História e dirigi-la minuciosamente para um fim determinado, por outro, como se diz do Morgoth, "quem semeia mentiras no final não deixará de ter sua colheita; e em breve poderá descansar da labuta enquanto outros vão colher e semear em seu lugar". Em um país assolado nem digo ainda pela guerra civil, mas pela degradação de um debate público dominado por comunistas e fascistas, seria difícil mesmo para o conservador católico mais sincero e inteligente não sucumbir um pouco à desordem intelectual e política reinante. Ainda que o Franco fosse o maior dos filósofos e o mais hábil dos políticos, seria muito difícil que ele não se contaminasse, mesmo que involuntariamente, com a "cultura" revolucionária quase onipresente, "plantada" seja pelos comunistas, seja pelos fascistas e, de qualquer maneira, colhida e replantada pelo Franco. E ele não era esse gênio. E muito provavelmente não fosse mesmo bem certo. Diante de tudo isso, ele até que poderia ter se saído bem pior (mas também poderia ter se saído melhor). Enfim: ele é mesmo, uma incógnita. Muito embora eu, pessoalmente, tenha sérios problemas com alguns católicos que (nb, a frase que segue é restritiva, não explicativa) não seriam capazes de dizer "don't tempt me, Frodo!".
Leiam Franco : un balance histórico, de Pío Moa. No livro, esse historiador e jornalista espanhol, antigo militante da extrema-esquerda, mostra que Franco é bem diferente do monstro que alguns pintam.